quinta-feira, dezembro 30, 2004

Adeus 2004: Porque

Chega o fim do ano e acho que é suposto dele fazer o balanço e o resumo. Penso que texto repostaria como "o" do meu ano. Só me vem à cabeça este, que ainda há poucos dias revi aqui ao lado, no Amor e Ócio. Talvez também por isso, mas, de certeza, pelos dois significados que nele consigo ler e pela média que ele me parece indicar, logo a mim que não gosto nada de médias...

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia Andresen

Até para o ano!

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Movimento de Utentes da Saúde

À medida que a situação do país piora - e ela não não pára de piorar há mais de dez anos - as pessoas começam a agarrar-se só ao essencial.
Já poucos querem ouvir falar de défice, de convergência, de economia, de investimento. As grandes preocupações voltam a ser mais básicas: saúde e educação.
Em Coimbra nasceu um movimento de cidadãos preocupados com o estado da saúde em Portugal. Um Movimento que faz muito sentido numa época em que a Saúde passa a holding e a prometida Entidade Reguladora não parece ter vontade de arrancar. Podem visitá-lo aqui.
É a nação que ainda mexe. Ou, pelo menos, estrebucha...

Masoquismo

Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain,
I'll be on my knees to feed her,
spend a day to make her smile again
Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain
As the world is soft around her,
leaving me with nothing to disdain.

Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe and sound.
Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe from harm.

The sun sets on the war,
the day breaks and everything is new...

Contra a co-incineração... Matilde

Matilde Sousa Franco será a cabeça-de-lista do PS por Coimbra.

"A ela ninguém fará perguntas sobre a co-incineração!", poderá ter sussurrado Tó-Zé Seguro ao ouvido de Sócrates.

Para Setúbal fala-se já daquela simpática velhota portuguesa de 112 anos, a segunda mais velha do mundo.

Grande homenagem à sua candidata fez o líder do PS local, Victor Baptista, ao afirmar que "a escolha é um sinal de que o PS não esquece Sousa Franco".

terça-feira, dezembro 28, 2004

Partir e ficar é possível

As grandes viagens de carro têm em mim um duplo efeito. Gosto muito de viajar assim, de ver a paisagem, de parar onde e quando me apetece, de ir sem rumo. Mas deprime-me sempre um pouco pensar nos milhares de histórias que passam por mim na auto-estrada sem que eu dê por isso. Dentro dos carros e das auto-caravanas passam milhares de histórias de vida: discussões, paixões, gritos, beijos, solidões... de vidas que nunca conhecerei.

Às vezes acontece o contrário também. Às vezes, em estradas diferentes, em direcções divergentes, duas pessoas vão mais juntas que nunca. Apesar de irem em carros diferentes, de se estarem a afastar, levam-se uma à outra.

Anita dia 209 (cont)


A massa orgânica putrefacta que explodiu da barriga do homem e que me olhou bem nos olhos, está sossegadinha dentro de um frasco redondo de formol. À interpelação de ontem reagi com medo. Afastei-me e meti-me debaixo dos meus lençóis: duas placas de aço inoxidável. Espreitei para a sala e durante duas horas observei como se suspendia no meio da sala. Tinha a forma de um ramo de flores, a textura dos caules encostados uns aos outros e a cor da caraça de um canídeo surpreendido pelo rodado massivo de um autopullman em serviço para Santiago de Campo das estrelas: vermelho escuro, com linhas pretas da coagulação ao sol a envolver o branco dos tendões sujos do macadame que milhares de automóveis já pisaram. Rodava si mesmo lentamente como se me procurasse. Demorou-se e acabou por cair no chão, como no chão cai o esparguete.
Pelas nove da manhã uma pá de plástico segura por uma mão feminina raspou a massa seca do chão, verteu-a ainda liquida para dento de uma tina e dai para dentro de um frasco com o seguinte rótulo. "eflúvio magnético-orgânico nº 43 009".
Na sala dos frascos há milhares destes contentores transparentes. Filas que cruzo perpendicularmente sem nuca ver o fim. Aproximo-me de uma das tinas e a minha cara modela-se à forma do vidro. A cabeça decepada que inchada está assente pelo queixo no fundo do frasco redondo, abre olhos que aumentados como que por lupas, pestanejam descompassados as longas pestanas: bigodes de camarão pretos e esverdeados. Abre o direito, fecha o esquerdo. Fecha o esquerdo, abre o direito.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Aforismo

Não sou homem de uma mulher só.
Sou homem de uma mulher acompanhada.

PSD: Couve-flor deverá ser cabeça-de-lista por Coimbra

Garantido, para já, é que o número dois da lista laranja por Coimbra será ocupado por uma beringela, mas tudo parece indicar que será uma couve-flor a dar a cara pelo partido na cidade dos estudantes.

Depois de o artista anteriormente conhecido como Pequeno Saul ter recusado encabeçar a lista, alegando que tem "uma imagem a defender" e que considera "indigno que um partido apresente uma beringela na sua lista", o PSD ficou numa posição difícil no distrito.

Agora, com a couve-flor prestes a aceitar o desafio, o problema parece ultrapassado. "A Dra. Beringela é um legume honesto, trabalhador, e terei muito orgulho em contar com ela na minha lista!", afirmou a couve, em declarações exclusivas à Gabardina.

Este blog está também em condições de anunciar que, caso falhem as negociações com a florida couve, os laranjas convidarão Marcelo Nuno ou um dos administradores da Metro Mondego para o lugar. Estas personalidades demonstraram já disponibilidade para verem reduzidos os seus salários de gestores municipais, de forma a poderem ocupar o lugar de deputados da nação.

Em reacção a esta notícia, o PS local, pela voz daquele que era o preferido para encabeçar a súcia lista, afirmou: "Uma vez que o PSD apresentará uma couve-flor, nós apresentaremos um candidato à altura de lutar com os nossos rivais!" Parece ser assim claro que o candidato socialista por Coimbra será Ricardo Castanheira.

Crítica literária

No Cem Anos de Solidão as personagens têm todas o mesmo nome.
É assim uma espécie de Série Fonseca do Gato Fedorento, mas com menos piada.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

BOM NATAL!


 

Venha de lá esse amaço!

Recebo um mail de uma amiga que, a propósito da minha receita para um texto de Natal, defende o abraço em vez do texto, afirmando que "mil amaços (sic) valem por mil palavras..."

Depois do primeiro riso, vejo o lado poético da frase. De facto, uma amasso não é uma coisa muito bonita. Faz até lembrar a operação de Natal da GNR. Por isso acho que a nova palavra faz toda a falta na língua portuguesa. O amaço é o amasso entre duas pessoas que se amam.

Assim sendo, bons amaços neste Natal é o que desejo a todos os leitores da Gabardina!

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Receita rápida para uma mensagem de Natal/Fim de ano:

INGREDIENTES:

1 evocação do ano que agora finda
1 demonstração de espírito natalício
4 adjectivos simpáticos
2 elogios ao interlocutor
2 palavras de conforto
1 grande esperança no futuro
2 promessas para o ano que começa
1 abraço particularmente carinhoso


PREPARAÇÃO:

Corte a evocação do ano que agora finda em quatro pedaços, retire a parte cinzenta do miolo e os caroços.
Na batedeira, bata a evocação, a demonstração de espírito natalício, os adjectivos simpáticos e os elogios ao interlocutor.
Misture as palavras de conforto.
Junte tudo e misture bem.
Leve ao papel por aproximadamente 2 páginas ou ao écran por 1 e meia em folhas de papel pesado e com motivos natalícios ou em écran com uma imagem bonita em fundo.

Para finalizar, misture as promessas para o ano que começa e o abraço.
Junte o carinho que foi deixando ao longo do texto e junte-o no grande abraço final.
Meta num envelope ou faça send.

Hino para 2005

Muda de vida
Se tu não vives satisfeito
Muda de vida
Estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida
Não deves viver contrafeito
Muda de vida
Se há vida em ti a latejar


Canção de António Variações na voz de Manuela Azevedo

terça-feira, dezembro 21, 2004

Brrrrrrrr

Cada vez me custa mais ler os jornais do dia. Só nos regionais de hoje vejo:

1.a vice-reitora da Universidade de Coimbra a exibir, sorridente, um cheque oferecido pelos maçons deste país, enquanto o grão-mestre destes sorria como se estivesse a ser fotografado ao lado do seu cavalo premiado;

2.que o eng.º Sócrates se sente de tal forma confiante de que ganhará, que se permite fazer campanha com base na sua medida mais polémica enquanto ministro do Ambiente - a co-incineração;

3.que só no último minuto o primeiro-ministro gestionário cancelou uma condecoração ao FC Porto, clube cujo presidente, no cargo há mais de 20 anos, é arguido em vários casos que envolvem a corrupção de árbitros de futebol.

Brrrrrrrrrrr.... Está tudo doido no rectângulo!!!

Os que trabalham estão de férias

Coimbra, 20 de Dezembro. Nas ruas mais movimentadas da cidade, onde normalmente é preciso dar dez voltas ao quateirão para arranjar estacionamento, sobejam os espaços para parar o carro. Estão de férias, desde sexta, pelo menos, aqueles milhares que passam o ano a bater com a mão no peito e a dizer "Ai que eu trabalho tanto!". As suas ocupações, sempre importantes, sempre inadiáveis, sempre difíceis, sempre impossíveis de realizar por qualquer outro, ficarão abandonadas até 3 ou 4 de Janeiro. "Faço sempre uns telefonemas para ver se não há stresses!"

São os mesmos que a 15 de Julho partem e só voltam a aparecer lá para meados de Setembro. Os mesmos que não dispensam uns diazitos na Páscoa, porque andam cansados. E mais uns dias aqui e uns dias ali...

De facto, eles fazem bem em apregoar o resto do ano que trabalham muito e que andam muito cansados. Se assim não fosse, até poderíamos pensar que trabalham pouco...

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Baba

Agora acordo todas as manhãs com aquela sensação de que me estive a babar grande parte da noite. Todos me dizem que é porque tenho o nariz entupido. Mas eu sei que isto só me acontece quando sonho contigo.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

E nós temos vergonha de ti

e de nós próprios, por termos permitido que alguém tão incompetente como tu passasse de porteiro da secretaria de estado.

O secretário de Estado adjunto do Ministério da Administração Interna, Paulo Pereira Coelho, que esteve na origem do pedido de demissão do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC), afirmou-se "envergonhado" com o organismo, que acusa de desconhecer "que riscos existem em Portugal e com que meios os pode combater".

Portugal, século XXI

"Andavas de jerico a vender cifões de retretes e agora, depois de dez anos no poder, tornaste-te milionário, ninguém sabe como..."

Deputado do PS Madeira dirigindo-se ontem, no parlamento madeirense, ao Vice-presidente do Governo Regional, Jaime Ramos

terça-feira, dezembro 14, 2004

TOTAL BICHANICE II

Depois das bichas da Quinta das Celebridades, eu pensava que já tínhamos atingido o cúmulo da bichanice em Portugal. Descubro agora que provavelmente ainda não. Começa amanhã em Itália um novo reality show em que 5 gays têm 24 horas para transformar um macho num metrossexual (n.d.r. palavra politicamente correcta para dizer gay, homossexual, bicha, rabeta...).

Já imagino o Castelo Branco a tratar das sobrancelhas do ZéZé Camarinha...

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz

ou
há portas que se fecham e nunca mais se abrem...

Come bolacha, mendigo, come bolacha!

Nesse clássico injustiçado do cinema português que é o "Rei das Berlengas", de Artur Semedo, há uma fantástica personagem que, passeando na sua cadeira de rodas pelos corredores do seu palacete, arrasta por uma trela o seu "mendigo particular", que alimenta a bolachinhas esticadas para trás, por cima do ombro.

Em 2004, em Portugal, não faltam donos de palacetes a alimentar os seus mendigos particulares. O facto de haver mendigos só permite à gente boa deste país esticar bolachinhas para trás e dormir, por isso, de consciência tranquila.

O que seria de Portugal sem mendigos? Para onde iria tanta bondade de gente endinheirada se ninguém precisasse das suas esmolas, das suas bolachinhas? Mesmo a classe média sente-se reconfortada por poder dar o seu quilito de arroz de vez em quando no supermercado.

Claro que alguns dos que me lêem estão neste momento a pensar: pelo menos quem dá faz alguma coisa.

Talvez no curto prazo a bolachinha seja importante. Mas no longo prazo, está essa gente disposta a prescindir dos seus salários muitas centenas de contos por mês para que os seus mendigos particulares possam ter salários justos? E estão dispostos a prescindir de três dos seus quatro empregos, que conseguiram movendo influências, para que os seus mendigos também possam ter emprego?

Eu acho que não. Acho que os portugueses que ganham mil contos por mês preferem dar 50 todos os meses aos seus mendigos a aceitar ganhar 500 para que o mundo seja mais justo. Assim dormem de consciência tranquila, aparecem nos jornais como bons cidadãos e, um dia, outros como eles ainda darão o seu nome a uma rua, porque foram caridosos e preocupados com o próximo. Na verdade deviam fazer-lhes uma estátua, a esticar uma bolachinha para trás.

anita dia 209

Hoje assisti a uma erupção. Ao Etna dos necrotérios. Uma projecção ascendente de material incandescente a tresandar a decomposição e a verdete. Uma explosão avassaladora e verticalíssima. O corpo estava há 3 semanas esquecido na lixeira municipal. O cheiro é uma nuvem densa e baça. Lenta e penetrante. Uma serrilha de pontadas acres no nariz, de que só o leve odor distante causa uma pulsão incontrolável no estômago, e obriga à tosse seca que antecede o seu vazamento violentíssimo. É um homem magro, a quem são visíveis as costelas e os ossudos nós dos dedos. Tem uma enorme barriga. Inchada, esticada, redonda e curva. A luz da lâmpada que cai sobre a mesa de dissecação, rebrilha sobre a pele em tensão e é reflectida pelo umbigo, que em vez de estar para dentro, se espeta para fora roxo e hirto. E mexe. Lateja e parece respirar. Este abdómen, feito um globo cheio do tamanho da envergadura dos braços do homem, move-se. Os vermes que devoram o corpo decadente acertam os movimentos. Em vez das muitas e minúsculas ondas de energia que em relevo passariam para fora da pele, é visível um enorme cobrão cor-de-rosa feito de milhares de vermes brancos a moverem-se cadenciados. Do início dos pêlos púbicos até aos tendões do pescoço a onda da decadência do corpo serpenteia de baixo para cima, e de cima para baixo. As pálpebras, coladas pelo muco pegajoso feito de água da chuva que vai atravessando os níveis de uma lixeira urbana, abrem-se. Está vivo! Os vermes voltaram-no a ligar para que vivendo produza mais material orgânico e assista. Assista e sem se poder mexer olhe o cobrão que nele mora, a deliciar-se com as suas entranhas. Está quente. Muito. A pele...a pele...tensa. Afasto-me. Oiço o umbigo a estalar, um jacto de matéria orgânica putrefacta é projectada contra o tecto e cobre a lâmpada do candeeiro, escurecendo a sala. Então, um rasgão na cútis abre-se como se abrem as falhas na terra nos terramotos, e um cilindro de larvas levanta-se no ar com uma vontade incontrolável. Eleva-se e esvazia o corpo de tudo. Toda a matéria orgânica deste corpo numa efervescência que veloz se projecta perpendicular ao tecto. Olho do chão para a massa que se eleva. Cilindro de vasos sanguíneos, ossos liquefeitos, vermes, órgãos em decomposição e tecidos infectos. Pára. E não se desfaz no tecto. Suspende-se. Paira. Ganha uma forma e uma ordem. Alguns dos vermes soltam-se e caiem-me ao lado como se não fizessem parte da forma que eclodiu do corpo.
- Quem és tu? - pergunta uma voz que vem do interior desta massa que se suspende por cima do cadáver esvaziado pelo abdómen.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

anita dia 205


O padre alisa a sotaina preta com ambas as mãos. Sentado, ao lado do representante do povo, leva a mão em punho à boca. Tosse, para limpar o trato respiratório do tabaco, e pisca os olhos para focar a janela à sua frente. Sentados a seu lado: os representantes da justiça, das famílias, da comunidade e do povo em nome qual tudo isto vai ser feito.
Estou sentado e tenho dois guardas vestidos de azul ao meu lado. Um molha uma esponja, e coloca-a por debaixo da armação em ferro que transmitirá uma descarga de 70.000 wats directamente ao meu cérebro. O outro, prende as correias de cabedal com fivelas. As pernas cabem à justa. Os pulsos ficam bastante apertados. Tenho 30 anos, 250 quilos e a curiosidade de saber como é morrer numa cadeira eléctrica. Curiosidade é o que me resta ter. Aqui ou há medo ou curiosidade. E ter medo de morrer é o mais conveniente que podemos fazer aos outros. Os guardas afastam-se, depois de me terem colocado na boca uma placa de cobre presa a uma máscara preta. Sufoco com uma massa metálica que me enche a boca e que em breve me derreterá a língua. Estou numa sala com uma cadeira e uma janela de vidro. Estou amarrado por cabedal e ligado a fios que em breve me vão fritar. Olho sempre nos olhos dos meus executores: um padre, um representante de alguma coisa e os familiares. Como somos idênticos no desejo de matar. Como é idêntica a vontade de chacina da lei da ordem e a minha.
Matei. Muitas. E arrependo-me. Muito. Arrependo-me de nunca ter tido a inteligência de matar alguém com o ritual com que me assassinam a mim. Arrependo-me de nunca ter conseguido matar em público, com assistência a aplaudir em vez de me ameaçar. Como eu gostava de ter podido esventrar, fritar, queimar pessoas vivas à vista de todos. A preparação...a execução...o fim... Mas não foi assim, não sou padre, representante do povo ou familiar. Sou apenas um assassino pobre e sem poder...e por isso, a minha única consolação talvez seja morrer como gostava de ter matado.
Uma tremura, músculos tensos, sinto a urina a ferver dentro de mim. Derretem-se-me os intestinos, o cérebro incha, se não fosse a máscara que tenho à frente da cara os olhos saltavam das órbitas. Outra descarga. Fervo por dentro? sinto a implosão do musculo cardíaco, o rasgar dos pulmões. Tusso sangue, pleura, e algumas costelas. A electricidade fez do meu interior uma papa vermelha e quente. Arrefeço, apanham-me com um balde. Vertem-me para um saco do lixo preto. Sou Papa. Sou levado para o necrotério. Sinto uma superfície plana por debaixo de mim.

Depois do saco preto ter chegado e porque queria saber se já consigo voar para fora desta sala, agarrei-o com os pés feitas garras e levantei-o no ar, e sai pela janela. Voo agora por cima da cidade que em sossego recupera energias para amanhã ser outro dia um pouco mais hedionda. Seguro o saco. Apetecia-me deixar cair esta massa uniforme de ossos e músculos em cima de uma praça qualquer. Num Domingo em que aqueles em que nome do qual isto foi feito pudessem sentir o sangue acre coalhado e podre a manchar-lhes as camisas e os sapatos. Pairo, consciente do poder que este saco de pessoa me transmite. E continuo a pairar. E pairarei, até as minhas asas de gárgula se cansarem e me obrigarem a voltar.

SOS!!! OS MEDÍOCRES CONTINUAM NO PODER!!!

terça-feira, dezembro 07, 2004

Lição de alternância democrática

Até à vitória de Durão Barroso e do PSD nas últimas legislativas havia uma prática em Portugal que, apesar de reveladora da pouca-vergonha do país, acabava por ser saudável: o governo que entrava dava um pontapé no rabo a todos os militantes do partido do governo anterior que encontrava pelo caminho e que não estavam protegidos com um vínculo definitivo à função pública.

Durão Barroso foi mais inteligente e percebeu que de nada valia andar a despedir gente que voltaria a ser contratada na próxima mudança de poder. Assim, socialistas, sociais-democratas e populares poderiam conviver alegremente na administração pública, sem sobressaltos, sem despedimentos, sem conflitos. E tudo apenas com prejuízo da despesa corrente do Estado.

O caminho foi fácil: convenceu-se a Ferreira Leite a congelar as contratações para a função pública, o que permitiu que durante dois anos e meio apenas tenham sido contratadas pessoas por pedido expresso dos responsáveis das entidades. Ou seja, pessoas dos partidos e seus amigos. Em contrapartida os socialistas foram-se arrastando nas instituições, sem serem despedidos e à espera da mudança de governo para voltarem a progredir na carreira.

Mas o que Durão não previu foram dois anos e meio de guerrilha interna dentro das instituições do Estado. Os socialistas apreciaram o facto de não terem sido despedidos, é verdade. Mas não deixaram de ser socialistas por causa disso. Fizeram campanha, passaram todas as informações escandalosas possíveis para fora, sabotaram tanto quanto puderam o trabalho do governo.

Os do PSD talvez tenham aprendido a lição. Mas, se perderem as próximas legislativas, tê-la-ão aprendido demasiado tarde. Se os socialistas forem governo teremos 13 anos consecutivos (6 de Guterres, 3 de PSD e 4 de Sócrates) sem despedimentos de socialistas na função pública. O Estado será deles. Os socialistas, por outro lado, sabem bem o que têm que fazer se não quiserem ser sabotados a toda a hora e todo o instante: assim que ganharem as eleições devem correr com todos os tipos do anterior governo que sejam de nomeação política ou que ainda estejam a contrato. Assim, a lição estará terminada.

Resposta ao Santana ou a premonição do Pessoa

Sampaio, o anti-Mostrengo

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Falm, falam, falam, falam, falam, falam... (versão II)

Isto o que aconteceu foi muito simples!

O que aconteceu foi que eu estava em Belém na inauguração da maior árvore de Natal da Europa, sim, repito, da Europa, porque nós quando fazemos as coisas é em grande, e virei-me para um turista que lá estava e disse-lhe:

- Lá na tua terra não tens disto pois não? A maior da Europa, a MAIOR!

E o gajo vem com uma conversa do género: Ah, não sei quê, no meu país preferimos gastar dinheiro em outras coisas, por exemplo a evitar que rebentem condutas de água, que levam ao abatimento do solo, e dessa forma prejudiquem milhares de pessoas...mais não sei que mais e o camandro!

E eu, que até sou um gajo que é pá, tenho uma facilidade na exposição de argumentos, não me fiquei e disse-lhe logo:

- A maior da Europa! Toma! Embrulha!

E o gajo começa a falar que não sei quê, lá no país dele quando começa a chover as zonas ribeirinhas não ficam inundadas, e que talvez fosse melhor que, em vez da árvore, o dinheiro fosse canalizado para evitar essas situações.

Eu comecei a enervar-me e disse-lhe logo:

- Mau, tu queres ver que nós temos que nos chatear! Eu estou aqui a expor argumentos que é pá sim senhor, e tu vens com essa conversa de não sei quê. Eu nem quero começar a falar na feijoada em cima da ponte, nem no desfile de "pais natais", porque senão nem sabias onde te meter pá.

O gajo começa a falar de uma coisa qualquer, tipo túneis que são construídos e ficam a meio, e não sei que mais, e eu virei logo costas.

Porque quando eu vejo estes gajos que não conseguem aceitar a superioridade de um país sobre o outro, e ainda falam, falam, falam, falam, falam, falam, e não dizem nada de jeito, eu fico chateado, claro que fico chateado!!

(recebido por e-mail)

Momento Natalício

Portugal outside is frightful
But the fire is so delightful
And since we've no place to go
Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!

It doesn't show signs of stopping
And I've bought some corn for popping
The lights are turned way down low
Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Anita - dia 200



Por volta das três da manhã, enquanto escutava o som das gotas de chuva caírem na mesa de dissecação metálica e, reparava que a minha audição já se desenvolvera ao ponto de conseguir escutar as gotas cortarem o próprio ar, um som, que nunca tinha escutado, fez-me franzir os olhos de surpresa, esperar pela saída dos funcionários e espreitar pela gaveta. Esperava e imaginava. O que ouvi não era o som a que me habituei de um corpo a ser depositado na bancada de dissecação. Era um som que se dividia em dois. Mas também não era o som normal de duas pessoas a serem depositadas na banca, era qualquer coisa de intermédio. Era o som de uma pessoa e meia a cair no inox frio. Um corpo e meio. Uma jovem mulher, com a sua jovem filha. Saí da gaveta, pairei de asas abertas (sim, o meu corpo tem vindo a mudar a sua forma humana, mas falarei disso noutra altura) sobre os corpos, e porque queria perceber aquela estranha vista, entrei na desfigurada mãe para lhe perceber os seus últimos minutos.

Vamos pôr a cadeirinha, assim, isso. Tanto soninho que ela tem. Vá, já vamos ter com o papá. Agora a mãe vai fechar a porta, cuidado.
"Na ligação 2º circular - campo grande o trânsito continua intenso, mas não há noticias de acidente. Conduza com precaução que o piso está molhado e tenha um bom fim-de-semana na companhia da TSF".
É só sair de Lisboa que depois já não apanhamos mais trânsito, vais ver, não é bebé? Diz mamã, mã-mã. Tens de dizer mã-mã antes de papá. Combinado?
Isso dorme...
Rádio baixinho. Desligar o rádio. Que seca de viagem. Espero que ele já tenha chegado. Vou ligar. Aqui não há rede. As luzes. Sinais de luzes. Que estrada apertada. Oh, meu amor disseste mamã?Esquerda, direita, luzes de frente...

A jovem mãe, excelente condutora e mulher amadíssima pelo seu marido conduzia atenta. A chuva intensificara-se e a estrada era um monótono caminho de curvas e contra curvas que esta mulher negociava facilmente. O silêncio da viajem e o cansaço de uma sexta-feira à tarde obrigavam-na a semi-cerrar os olhos e piscá-los com mais força. Antes de uma curva para a direita, e depois de ter escutado a sua filha a remexer-se na cadeira, o primeiríssimo: mãã, despertaram-na. Com o sorriso, como é o sorriso dos pais que ouvem os filhos a dizerem pela primeira vez o nome pelo qual os tratam para o resto da vida, virou-se para trás para, sem se aperceber que saia da sua faixa, seguir em frente na curva. Um forte virar no volante manteve o carro dentro dos limites do alcatrão, mas estava contra-mão e um camião aplacou-a frontalmente.

Sinto-me a mudar. Fisicamente. Tenho indiscutivelmente mais força do que alguma vez tive, a audição e em geral todos os sentidos estão a cada dia mais apurados. Os voos esporádicos dentro do edifício são hoje quase diários e as asas recolhem e abrem cada dia mais depressa. Dentro em breve devo conseguir sair daqui. Preciso de um espelho, preciso saber em que é que me transformo. Qual irá ser a minha forma final.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

O verso do sistema

Depois de a Gabardina ter apresentado o reverso do sistema, eis que a Judiciária ataca a sua cara! Nos últimos três dias até apetece ter esperança no país...

A Polícia Judiciária deteve hoje quatro árbitros e um empresário de futebol e procedeu a buscas na Torre das Antas, de acordo com uma informação divulgada na tarde desta quinta-feira pela estação televisiva SIC.

O problema lista de casamento

Os novos excêntricos de Portugal fizeram sonhar o país. Dois tipos de Moreira de Cónegos que ganham, de um dia para o outro, ganham 43 milhões de euros, mexeriam sempre com a imaginação dos portugueses. Mais mexeram ainda quando a maior parte destes vive com dificuldades que 43 mil resolveriam no curto prazo...
Nos dias que se seguiram ao sorteio ouvi duas ou três pessoas próximas dizer: "Eu oferecia logo uma casa a cada um dos meus amigos!" Não era falta de vontade de presentear os meus amigos, mas aquilo não me soava bem... De argumento em argumento, cheguei finalmente a um que me satisfez e que mereceu a concordância dos meus interlocutores: o "problema lista de casamento".
Qual é o problema lista de casamento? Tenho reparado que as pessoas que se casam se debatem sempre com um mesmo problema: tendo um número máximo de pessoas que podem convidar, há sempre algumas que ficam na fronteira e acabam por não poder ser convidadas. Seriam as primeiras a sê-lo se existisse a possibilidade de fazer mais meia dúzia de convites, mas não há... E isso significa sempre um certo mal-estar entre quem não convida e o não-convidado. Para mim, só a perspectiva desse problema me faria pensar dez vezes antes de organizar a boda...
E é exactamente este o problema que eu acho que há no plano de dar casas aos amigos quando se ganha o euromilhões: o problema lista de casamento. Quando é que paramos de dar casas? Quantos verdadeiros amigos temos? Por que é que o vosso décimo melhor amigo merece uma casa e o décimo primeiro não?

Só uma pessoa

Agora que vai para eleições, acho que o importante a dizer é que Portugal, nesta fase, já não pode ser demasiado exigente. Não vale a pena pedir um governo competente. Eu limito-me a pedir uma pessoa. Só uma, com uma única característica: tem que ser uma pessoa séria.
Não pode ser o Santana, nem o Sócrates, nem o Portas, nem o Marques Mendes, nem o Dias Loureiro, nem o Jorge Coelho, nem o Ferro.
Portugal deve a si mesmo encontrar um primeiro-ministro que seja sério. Só isso. Condição necessária e suficiente para que haja confiança no futuro.
Eu só vejo três nomes que preenchem esse exigente requisito: Cavaco, Marcelo e Vitorino. Se um dos três se candidatar conta com o meu voto. Se não, abstenho-me.