terça-feira, outubro 12, 2004

Alguns não

Encontro o poema nos Inseparáveis. E não resisto a publicá-lo. Deixam, assim, de existir blogs portugueses que nunca tenham postado um poema de Sophia Andresen... Um dia tinha que acontecer...

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Linguagem gestual

Fui eu o único a achar que os gestos que o Santana fazia com a mão direita enquanto falava estavam indicados nos papeis do seu discurso?

segunda-feira, outubro 11, 2004

vá lá diz lá

O que irá Santana dizer aos portugueses hoje à noite? Qual será o segredinho que ele sabe mas que não conta a ninguém. A gabardina mandou um fax para o gabinete do primeiro-ministro a pedir o discurso de logo à noite. A primeira resposta foi um "não" redondo. Depois enviou outro na linguagem do Primeiro-Ministro: "vá lá diz lá, vá lá diz lá, vá lá diz lá, vá lá diz lá, vá lá diz lá, vá lá diz lá, vá lá diz lá" as respostas foram respectivamente: " não, não, não, não, não posso, pá não dá, eu gostava mas não posso, está bem mas é segredo". A resposta chegou. Santana Lopes vai anunciar ao país a sua receita preferida de mousse de chocolate. Foi para isso que ele convocou todos os Portugueses para as 20:00 de hoje.

Quem é que quer explicar aos miúdos

que o Super Homem morreu?

sexta-feira, outubro 08, 2004

Insónia maldita

Hoje acordei às quatro da manhã, sem explicação aparente. Liguei a televisão na Sic Notícias, só para saber as horas. Aparece-me este senhor Luís Pais Antunes, secreário de estado de qualquer coisa, a quem estava a ser perguntado "Se os salários dependem da produtividade, por que é que em Portugal os gestores de topo ganham como os melhores do resto da União Europeia e os trabalhadores com salários mais baixos ganham muito menos em Portugal que nos outros países da União Europeia?" A resposta foram muitos ahhhs e hmmmms, e algumas coisas sem sentido como o reafirmar de que a produtividade é mais baixa em Portugal e que "isso depende dos sectores".
Este infeliz impulso de ligar a Sic Notícias às quatro da manhã valeu-me uma hora de insónia. Uma hora cheia de vontade de partir um nariz a murros.
Pergunto mais uma vez: como é que estes tipos chegam ao poder em Portugal?

quinta-feira, outubro 07, 2004

Perfeito

Elfriede Jelinek, mulher, austríaca, filha de um judeu que fugiu aos nazis na segunda guerra mundial, ganhou o Nobel da literatura.
O mundo é muito melhor quando temos a consciência tranquila por sermos politicamente correctos. Hoje os membros do Comité Nobel vão dormir como anjos, debaixo dos seus fofos cobertores!

Que gente é esta?


Que gente é esta que manda calar comentadores, mas confunde chicana com "chincana"? Que gente é esta que lê com enfado os discurso de estado mas usa e abusa da sua segurança? Que gente é esta que elogia os 100 paus diários a mais dos militares, mas gasta biliões em submarinos? Que gente é esta que todos os dias desmantela o aparelho de estado para dar de comer às suas empresas, mas enche a boca com a liberdade de concorrência? Que gente é esta que manda navios de guerra bloquear a entrada de pessoas no Pais, mas vai buscar recrutar miudos aos centros comerciais?
E que gente é esta que aceita continuar ao lado dessa gente? E que gente é esta que os acompanha e aceita os convites? Os 1200 nomeados por Santana, quem são? De onde vêm? O que é sabem?
Que gente é esta? E que quente é esta que os respeita a todos? e que Pais é este que respeita esta gente?
Esta gente vem dos tons amarelos e azuis, vem das camisas cor-de-rosa, vem dos sapatos finos de sola branca, vem das barrigas de cerveja com 20 anos, vem da juventude com charuto na mão. Esta gente não quer saber. Deseja apenas deliciar-se com imagem de ter um motorista, um lugar de garagem nas avenidas novas e privar com quem aparece na televisão. È a gente "que telefona primeiro e vai depois", é a gente das férias no Algarve e na neve e da lua-de-mel nas Maldivas. È a gente que tem sempre convites para levantar nos teatros e nos cinemas.
E o Pais? o pais vem do medo parolo e ignorante. Vem de uma revolução que nunca o foi. Vem de uma Europa que iguala tudo, menos os salários, a qualidade dos serviços públicos e a justeza do sistema fiscal.
Hoje Portugal é assim. Pais governado por miúdos. Putos, ignorantes, brutos. Mal criados e marialvas. Sem vergonha na cara e boçais. Com os dentes branqueados e nós de gravata brutais. E os fatos, e os fatos... às riscas, clarinhos e castanhos, assentes em gravatas moles, camisas de tédio e botões de punho. Os botões de punho...senhores...os botões de punho?

Com esta língua maldita

A preça é inimiga da perfeissão.

quarta-feira, outubro 06, 2004

Um grande número 2

Retirou-se hoje dos campos de basket Scottie Pippen, o fiel escudeiro do melhor jogador de todos os tempos. O 33 dos Bulls estava para o Michael Jordan como o Sancho Pança para o D. Quixote ou como o Sexta-feira para o Robinsoe Crusoe: os segundos dificilmente poderiam ter sido famosos sem os primeiros.
Pippen é o último da mítica equipa (Paxson, Jordan, Pippen, Grant e Cartwright) a sair dos Bulls, virando uma página da história do basket. Ainda lá tenho umas VHS com imagens como esta:


A partir de agora

quem quiser rir ao domingo à noite terá que se contentar com o Herman Sic ou com a Quinta das Celebridades...

Marcelo Rebelo de Sousa abandona TVI após conversa com Paes do Amaral

Que dia é hoje ?

Hoje é quarta-feira.
Na verdade, é quarta-feira porque se convencionou assim, porque não há ninguém, hoje, que sinta este dia como quarta-feira.
Hoje, é segunda-feira. E é segunda, porque ontem foi Domingo. As pessoas foram à praia, estiveram com os familiares, recuperam da noite anterior e sentiram a angústia de voltar ao trabalho no dia seguinte. Hoje: segunda-feira.
Os calendários da semana, antes de serem uma convenção que todos seguem, deviam ordenar os dias segundo o modo como cada um o sente. Sim, porque há segundas-feiras, que parecem sextas, quartas que se "pensava que já era quinta" e sextas que são idênticas a terças. Acontece esta confusão porque cada dia tem um sentimento típico diferente. A expressão " tomara que chegue sexta-feira" explica-se porque quem isso deseja, sabe por uma razão qualquer que às sextas se sente melhor.
O primeiro trabalho de quem quer ter um calendário verdadeiramente útil para ele próprio é escolher uma palavra que defina cada dia da semana. Depois, é só ordenar os dias da semana conforme o modo como se pretenda que ela decorra. Assim, se sexta-feira for um dia especialmente feliz, nada mais a fazer que colocar a sexta logo depois do domingo, evitando assim a angustia de domingo à tarde e a violência das manhãs de segunda.
Ordenados os dias, o mais difícil está feito. Resta apenas o pormenor de tentar articular cada dia com os outros

Revolução ou...

No seu discurso do 5 de Outubro, Jorge Sampaio apelou a que sejam feitas rapidamente as reformas de que o país necessita. Sem fugir do gravíssimo momento que a sociedade portuguesa atravessa, Sampaio fez mesmo o paralelismo entre o momento actual e a fase de indefinição e falta de coragem para a mudança que representou a governação de Marcelo Caetano.

Ora a governação de Caetano culminou com a revolução de Abril de 74. Este apelo de Sampaio vem na última hora. Ou quase. Tenho a convicção de que se as próximas eleições legislativas forem disputadas por Sócrates e Santana já não haverá caminho democrático para trás. A mediocridade, a vigarice e a corrupção estarão de tal forma instaladas no poder que só poderão acabar com uma ruptura com o actual sistema. Através de uma revolução ou de qualquer outra coisa parecida.

terça-feira, outubro 05, 2004

Texto retirado do Forum do Jornal Expresso.



Mais um texto para defender os blogs como novissimo meio de comunicação "peer to all".


"Trata-se da Compta, cujo presidente é o meu amigo Vitor Magalhães,
pelo que sei o que se passa.

- Em primeiro lugar o Vitor é padrinho do filho mais velho do Bagão Félix.

- Em segundo lugar, o anterior ministro encomendou o programa e
testou-o, tendo verificado que funcionava muito bem.

- Em terceiro lugar, a nova ministra resolveu mudar a matriz
inicial 3 dias antes do arranque do concurso, sabem o que ela quis
alterar? Criou um código especial, que desde o momento que fosse
anexado a um professor, automáticamente ser-lhe-ia atribuida a escola
da 1ª preferência. Um espécie de cunha informática, percebem?

Só que a alteração à última hora deu cabo do algoritmo central e bye,bye
programa.

Os comentadores deste Forúm apelaram para que eu dissesse algo mais
acerca da negociata Compta/PSDPP, mas pouco mais se pode acrescentar,
excepto:

- Verifiquem as colocações da Escola EB 2+3 da Murtosa.
- Verifiquem as colocações da Escola Secundária Rodrigues de Freitas no Porto
-Verifiquem as colocações na escola Renato Amorim em Setubal.

Ou então,

- verifiquem os pagamento no valor de 325.652,00 à Compta em Maio
de 2004, mais um pagamento de 658.321,00 em Julho de 2004, e, mais
aberrante ainda, o pagamento da última tranche do contrato de
desenvolvimento de 987.325,00 no dia 20 (VINTE( de Setembro de 2004.

Mais informo que o contrato de assitência no valor de 250.000,00 euros
anuais tem a duração de 15 anos.

Para terminar, informo V. Exªs que o
David Justino tem uma participação de 30 por cento na Compta através
da holding "International financial investiments PLC´ com sede nas
ilhas Cayman.´"

segunda-feira, outubro 04, 2004

Post não demagógico

Hoje ao almoço, nos telejornais, falou-se de fome em Portugal (há muito tempo que eu não ouvia falar assim de fome em Portugal).

Enquanto isso, nos restaurantes mais caros do país, almoçavam ministros, com os seus secretários de estado, os respectivos chefes de gabinete e assessores, enquanto os motoristas de todos esperavam, sentados no banco do condutor, a ler o Record.

Entretanto, os assessores do Santana e do Bagão comiam uma sandocha enquanto discutiam a melhor maneira de explicar aos portugueses que os salários só poderão aumentar 2,2% no próximo ano.

os novinhos

Recordo que aqui há uns bons anos, no tempo do ciclo preparatório e dos primeiros anos de liceu, havia um determinado gesto em tudo igual às situações de hoje em que um puto novo é convidado para exercer um cargo de muita responsabilidade. Refiro-me concretamente à limpeza do quadro e dos apagadores. Recordo que nesse tempo quando o professor, poder, pedia para alguém lhe apagar o quadro, logo uma dúzia de criancinhas se precipitava para a ardósia na esperança de poderem ser elas, a ficar com os pulsos cheios de pó de giz, marca da sua importância na sala de aula. Noutros casos, não havia um convite geral, mas era escolhida uma criança em particular, para desempenhar as abluções de início ou de final de aula.
Hoje o professor é outro, as aulas são a própria vida e há mais crianças. Tudo o resto é idêntico. Existe o desejo de servir, o desejo de aceitar qualquer migalha do poder instalado. A necessidade de sentir um elogio do professor, o desejo de ser obediente, a perfídia da submissão: tudo isto em nome da ilusão que sendo empregado do professor se pode ser o próprio professor e que sendo empregado do poder se pode ser o próprio poder. E o pior é que pode. Pode mesmo. Para se chegar ao poder ou ao professorado tem que se ajudar o poder ou os professores. Porque só assim é que o poder, reconhecendo no seu empregado alguém que partilha das suas premissas, permite a sua ascensão, pois assim assegura que os seus próprios privilégios estão garantidos no futuro.
Tantas palavras para dizer: ? do you minete? I minete you, if you broch me.

Prestígio dos economistas II

Na manhã do passado sábado, num zapping radiofónico, paro uns minutos a ouvir uma entrevista do Sérgio Sousa Pinto, pensador da era Sócrates, à TSF.

No meio de um chorrilho de barbaridades e banalidades sobre economia e, sobretudo, finanças públicas, o Sérgio, em tom jocoso, afirma que os economistas são muito bons a analisar os problemas depois de eles terem acontecido.

Já com as outras ciências é exactamente ao contrário, caro Sérgio! Os médicos, por exemplo, estão constantemente a analisar doenças que ainda nem existem...

Prestígio dos economistas

Poucas classes profissionais defendem tão mal o seu prestígio como os economistas. Poucas delimitam tão mal o seu raio de acção e conhecimento. Talvez por falta de uma ordem forte, mas como eu antipatizo com as ordens profissionais, não vou por aí.

Ainda na semana passada tive mais um exemplo do fraco prestígio dos economistas em Portugal. Numa conversa de amigos, e estando presentes três pessoas que passaram pelo menos cinco ou seis anos das suas vidas a estudar a ciência económica e os seus mecanismos, discutia-se se hoje é melhor, em termos de dinheiro gasto/investido, comprar ou arrendar casa. Ora as duas pessoas presentes que não são da área da economia tinham uma opinião forte sobre o assunto, e estiveram largos minutos a discordar dos seus amigos. Por fim, talvez tenham ficado convencidas...

Agora imaginem a situação ao contrário, com dois economistas a discordarem de três médicos, durante largos minutos, sobre o melhor tratamento para a hipertensão...

sexta-feira, outubro 01, 2004

Narrar

O trânsito, a vida e a narrativa escolhem sempre o caminho que lhes permita avançar. O trânsito enerva a vida e a vida é explicada pela narrativa. Narrar é contar, e contar é ordenar tornando inteligíveis as experiências vividas. Compreendê-las. Por isso as pessoas inventam narrativas, histórias. Quem conta uma história, partilha uma experiência, explicando-a. As histórias, todas elas, têm em última análise uma função: incorporar a realidade caótica, na racionalidade humana. O que se não compreende na realidade pode compreender-se através de uma história. Narrativa. Tudo é narrativa. A própria História é narrativa. Se queremos compreender as fronteiras da Europa, temos de contar uma história. Para percebermos a morte de alguém contamos uma narrativa. Para justificarmos um qualquer facto juntamos todos os factores que o precederam, unificamo-los com um sentido e concluímos com o resultado: esse facto. Isto é narrar: Ordenar e dar sentido. Racionalizar o real.
Ah! e depois há a poesia...

Caminho (II e III)

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro - te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia!... Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um...
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

*

Fez-nos bem, muito bem, esta demora:
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.

Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças: pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho,
Eu quero arrostar só todo o caminho,
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais,
perseguir doidamente os meus ideais,
E ter fé e sonhar - encher a alma.



Camilo Pessanha

Telefonar sem stress


Uganda