quinta-feira, dezembro 30, 2004

Adeus 2004: Porque

Chega o fim do ano e acho que é suposto dele fazer o balanço e o resumo. Penso que texto repostaria como "o" do meu ano. Só me vem à cabeça este, que ainda há poucos dias revi aqui ao lado, no Amor e Ócio. Talvez também por isso, mas, de certeza, pelos dois significados que nele consigo ler e pela média que ele me parece indicar, logo a mim que não gosto nada de médias...

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia Andresen

Até para o ano!

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Movimento de Utentes da Saúde

À medida que a situação do país piora - e ela não não pára de piorar há mais de dez anos - as pessoas começam a agarrar-se só ao essencial.
Já poucos querem ouvir falar de défice, de convergência, de economia, de investimento. As grandes preocupações voltam a ser mais básicas: saúde e educação.
Em Coimbra nasceu um movimento de cidadãos preocupados com o estado da saúde em Portugal. Um Movimento que faz muito sentido numa época em que a Saúde passa a holding e a prometida Entidade Reguladora não parece ter vontade de arrancar. Podem visitá-lo aqui.
É a nação que ainda mexe. Ou, pelo menos, estrebucha...

Masoquismo

Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain,
I'll be on my knees to feed her,
spend a day to make her smile again
Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain
As the world is soft around her,
leaving me with nothing to disdain.

Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe and sound.
Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe from harm.

The sun sets on the war,
the day breaks and everything is new...

Contra a co-incineração... Matilde

Matilde Sousa Franco será a cabeça-de-lista do PS por Coimbra.

"A ela ninguém fará perguntas sobre a co-incineração!", poderá ter sussurrado Tó-Zé Seguro ao ouvido de Sócrates.

Para Setúbal fala-se já daquela simpática velhota portuguesa de 112 anos, a segunda mais velha do mundo.

Grande homenagem à sua candidata fez o líder do PS local, Victor Baptista, ao afirmar que "a escolha é um sinal de que o PS não esquece Sousa Franco".

terça-feira, dezembro 28, 2004

Partir e ficar é possível

As grandes viagens de carro têm em mim um duplo efeito. Gosto muito de viajar assim, de ver a paisagem, de parar onde e quando me apetece, de ir sem rumo. Mas deprime-me sempre um pouco pensar nos milhares de histórias que passam por mim na auto-estrada sem que eu dê por isso. Dentro dos carros e das auto-caravanas passam milhares de histórias de vida: discussões, paixões, gritos, beijos, solidões... de vidas que nunca conhecerei.

Às vezes acontece o contrário também. Às vezes, em estradas diferentes, em direcções divergentes, duas pessoas vão mais juntas que nunca. Apesar de irem em carros diferentes, de se estarem a afastar, levam-se uma à outra.

Anita dia 209 (cont)


A massa orgânica putrefacta que explodiu da barriga do homem e que me olhou bem nos olhos, está sossegadinha dentro de um frasco redondo de formol. À interpelação de ontem reagi com medo. Afastei-me e meti-me debaixo dos meus lençóis: duas placas de aço inoxidável. Espreitei para a sala e durante duas horas observei como se suspendia no meio da sala. Tinha a forma de um ramo de flores, a textura dos caules encostados uns aos outros e a cor da caraça de um canídeo surpreendido pelo rodado massivo de um autopullman em serviço para Santiago de Campo das estrelas: vermelho escuro, com linhas pretas da coagulação ao sol a envolver o branco dos tendões sujos do macadame que milhares de automóveis já pisaram. Rodava si mesmo lentamente como se me procurasse. Demorou-se e acabou por cair no chão, como no chão cai o esparguete.
Pelas nove da manhã uma pá de plástico segura por uma mão feminina raspou a massa seca do chão, verteu-a ainda liquida para dento de uma tina e dai para dentro de um frasco com o seguinte rótulo. "eflúvio magnético-orgânico nº 43 009".
Na sala dos frascos há milhares destes contentores transparentes. Filas que cruzo perpendicularmente sem nuca ver o fim. Aproximo-me de uma das tinas e a minha cara modela-se à forma do vidro. A cabeça decepada que inchada está assente pelo queixo no fundo do frasco redondo, abre olhos que aumentados como que por lupas, pestanejam descompassados as longas pestanas: bigodes de camarão pretos e esverdeados. Abre o direito, fecha o esquerdo. Fecha o esquerdo, abre o direito.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Aforismo

Não sou homem de uma mulher só.
Sou homem de uma mulher acompanhada.

PSD: Couve-flor deverá ser cabeça-de-lista por Coimbra

Garantido, para já, é que o número dois da lista laranja por Coimbra será ocupado por uma beringela, mas tudo parece indicar que será uma couve-flor a dar a cara pelo partido na cidade dos estudantes.

Depois de o artista anteriormente conhecido como Pequeno Saul ter recusado encabeçar a lista, alegando que tem "uma imagem a defender" e que considera "indigno que um partido apresente uma beringela na sua lista", o PSD ficou numa posição difícil no distrito.

Agora, com a couve-flor prestes a aceitar o desafio, o problema parece ultrapassado. "A Dra. Beringela é um legume honesto, trabalhador, e terei muito orgulho em contar com ela na minha lista!", afirmou a couve, em declarações exclusivas à Gabardina.

Este blog está também em condições de anunciar que, caso falhem as negociações com a florida couve, os laranjas convidarão Marcelo Nuno ou um dos administradores da Metro Mondego para o lugar. Estas personalidades demonstraram já disponibilidade para verem reduzidos os seus salários de gestores municipais, de forma a poderem ocupar o lugar de deputados da nação.

Em reacção a esta notícia, o PS local, pela voz daquele que era o preferido para encabeçar a súcia lista, afirmou: "Uma vez que o PSD apresentará uma couve-flor, nós apresentaremos um candidato à altura de lutar com os nossos rivais!" Parece ser assim claro que o candidato socialista por Coimbra será Ricardo Castanheira.

Crítica literária

No Cem Anos de Solidão as personagens têm todas o mesmo nome.
É assim uma espécie de Série Fonseca do Gato Fedorento, mas com menos piada.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

BOM NATAL!


 

Venha de lá esse amaço!

Recebo um mail de uma amiga que, a propósito da minha receita para um texto de Natal, defende o abraço em vez do texto, afirmando que "mil amaços (sic) valem por mil palavras..."

Depois do primeiro riso, vejo o lado poético da frase. De facto, uma amasso não é uma coisa muito bonita. Faz até lembrar a operação de Natal da GNR. Por isso acho que a nova palavra faz toda a falta na língua portuguesa. O amaço é o amasso entre duas pessoas que se amam.

Assim sendo, bons amaços neste Natal é o que desejo a todos os leitores da Gabardina!

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Receita rápida para uma mensagem de Natal/Fim de ano:

INGREDIENTES:

1 evocação do ano que agora finda
1 demonstração de espírito natalício
4 adjectivos simpáticos
2 elogios ao interlocutor
2 palavras de conforto
1 grande esperança no futuro
2 promessas para o ano que começa
1 abraço particularmente carinhoso


PREPARAÇÃO:

Corte a evocação do ano que agora finda em quatro pedaços, retire a parte cinzenta do miolo e os caroços.
Na batedeira, bata a evocação, a demonstração de espírito natalício, os adjectivos simpáticos e os elogios ao interlocutor.
Misture as palavras de conforto.
Junte tudo e misture bem.
Leve ao papel por aproximadamente 2 páginas ou ao écran por 1 e meia em folhas de papel pesado e com motivos natalícios ou em écran com uma imagem bonita em fundo.

Para finalizar, misture as promessas para o ano que começa e o abraço.
Junte o carinho que foi deixando ao longo do texto e junte-o no grande abraço final.
Meta num envelope ou faça send.

Hino para 2005

Muda de vida
Se tu não vives satisfeito
Muda de vida
Estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida
Não deves viver contrafeito
Muda de vida
Se há vida em ti a latejar


Canção de António Variações na voz de Manuela Azevedo

terça-feira, dezembro 21, 2004

Brrrrrrrr

Cada vez me custa mais ler os jornais do dia. Só nos regionais de hoje vejo:

1.a vice-reitora da Universidade de Coimbra a exibir, sorridente, um cheque oferecido pelos maçons deste país, enquanto o grão-mestre destes sorria como se estivesse a ser fotografado ao lado do seu cavalo premiado;

2.que o eng.º Sócrates se sente de tal forma confiante de que ganhará, que se permite fazer campanha com base na sua medida mais polémica enquanto ministro do Ambiente - a co-incineração;

3.que só no último minuto o primeiro-ministro gestionário cancelou uma condecoração ao FC Porto, clube cujo presidente, no cargo há mais de 20 anos, é arguido em vários casos que envolvem a corrupção de árbitros de futebol.

Brrrrrrrrrrr.... Está tudo doido no rectângulo!!!

Os que trabalham estão de férias

Coimbra, 20 de Dezembro. Nas ruas mais movimentadas da cidade, onde normalmente é preciso dar dez voltas ao quateirão para arranjar estacionamento, sobejam os espaços para parar o carro. Estão de férias, desde sexta, pelo menos, aqueles milhares que passam o ano a bater com a mão no peito e a dizer "Ai que eu trabalho tanto!". As suas ocupações, sempre importantes, sempre inadiáveis, sempre difíceis, sempre impossíveis de realizar por qualquer outro, ficarão abandonadas até 3 ou 4 de Janeiro. "Faço sempre uns telefonemas para ver se não há stresses!"

São os mesmos que a 15 de Julho partem e só voltam a aparecer lá para meados de Setembro. Os mesmos que não dispensam uns diazitos na Páscoa, porque andam cansados. E mais uns dias aqui e uns dias ali...

De facto, eles fazem bem em apregoar o resto do ano que trabalham muito e que andam muito cansados. Se assim não fosse, até poderíamos pensar que trabalham pouco...

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Baba

Agora acordo todas as manhãs com aquela sensação de que me estive a babar grande parte da noite. Todos me dizem que é porque tenho o nariz entupido. Mas eu sei que isto só me acontece quando sonho contigo.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

E nós temos vergonha de ti

e de nós próprios, por termos permitido que alguém tão incompetente como tu passasse de porteiro da secretaria de estado.

O secretário de Estado adjunto do Ministério da Administração Interna, Paulo Pereira Coelho, que esteve na origem do pedido de demissão do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC), afirmou-se "envergonhado" com o organismo, que acusa de desconhecer "que riscos existem em Portugal e com que meios os pode combater".

Portugal, século XXI

"Andavas de jerico a vender cifões de retretes e agora, depois de dez anos no poder, tornaste-te milionário, ninguém sabe como..."

Deputado do PS Madeira dirigindo-se ontem, no parlamento madeirense, ao Vice-presidente do Governo Regional, Jaime Ramos

terça-feira, dezembro 14, 2004

TOTAL BICHANICE II

Depois das bichas da Quinta das Celebridades, eu pensava que já tínhamos atingido o cúmulo da bichanice em Portugal. Descubro agora que provavelmente ainda não. Começa amanhã em Itália um novo reality show em que 5 gays têm 24 horas para transformar um macho num metrossexual (n.d.r. palavra politicamente correcta para dizer gay, homossexual, bicha, rabeta...).

Já imagino o Castelo Branco a tratar das sobrancelhas do ZéZé Camarinha...

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz

ou
há portas que se fecham e nunca mais se abrem...

Come bolacha, mendigo, come bolacha!

Nesse clássico injustiçado do cinema português que é o "Rei das Berlengas", de Artur Semedo, há uma fantástica personagem que, passeando na sua cadeira de rodas pelos corredores do seu palacete, arrasta por uma trela o seu "mendigo particular", que alimenta a bolachinhas esticadas para trás, por cima do ombro.

Em 2004, em Portugal, não faltam donos de palacetes a alimentar os seus mendigos particulares. O facto de haver mendigos só permite à gente boa deste país esticar bolachinhas para trás e dormir, por isso, de consciência tranquila.

O que seria de Portugal sem mendigos? Para onde iria tanta bondade de gente endinheirada se ninguém precisasse das suas esmolas, das suas bolachinhas? Mesmo a classe média sente-se reconfortada por poder dar o seu quilito de arroz de vez em quando no supermercado.

Claro que alguns dos que me lêem estão neste momento a pensar: pelo menos quem dá faz alguma coisa.

Talvez no curto prazo a bolachinha seja importante. Mas no longo prazo, está essa gente disposta a prescindir dos seus salários muitas centenas de contos por mês para que os seus mendigos particulares possam ter salários justos? E estão dispostos a prescindir de três dos seus quatro empregos, que conseguiram movendo influências, para que os seus mendigos também possam ter emprego?

Eu acho que não. Acho que os portugueses que ganham mil contos por mês preferem dar 50 todos os meses aos seus mendigos a aceitar ganhar 500 para que o mundo seja mais justo. Assim dormem de consciência tranquila, aparecem nos jornais como bons cidadãos e, um dia, outros como eles ainda darão o seu nome a uma rua, porque foram caridosos e preocupados com o próximo. Na verdade deviam fazer-lhes uma estátua, a esticar uma bolachinha para trás.

anita dia 209

Hoje assisti a uma erupção. Ao Etna dos necrotérios. Uma projecção ascendente de material incandescente a tresandar a decomposição e a verdete. Uma explosão avassaladora e verticalíssima. O corpo estava há 3 semanas esquecido na lixeira municipal. O cheiro é uma nuvem densa e baça. Lenta e penetrante. Uma serrilha de pontadas acres no nariz, de que só o leve odor distante causa uma pulsão incontrolável no estômago, e obriga à tosse seca que antecede o seu vazamento violentíssimo. É um homem magro, a quem são visíveis as costelas e os ossudos nós dos dedos. Tem uma enorme barriga. Inchada, esticada, redonda e curva. A luz da lâmpada que cai sobre a mesa de dissecação, rebrilha sobre a pele em tensão e é reflectida pelo umbigo, que em vez de estar para dentro, se espeta para fora roxo e hirto. E mexe. Lateja e parece respirar. Este abdómen, feito um globo cheio do tamanho da envergadura dos braços do homem, move-se. Os vermes que devoram o corpo decadente acertam os movimentos. Em vez das muitas e minúsculas ondas de energia que em relevo passariam para fora da pele, é visível um enorme cobrão cor-de-rosa feito de milhares de vermes brancos a moverem-se cadenciados. Do início dos pêlos púbicos até aos tendões do pescoço a onda da decadência do corpo serpenteia de baixo para cima, e de cima para baixo. As pálpebras, coladas pelo muco pegajoso feito de água da chuva que vai atravessando os níveis de uma lixeira urbana, abrem-se. Está vivo! Os vermes voltaram-no a ligar para que vivendo produza mais material orgânico e assista. Assista e sem se poder mexer olhe o cobrão que nele mora, a deliciar-se com as suas entranhas. Está quente. Muito. A pele...a pele...tensa. Afasto-me. Oiço o umbigo a estalar, um jacto de matéria orgânica putrefacta é projectada contra o tecto e cobre a lâmpada do candeeiro, escurecendo a sala. Então, um rasgão na cútis abre-se como se abrem as falhas na terra nos terramotos, e um cilindro de larvas levanta-se no ar com uma vontade incontrolável. Eleva-se e esvazia o corpo de tudo. Toda a matéria orgânica deste corpo numa efervescência que veloz se projecta perpendicular ao tecto. Olho do chão para a massa que se eleva. Cilindro de vasos sanguíneos, ossos liquefeitos, vermes, órgãos em decomposição e tecidos infectos. Pára. E não se desfaz no tecto. Suspende-se. Paira. Ganha uma forma e uma ordem. Alguns dos vermes soltam-se e caiem-me ao lado como se não fizessem parte da forma que eclodiu do corpo.
- Quem és tu? - pergunta uma voz que vem do interior desta massa que se suspende por cima do cadáver esvaziado pelo abdómen.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

anita dia 205


O padre alisa a sotaina preta com ambas as mãos. Sentado, ao lado do representante do povo, leva a mão em punho à boca. Tosse, para limpar o trato respiratório do tabaco, e pisca os olhos para focar a janela à sua frente. Sentados a seu lado: os representantes da justiça, das famílias, da comunidade e do povo em nome qual tudo isto vai ser feito.
Estou sentado e tenho dois guardas vestidos de azul ao meu lado. Um molha uma esponja, e coloca-a por debaixo da armação em ferro que transmitirá uma descarga de 70.000 wats directamente ao meu cérebro. O outro, prende as correias de cabedal com fivelas. As pernas cabem à justa. Os pulsos ficam bastante apertados. Tenho 30 anos, 250 quilos e a curiosidade de saber como é morrer numa cadeira eléctrica. Curiosidade é o que me resta ter. Aqui ou há medo ou curiosidade. E ter medo de morrer é o mais conveniente que podemos fazer aos outros. Os guardas afastam-se, depois de me terem colocado na boca uma placa de cobre presa a uma máscara preta. Sufoco com uma massa metálica que me enche a boca e que em breve me derreterá a língua. Estou numa sala com uma cadeira e uma janela de vidro. Estou amarrado por cabedal e ligado a fios que em breve me vão fritar. Olho sempre nos olhos dos meus executores: um padre, um representante de alguma coisa e os familiares. Como somos idênticos no desejo de matar. Como é idêntica a vontade de chacina da lei da ordem e a minha.
Matei. Muitas. E arrependo-me. Muito. Arrependo-me de nunca ter tido a inteligência de matar alguém com o ritual com que me assassinam a mim. Arrependo-me de nunca ter conseguido matar em público, com assistência a aplaudir em vez de me ameaçar. Como eu gostava de ter podido esventrar, fritar, queimar pessoas vivas à vista de todos. A preparação...a execução...o fim... Mas não foi assim, não sou padre, representante do povo ou familiar. Sou apenas um assassino pobre e sem poder...e por isso, a minha única consolação talvez seja morrer como gostava de ter matado.
Uma tremura, músculos tensos, sinto a urina a ferver dentro de mim. Derretem-se-me os intestinos, o cérebro incha, se não fosse a máscara que tenho à frente da cara os olhos saltavam das órbitas. Outra descarga. Fervo por dentro? sinto a implosão do musculo cardíaco, o rasgar dos pulmões. Tusso sangue, pleura, e algumas costelas. A electricidade fez do meu interior uma papa vermelha e quente. Arrefeço, apanham-me com um balde. Vertem-me para um saco do lixo preto. Sou Papa. Sou levado para o necrotério. Sinto uma superfície plana por debaixo de mim.

Depois do saco preto ter chegado e porque queria saber se já consigo voar para fora desta sala, agarrei-o com os pés feitas garras e levantei-o no ar, e sai pela janela. Voo agora por cima da cidade que em sossego recupera energias para amanhã ser outro dia um pouco mais hedionda. Seguro o saco. Apetecia-me deixar cair esta massa uniforme de ossos e músculos em cima de uma praça qualquer. Num Domingo em que aqueles em que nome do qual isto foi feito pudessem sentir o sangue acre coalhado e podre a manchar-lhes as camisas e os sapatos. Pairo, consciente do poder que este saco de pessoa me transmite. E continuo a pairar. E pairarei, até as minhas asas de gárgula se cansarem e me obrigarem a voltar.

SOS!!! OS MEDÍOCRES CONTINUAM NO PODER!!!

terça-feira, dezembro 07, 2004

Lição de alternância democrática

Até à vitória de Durão Barroso e do PSD nas últimas legislativas havia uma prática em Portugal que, apesar de reveladora da pouca-vergonha do país, acabava por ser saudável: o governo que entrava dava um pontapé no rabo a todos os militantes do partido do governo anterior que encontrava pelo caminho e que não estavam protegidos com um vínculo definitivo à função pública.

Durão Barroso foi mais inteligente e percebeu que de nada valia andar a despedir gente que voltaria a ser contratada na próxima mudança de poder. Assim, socialistas, sociais-democratas e populares poderiam conviver alegremente na administração pública, sem sobressaltos, sem despedimentos, sem conflitos. E tudo apenas com prejuízo da despesa corrente do Estado.

O caminho foi fácil: convenceu-se a Ferreira Leite a congelar as contratações para a função pública, o que permitiu que durante dois anos e meio apenas tenham sido contratadas pessoas por pedido expresso dos responsáveis das entidades. Ou seja, pessoas dos partidos e seus amigos. Em contrapartida os socialistas foram-se arrastando nas instituições, sem serem despedidos e à espera da mudança de governo para voltarem a progredir na carreira.

Mas o que Durão não previu foram dois anos e meio de guerrilha interna dentro das instituições do Estado. Os socialistas apreciaram o facto de não terem sido despedidos, é verdade. Mas não deixaram de ser socialistas por causa disso. Fizeram campanha, passaram todas as informações escandalosas possíveis para fora, sabotaram tanto quanto puderam o trabalho do governo.

Os do PSD talvez tenham aprendido a lição. Mas, se perderem as próximas legislativas, tê-la-ão aprendido demasiado tarde. Se os socialistas forem governo teremos 13 anos consecutivos (6 de Guterres, 3 de PSD e 4 de Sócrates) sem despedimentos de socialistas na função pública. O Estado será deles. Os socialistas, por outro lado, sabem bem o que têm que fazer se não quiserem ser sabotados a toda a hora e todo o instante: assim que ganharem as eleições devem correr com todos os tipos do anterior governo que sejam de nomeação política ou que ainda estejam a contrato. Assim, a lição estará terminada.

Resposta ao Santana ou a premonição do Pessoa

Sampaio, o anti-Mostrengo

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Falm, falam, falam, falam, falam, falam... (versão II)

Isto o que aconteceu foi muito simples!

O que aconteceu foi que eu estava em Belém na inauguração da maior árvore de Natal da Europa, sim, repito, da Europa, porque nós quando fazemos as coisas é em grande, e virei-me para um turista que lá estava e disse-lhe:

- Lá na tua terra não tens disto pois não? A maior da Europa, a MAIOR!

E o gajo vem com uma conversa do género: Ah, não sei quê, no meu país preferimos gastar dinheiro em outras coisas, por exemplo a evitar que rebentem condutas de água, que levam ao abatimento do solo, e dessa forma prejudiquem milhares de pessoas...mais não sei que mais e o camandro!

E eu, que até sou um gajo que é pá, tenho uma facilidade na exposição de argumentos, não me fiquei e disse-lhe logo:

- A maior da Europa! Toma! Embrulha!

E o gajo começa a falar que não sei quê, lá no país dele quando começa a chover as zonas ribeirinhas não ficam inundadas, e que talvez fosse melhor que, em vez da árvore, o dinheiro fosse canalizado para evitar essas situações.

Eu comecei a enervar-me e disse-lhe logo:

- Mau, tu queres ver que nós temos que nos chatear! Eu estou aqui a expor argumentos que é pá sim senhor, e tu vens com essa conversa de não sei quê. Eu nem quero começar a falar na feijoada em cima da ponte, nem no desfile de "pais natais", porque senão nem sabias onde te meter pá.

O gajo começa a falar de uma coisa qualquer, tipo túneis que são construídos e ficam a meio, e não sei que mais, e eu virei logo costas.

Porque quando eu vejo estes gajos que não conseguem aceitar a superioridade de um país sobre o outro, e ainda falam, falam, falam, falam, falam, falam, e não dizem nada de jeito, eu fico chateado, claro que fico chateado!!

(recebido por e-mail)

Momento Natalício

Portugal outside is frightful
But the fire is so delightful
And since we've no place to go
Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!

It doesn't show signs of stopping
And I've bought some corn for popping
The lights are turned way down low
Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Anita - dia 200



Por volta das três da manhã, enquanto escutava o som das gotas de chuva caírem na mesa de dissecação metálica e, reparava que a minha audição já se desenvolvera ao ponto de conseguir escutar as gotas cortarem o próprio ar, um som, que nunca tinha escutado, fez-me franzir os olhos de surpresa, esperar pela saída dos funcionários e espreitar pela gaveta. Esperava e imaginava. O que ouvi não era o som a que me habituei de um corpo a ser depositado na bancada de dissecação. Era um som que se dividia em dois. Mas também não era o som normal de duas pessoas a serem depositadas na banca, era qualquer coisa de intermédio. Era o som de uma pessoa e meia a cair no inox frio. Um corpo e meio. Uma jovem mulher, com a sua jovem filha. Saí da gaveta, pairei de asas abertas (sim, o meu corpo tem vindo a mudar a sua forma humana, mas falarei disso noutra altura) sobre os corpos, e porque queria perceber aquela estranha vista, entrei na desfigurada mãe para lhe perceber os seus últimos minutos.

Vamos pôr a cadeirinha, assim, isso. Tanto soninho que ela tem. Vá, já vamos ter com o papá. Agora a mãe vai fechar a porta, cuidado.
"Na ligação 2º circular - campo grande o trânsito continua intenso, mas não há noticias de acidente. Conduza com precaução que o piso está molhado e tenha um bom fim-de-semana na companhia da TSF".
É só sair de Lisboa que depois já não apanhamos mais trânsito, vais ver, não é bebé? Diz mamã, mã-mã. Tens de dizer mã-mã antes de papá. Combinado?
Isso dorme...
Rádio baixinho. Desligar o rádio. Que seca de viagem. Espero que ele já tenha chegado. Vou ligar. Aqui não há rede. As luzes. Sinais de luzes. Que estrada apertada. Oh, meu amor disseste mamã?Esquerda, direita, luzes de frente...

A jovem mãe, excelente condutora e mulher amadíssima pelo seu marido conduzia atenta. A chuva intensificara-se e a estrada era um monótono caminho de curvas e contra curvas que esta mulher negociava facilmente. O silêncio da viajem e o cansaço de uma sexta-feira à tarde obrigavam-na a semi-cerrar os olhos e piscá-los com mais força. Antes de uma curva para a direita, e depois de ter escutado a sua filha a remexer-se na cadeira, o primeiríssimo: mãã, despertaram-na. Com o sorriso, como é o sorriso dos pais que ouvem os filhos a dizerem pela primeira vez o nome pelo qual os tratam para o resto da vida, virou-se para trás para, sem se aperceber que saia da sua faixa, seguir em frente na curva. Um forte virar no volante manteve o carro dentro dos limites do alcatrão, mas estava contra-mão e um camião aplacou-a frontalmente.

Sinto-me a mudar. Fisicamente. Tenho indiscutivelmente mais força do que alguma vez tive, a audição e em geral todos os sentidos estão a cada dia mais apurados. Os voos esporádicos dentro do edifício são hoje quase diários e as asas recolhem e abrem cada dia mais depressa. Dentro em breve devo conseguir sair daqui. Preciso de um espelho, preciso saber em que é que me transformo. Qual irá ser a minha forma final.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

O verso do sistema

Depois de a Gabardina ter apresentado o reverso do sistema, eis que a Judiciária ataca a sua cara! Nos últimos três dias até apetece ter esperança no país...

A Polícia Judiciária deteve hoje quatro árbitros e um empresário de futebol e procedeu a buscas na Torre das Antas, de acordo com uma informação divulgada na tarde desta quinta-feira pela estação televisiva SIC.

O problema lista de casamento

Os novos excêntricos de Portugal fizeram sonhar o país. Dois tipos de Moreira de Cónegos que ganham, de um dia para o outro, ganham 43 milhões de euros, mexeriam sempre com a imaginação dos portugueses. Mais mexeram ainda quando a maior parte destes vive com dificuldades que 43 mil resolveriam no curto prazo...
Nos dias que se seguiram ao sorteio ouvi duas ou três pessoas próximas dizer: "Eu oferecia logo uma casa a cada um dos meus amigos!" Não era falta de vontade de presentear os meus amigos, mas aquilo não me soava bem... De argumento em argumento, cheguei finalmente a um que me satisfez e que mereceu a concordância dos meus interlocutores: o "problema lista de casamento".
Qual é o problema lista de casamento? Tenho reparado que as pessoas que se casam se debatem sempre com um mesmo problema: tendo um número máximo de pessoas que podem convidar, há sempre algumas que ficam na fronteira e acabam por não poder ser convidadas. Seriam as primeiras a sê-lo se existisse a possibilidade de fazer mais meia dúzia de convites, mas não há... E isso significa sempre um certo mal-estar entre quem não convida e o não-convidado. Para mim, só a perspectiva desse problema me faria pensar dez vezes antes de organizar a boda...
E é exactamente este o problema que eu acho que há no plano de dar casas aos amigos quando se ganha o euromilhões: o problema lista de casamento. Quando é que paramos de dar casas? Quantos verdadeiros amigos temos? Por que é que o vosso décimo melhor amigo merece uma casa e o décimo primeiro não?

Só uma pessoa

Agora que vai para eleições, acho que o importante a dizer é que Portugal, nesta fase, já não pode ser demasiado exigente. Não vale a pena pedir um governo competente. Eu limito-me a pedir uma pessoa. Só uma, com uma única característica: tem que ser uma pessoa séria.
Não pode ser o Santana, nem o Sócrates, nem o Portas, nem o Marques Mendes, nem o Dias Loureiro, nem o Jorge Coelho, nem o Ferro.
Portugal deve a si mesmo encontrar um primeiro-ministro que seja sério. Só isso. Condição necessária e suficiente para que haja confiança no futuro.
Eu só vejo três nomes que preenchem esse exigente requisito: Cavaco, Marcelo e Vitorino. Se um dos três se candidatar conta com o meu voto. Se não, abstenho-me.

terça-feira, novembro 30, 2004

Adeus
Voltem para as esplanadas da linha!

iiiiiuuuuuuuuuuuuuppppiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!

O reverso do sistema

O sistema de que se fala no futebol português, apesar de todos o dizerem por meias palavras, é o controlo que o Porto tem da arbitragem. Mais do que claro, aliás, nas escutas telefónicas de árbitros e dirigentes do porto publicadas pelo Independente há uns anos e pelo caso das férias de árbitros no Brasil pagas pelo FCP através da agência de viagens Cosmos, dos irmãos Oliveirinha.
Diz-se que há também o reverso do sistema: uma forma hábil que foi encontrada para financiar o sistema a partir das oportunidades que ele próprio cria. Ou seja, o sistema transforma jogadores medíocres em campeões, permitindo que eles sejam vendidos por valores muito acima do seu real valor.
Assim, nos últimos 15 anos, entre Futre e Paulo Ferreira, o Porto vendeu dezenas de jogadores para clubes endinheirados da Europa, mas com excepção do mediano sucesso de Fernando Couto, Jardel e Ovtchinikov, todos fracassaram com maior ou menor estrondo nas suas novas aventuras.
Decidi fazer o onze dos maiores fracassados de entre as vendas de estrelas do Porto nos últimos quinze anos. E era só isso que queria fazer. Mas dez minutos de pesquisas no Google para saber informações sobre os anos em que foram transferidos e para onde proporcionaram-me informações interessantes. Se não, vejam:
Guarda redes: Vítor Baía. Transferido para o Barcelona em 96/97 como grande craque, voltou para o Porto dois anos e meio e muitas dezenas de frangos depois. Treinador do Barça em 96? Bobby Robson, ex-treinador do Porto. Adjunto do Barça em 96? José Mourinho, hoje ex-treinador do Porto.
Lateral direito: Secretário. Vendido ao Real em 96 como o melhor lateral direito da Europa, voltou ao Porto depois de uns anitos a aquecer as bancadas do Bernabéu, como forte candidato a jogador mais ridículo da história do Real.
Centrais: Geraldão. O pontapé-canhão das Antas foi vendido em 91 ao Paris Saint-Germain, e nunca mais se ouviu falar dele. Treinador do PSG em 91? Artur Jorge, ex-treinador do Porto.
Emerson. O possante médio defensivo que podia jogar a central foi vendido ao Middlesbrough em 96 como um dos melhores médios da Europa. Passou também pelo Corunha, mas sempre sem grande sucesso.
Lateral Esquerdo: Esquerdinha. O barrigudo lateral portista foi vendido ao Zaragoza em 2001, e nunca mais se ouviu falar dele. Treinador-adjunto do Zaragoza em 2001? Narcis Júlia, hoje treinador adjunto do FC Porto.
Médios-centro: Doriva. O novo Dunga foi vendido em 99 à Sampdoria, transitando logo em 2000 para o Celta de Vigo. Passou por vários clubes sem sucesso nem notoriedade. Treinador do Celta em 2000? Victor Fernandez, hoje treinador do FC Porto.
Chainho. Trinco vendido ao Zaragoza em 2001, passando em 2002 para o Panathinaikos. Hoje joga sem brilho no Marítimo. Teinador-adjunto do Zaragoza em 2001? Narcis Júlia. Treinador do Panathinaikos em 2002? Fernando Santos, ex-treinador do FC Porto.
Extremos: Sérgio Conceição, vendido à Lazio em 1998 passou por diversos clubes italianos, sem sucesso, antes de regressar ao FCP. Hoje joga no Standard de Liège.
Capucho. Vendido ao Glasgow Rangers onde nunca foi titular absoluto, joga agora sem brilhantismo pelo Celta de Vigo, na segunda divisão espanhola.
Avançados: Jorge Plácido. Vendido como craque ao Matra Racing em 88, nunca fez nada de relevante. Voltou ao Porto e acabou a carreira nos Lusitanos de Sant-Maur. Treinador do Matra em 88? Artur Jorge.
Domingos. Vendido ao Tenerife em 97, como grande avançado, voltou para o Porto um ano e meio depois, sem ter feito nada de relevante. Treinador do Tenerife em 97? Surpresa... Victor Fernandez, actual treinador do Porto.

Convém referir que neste período, e entre alguns falhanços, Benfica e Sporting venderam, entre outros, Figo, Rui Costa, Stanic, Balakov, Aldair, Ricardo Gomes, Valdo, Juskowiak, Fernando Meira, Boa Morte, van Hooijdonk, Marchena, Gamarra, Cadete... enfim, alguns jogadores que tiveram brilho e sucesso por onde passaram, como é normal.

Ele há grandes coincidências... se estas foram encontradas com 10 minutos de Google, imagine-se as coincidências que não encontraria uma investigação jornalística séria...

segunda-feira, novembro 29, 2004

Os puto que governam

O que o Santana assumiu ontem: que era um puto numa incubadora já a Gabardina tinha escrito em Agosto. E não foi sorte ou premonição acertada.
Aqui, observa-se o que vai lá atrás...
Os leitores da Gabardina que leram estes textos em Agosto sabem agora que não perderam o seu tempo.


Fragmento
O primeiro-ministro ao canto do quarto, está acocorado atrás dos cortinados. Tem um dedo na boca e a cara triste. O pijama castanho com nuvens brancas que veste só lhe fica bem, com uns chinelos de quarto azulinhos. Todo o pessoal da residência do primeiro-ministro procura por todo o lado os chinelos. Sem eles, o menino não quer dormir. E quando o menino não dorme? ninguém dorme. Choradeira a noite inteira. Impaciente bate com os dois pés no chão, e agita as mãos no ar. A berraria vai começar. Dos chinelos é que nem pó. Procura-se em todo o lado: cozinhas, salas, garagens e quartos. Nada. O choro já não é choro, são os berros de menino mimado.
De repente entra pelo quarto um homem. Trabalhou durante 30 anos, 12 horas por dia, só descansou ao Domingo. De seu tem um apartamento de 2 assoalhadas em Fernão Ferro. Dirige-se ao primeiro-ministro chorão, pega-o ao colo e segurando-o com os fortes braços, embala-o com as histórias de coragem dos trabalhadores rurais. O primeiro, já de lágrima seca escuta com atenção. Maravilhado com a historinha para dormir adormece nos braços do homem.

o filhinho da mãe
Sentado à mesa do pequeno-almoço, o ministro termina as papas que a sua mãe cozinhou.
-Vá lá, tens de comer tudo, para seres grande e forte para brincar com os outros meninos.
O ministro atestado de papas lácteas, bolsa ligeiramente. Não fora o babete bordado com uma menina a andar de trotinete e tinha sujado a gravata e o fato escuro. Ao ver que o filho não conseguia comer mais, a mãe senta-o ao colo, prende-lhe os braços e começa dar-lhe o resto do pequeno-almoço na boca: mete a colher de sopa nas papas, leva-a à sua boca para as arrefecer com dois soprinhos maternais, pede ao ministro que abra a boca e enfia o resto das papas goela abaixo deste funcionário do governo. O ministro esperneia, diz que não quer mais e tenta sair do colo da mãe. A mãe diz que é só mais uma colherada. Convence-o dizendo que se ele comer aquela última colher, pede aos senhores da netcabo para ainda hoje, irem ao seu gabinete instalar o Disney Channel. O ministro acede à ultima colher e a mãe limpa os restos de papas da boca com pequenos movimentos em volta dos lábios e com uma passagem vigorosa com o babete.
-Vá! agora vais lavar os dentes que o motorista já está lá em baixo à espera.
Enquanto o ministro lava os dentinhos, a mãe abre a sua pasta preta e coloca lá dentro um lanche: pão com marmelada e manteiga embrulhado num guardanapo de papel e um pacote de leite com chocolate. Tudo dentro de um saco de plástico transparente que o ministro odeia.
São 9:00 da manhã e vai começar mais um dia de trabalho do XVI governo constitucional.

jáááááá fiiiiz...
É a voz finíssima da recém empossada secretária de estado. Está sentada e o som sai-lhe das goelas, choca com os diversos utensílios sanitários, espalha-se pelos mármores da casa de banho, reflecte-se no enorme espelho e disparada avança para o corredor. Este som, qual bola de fogo, percorre agora os passos perdidos, desce veloz a escadaria nobre, enche as salas dos grupos parlamentares, abre de par em par as portas do refeitório dos frades e entra directamente nos ouvidos do único deputado que no andar de baixo, pela mão da senhora sua avó, depois de ter interrompido as férias em Ibiza para vir ao parlamento buscar uma agenda, espera que esta lhe ponha as fraldas para dentro das calças. As mãos finas da avó afundam-se num círculo à volta da cintura barrica do deputado.
Porque é urgente, necessário e sincero o "jáááááá fiz" vindo do segundo andar, não se distraí com esta cena de amor inter ? geracional e segue caminho até ao bar da Assembleia: estaca-se à porta por momentos e agudíssimo preenche todo bar.
O pai da recém empossada secretária de estado, reconhecendo o chamamento filial, apaga a cigarrilha, bebe o último gole de água e despede-se do empregado. Faz o caminho inverso da voz, guiado pelas pequenas ressonâncias que o som foi migalhando pelos capiteís, arabescos e vigas de estilo neo-clássico do Palácio de S. Bento da Saúde ou dos Negros, mosteiro Beneditino, com inicio de construção em 1598.
-Vá, já está limpo. Vista-se e despache-se que os senhores do protocolo de estado já ligaram duas vezes para saber se sempre vai ao jantar de embaixadores.
Assaduras e leis, sont les mots qui vont tres bien ensemble.



Saiba o leitor que tal como as bolachas Carr´s são recomendadas pela família real inglesa, também as fraldas Dodot Etapas são recomendadas pelo presidente da assembleia da republica. Expliquemos.
O Presidente da assembleia da Republica farto do burburinho de fundo do hemiciclo e sabedor pela experiência de pai de que este se deve a alguns rabos assadinhos, decidiu emitir a seguinte nota aos pais e às mães dos senhores deputados da Republica Portuguesa:

Nota da Presidência
Excelentíssimos encarregados de educação,
Em face da crescente inquietação e às cada vez mais frequentes ausências dos senhores deputados, V/ educandos, no parlamento, venho por este meio sugerir que V/ Exas ao vestirem de manhã os senhores V/ filhos, lhes coloquem as novas fraldas super-absorventes Dodot Etapas. Este produto, novo no mercado nacional, é capaz de não só evitar as irritações na pele responsável pelo bruá de fundo que na passada semana impediu que fosse aprovada a tão desejada reforma da administração pública, como permitir que até à hora que V/ Exa vêm buscar os petizes, estes se mantenham no hemiciclo sequinhos, sossegadinhos e a brincar felizes. A presidência reconhecendo a qualidade das fraldas referidas, não hesita em recomenda-las para que se evite o desconforto televisivo da aridez parlamentar, e a comichão cutânea das assaduras em tão desejada área parlamentar.
A presidência, consciente de que esta troca de fraldas pode não agradar a todos os pais, está a diligenciar no sentido de no mais curto tempo possível recuperar as antigas instalações do berçário da antiga assembleia nacional. A presidência, após reconstruir este equipamento de apoio comunicará a V/Exas as respectivas condições de uso.
Sem mais, e na esperança da melhor compreensão subscrevo-me,
E assim se explica a coroa britânica feita esfera armilar nos pacotes de fraldas Dodot.

Festa de garagem

Sábado à tarde. Festa de aniversário do Pedro. A garagem estava melhor que nunca. Bola de cristal no tecto e tudo. Depois dos rissóis, dos croquetes, da coca-cola e da batata frita que a mãe do Pedro tinha posto em pratinhos de plástico, a malta pôs uns slows a tocar na aparelhagem. Depois de o Pedro, o engatatão do grupo, ter dançado encostadinho a todas as suas amigas, e de um jogo do lenço, passaram os jovens ao jogo da dança das cadeiras. Depois de duas eliminatórias rápidas e sem problemas, à terceira o Nuno, o Chaves e o Pedro organizaram-se para que ficasse de fora o Zé, que andava a comportar-se como um idiota nos últimos tempos...
Ora o Zé não gostou nada disso e ameaçou que se ficasse fora do jogo se ia embora e levava os cigarros que tinha comprado às escondidas no café do fundo da rua, para irem fumar para trás da garagem quando caísse a noite.
O Pedro propôs, então, que se repetisse esta última jogada. O Chaves não gostou da proposta, bateu com o pé no chão e foi embora. Um miúdo birrento, concordaram o Zé, o Pedro e o Nuno, e também os restantes foliões, enquanto se serviam de mais coca-cola, à qual o Nuno acrescentava whisky da garrafinha que trazia escondida no bolso do blusão.

quinta-feira, novembro 25, 2004

The luckiest kind of doctor

Foi há dez minutos atrás. Estava eu em mais uma tarde de trabalho, com o pensamento entre actas de reuniões e o teste de Econometria Aplicada de amanhã, quando toca a campaínha da empresa.
Vou à porta e aparece-me uma daquelas miúdas que todas as mulheres insistem que têm ar de convencidas e antipáticas. Digo "Boa tarde!" (provavelmente com extra-sorriso) e a resposta não podia ser mais surpreendente:
"Venho para uma consulta de Ginecologia agora às cinco."
Por um segundo - mesmo só por um - passou-me pela cabeça aquela notícia típica dos telejornais portugueses de há uns anos: "Fez-se passar por médico durante mais de 20 anos sem nunca ter estudado medicina e os doentes adoravam-no!"
Um segundo depois, já com braço esquerdo a ameaçar fazer o gesto de "Faça favor!", o cérebro falou mais alto: "Deve ser na casa ao lado, aquela amarela..."
Para que a tarde não seja completamente perdida, venha de lá uma fartura da Tânia...

Por delicadeza

E, claro, por educação, não chamarei filho da puta ao ministro Henrique Chaves.

"Entregaram-me um DVD, mas obviamente que não faço tenções de o ver. Por delicadeza não atirei o DVD pela janela fora."
Henrique Chaves, ministro (????) da Juventude e do Desporto, citado pelos meios de comunicação nacionais a propósito do DVD que lhe foi entregue pelo SL Benfica na audiência concedida esta semana ao clube da águia

quarta-feira, novembro 24, 2004

Espremedor


He visto lo que haces con las naranjas!
Si te trago el gobierno, me sacas el Santana?

quinta-feira, novembro 18, 2004

Vida de blogger

Quando se escreve diariamente (ou quase) há um ano e meio para um blog e quando os minutos do dia começam a apertar, começa a ser difícil perceber o "porquê" dessa escrita.

E quando essas dúvidas me começavam a assaltar, eis que abro o e-mail e tenho um recado simpático sobre um dos meus textos. Rapidamente descubro por que continuo e quero continuar.

Opinar, comentar, disparatar, claro, como sempre. Deitar cá para fora pensamentos e raciocínios. Se, para além de tudo isto, conseguir, de tempos a tempos, "tocar" na vida de alguém, continuará a valer a pena.

Anita - Dia 180


Até morrer a minha estação preferida era o Outono. Adorava os primeiros ventos frios na cara, o estalar das folhas secas e a forma como as pessoas que usavam roupa quente, parecem caminhar mais devagar pelas ruas.
Desde que morri, gosto menos do Outono. Prefiro o Inverno. O frio do Inverno. Hoje amo o frio do Inverno porque odeio o calor do Verão. Pois no Verão vêem-se coisas num sitio como este...
No dia em que aqui cheguei e me colocaram na gaveta frigorífica estavam 42º na rua. No dia seguinte todo o sistema de ar condicionado avariou e assim ficou durante duas semanas inteiras. A mim colocaram-me dentro de uma arca congeladora mas aos outros... Aos outros... Bem os outros ficaram ao ar...
Os mortos arrefecem, solidificam e ficam moles outra vez. Depois, porque os músculos distendem, incham com os gases que a decomposição vai provocando. Os orifícios naturais abrem, e é possível, ouvir o som de uma bexiga a esvair-se no chão a meio da noite, ou escutar os dejectos a caírem no mármore. Os globos oculares entram nas orbitas e os insectos entram no espaço vazio, para aí colocarem os ovos e nas criarem as suas larvas. O que sucede nos olhos, acontece dentro do próprio corpo, pois com a falência do sistema imunitário todos os germes se podem multiplicar. Num momento concreto, quando a pele do abdómen já não aguenta a pressão exercida pelos insectos que querem nascer para a claridade, o som do estalar da pele indica a implosão dos intestinos e dos pulmões. Acontece porém, que se este processo demora cerca de 2 semanas abaixo dos higiénicos 7 palmos de terra, em cima de uma mesa de metal com 40º, o processo demora dois dias. Se a esta velocidade acrescentarmos um acidente de viação que custou a vida a 23 pessoas, temos o ambiente geral dos meus primeiros dias nesta casa.
Os técnicos tinham de entrar de botas de borracha para evitar os líquidos que os cadáveres deitavam. As janelas fechadas para que o cheiro não se sentisse na rua e as luzes desligadas para que os gazes não se inflamassem se alguém ligasse um interruptor. Durante 12 dias estive às escuras por cima de 23 cadáveres que apodreciam rapidamente. Mas se para mim a situação perecia insolúvel, para a direcção desta morgue o caos de putrefacção era a desculpa que as chefias necessitavam para a porem a correr. Limpeza, limpeza eis a questão que tinha de ser rapidamente resolvida. Então, numa noite em que ar parecia de gelatina, as portas desta morgue que funciona nos civilizados 0º, foi invadida por uma turba de cães esfaimados. Uma massa de dentes afiados, de focinhos húmidos atiçados pelo cheiro de carne quente, de corpos ágeis e magros e olhos brancos de fome. Eram 300 cães que ao mesmo tempo entraram pela porta. Vorazes, violentos e sedentos limparam os corpos macerados dos acidentados. Apesar do barulho nessa noite houve uma brisa de esperança.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Só uma 27.ª oportunidade, por favor

Deixaste passar tudo o que a vida te ofereceu. Umas vezes acreditaste que havia um caminho melhor, outras não foste suficientemente rápido ou corajoso ou bom para agarrares as oportunidades. E hoje sabes que esses caminhos eram melhores. Mas estão longe. Na tua vida não passam de recordações coladas na parede do quarto. A vida deu-te muito, muitas oportunidades para seres feliz. Outros aproveitaram o que tu desperdiçaste. Outros ainda preferiram imitar-te. Agora resta esperares que a vida tenha mais uma cortada para ti. E estares pronto e atento para não a deixares passar.
Do you believe in second chances?


terça-feira, novembro 16, 2004

Estafermo é, assim se pôs

Tenho andado a pensar num texto sobre o estafermo, que saiu do ovo. Como não quis interromper polémicas na caixa de comentários, deixo aqui o meu desabafo.

O que eu considero mais preocupante nos estafermos é o caminho para a estafermização. Porque concordo que o estafermo não se vê estafermo, mas sim uma pessoa "fixe" segundo a sua nova tabela de valores, excepto em alguns raros momentos de lucidez. Assim o que me parece grave é o caminho: os pequenos saltos estafermizantes que têm que ser dados até chegar à estafermidade. Aquelas pequenas decisões, aqueles momentos em que uma pessoa boa pensa "eu devia fazer isto, mas toda a gente faz aquilo, por isso eu vou fazer também" ou "isto não tem mal nenhum" ou "se tem que ser para alguém que seja para mim" ou ainda o "eu tenho é que pensar em mim em primeiro lugar!".

E assim crescem os estafermos. Iguais a todos os que conhecemos e de quem sempre dissemos "Eu nunca serei um estafermo assim!"

Anita - dia 178


Agora, que chamo a este sitio casa.
Agora, que quando procuro conforto subo ás gavetas frigorificas que estão mais perto do tecto.
Agora, que passou a ser para sempre. Agora, tenho a verdade para contar os que morreram. Narrar-lhes as historias, responder-lhes às perguntas e sentir-lhes essa profunda desilusão de quem já não é.
O troglodita do bigode deve estar a chegar. AH! temo amigo hoje. Então? até onde iremos meu caro... não tenhas medo e vai onde leva o coração. Avança, assim de peito aberto até onde ardes para chegar.

Um velho e uma velha estão deitados na mesa de dissecação. Unidos. Abraçados. Quando um morreu o outro, companheiro desde a juventude, morreu também. Combinaram assim. E assim se cumpriu. Morreu ela e passados dois minutos de olhar para os olhos a secarem, o outro coração serenou-se de vez. Caiu ao lado dela, abraçou-a, sorriu e morreu. O resto é a história dos telefonemas não atendidos, dos preocupações dos familiares, do arrombamento de uma porta e da descoberta dos dois corpos deitados juntos como sempre na cama.
Pois estas pessoas, garantia de que afinal é possível, jazem cobertas com um lençol branco deitadas no metal frio. Os cabelos dela descem pelo ralo por onde se escoam por vezes líquidos e que uma corrente de água atravessa de vez em quando. As unhas do homem, transparentes e delicadamente longas, viradas para baixo são atravessadas pela luz. À transparência estão límpidas e duras com as unhas dos velhos são límpidas e duras.
O bigode ridículo, que acopla um corpo ainda mais bigode, é mexido e acariciado pelos dedos que se demoraram a entesar o seu mortiço membro viril. Já conheço o procedimento . . . Despe as calças, e sem cuecas dirige-se hipnotizado para o leito final dos velhotes. Exibindo a erecção à ventoinha no tecto, coloca-se ao lado dos égregios avós. Bate violento com o seu pau na testa da mulher. Uma e outra e outra vez. E mais. E mais. E ao lado o companheiro de uma vida nada faz? Após estas pancadas secas, como ele gosta de dizer, um som saiu de dentro da boca da mulher. Os dentes consumidos pela criação de 4 filhos e pelo amor a este homem, e substituídos por uma placa soltara-se. Engasgando-a se fosse viva... Então, colocando-se por cima da mulher penetra-a na boca até ás amígdalas. Delicadamente e aproveitando o degrau natural da sua glande plena de sangue, encaixa-a nos dentes da mulheres retirando-os. A boca da mulher incha um pouco para deixar passar os dentes. Uma tremura e logo se soltariam do encaixe da glande. Mais o homem sabe, costuma fazer isto e a sua precisão é inigualável.
Com os dentes do homem e da mulher nas mãos descansa da sua empresa. Uma gota de suor reflecte a luz quando se solta de ponta do nariz.
Quatro filas de dentes. Duas vidas.
Com as calças na mão, entrega os dentes ao amigo. Este separa-os, divide-os em dois grupos que coloca nas duas extremidades de uma mesa de madeira e põe-os de pé.
Peças de dominó, de damas ou de xadrez? Esta semana é dominó...

segunda-feira, novembro 15, 2004

Os novos fascistas

A palavra "fascista" sempre teve para mim (talvez seja um problema geracional, ou então será só meu) um significado que não corresponderá exactamente ao seu significado original. Fascista para mim é alguém que acha que a sua posição é a melhor e que todos os outros devem fazer como ele. Alguém que se considera superior a ponto de que o mundo deva ser moldado à sua imagem.

Em princípio, hoje a essa palavra, no meu mundo, deveriam estar colados os meninos da direita portuguesa. As suas camisinhas de marca, os seus cabelinhos penteados. Mas curiosamente não é assim (talvez porque esses sejam demasiado medíocres para poderem presumir que têm razão. São, em geral, simplesmente boçais).

Quem me aparece hoje colado à palavra fascista, na minha geração, são os jovens que se dizem de esquerda. Retrato tipo: curso superior a caminho para mestrado ou doutoramento; vestuário ligeiramente radical mas cuidado; gostos musicais que abarcam Manu Chao e música clássica; têm uma opinião sobre o cinema francês; jantam e tomam café em sítios chiques e de vez em quando vão às discotecas da moda; pertencem a organizações de cidadãos que defendem um interesse sectorial, que em geral nada está relacionado com eles; lambem tudo o que é rabo de intelectual ou professor universitáio importante; estão dispostos a tudo para subirem na vida; acham que se os outros têm dificuldades na vida é porque não querem trabalhar; quando estão descontraídos deixam escapar frases absolutamente arrepiantes sobre os pobres e assim essa gente que não se lava e não se esforça.

Afinal quem está errado, o meu significado do conjunto de letras f-a-s-c-i-s-t-a, ou a vida fascista deles?

RDA


RDA Posted by Hello


Recebido por e-mail

Anita - dia 177


Quando me aborreço, me canso de estar à espera que alguém associe o meu desaparecimento a um atropelamento numa outra cidade, ou quando me começam a doer as costas de estar deitada no inox gelado, escuto as conversas dos recém enlutados que na sala de espera, aguardam para levantar o seu morto.
Não há muito tempo, um rapaz falava com um amigo como estava envergonhado de não sentir aquela profunda tristeza e quase morte que pensava que iria sentir, quando lhe morresse a mãe.
O rapaz contava que antes da sua mãe ter morrido pensava que quando esse dia chegasse, também para ele a vida terminaria. Mas para sua surpresa o dia da sua mãe chegou e ele não morreu. E isso surpreendeu-o. Mas, se isso o surpreendeu, a sensação de não estar a sofrer tanto como as outras pessoas, aterrorizou-o. Andava triste, mas apesar disso conseguia manter uma distância da morte da sua mãe, que lá no fundo o separava das das pessoas em seu redor. "Serei assim, absolutamente insensível, serei um cretino tão grande que nem consigo sofrer pela morta que me deu vida". O amigo que o escutava e que ia dizendo banalidades do tipo: "cada um reage como sabe" e "a pior dor é a que não se exterioriza", tentava encontrar uma justificação qualquer para aquela apatia, no entanto perdia-se nas suas próprias palavras.
Foi no exacto momento em que o ouvinte do recém órfão, se preparava para dizer mais uma tirada de lugares comuns, que decidi fazer alguma coisa.

Enevoada com poder súbito de me transformar numa gárgula de garras férreas, rompi pelo frigorifico adentro e agarrei entre os dentes o corpo da mãe do rapaz. Puxei-o violentamente para fora, e num voo raso transportei-o até onde os rapazes conversam. Sobrevoei-os e deixei cair o corpo no chão de mármore. Depois, voltei para o escuro e de gárgula figurei-me num corpolento e massivo cão de fila preto. Veloz e sanguinário, voltei para a frente do rapaz apático na morte da mãe, para estraçalhar à sua frente a recém falecida. Com as mandíbulas cravadas sobre o peito da mulher morta, arranquei o externo, que aberto em par deixava as entranhas soltas e prontas a espanharem-se para fora do corpo com os puxões e esticões que o meu pescoço musculado dava. Enquanto desmembrava, rasgava a carne e esmagava os ossos, um rosnar profundo e grosso mantinha os rapazes à distância. Ou melhor, o rapaz, porque quando pela última vez mergulhei o focinho ensanguentado nas entranhas da mãe, consegui ver que o filho apático ainda me olhava e já o seu amigo explicativo se tinha evadido daquele cenário apocalíptico.

O rapaz não pestanejava e mantinha-se imóvel a ver os actos hediondos deste cão de 2 metros de altura e 300 quilos que arremessava um corpo frio e inerte para todos os lados da sala. E assim ficou, como o corpo: frio e inerte. Nesse dia, no instante em viu o pescoço da sua mãe a dobrar-se como só um corpo morto se dobra, percebeu que embora vivo também ele morrera bem antes da sua mãe morrer. Só lhe bastava saber quando e como.

quinta-feira, novembro 11, 2004

quarta-feira, novembro 10, 2004

Comentário que dá em post

Nas florestas mais ricas as árvores morrem de pé. Os menos atentos nem chegam a perceber que elas já morreram...


Ó Pai Celestial

Ontem quando cheguei a casa percebi que um colega tinha deixado entrar dois jovens missionários Mormons para a nossa sala, para uma conversa rápida. Eu, que sempre fui fascinado pelos "elderes" aos pares, juntei-me à conversa. A primeira surpresa é que eles são tipos bem dispostos, que nos entregaram um cartão em que se referiam a si mesmos como "os elderes". A segunda é que as crenças e os ritos deles são muito simples. As orações muito mais interessantes e exigentes que as católicas. Não há cá Avés Marias repetidas até ao vómito - cada um tem que dizer o que lhe vai na alma. A terceira é que não nos quiseram vender nada e não nos pediram nada - só quiseram falar do que acreditam e saber o que nós pensamos. A quarta é que respondem a todas as perguntas sem problemas - desde o que estão cá a fazer, passando pelo que farão quando regressarem aos EUA e acabando em quem votaram nas últimas eleições americanas.
A conclusão é que ou o marketing deles é muito melhor que o da igreja católica portuguesa, ou é um facto que a verdade está com eles e não com as outras igrejas que temos por cá, incluindo a católica.

Quando eles me visitaram ontem nada tinha para pedir ou agradecer a Deus, ou ao Pai Celestial com sotaque americano. Hoje, depois da leitura dos jornais da manhã, tenho um agradecimento e um pedido. Agradeço nunca ter tido que me vender e não ter por isso que andar a fazer coisas em que não acredito. Peço que tal nunca me aconteça.

Há coisas mais importantes no mundo, mas eu prezo muito estas.

terça-feira, novembro 09, 2004

Manso preto, Manso branco

A Gabardina está em condições de adiantar 50 nomes de figuras públicas pedófilas e que habitualmente participam em rituais satânicos e/ou de canibalismo.

Os nomes serão aqui postados nos próximos dias. A nossa fonte é anónima e que nenhum juiz nos venha perguntar quem é. Há já dois anos que a escrita é a nossa actividade principal e o pedido de duas carteiras de jornalista já seguiu. Basta de ataques à liberdade de imprensa!

segunda-feira, novembro 08, 2004

anita dia 170



E estou aqui. Nesta gaveta em que ouço tudo, e que abro quando não está ninguém no necrotério. À noite quando é mais seguro sair, deambulo pelos corredores às escuras. Bato numa cadeira. O som que sai do escuro chega ás vezes aos ouvidos das pessoas que recém enlutadas, aguardam na secretaria os procedimentos burocráticos da morte. Ontem à noite, ao fundo do corredor, descobri um esconderijo completamente na penumbra, de onde sem ser vista consigo observar as pessoas na recepção. Escondi-me no escuro e empurrei uma cadeira pelo chão. O som sai a toda a velocidade do breu entra nos ouvidos das duas mulheres e gela-as. Viram a cara para o escuro, arregalam os olhos e num arrepio longo e tremente encolhem os ombros. Não ligam. Os mortos estão mortos e por isso deve ter sido o vento, um gatito ou apenas uma impressão. Mas não era. Sou eu que no escuro do corredor arrasto uma cadeira como um corvo arrasta a sua asa partida pelo chão. De cócoras, agachada, num canto escuro, observo duas mulheres. Sinto as mãos petrificarem-se, o corpo a alongar-se e umas asas a romperem-me as costas. E a força, e a visão. Os braços arqueados são duas colunas de mármore, o peito ganha uma armadura de pedra rósea e pelos dedos finíssimos estiletes completam esta metamorfose. Sou gárgula que do escuro raia os olhos alvíssimos com a volúpia do assassinato. Abro as asas de lado a lado do corredor, e num voo raso avanço vertiginosa rente ao chão para as duas mulheres. Abraço-as com as longas asas e seguro-os os seus pescoços nestas garras milenares. Contra os vidros os corpos das mulheres cedem aos cortes profundos. Monstro de asas pretas, que só as sombras no chão, definem. Depois de ter deixado cair os corpos, observo o funcionário que cheio de sono aguardava que estas massas de osso partido e carne macerada, preenchessem os papéis. A ele um olhar, seguido por um desenrolar da minha língua veloz bífida e justa. Penetro-o pela boca, percorro o esófago e abrupta torço a língua na direcção do seu músculo cardíaco. Colho o coração com violência e retiro-o pela boca do funcionário acordado pelas duas mulheres. Ergo-o no tecto e cuspo-o para longe. Cai no lago que fica em frente desta morgue. Às 3 da manhã do dia 8 de Novembro de 2004 um splash irá satisfazer a pulsão de morte de todos os que acordam às 8:00 da manhã.
Experimentado o assassinato por piedade, recolho à minha gaveta para descansar.

Avesso e direito de nós

O que somos passa para o que fazemos e mais tarde o que fazemos é a montra do que somos.

Por que é que quando fazemos a cama o lençol de cima é posto com o direito virado para dentro, mas quando vestimos uma t-shirt o direito fica para fora?

quinta-feira, novembro 04, 2004

Dia seguinte

Depois de uma semanas a tentar convencer-nos de que há coisas mais importantes, somos obrigados a voltar a pensar no Santana, no Portas, no Sócrates, no Gomes da Silva... (mas quem é este Gomes da Silva, alguém me explica?)

O campeonato do mundo de futebol está a dois anos de distância e o Europeu e os Olímpicos a quatro. Não há por aí outro Timor Leste para nos motivar? Não há um tufãozito que se queira aproximar de território português?

quarta-feira, novembro 03, 2004

Gato Fedorento

Recebo e não resisto a publicar o melhor texto do Gato Fedorento na SIC Radical:

Meu amigo,
isto o que aconteceu foi muito simples meu amigo. O que aconteceu é que eu chego aqui e sou logo confrontado com certas e determinadas situações. Eu digo "então como é que é?", e os gajos "ah e tal!", e eu "tal não, ah tal não!". Então eu venho de lá de baixo e dizem que não sei quê, chego cá acima e parece que não? Em que é que ficamos? E os gajos, "ah, não sei que mais e o camandro", e eu "mau! queres ver que a gente tem que se chatear? Isto não pode ser!". Eu sou um gajo que estou aqui para trabalhar, quero trabalhar, e dizem-me, como aqui ouvi, "ah, não sei quê!". Mas que é isto? Isto não se faz, que eu sou um gajo que dou-me bem com toda a gente, sim senhor, dou-me bem, está tudo bem, e fazem-me isto! Depois há gajos que andam aí, que fazem trinta por uma linha, e depois passa tudo incólune, que é coisa que não percebo. É que assim deixo de vir aqui, passo a fazer a minha vida para outros sítios, sitios onde inclusivamente a malta me diz: "Eh pá, e tal, sim senhor!", e é para lá que vou, deixo de vir aqui pá! Porque quando vejo que há aí palhaços pá, que falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam pá, e não os vejo a fazer nada pá, fico chateado, concerteza que fico chateado pá.

Anita dia 160



Hoje, o fornicador não veio. Ainda. Atrasado apenas, pois ele já cá está, que eu já o ouvi. Ainda me arrepio com aquele assobio fininho a sair por baixo de um bigodito que apara milimetricamente. O reverberar das notas abruptas pelos corredores nus e cinzentos desta casa mortuária denunciam-nos.
Hoje, não há putas, hoje o único que partilha o gelo comigo é um homem velho. Gostos, há para tudo, e assim como assim, quero ver até onde vai o javardo para esvaziar os tomates.
O velho tem 79 anos e era barbeiro. Começou a varrer os cabelos cortados na barbearia do pai aos 9 anos. Aos 12 aparou as primeiras patilhas e foi com 15 que cortou o primeiro cabelo. À máquina primeiro e depois à tesoura de corte. Uma "corneta" importada da Alemanha. Feita da uma liga levíssima.
Se houve coisa que nunca faltou a este homem foi formação profissional. Essa teve-a, e dada pelo melhor. O seu pai. Excelso babeiro da cidade.
Pois este homem, íntimo das pilosidades visíveis masculinas há mais de 60 anos, formado pelo melhor babeiro, próximo das suíças, amigo dos pêlos do nariz e privando mesmo com aqueles que se espetam para fora da orelhas e parecem lançar-se sobre o vazio, este homem - dizia- nunca, mas nunca, cortou um cabelo como deve ser. Cortou cabelos durante 60 anos, fez moscas, limpou cavanhaques, desfez bigodes e desenhou barbas, mas nunca, mas nunca, conseguiu fazer uma franja certa, uma nuca sem tesouradas ou uma linha direita numa barba. Nunca... e se não era por falta de bons mestres e tempo de treino, certamente que não era por desleixo, preguiça ou ignorância. Este homem era o primeiro a chegar e o ultimo a sair. Dedicava-se, estudava e trabalhava tanto como tanto fora o talento de seu pai. Uma tigela sem desníveis, é que nada. Um dia decidiu que ia deixar de ser babeiro. Morreu no dia seguir. Ontem. Hoje está aqui. A arrefecer e a ter o anûs desflorado por um empregado com um bigode que parece um traço de carvão. O empregado corre-se. docemente pega numa colher. Com os dedos em forma de pinça, iça as pálpebras do barbeiro. Revira-as para trás. Com a colher, num gesto certo, alavanca o globo ocular para fora da órbita direita. O som peganhento do olho verde no chão. E a classe de umas sandálias hospitalares a calcarem o pedaço orgânico. Vista vazada, nova entrada -pensou a ervilha que tem dentro da cabeça-. Então, com a excitação que todos estes preliminares lhe provocaram, penetra resoluto a cara desfigurada so barbeiro.
Enfim... tanta encenação para afinal? não passar de um intelectualizar simbólico-orgânico do sexo.

terça-feira, novembro 02, 2004

Notícia bombástica: A China é maior que o Luxemburgo!, por Alexandra Lucas Coelho

Chego a Portugal depois de um fim-de-semana fora e alguém me dá a Pública de Domingo. Ao olhar para a primeira página não quero acreditar. "Heterossexuais são a maioria dos novos casos de sida em Portugal". Tenho que ler uma segunda e uma terceira vez para ter a certeza do que a frase quer dizer. Abro a revista e encontro o texto. Alexandra Lucas Coelho abre com uma citação: "Nunca pensei que isto me pudesse acontecer a mim, educada, lavada..." A palavra que paira sobre todo o texto principal da notícia - homossexual - só aparece duas vezes. Em ambas, citações da jornalista de perguntas postas por dois entrevistados nas bocas dos seus médicos, de quem se dá a ideia de serem ignorantes e preconceituosos.

O lead é uma maravilha. A falácia do título é repetida: os heterossexuais já são a maioria dos novos casos de sida em Portugal; os adjectivos "preocupante", "péssima" e "catastrófica" aparecem citados, colados à falácia, apesar de originalmente terem sido pronunciados em relação à situação da sida em Portugal; o fim, apoteótico, declara não haver grupos de risco, numa frase que parece ser uma citação dos entrevistados, mas não é.

Se não pretendesse induzir em erro a notícia seria tão relevante como uma que dissesse "Há mais casos de sida na China do que no Luxemburgo". Esta notícia seria primeira página de alguma publicação?

Quem lê (e fiz o teste com duas pessoas licenciadas em letras, uma delas jornalista) infere que são agora os heterossexuais quem mais contrai sida em Portugal. Mesmo em termos relativos, disseram-me. Presumo que fosse esse o objectivo do texto. Mas umas contas rápidas (ver o fim do texto) permitem perceber que a incidência de novos casos de sida entre os homossexuais é cerca de 26 vezes superior à incidência entre a população heterossexual. E não são um grupo de risco?

É verdade que os heterossexuais apanham sida. É verdade que a sida é uma tragédia. É verdade que existe um preconceito que liga os homossexuais ao HIV. Eu acho que é preciso lutar contra ele. Mas não me parece que isso se faça pondo notícias enganadoras, meias-verdades-meias-mentiras, nas capas das revistas.

E sobretudo não percebo como é que um jornal como o Público se presta ao serviço de pôr na primeira página da sua revista de domingo uma notícia que, sendo falaciosa (ou será que a própria jornalista não conseguiu interpretar os dados? Não me parece...), apenas serve os interesses de um determinado lobby.

Vem acontecendo cada vez mais em Portugal: não-notícias que aparecem com grande destaque e passando mensagens queridas a determinados grupos de pressão. Curiosamente acontece muito ao fim-de-semana. Aproveitando as folgas dos editores?

Recentemente o provedor do JN deu um enorme puxão de orelhas a uma sua jornalista. O Público, o que fará?


Contas rápidas
Segundo os dados apresentados no texto (sem indicação de site onde possam ser consultados on line), neste momento 53% dos casos de infecção com HIV são resultado de contacto heterossexual. Segundo esses mesmos dados, 54,9% dos novos infectados são heterossexuais. Podemos concluir que 45,1% dos novos infectados são homossexuais.
Ora representando os homossexuais cerca de 3% da população total (como é habitualmente indicado nos estudos sobre a matéria), há 32 vezes mais heterossexuais do que homossexuais em Portugal.
Deste modo, 3% da população é responsável por 45,1% dos novos casos de sida em Portugal, enquanto os restantes 97% são responsáveis por 54,9%.
Isto significa que se considerarmos que 5 em cada 1000 heterossexuais contrairá HIV, no mesmo período o mesmo acontecerá com 131 em cada 1000 homossexuais (5x32x(0,451/0,549)) - 26 vezes mais.

Brisa

Nas portagens das auto-estradas da Brisa (não sei se nas outras portuguesas também)quem paga com Multibanco recebe um recibo automaticamente. Quem paga com dinheiro vivo só o recebe se o pedir.

A razão deste procedimento é para mim um mistério. Motivos contabilísticos da empresa? Motivos pessoais dos portageiros? Outros motivos?

quarta-feira, outubro 27, 2004

Anita, dia 153



Passei a noite a pensar na causa de morte da puta que ontem aqui deu entrada. Como o empregado nem sequer a despiu antes de a foder, não consegui ver se tinha algum corte profundo ou alguma marca que justificasse a morte. Não costumo preocupar-me muito com a causa da morte: um acidente, uma doença , o que for, aos mortos nada disso interessa. Mas despertaram-me a atenção as golfadas de sangue que a puta cuspia ao ritmo da fornicação do empregado. Para cuspir sangue é porque teve que ser cortada de alguma forma. De alguma forma ínvia as veias e as artérias estavam a fazer curto-cuircuito com as vias respiratórias.
Se isto da curiosidade nos vivos pode matar, nos mortos é o que distrai. Não resisti e fui espreitar o papelinho que pendia por um cordelinho de mercearia do dedo grande do pé. "numero 31". Muito bem. Ao armário. Um envelope depois, e eis que a senhora puta, afinal não era puta. Era uma mulher deficiente mental que se mascarara de prostituta para uma festa de bruxas no hospital psiquiátrico onde vivera durante 15 anos. Aí, parece que um outro doente, seu namorado, um psicopata com comportamento violentos, não percebeu o disfarce e num ataque louco de ciúmes, deixou-se tomar pela raiva de ver a mulher amada vestida para despertar o desejo porco dos outros homens. A faca do bolo da festa e uma força sobre-humana encarregaram-se de misturar os tubos do sangue e os tubos do ar.
Uma puta morta por amor. Eis alguma coisa que poucas mulheres podem dizer que lhes tenha acontecido. Eu, por exemplo, morri num acidente ocasional. Numa conjugação fortuita de acontecimentos parcelares sem qualquer intencionalidade. Se me tivesse atrasado, estaria viva. Mas ela não. Bastaria que o namorado a imaginasse naqueles modos lascivos e nada nem ninguém o impediria de a perseguir até ao fim do mundo para a matar. O orgulho desta mulher. Ser capaz de despertar noutro ser humano a vontade de matar. Raro, muito raro.

Boçalidade

Acho que a publicação do post anterior merece uma explicação. Publiquei-o por três razões:
1.ª-Porque é a prova de que a parte bonita de ser boçal é que há sempre alguém mais boçal ainda;
2.ª-Porque neste caso particular as pessoas até esperam que as claques de futebol sejam boçais, pelo que aquelas tarjas atingem o alvo em cheio sem chocarem particularmente as pessoas;
3.ª-Porque a polícia obrigou os elementos da claque a retirarem aquelas tarjas sem que eu perceba porquê...
A senhora em causa nem merece tanta publicidade, mas teve muita piada...

Diabos Vermelhos, olé!


Benfica-Nacional Posted by Hello
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Para a história

As fotos dos comissários que já não o serão. Aqui.

Ridículo

adj. que provoca riso; prestar-se ao ~ apresentar-se ou proceder de forma a provocar riso ou troça



terça-feira, outubro 26, 2004

Anita, dia 152



Há cento e cinquenta e dois dias que aguardo que alguém me venha buscar.
Eis que chega mais uma puta. Morta. Daqui não consigo perceber se se nota a causa da morte. Acho que está inteira. Odeio quando as putas chegam inteiras. O empregado começa a despir-se. È sempre a mesma história com o tipo que faz as escalas às terças. A rapariga deve ter mais cinco ou seis anos que eu, e não é difícil perceber que tem uma deficiência mental qualquer. A cabeça é demasiada grande para aquele corpo pequeno que o empregado já começou a foder. Como eu gostava que ela passasse ao estado de "rigor mortis" neste instante. A cabeça enorme bate inerte contra o inox da mesa de dissecação. O som parece vir directamente das nádegas peludas do empregado que se contraem ao bater contra o corpo. Para a frente e para trás, um anel de brilhantes num dedo, risca o metal da mesa. O som o é finíssimo e arrepia. Apesar de assistir a isto todas as terças-feiras, confesso que ainda me causa uma certa angustia ver este gajo magro a fornicar como um animal os orificio dos corpos que aqui apanha. Acho que é da vulnerabilidade destas peças de carne prestes a serem desmanchados pelos vermes e acho que é da solidão e do silêncio. Depois de o empregado se vir para cima desta mulher, depois dele apagar as luzes, não se ouvirá mais nada. Nada. Nem o som de umas molas de colchão que estalam quando alguém se vira e nem o dos lençóis a serem puxados. Não há um barulho que humanize este o escuro. É isso que me arrepia.

Sinto-me um pouco Marcelo

Num ano e quatro meses de escrita na Gabardina, pela primeira vez tive um texto pronto que não postei por medo das consequências que isso pudesse vir a ter para mim.

O post era, de qualquer maneira, justo e importante e, para quem conhece Coimbra, ele vem escrito hoje nas páginas do Diário da mesma (piada também só para Coimbrinhas).

Posto isto, vou empurrar o sapo com um copo de águas de Coimbra.

Quem anda a tramar a OPEP?

Esta subida rídicula dos preços do petróleo é algo de muito estranho, que nenhuma guerra no Iraque ou greve na Noruega pode explicar. As consequências de curto prazo estão à vista: subida generalizada dos preços, imprevisibilidade dos mercados, diminuição do crescimento económico dos países mais desenvolvidos.

Mas a longo prazo esta subida tem consequências bem mais graves. Os países cujas economias estão muito dependentes da exportação de petróleo não percebem que cada mês que passa com os preços neste nível são vários meses de avanço na investigação para a sustituição dos derivados de petróleo como combustíveis.

E o que se esperava vir a acontecer dentro de 20 ou 30 anos, poderá estar à porta no início da próxima década: carros e máquinas a hidrogénio, ou ar comprimido, ou seja lá o que for e a consequente diminuição drástica das importações de petróleo.

Estes países perdem a oportunidade de fazerem o caminho para o desenvolvimento vendendo a sua maior riqueza natural e o resultado poderá ser trágico. Para eles e para o mundo.

As perguntas que se impõem são: quem ganha com tudo isto? E quem tinha obrigação de os avisar e não o está a fazer?

segunda-feira, outubro 25, 2004

Anita 1


Os especialistas dizem que os textos sobre morte, sangue, morticínio, cemitérios e afins são uma fase. Os especialistas acham que o caminho tende sempre para a construção de romances apoiados na experiência de cada um. Não sei se é do cheiro a formol deste necrotério, se dos cadáveres com quem partilho o sono, a verdade é que só me dá para escrever sobre a grande ceifeira. Sou bem capaz de ter ficado para sempre a meio do caminho literário convencional. O que tem sentido, pois eu própria fiquei a meio do meu.
Morri. Isso mesmo. Morte morrida. Escrevo morta. Tenho 16 anos, chamo-me Ana, e morri num acidente de automóvel. Culpa do condutor. Eu limitei-me a atravessar a estrada na passadeira, depois de olhar para os dois lados. Excesso de velocidade, álcool e um broche da pendura foi a receita mágica. O camião acertou-me em cheio. Ambulância, hospital, reanimação e o pizinho da máquina continuo.
Morrer não foi problema, na verdade o impacto foi tão brutal que nem o recordo muito bem, o problema foi o que se passou a seguir. Como não levava identificação pessoal, ninguém sabia quem contactar, e por isso jazo ainda nesta morgue fria à espera que alguém relacione uma falta para jantar com um atropelamento. O que vai ser difícil, pois o outro lugar na mesa tem 70 anos e nem se lembra do nome. È pena ter esta consciência de que provavelmente ficarei aqui para sempre.
Por isso, escrevo para passar o tempo, para não me aborrecer e para encontrar algum sentido em estar morta. As histórias que se seguem serão honestas. Apenas contarei o que vejo e o que me contam os corpos que por aqui passam. Serão as histórias que os vivos nunca saberão e os segredos que só os mortos podem recordar. São a verdade de quem morreu.
Nasci há 16 anos, morri há cinco meses e começo hoje a contar as histórias que escuto nesta morgue.

Sobre o Buttiglione

só temos uma coisa a dizer: façam o que quiserem, mas que fique claro que nós avisámos com tempo que não aceitaríamos o Durão de volta.

Dúvida

Quando o ministro das finanças fala de princípio do utilizador-pagador em relação à Saúde, para que servem o governo e o sector público?

Continuamos cada um por si? Duvido que 99% dos políticos portugueses consigam sobreviver assim... Mas, por mim, vamos a isso?

O Captain, my Captain!



Percebi este fim-de-semana - obrigado SIC Gaja - que uma das coisas que Portugal precisa de fazer é subir à sua mesa e ver-se de outra perspectiva. Claro que para simultaneamente gritar "O Captain, my Captain!" seria fundamental ter alguém merecedor desse nome. Um dia ele sairá do meio do nevoeiro...

Eu decidi que, assim que os tempos o permitirem, não mais deixarei de chupar o tutano da vida. Foi por me ter esquecido de o fazer que cheguei aqui. Mas depois de sair deste lugar triste não volto a pôr cá os pés.

quinta-feira, outubro 21, 2004

Dúvida existencial

Quando o que os outros consideram que são as nossas qualidades são as coisas que nós consideramos que nos prejudicam, e o que eles consideram os nossos defeitos são as coisas que achamos que nos ajudam, onde é que se mete o requerimento para mudar de mundo?

Último post sobre este assunto

Gert Jan Verbeek:
"O Benfica foi roubado contra o FC Porto"

Mas ele deve ser suspeito...

Benfica-Porto e PSG-Porto

Descubra as diferenças
Entre estas duas imagens há uma pequena diferença, que foi decisiva para o desfecho dos últimos dois jogos do FCP. Descubra o que está errado e faça-lhe uma cruz por cima:



quarta-feira, outubro 20, 2004

dia de hoje

Hoje foi um dia especial para este Pais. O primeiro-ministro afirma a um jornal alemão -que pensa que por ser estrangeiro não é lido em Portugal- que "já basta de contenção orçamental". O ministro da presidência vai ao parlamento dizer que embora tenha sido ele que acabou com o Acontece na RTP2, alterou o contrato de concessão da RTP, acabou com os conselhos de opinião na RDP e RTP, e que vai criar um centro de imprensa para o governo, não quer, não pretende e tem ódio de quem ousa influenciar os conteúdos editoriais da televisão pública. Os lobos não comem erva, e esta gente não hesitará a pôr a pata, na liberdade de expressão. Quando policias exibem as suas caçadeiras de canos cerrados, atiçam os seus cães e agridem estudantes...

terça-feira, outubro 19, 2004

Animal político


GWB Posted by Hello
Recebido por e-mail.

Olha a cabala fresquinha!!!!!!

Neste governo tudo o que tem a ver com peixe é, claramente, ideia do Paulinho das feiras!

Ministro Gomes da Silva sugere cabala do "Expresso", PÚBLICO e Marcelo Rebelo de Sousa

E os próximos passos são fechar o Público e o Expresso, ou o governo contenta-se com a substituição das equipas editoriais?

Como estes testes nos fazem bem ao ego...





Você é "Imensidão Azul" de Luc Besson. Você é sonhador, único. Muito sublime e encantador(a).

Faça você também Que
bom filme é você?
Uma criação deO
Mundo Insano da Abyssinia




Obrigado abóbora!

segunda-feira, outubro 18, 2004

O meu programa de Governo

Porque acho que não vale dizer mal sem propor o que se acha ser melhor e porque, muitas vezes, aqui e noutros sítios, digo mal do que fizeram os governos em Portugal nos últimos dez anos, aqui fica o que seria o meu primeiro esboço de um programa de governo:

Saúde
Garantir a prestação de todos os cuidados de saúde, pelo sector público, a todos os que desejem usá-los.

Exigir que todos os profissionais de saúde que trabalhem no sector público o façam em regime de exclusividade (período de transição - 2 anos).

Proibir as empresas da indústria farmacêutica de fazerem ofertas de qualquer tipo a médicos que trabalhem no sector público.

Acabar com as restrições à abertura de farmácias.

Educação
Exigir que todos os professores que trabalham em escolas públicas cumpram horário completo.

Acabar com todos os subsídios a escolas privadas (incluindo as escolas e universidades católicas), garantido cobertura total através de escolas públicas no ensino obrigatório.

Fazer um pacto de regime que inclua pelo menos os dois maiores partidos, para definir os programas de ensino e as estratégias para a educação, válido pelo menos por dez anos.

Finanças e Administração Pública
Aumento imediato do salário mínimo nacional para 550 euros mensais (e da reforma mínima para o mesmo valor). Aumentos de 10% em cada um dos primeiros anos para todos os salários entre 550 e 1250 euros (excluindo os que tivessem beneficiado do primeiro aumento).

Reduzir a despesa corrente do Estado todos os anos ao longo de uma legislatura - 8% nos dois primeiros anos e 5% nos dois seguintes, de forma a reduzi-la para cerca de 75% da actual. Quase nenhuns motoristas (só o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o Primeiro-ministro e os Ministros teriam direito a um motorista cada, em toda a administração pública), muito menos secretárias, corte radical das despesas com ajudas de custo, despesas de representação, telefones e telemóveis, parque automóvel, papel, tinteiros e toners, racionalização dos edifícios do estado, indexação séria das contratações para a função pública a uma percentagem (menos do que 100%) das reformas do ano anterior.

Fazer um pacto de regime que inclua pelo menos os dois maiores partidos, para definir o desenho do governo, especificando todos os ministérios, secretarias de estado, outras entidades que a eles pertencem e as respectivas áreas de intervenção, válido pelo menos por dez anos.

Reduzir a taxa de IRC para 15%.

No terceiro ano da legislatura, acabar com os benefícios fiscais para as despesas de saúde e educação comprovadas com documentos de instituições privadas de prestação de serviços (hospitais, clínicas, consultórios e escolas) e simultaneamente redução da taxa normal de IVA para 17%.


Ambiente
Todo o parque automóvel do estado e todos os transportes públicos passam a utilizar a energia menos poluente possível.

Os edifícios do estado são obrigados a fazer reciclagem e a utilizar energias alternativas.

Economia
Centralizar toda a promoção turística e económica do país numa só instituição, utilizando a estrutura mundial de delegações de que dispõe o ICEP.

Passar para a responsabilidade de entidades independentes todas as áreas que devem ser geridas por princípios técnicos e não políticos (energia, ambiente, transportes, comunicações, etc...).

Defesa
Redução substancial da despesa com Defesa.

Afectação de todos os militares à limpeza da floresta portuguesa quatro dias por semana.

Cultura
Acabar com todos os subsídios à produção cultural, incentivando as entidades privadas ao mecenato através de fortes benefícios fiscais.

Obras Públicas
Responsabilizar contratualmente as empresas construtoras pela conservação das próprias obras (especialmente estradas) durante o seu período de vida útil.

Reinaldo's

O Sr. Reinaldo Teles é a verdadeira alma do FC Porto. Um homem com um enorme talento para descobrir novos valores. Os seus estabelecimentos Granada, Calor da Noite e Diamante Negro são os melhores exemplos disso...



Golo? Não...

Contenção

Porque me ando a tentar conter sobre o jogo de ontem, ficam as palavras de outros, dos que são insuspeitos:

Como sportinguista, só posso dizer que gostei muito de ver os jogadores do Porto a trabalhar. Sobretudo aqueles que estavam vestidos de preto.
Daniel Oliveira

Como dizia um portista, grande amigo meu

Nós sabemos que quase sempre roubamos, mas roubadinho ainda sabe melhor...


Roubo Posted by Hello

sexta-feira, outubro 15, 2004

O pontilhismo orgânico.



Andar pela cidade tem coisas assim. Vai uma alminha a pensar na vida em passo de pensar na vida, quando de repente no centro do centro, num sítio por onde passam milhares de pessoas diariamente, uma forma estranha entra pelo enquadramento dos olhos e um novo movimento na arte nasce. A técnica utilizada pelo artista é o chamado pontilhismo orgânico e pode ser encontrada nos passeios, nas escadas e em alguns casos de virtuosismo técnico em paredes.
O pontilhismo orgânico, ou mais vulgarmente designado por vomitado, exprime através da cor, densidade, forma, continuidade, projecção e textura, toda a identidade idiossincrática do artista. Pela obra que descansa em cima da calçada, é possível ao olhar experimentado e critico, avaliar todas as influências daquele quadro. Se a arte é resultado de determinadas condições histórico-materiais então o pontilhismo orgânico é disso o exemplo acabado. Se, para além da representação figurativa, a pintura pode ser ela própria a representação do movimento ou do gesto, como em Pollock por exemplo, então o pontilismo orgânico, vulgo cabritado, assume-se hoje, como o maior desse expoente. Não são os gestos do braço, mas as pulsões violentas do estômago, não são os traços longos, mas os desvios das ancas.
Recém chegado aos movimentos da arte, este tipo de pontilhismo não pode deixar de ser "engagé" politico-ético-filosoficamente. Comprometido com a limpeza do vestuário, com a direcção do vento e com a fluidez das linhas.
Arte democrática, popular e acessível a todos o pontilhismo orgânico sofre do movimento censório típico das sociedades burguesas. Se o grafitti conseguiu vencer o lápis azul dos funcionário das edilidades, o vomitado no passeio luta todos os dias contra esses esbirros do poder opressor. Deixem o vomitado em paz e assim se defenda a ultima cristalização artística da cultura urbana deste princípio de século

quinta-feira, outubro 14, 2004

Clássico

Há uns dias alguém me falava da Ucal como um exemplo de má imagem ou de imagem datada. Por favor, não acabem com os símbolos da minha juventude. A garrafinha da Ucal não é velha, nem datada. É um clássico, como o mini ou o carocha, ou a garrafa de coca-cola.
Há que beber. Mas só naqueles copos grossos, com gomos verticais de sete ou oito milímetros de largura. Noutro copo não sabe ao mesmo...



Bons velhos tempos

Bons tempos esses, em que as revoltas dos estudantes eram boas e justas.
Bons tempos em que os revoltosos eram garbosos rapazes lutando contra um sistema injusto.
Boas revoltas, feitas com categoria e inteligência. Basta ver como estão os revoltosos desses tempos hoje: abastados professores, políticos, médicos, advogados e jornalistas. Boa gente, digna, fato e gravata, dedicada à causa pública e também à privada. Grandes carros, boas casas, gente famosa. Por aí se vê a qualidade dessa gente.
Mas hoje deixem-nos em paz. Estamos no poder e não temos paciência para meninos que acham que o seu sistema é injusto. Se não gostam vão-se embora! E por isso escrevemos e nos revoltamos nos jornais. Sim, nos jornais onde nos PEDEM para nós escrevermos a nossa opinião. Textos que as nossas secretárias alinhavam e passam e que, depois de uma ou outra correcção, as mandamos enviar para as redacções. "Encarrega-me o Sr. Dr. de lhe fazer chegar o seu texto sobre..."
Bons tempos em que ajudámos a fundar esta justa e bela sociedade em que vivemos hoje. Não eramos como estes miseráveis, apesar de alguns deles nos copiarem as barbas...

Texto sem fim

È impressão minha ou os carregadores de telemóveis que se compram nos indianos cheiram a caril. Seria impressão minha, se eu não tivesse aberto um, e visto com os meus próprios olhos. Sim! vi com os meus olhos que o interior de um carregador que custa 2,99 Euros num indiano, cheira a caril. Vi que cheira? Bem, talvez ao abrir para ver, então, me cheirasse ao que já me cheirava cá fora: a caril.
Um carregador de telemóvel é coisa fácil de construir. Na Suécia trinta mecanismos hidráulicos, na Índia um miúdo de seis anos. Na Suécia o cheiro a esterilizado, na Índia o cheiro a caril. O cheiro... e o próprio caril, pois senhores, que eu fique já aqui ceguinho, se dentro do carregador de telemóveis nokia que eu ontem desmembrei pacientemente ao almoço depois de comer uma maçã starking vermelha, não havia um liquido. Um liquido acastanhado, denso. Com pigmentos de várias formas e feitios. Faltava o arroz, mas que aquilo era caril... Ah, isso era!
Feita a descoberta e lamentado o arroz, juntei as peças do carregador-cataplana e lixo com ele. Depois, desci a escadas, desci a rua, e subi ao chinês mais próximo. " queria um carregador para Nokia". Passada a barreira linguística, eis que dentro de uma malga de arroz adeuzinho-adeuzinho, surge um carregador que qual ambientador "Brise" expele um gracioso cheiro a banana fá-si. Incrédulo voltei à loja onde aliás continuo, mas agora escrever este "post". Entrei, e fui logo indicado para a parte escondida da loja. Direita, esquerda, corredor em frente, desce escada...bem, estou cercado por caixas de cartão num armazém sem fim. Perdidíssimo... há uns computadores velhos de onde escrevo...e mais nada. Caixas, caixas e mais caixas.

quarta-feira, outubro 13, 2004

Pagar e calar em Saúde, ou o futuro do ex-SNS

No Mar Salgado a tripulação discute a Saúde em Portugal. O Capitão não vê nenhum mal em que haja lucros na Saúde, e nas suas palavras percebe-se a total descrença na competência pública para gerir.

O caminho que seguirão os Hospitais SA é fácil de adivinhar: os maus hábitos de trabalho nos hospitais, a incompatibilidade da eficiência do trabalho médico com o lucro dos consultórios privados dos médicos e o poder da indústria farmacêutica dentro dos hospitais levarão, inevitavelmente, a défices nas contas no fim de cada ano. Premeditadamente ou não, o governo alegará que não tem capacidade financeira para novos aumentos de capital dos seus hospitais e, logo de seguida, os principais credores (grandes grupos financeiros interessados na área da saúde) dirão "se não nos pagam, passamos a ser os donos dos hospitais". O primeiro-ministro fará uma comunicação ao país afirmando que a privatização dos hospitais é um caminho desejável e que, no fundo, há males que vêm por bem e... estará concluído o processo de privatização.

Mas entre os vários problemas que a privatização dos SA coloca, um se destaca: na área de influência de um hospital privatizado, esse hospital será monopolista na prestação de cuidados hospitalares. E o Estado será, praticamente, o seu único cliente. Quem tem o poder de fixar o preço dos cuidados nesta situação? O fornecedor, obviamente, já que o cliente (Estado) não pode recusar-se a consumir. E quando o hospital decidir cobrar pelos seus serviços valores muito superiores ao seu custo, o que fará o Estado? A única coisa que pode fazer: pagar e calar...