segunda-feira, setembro 05, 2005

Festa do Avante 2009

No evento será apresentado o revolucionário software de gestão de stocks produzido por Álvaro Cunhal.

Festa do Avante 2008

Serão projectadas as três longas metragens realizadas por Álvaro Cunhal.

Festa do Avante 2007

Maquete do projecto arquitectónico de Álvaro Cunhal para o edifício mais alto do mundo.

Festa do Avante 2006

Na festa, os visitantes poderão ouvir pela primeira vez as duas sinfonias compostas por Álvaro Cunhal.

Festa do Avante 2005

Exposição dedicada à obra de Cunhal enquanto pintor e desenhador e ainda "como pensador de questões relativas à estética e ao papel da arte e do artista na sociedade". Estarão em exposição, pela primeira vez publicamente, duas pinturas de Álvaro Cunhal.

Joâo Deão 16


Cremilde tem um metro e quarenta e cinto centímetros. De perfil, desenha uma barrica de vinho cortada em altura: curva para a frente e muito direita para trás. Braços pequenos e grossos, afastados da cintura. A cara, corada, é redonda e inchada. Cabelo de rata velha. Baço, eriçado e ralo que se prolonga em farripas sobre as orelhas cor da uva pisada. Aproxima-se da porta da loja da ginga, onde João está colado. Botas de plástico vermelhas, saia branca um palmo acima do joelho, e um decote. Decote que nada mostra, mas que Cremilde tapa e protege. Usa-o como se todos os homens o olhassem. Ostenta, pelo seu peito, um pudor incompreensível. Uma, das réstias de humanidade que sobreviveu na filha de criada da casa de proprietários rurais do Douro, imigrada para Lisboa, atrás de um amor de infância, e perdida na baixa prostituição e no vinho. A outra. A outra é a memória que o vinho lhe traz. Se durante os últimos 25 anos se tornou alcoólica foi porque em cada copo que bebia, havia, de algum modo uma recordação da infância em que servia com a mãe os doutores da quinta.
10 euros pela limpeza da loja e 15 ou 20, pelos broches aos velhos que por ali vagueiam, são o necessário para pagar o quarto onde vive e de que diz com um orgulho que dá pena: "está sempre muito limpinho".
Uma onda de àgua fria contra as All-stars de João. Detergente. Uma esfergona descontrolada. O cimo de uma cabeça muito perto de si. O salto. João desgruda do chão. Pede outra ginga. Quase cai ao passar pela frente da porta limpa e a meio do caminho para o teatro percebe a razão do chão, ali estar sempre a segurar as pessoas.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Descanso

Depois dos incêndios virão as autárquicas e as presidenciais. No entretanto, a bem dos resultados eleitorais, ninguém nos tentará convencer de que a segurança social está falida, de que aumentos dos impostos são inevitáveis, de que as portagens nas SCUTs são justas.
Até Janeiro estamos safos.

A ponta do iceberg do sistema

tem 171 nomes.

Pinto da Costa, Valentim Loureiro, Sousa Cintra e os árbitros Lucílio Baptista, Carlos Xistra, Jacinto Paixão, Paulo Paraty são alguns dos arguidos.

quinta-feira, setembro 01, 2005

João Deão 15


Rapariga que tem o mesmo nome que outra que João encontrará mais tarde. Rapariga, que logo que o viu encostado à parede, no início da rua, fantasiou se seria simpático e meigo. Se dava um bom namorado: um bom marido: um bom pai. Em andamento, a tudo, concluiu que sim, por isso, porque nunca se perde nada em tentar, porque estaria sempre protegida pelas regras que definem as relações entre homens e mulheres e porque viu todos os episódios do Sexo e a Cidade; esta Teresa, noiva de um ascendente engenheiro na Mota Engil, pára frente a João e simula procurar o telemóvel na carteira, para se demorar no campo de visão dele. João se a olha, é, para a ver à transparência. Interessa-lhe observar a mulher que vem atrás: Cremilde. Teresa, como para o mundo, só ia à procura do seu telefone, acredita que só ia à procura do telefone, e, acelera o passo, para ir lanchar com Miguel, seu namorado super-star do betão armado, à esplanada, virada para o Rossio, da pastelaria Suiça. Pedirá um chá verde, um bolo de chocolate e dirá: "Está frio, devia ter trazido um casaco pelas costas."

Fotoesfera

A minha fotojornalista preferida tem um blog. Aqui.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Férias

® SR

Mudança na Gabardina

Andámos demasiado tempo a abichanar com o amarelinho.

Ibéria

Volto a Portugal. Ligo a televisão e vejo o grande Alberto João Jardim a explicar que a Maçonaria ibérica, concentrada nos partidos socialistas, tem um plano, desde o século XIX, para que Portugal seja integrado em Espanha.

Pela primeira vez vejo um bom motivo para votar PS.

Pequenas diferenças

Chego a Espanha. Ligo a televisão. Morreram doze soldados espanhóis na queda de um helicóptero no Afeganistão. Notícia seguinte: Zapatero interrompeu as suas férias e só voltará para elas quando for claro o que se passou.

E e repente, ao ler um jornal, percebo por que é que algumas pessoas estão vivas

Porcas clonadas dão leite terapêutico

João Deão 14


João sai do restaurante. Cheira a fritos e uma azia começa a queima-lhe a garganta. É fim de tarde em Lisboa, e a peça de teatro que à sorte decidiu ir ver, só começa dentro de duas horas. Coloca a mão na barriga e entra numa pequena loja que vende ginginha. Doce, com ou sem elas, num copo de plástico ao final de tarde, eis João, encostado à parede, levando o copo à boca e fixando o olhar em quem está e, em quem passa. Se fechasse os olhos saberia apenas pelo som onde estava. È que ao final de uma tarde de Verão, depois de servidas, entornadas, vomitadas, celebradas e roubadas, milhares de ginginhas, com o sol a pôr cobro a tudo isto, o chão fica cola. Pegajoso, como se a cada passada uma mão se elevasse do chão, agarrasse o calçado que cruza a frente da loja, e gritasse o som dos sapatos a descolarem-se. Por isso, por razões estéticas, João não passarinha de um lado para o outro. Está quieto. Imóvel. Observa um velho. Sapatilhas brancas, calções vermelhos e t-shirt a dizer "Dar sangue é dar vida". Com ele um rapazote. Sapatos de vela castanhos, camisa de riscas grossas, calças de ganga apertadas, boné e brinco de ouro na orelha esquerda. Aproximam-se do balcão descolando os pés do chão. O velho transpirado e vermelhão paga. O puto bebe. Uma, duas, três. O velho aperta-o contra si num gesto lúbrico, apopléctico e fremente com a visão da juventude que embriaga. Passa-lhe a mão pela linha do cabelo, afagando-o com a indiferença com que se sacode um pacote de açúcar. Porque o que ser quer não é o açúcar, é satisfazer a dependência cega do café. A azia, por força da ginga melhora, mas o vomito por força do velho, piora. E o pior, e o pior, é João descobre por que é que as pessoas andam à frente da loja de um lado para o outro, e não ficam parados como ele. A borracha, o calor, o chão pegajoso. E, é assim, que a querer ir buscar outra ginga, com uma azia prestes a desaparecer com a próxima "com", muito colado ao chão, aparece uma Teresa.

segunda-feira, agosto 29, 2005

João Deão 13



E nus adormecem. Equilibram os ritmos cardíacos, dão a mesma profundidade à respiração, sincronizam os movimentos oculares. São um. Vistos de fora. João sonha e Isabelle não. João revive no sono, todos os detalhes do início daquela noite: a saída de casa, as ruas, o restaurante, a entrada de Isabelle. Relembra o momento em que viu Isabelle. Procura o milionésimo de segundo em que tudo mudou. Identifica-o: o exacto momento em que ele, vendo pela visão periférica a entrada de raparigas no restaurante, se virou. Como se de um filme se tratasse, João percorre a película à procura do fotograma preciso em que decide tirar os olhos do empregado lagarto e olhar para a porta. Fixa a imagem. E, vê, naquele vinte e quatro avos de segundo, todas as potencialidades da noite com Isabelle, e da vida com Isabelle. Porém, o desejo de ter mão no tempo; o demónio da perversidade; e a sedução do abismo tentam-no a fazer exactamente o contrário, como se esse acto fosse um murro no estômago do tempo e mas trombas de Deus. E isso atraiu. Muito. E sempre. A decisão. Nesse fotograma João decide não se voltar para trás. E, não a vê entrar. "A sua cerveja. Acabou-se-nos a carne de bifana, pode ser um prego?" "Não, quero um pastel de bacalhau, quanto devo?". E sai do restaurante, para um futuro alternativo que seguiremos.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Joáo Deão 12

Passam pela gente cor de chão adormecida nas portas das lojas. Cruzam um bêbado, que a cambalear, do cimo dos seus quatro pacotes de vinho bebidos, com as mãos nos bolsos rotos, e de nariz empinado lhes diz, numa mole de sons mastigados por uma boca fétida de álcoois e pungentes feridas: "eu também já...". Produzido este som, fica ali, no meio da praça, com os pombos a saltitarem à sua volta, a morder a língua e ganhar tempo à inevitável queda que lhe abrirá um profundo lenho na testa, e que o sangrará até à morte, num canto perto de um centro comercial.
Pensão, hotel, residencial ou quarto. Uma varanda: terceiro andar de uma casa antiga. Vista sobre o rio, exposta toda a noite à luz da lua. Gradeada, e com quatro portadas de ripas, a lembrar as antigas casas coloniais da América Latina. O quarto, lá dentro, podia ser, e é, dos anos 50 em Cuba, com uma ventoinha no tecto, uma cama de madeira cor de tabaco, um espelho pequeno que se inclina para a frente, e um candeeiro na mesa de cabeceira que desenha na parede um cone invertido de luz amarelada. Abrem metade das portadas. A luz branca que entra da lua, contrasta com o tom de âmbar do interior, e marca com traços definidíssimos as ripas das portadas no corpo de Isabelle.

quarta-feira, agosto 24, 2005

João Deão 11


A respiração fremente impede que os lábios se unam. Pequenos sons guturais: de alegria. Ela geme quando ele entra no vestido e lhe toca o peito. Ele sorri pela exacta medida das suas mãos. Ela recua. Sobe o vestido até à cintura. Aproxima-se e senta-se ao colo dele. De frente. Segura-lhe nas mãos e encosta-as ao seu peito. Perfeito. Percorre o peito de João como se lhe cravasse as unhas. Desce até as calças. Sente-o com a palma da mão. Uma e outra vez. Ele puxa-a e beija-lhe o pescoço. Ela desperta-lhe o cinto, os botões das calças. Um, dois, três, quatro e o último. Desce-lhe as calças e aproxima o seu tronco do tronco dele. Abre-lhe a camisa. Faz um pequeno círculo com as ancas, leva os braços atrás do pescoço e desfaz o nó que segura a parte de cima do seu vestido. Abraçam-se, colando a pele. Ela arranha com as pontas dos dedos as costas dele, até ao pescoço que beija, envenoando-se com o cheiro da nuca dele. Ele segura o peito dela com as palmas de mão, pressionando-os de vez em quando os mamilos entre os dedos. Dançam sentados, num ritmo lento, circular e profundíssimo. Ela sente-o. Ele sente-a. Ele beija-lhe o peito, inspirando o cheiro que vem dela. Olham-se nos olhos e sorriem. Ondulam juntos. Estão absolutamente sós no mundo.

Descem a rua de mão dada. Pudicamente. Procuram um sitio onde passar a o resto da noite.

terça-feira, agosto 23, 2005

João Deão 10




O restaurante está vazio. Apenas a luz azulada do mata-moscas ilumina as cadeiras viradas ao contrário em cima das mesas. As amigas de Isabelle foram para casa. "e estamos é cansadas, os pés inchados, e blábláblá, e mais isto e mais aquilo, e temos de acordar cedo, e temos de dormir bem, e..."

Isabelle está escondida atrás do muro do Jardim botânico que João decidiu saltar. A luz dos faróis de um carro varre o murro e projecta as sombras do gradeamento, mesmo em frente de Isabelle. João já no meio da mata chama-a. O coração salta-lhe da boca, tem a face quente da excitação e sente uma agilidade há muito esquecida. Curvada corre para junto de João. Ele corre pela densa vegetação desaparecendo de imediato. Isabelle tenta adaptar a sua visão à pouca luz. Perdida, procura-o. Mata densa. Clareira mais à frente. Sentado num banco do jardim sobre a cidade: João. Aproxima-se. Coloca as mãos na cintura, sente a frescura do vento na sua pele transpirada e observa deste promontório a cidade.

Sente a mão de João a descer-lhe as costas e tornear-lhe o corpo. Demorando-se. João repete o gesto, como se lhe despisse a roupa interior por cima do fino vestido. Desce pela perna até à parte de trás do joelho. Pára. Com a ponta dos dedos toca, ao de leve, nessa pele sensível. Inclina-se e beija-a. A saliva arrefecida pelo vento, arrepia-a. Desce a mão ao tornozelo. Agora, com firmeza, percorre o caminho até ao limite do vestido. Pára. A mão entre as pernas de Isabelle. Aperta com suavidade o interior das coxas. Isabelle, de pé, estremece. E, abre-as ligeiramente. João toca-lhe com segurança. Com o indicador. Sente-a, movendo o dedo. Constrangida, vira-se para João, afastando-lhe o braço. Ele sentado, ela de pé frente a ele. Ele abraça-lhe a cintura e beija-lhe a barriga. Sente o paladar do suor na pele abaixo do umbigo. Brinca com os pelinhos. Visualiza desfalecer por cima dele. Abraçam-se. Beijam-se na boca. Sentem o coração a latejar em todo o corpo.