sexta-feira, novembro 30, 2007

Lisboa

Há 3 anos atrás, se me fosse perguntado, diria que não gostava desta cidade. Estava em Coimbra, estava satisfeito, integrado e de olhos bem fechados. Não percebia o encanto da capital, a atracção que a cidade exercia, o fascínio da única verdadeira cidade europeia em Portugal. Para quem assistiu à transição de fora sei que pode ter parecido deslumbramento ou snobismo de quem veio para uma cidade maior, mas, por conversas que tive sobre este assunto com quem passou pelo mesmo, percebo que aqui se abrem horizontes e que há outros estilos de vida ao alcance que estão vedados ou dificultados noutros ambientes. Há mais oportunidades e maior abertura de espírito.

Passados 2 anos de pleno usufruto, posso dizer, sem reservas, que estou perfeitamente rendido a tudo o que ela tem para oferecer, restando ainda tanto para descobrir numa cidade que se renova em permanente mudança por possuir massa crítica suficiente para tal. Anos que passem e haverá sempre algo novo para conhecer, haja também espírito e vontade para o fazer. Acredito que, para quem cá sempre viveu, este espírito de novidade se esgote e até adianto que, contingências da vida o permitam, venha a existir a possibilidade de rumar a outra metrópole de uma escala e nível de vida superior como Barcelona, Madrid, Londres, Nova Iorque, São Francisco, Tóquio, Hong-Kong, Paris, Roma, Milão, São Paulo, Rio de Janeiro ou Berlim. Também aceito que não se tenha essa vontade e que outros queiram ficar mais tranquilamente instalados na pacatez de uma cidade pequena. Tudo depende dos objectivos, gostos e fases da vida. Por mim assumo o gosto pela cosmopoliticidade e animação cultural que Lisboa (ou outra das mencionadas) me oferece nesta altura. Gosto de viver aqui. Vejo-me a viver aqui.

Há teatros, concertos, restaurantes, noite, comércio, habitação, jardins, museus, estádios, empregos, acessibilidades, arquitectura, educação, pessoas, diferenças, escala, cultura, risco, novidades, oportunidades, feiras, festas, esplanadas, diversão, entretenimento, desporto, praia, monumentos, movimento e animação em quantidade suficiente para combater o tédio e o comodismo. Claro que também há poluição, trânsito, crime, custo de vida e todos os restantes malefícios das cidades grandes mas tem de haver um preço a pagar pela maior oferta...

Inicío este terceiro ano com mais mudanças à vista, depois de 2 empregos e 3 casas, depois de fases boas e menos boas, depois de experiências variadas com que aprendi imenso, depois de conhecer pessoas diferentes e interessantes, entre as quais tive a felicidade de reter bons amigos. Não posso dizer que espero de Lisboa em 2008 pelo menos o mesmo porque espero mais ainda!

16 comentários:

Arroz de Casca disse...

Cá vai um "clássico", em nome desta cidade lindíssima e surpreendente:

Lisboa que Amanhece

Cansados vão os corpos para casa
dos ritmos imitados de outra dança
a noite finge ser
ainda uma criança
de olhos na lua
com a sua
cegueira da razão e do desejo

A noite é cega e as sombras de Lisboa
são da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
amou como se fosse
a mais indefesa
princesa
que as trevas algum dia coroaram

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
à noite é prisioneiro dos olhares
ao cais dos miradouros
vão chegando dos bares
os navegantes
amantes
das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
que as dádivas da noite são eternas
mal chega a madrugada
tem que rapar as pernas
para que o dia não traia
Dietrichs que não foram nem Marlenes

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

Em sonhos, é sabido, não se morre
aliás essa é a única vantagem
de, após o vão trabalho
o povo ir de viagem
ao sono fundo
fecundo
em glórias e terrores e venturas

E ai de quem acorda estremunhado
espreitando pela fresta a ver se é dia
a esse as ansiedades
ditam sentenças friamente ao ouvido
ruído que a noite, a seu costume, transfigura

Não sei se dura sempre esse teu beijo
ou apenas o que resta desta noite
o vento enfim parou
já mal o vejo
por sobre o Tejo
e já tudo pode ser tudo aquilo que parece
na Lisboa que amanhece

Sérgio Godinho

Arroz de Casca disse...

Há tantos e tão fantásticos...Vai só mais um, que tb é letra de música:

Lisboa

Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade

IM disse...

Arrozinho, temo que o nosso amigo Catarse esteja prestes a arranjar um tacho na Câmara Municipal de Lisboa, a avaliar pelo discurso inflamado...eheheheh...

Arroz de Casca disse...

Hm...Se calhar tens razão! Por isso é que ele diz que espera mudanças para 2008. Se calha - e o Costa ficar na CML - prof. Catarse ainda é convidado para o Pelouro da Ficção Científica & outras que tais! ;) AH!

Catarse disse...

Bolas! Como é que é possível?!

Já desmascararam o meu plano para usurpar o poder municipal. As próximas eleições já estavam no papo com este elogio a abrir caminho para as infáveis peregrinações aos mercados e praças a beijar criancinhas e a cumprimentar os eleitores séniores... Mas eu não desisto! Chegarei ao meu pelouro custe o que custar!!!! Nem que tenha de distribuir electrodomésticos para provar os meus méritos... ;)

Arroz de Casca disse...

Olhe lá, eu estive aqui a postar poemas (magníficos, diga-se) sobre Lisboa, e o senhor não diz nada?????
Qualquer dia faço greve, como IM já fez.
Quando ao "poder municipal", assim se vê o "valentim loureirismo" a dar frutos. Máquinas de lavar a roupa? Muito bem. Muito bem. Clap, clap, clap.

Catarse disse...

ainda estive para aqui a vasculhar no baú a ver se encontrava réplica poética à altura... népia... mas ainda há esperança!! me aguarde!

Arroz de Casca disse...

Esse baú anda vazio. Vazio que só ele. Há tantas coisas fantásticas sobre Lisboa, que o difícil é escolher.
Fico então a aguardar réplica inspirada.

Catarse disse...

a poesia não é o meu forte, nem pouco mais ou menos... daí a dificuldade...

Catarse disse...

Optei por um clássico, até porque outro dia apercebi-me do cheiro de Coimbra também e gostei tanto:

Lisboa já tem sol mas cheira a lua,
Quando nasce a madrugada sorrateira
E o primeiro eléctrico da rua

Faz coro c'oa chinela da Ribeira.
Se chove, cheira a terra prometida,
Procissões têm cheiro a rosmaninho.
Na tasca da viela mais escondida,

Cheira a iscas (com elas) e a vinho.
Um craveiro numa água furtada,
Cheira bem, cheira a Lisboa!
Uma rosa a florir na tapada,

Cheira bem, cheira a Lisboa!
A fragata que se ergue na proa,
A varina que teima em passar,

Cheiram bem porque são de Lisboa,
Lisboa tem cheiro de flores e de mar!

Lisboa cheira aos cafés do Rossio,
E o fado cheira sempre a solidão,
Cheira a castanha assada, se está frio,
Cheira a fruta madura, quando é Verão.
Nos lábios tem o cheiro dum sorriso,
Manjerico tem o cheiro de cantigas,
E os rapazes perdem o juízo
Quando lhes dá o cheiro a raparigas.

Arroz de Casca disse...

Isso da poesia eu lembro-me. De resto, o que escolheste não tem nada a ver com os acima postados, mas é de facto um clássico. E é airoso e cheira bem. E lembra, é claro, esssa grande festa que é o St.º António.
A que é que cheira Coimbra??? Nunca tive lá tempo suficiente para perceber. Nem nos encontros de fotografia.

Catarse disse...

provavelmente será o cheiro do choupal... plátanos e choupos... mas tem, de facto, um cheiro característico que só um regresso passado algum tempo permite detectar.

as memórias associativas também devem pesar nestas coisas dos cheiros... pelo menos para mim têm bastante peso... o cheiro certo pode despoletar uma série de sentimentos, reacções e memórias.

Arroz de Casca disse...

Plátanos, choupos...engraçado.[Credo, agora lembrei-me daquele fado de Coimbra cantado pelo Dr. não sei quantas - "Coimbraaaa do Choupaaaaaaalllll!" - argh! detesto.]
De facto a memória sensitiva é engraçada. O cheiro de uma casa, de uma pessoa, de um lugar, despoleta coisas inacreditáveis.E é curioso que cada um tem as suas memórias olfactivas de determinado lugar, etc. Até nisso se revelam as diferentes "associações" face a um mesmo espaço/pessoa/circunstância.

Catarse disse...

também não sou grande fã do faduncho... desse e mesmo de outros, mas admito que poderá ser desconhecimento.

yep, é verdade. os cheiros estão associados a memórias primitivas e são associações bem difíceis de desfazer, instintivas, primárias, reflexas, quase . o cheiro a velho das casas dos nossos avós, o cheiro medonho a hospital, o cheiro reconfortante a casa, o cheiro de alguém de quem gostamos, o cheiro de comida, o cheiro do verão, do mar, da chuva...

Arroz de Casca disse...

O cheiro a Verão/Primavera é das coisas que me traz mais associações extraordinárias. Parece uma revelação e é capaz de mudar completamente a meu "mood"...Ai, o Verão das Noches Claras.
Quanto ao Faduncho, regra geral não gosto do de Coimbra (mas sobretudo o tal do Dr. não sei quantas, que desde criança não me entra no goto. Aliás, hoje em dia, até me dá vontade de rir. Dava para um gag humorístico aquilo). Mas fado à séria é magnífico. Camané, Carlos do Carmo e Amália têm coisas sublimes. Embora não goste de tudo o que cantam. E gosto de outros. Mas aqueles são três "special ones".

Unknown disse...

Please give me credit for my photo that you used from here : http://pages.infinit.net/filmore/trip/