quarta-feira, maio 07, 2008

O puto quer um brinquedo novo

PSL candidatou-se a presidente do PSD com ambições a primeiro-ministro em 2009.
A cada minuto nasce um otário.
Estas duas frases devem ter estado na base das sondagens eleitorais que validaram a candidatura e, caso vença, o que não acredito porque ainda tenho alguma fé no discernimento das pessoas e na sua memória colectiva, acho que poderá ser o fim do PSD e o reinício do tempo das vacas gordas para o país. Para os abutres do costume, claro. Ontem já lá andava (desculpem a emenda mas tenho de adicionar as palavrinhas "pelo menos" aqui senão os outros podem achar que são diferentes ou que foram esquecidos, o que não é o caso) um que conheço como tal, a rondar, a fazer o que sabe melhor para ser nomeado para o que não sabe fazer, para rapar o tacho. Escroques. Pulhas. Ladrões. Estas últimas são só palavras do dicionário, nada tendo a ver com juízos de valor sobre as pessoas em questão. Para essas julgo que nem o Mia Couto conseguiu ainda inventar terminologia adequadamente insultuosa.
A política partidária em Portugal (não falo no resto do mundo porque me escapa, ainda que, repito, veja com bons olhos a quase vitória do Obama) enoja-me com os seus joguinhos de trocas de poleiro e favores, da esquerda à direita. Já há muito que me deixei disso e, a julgar pelos crescentes números da abstenção, não serei o único. Para mim, o futuro está nas candidaturas apartidárias independentes, baseadas em movimentos temporários dedicados a uma missão, que reúnam pessoas capazes com vontade de fazer e sem vontade de serem políticos profissionais, o que cada vez mais soa a um nome feio.
E bem que gostava de ver um dia um mecanismo de responsabilização política das promessas eleitoralistas. Isto para não falar num cadastro do funcionário do Estado que impedisse a dança dos incompetentes dos aparelhos pelos apetitosos cargos de gestão e consultadoria nas empresas públicas nacionais e municipais - a nova vergonha inventada para contornar a lei.

terça-feira, maio 06, 2008

Crise alimentar

Com tantas boquinhas para alimentar por aí era já previsível que este dia chegasse e sem querer discutir a veracidade ou o alarmismo da notícia, isto é matéria antiga e antes vista. Sem ser, de longe, especialista na matéria, acho que as teorias de Malthus sobre o crescimento exponencial da população e o apenas geométrico dos recursos (que são limitados neste nosso cantinho da galáxia) são muito prementes e cada vez mais confirmadas pelos cenários actuais de escassez. Falta àgua, comida, energia, medicamentos, dinheiro, ar puro, biodiversidade... Sobram problemas como a fome, guerras, pestes, mortes, desgraças e, acima de tudo, pessoas... A pressão populacional atinge níveis incríveis, nunca antes vistos e que, fatalmente, conduzirão a mais infelicidade dos que por cá andam. As desigualdades sócio-económicas tendem a agravar-se, a instabilidade cresce, a qualidade de vida diminui para todos (sim, mesmo para os mais ricos, chegará o dia em que terão de viver, ainda que dentro de cupulazinhas protectoras ricamente decoradas, num mundo de merda, sozinhos ou com companhias muito pouco recomendáveis, sempre à espreita de um deslize para os predar). Isto para não falar em cenários catastróficos se o ecossistema global não reagir como se espera que tais sistemas auto-regulados o façam, contrariando a (imensa) pressão a que está a ser por nós sujeito com uma força de igual módulo e de sinal contrário que reduza drasticamente o número de humanos. Sim, vai haver sangue (leia-se mais ainda). Sim, vai haver mortes (leia-se mais ainda). Não, não vai ser bonito (leia-se menos ainda). E tudo isto vai bater à nossa (ainda) tranquila porta um destes dias. Já não falta muito. E depois? Haverá solução? Talvez, com o advento da energia livre, não poluente e barata, o próximo grande desafio que se coloca à Humanidade, haja esperança. Sem isso, vejo apenas dois blocos cada vez mais divergentes que se oporão: o dos que têm e o dos que não têm. Uns, poucos, muito poucos, ricos e felizes (aqui incluo todo o primeiro mundo) e bem fornecidos e armados a todos os níveis. Outros pobres, muito pobres (o terceiro mundo), muitos, mesmo muitos, e muito, muito zangados e insatisfeitos, muito, muito esfomeados, capazes de tudo. O intermédio, a classe média, verdadeira cola social, caminha para o desaparecimento, para a extinção, o que acentuará as desigualdades e o fosso entre os extremos. Negro este cenário? Sim. Sem dúvida. Futurista distante? Nem por isso. As nossas próximas criancinhas terão, infelizmente mas com toda a certeza, uma visão muito mais nítida e próxima de todos estes problemas para os quais teimamos, a bem da nossa paz de espírito e alicerçados num confortável discurso umbiguista do tipo o problema-não-é-meu-e-não-posso-fazer-nada-para-alterar-isto, em seguir, rumo ao precipício de olhinhos bem fechados. Até ao dia em que, Cu-cu!, tudo isto nos bater violentamente à porta, seja de que inesperada forma for. Para já está lá em baixo, na porta do prédio, a deixar publicidade não endereçada, daquela que ninguém lê...
P.S. - Há mais uns quantos cenários a explorar como corolário de tudo isto: O tal final mais feliz da energia livre, uso racional de recursos, controlo da natalidade, etc. O da especiação total dos dois extremos. O da conquista de um pelo outro, o mais forte e apto a sobreviver nesse mundo. O da extinção completa da raça humana. Agora qual deles virá a ser realidade...

segunda-feira, maio 05, 2008

F-R-A

Não há nenhuma diferença entre o que sinto hoje num cortejo de queima das fitas de Coimbra e o que sentia há vinte e cinco anos atrás, quando lá ia em criança.
São iguais os carros com flores, igualmente estranhos os estudantes de capa e batina; os banquinhos de praia em que se sentam as velhotas na primeira fila da rua são os mesmos; o mesmo cheiro a cerveja; as mesmas pedras da Praça da República a que os pés se colam só nesse dia; a mesma confusão; os mesmos empurrões; os mesmos bêbedos de que não pensamos mal só nesse dia; a mesma alegria que nos é completamente exterior; os mesmos pais em lágrimas a abandonarem o cortejo porque o carro do filho já passou; os mesmos cânticos, bengalas, cartolas, pipocas e balões; os mesmos coleccionadores de cervejas (parece-me que dantes se coleccionava mais plaquetes).
Durante uns anos tudo aquilo fez sentido e foi diferente. Agora voltou ao mesmo. Até voltou a inexplicável pequena inveja de quem vai cima do carro. Só desses.

Nem todas as criancinhas nascem filhos da puta...

... alguns são mesmo alimentados a fel até nisso serem transformados. Pelas agruras da vida e por contaminação (leia-se filhadaputices, agora sem hifens) de outros. Um carácter forte aliado a uma educação sólida e um bom círculo de amigos costumam conseguir ajudar a resistir a estes agentes do exterior mas, às vezes, tanto para quem conta com tais predicados como, muito mais facilmente, para quem não conta com eles à partida, é difícil resistir ao metafórico lado negro da Força e podemos mesmo acabar assim, amargos, rancorosos, vingativos, maldosos, ruins. E, uma vez do lado de lá, o regresso é penoso e quase impossível. Se bem que também acredito que alguns nasçam já naturalmente maldosos...

Se o universal sistema moralo-judicial do karma funcionar como espero, nascidos ou criados (o velho dilema nature vs nurture, fenótipo vs genótipo) terão o que merecem, mais reencarnação menos reencarnação. A minhoca-nojenta-que-hão-de-ser tarda mas não falha!

domingo, maio 04, 2008

Odeio esta música mas...

You make me feel
Just like a child

Isto para não falar em dançar... anda, vem dançar comigo, sim?

sábado, maio 03, 2008

Criancices

Em visita à sobrinha e face a um comportamento que se repetiu já por mais que uma vez, de birra e recusa em interagir, ouvi da minha irmã a frase "Cuidado que elas [as crianças] são cruéis. Quanto mais lhe ligares ou pedires menos ela dá. Experimenta ignorá-la.". Aceitando o conselho, assim fiz e os resultados não tardaram. Face a esta nova atitude, diferente da que estava habituada de ter sempre tudo à disposição à mercê dos seus caprichos, privada dos 100% de atenção, estranhou. Começou por provocar e não teve nada em troca. Depois pedinchou e obteve o mesmo. Até que percebeu que tinha de dar para receber, uma lição sem dúvida valiosa, tanto para ela como para mim.

Os princípios da psicologia reversa em acção são de facto admiráveis e, à escala, parece-me que, independentemente da idade, continuam a ser, em certa medida, válidos para todos os escalões etários. Tendemos a dar as coisas como certas e a não lhes dar o devido valor, relaxando no esforço sempre necessário que mantém uma relação biunívoca equilibrada. Algumas pessoas são, naturalmente, mais self-centered e talvez até um pouco mais egoístas ou com um certo excesso de mimo, com uma parcimónia muito particular no que toca a dar mas exigentes no que toca a receber. Umas ultrapassam isso em crianças, outras nem por isso e ficam sem perceber porquê que há amizades e relações mais fortes com outras pessoas do que com elas. Claro que cada um é como é mas isso tem implicações óbvias no tipo de pessoas que atraem (ou repelem). Por essas e por outras é que alguns têm um leal e solidamente construído círculo de amigos, namoradas, confidentes e outros acabam mais isolados e sozinhos. É preciso dar para receber. É preciso lealdade, honestidade, abrir um pouco o que nos vai na alma, dar sem esperar nada em troca, partilhar com desprendimento, emocional e materialmente, para que os outros também o façam, estabelecendo laços de compreensão e entendimento que são o cerne das (boas) relações. Sem isso não adianta entrar em queixumes e lamúrias de género "ninguém me liga". E não é um processo fácil nem imediato, nem sequer garantia de que dê certo, mas atitudes, perdoem-me o excesso de linguagem, filhas da puta, mesquinhas, egoístas, vingativas ou imaturas (ou tão somente de laxismo, o tal dados por certos) terão sempre o merecido resultado de isolar cada vez mais essas pessoas que acabarão, certamente, mais sozinhas ou rodeadas de outros da mesma cepa. Isto é válido em vários graus de intensidade e para as mais variadas interacções, sejam elas de amizade, colegas de trabalho, familiares ou relações amorosas (especificidades de cada uma à parte) e, uma vez ultrapassado um certo limite de paciência, tolerância ou compreensão, pode acontecer que certos laços fiquem irremediavelmente comprometidos ou se transformem em algo banal e de circunstância.

No caso inicial, o da sobrinha mais bonita do mundo (e só o digo agora porque sei que ela ainda não sabe ler, senão estava bem tramadinho e ela não me ia ligar nenhuma nos tempos mais próximos), não me parece que haja qualquer risco de se vir a tornar em alguém assim, até pelos moldes em que está a ser educada e porque tem muito tempo para aprender, mas a moral é válida para outras pessoas porque a desculpa da idade já não lhes serve e o tempo não volta para trás. Da minha parte, se incorrer em tal falha (já me bastam os mal-entendidos ou a falta de tempo), agradeço uma chamada de atenção (directa se as indirectas falharem) a tempo de corrigir tal comportamento porque prezo bastante todos aqueles que me orgulho de chamar de amigos e não quero correr riscos de os perder sem motivo.

quarta-feira, abril 30, 2008

1976

Mal sabiam os habitantes deste berlinde azul mas, sem mais alarde que o esperado de circunstâncias semelhantes, há uns quantos anos, que a memória não me permite agora precisar, nascia um tipo estranho. Amado por uns, detestado por outros, nunca conseguiu reunir a unanimidade em seu redor, sendo considerado na generalidade inespecífica que me é permitida, uma besta. Falamos, é claro, de António Guterres. Uns anos mais tarde nascia uma figura ímpar do panorama audiovisual, um corpo desejado por milhares, sex-symbol, sensual, atraente, um portento. Kirsten Dunst. E o que dizer de uma figura lendária do desporto, ícone das massas, senhor de um domínio quase sobrenatural sobre o jogo e venerado por milhões? Também neste dia, Isiah Thomas. Destaque ainda para um senhor do mundo do cinema, com obra feita e admirada, Lars von Trier. Finalizo com um tipinho possuidor do dom da escrita, capaz da ironia mais refinada. Jaroslav Hasek. A coisa complicou-se precisamente quando esta malta decidiu ocupar, não tanto os méritos, mas o meu dia! Meu! Ouviram bem?Bom, que isto não se repita!
A propósito, hoje comemora-se a Walpurgis Night e o Beltane. É de aproveitar! Já ouvi desculpas piores.

terça-feira, abril 29, 2008

O apelo...

...da paternidade acaba, mais cedo ou mais tarde, por se fazer sentir. Não quer dizer que seja tão forte quanto o da maternidade, que implica todo um mecanismo hormonal de controlo físico e emocional quase irresistível e difícil de contrariar mesmo conscientemente, mas que ainda assim se faz sentir a determinada altura. Pode chegar mais cedo ou mais tarde, e é mais tarde que, por exemplo, o equivalente nas mulheres para a maioria de nós, gajos, mas chega e chega forte. Principalmente para quem gosta de miúdos. Principalmente para quem ainda se sente um miúdo no entusiasmo pelo que nos cerca. Facilita a comunicação e a identificação com eles, miúdos, suponho, ainda que tal seja muitas vezes (pejorativamente) apelidado de Síndroma Peter Pan. Pois. Seja. Para mim, antes isso que o envelhecimento precoce, que apelidarei doravante de Síndroma Velho Marreta, o que, adianto desde já, pretendo vir a ser mas numa fase mais adiantada da vida, lá para os 70 para melgar os netos, demais família e círculo de amigos, sem esquecer desconhecidos, polícias, enfermeiras, taxistas, jornalistas e mais uns quantos que tenham o azar de atravessar o meu titubeante caminho nesses ainda longínquos anos dourados da vida em que voltamos a uma espécie de infância, física, intelectual e emocionalmente.
Gosto de miúdos. Gosto de chateá-los. Gosto de estimulá-los. Gosto de me surpreender com eles e de os surpreender. Gosto de os ver crescer e evoluir. Gosto da abordagem simples e directa com que tratam as coisas. Gosto das fases por que passam. Gosto de brincar com eles.
Não gosto das birras, dos excessos de mimo, do super-protectorismo redoma, das milhares de teorias da moda, do despesismo de ter tudo o que é preciso e o que não é, das noites mal dormidas, das dúvidas e angústias, do coração apertado com o choro, doença e sofrimento das crianças mas sei que fazem parte do processo.
Vou gostar de ser pai (Nota: não estou a anunciar nadinha nem muito menos estará para breve tal acontecimento!), parece-me (e sei que adoro a futura-e-óptima-mãe-dos-dois-ou-três-rebentos-cheios-de-fantásticas-qualidades-legadas- pelo-admirável-e-codominante-património-genético-de-ambos-os-dois-progenitores). Entretanto, há sobrinha espigadota, sobrinho a caminho, filhos e filhas de amigos em barda para treinar os dotes e aprender muito do que me será, estou certo, útil.
Ficam, entretanto, os parabéns devidos e merecidos à mais recente versão 2.0 da minha geração, a pequena LLF, progenitada (isto existe?) por JF e ML, aos 25 de Abril de 2008, que se junta a uma já longa lista: BNR, SCC, SP, MHH, HCB, ..., (peço desculpa por alguma imprecisão de patronímico abreviado que possa ter sucedido e por todos os que, sem demérito algum que não o da minha má memória e falta de tempo para a suprir, foram remetidos para as reticências) e que, literalmente, cresce de dia para dia.

segunda-feira, abril 28, 2008

Trazei a mim as criancinhas!

...disse o gárgula, sorrindo num esgar horrendo. A saliva escorria-lhe pela fauce escancarada, cheia de dentes desalinhados por entre os quais serpenteava uma língua bífida, em clara antecipação do farto repasto que o aguardava. Os gritos começaram a ouvir-se bem antes, num prenúncio da agitação que de forma turbulenta irrompeu pelo salão de decoração gótica, onde imperavam os veludos pesados, as madeiras douradas já gastas pelo tempo, a pedra fria e húmida, armaduras ferrugentas e mobiliário escuro. A iluminação vinha de cima, escoando-se timidamente através de vitrais quase opacos, e de negros candelabros de ferro forjado carregados de velas disformes que pareciam estar acesas desde tempos imemoriais. O cheiro a bafio competia pela dominância com um odor indistinto mas marcadamente malévolo, sem hipóteses para qualquer tipo de brisa que aligeirasse o ambiente denso correr por ali. Rangidos pungentes, gritos abafados, pancadas surdas e gorgolejares guturais compunham a música do local. Num rompante, a porta escancarou-se deixando entrar um corpulento guarda envergando um coureáceo e negro uniforme que trazia firmemente presos nos braços um par de miúdos rebeldes que se agitavam e esperneavam futilmente. Amarrando-os a duas cadeiras altas e sólidas, afastou-se, não sem antes deitar às criaturinhas um olhar maldoso e um rosnar baixo e rancoroso. O gárgula fitou-os com ar esfomeado durante uns instantes e bateu palmas com estrépito. De pronto, acorreram alguns pequenos e servis seres carregando terrinas fumegantes, cestas de pão, taças cheias de líquidos das mais variadas cores e mais alguns víveres tão estranhos quanto repulsivos que por ali foram deixando. Na mesa repousavam já as gamelas grosseiras de ferro fundido, cheias de molgas e falhas, os talheres que mais pareciam instrumentos de tortura de tão rudes e ameaçadores, o que, bem vistas as coisas, nem andava longe da verdade e do propósito a que se destinavam, os copos sinistros em forma de caveiras humanas e uns trapos esfarrapados à laia de guardanapos.
- Estou cheio de fome!, anunciou o monstrengo num grunhido - Quero comer!
- Nós não... - responderam as crianças a uma só voz, choramingando - Queremos ir embora daqui!
- Só depois do almoço!, proferiu, rindo-se alarvemente - Porquê que pensam que vos trouxeram aqui?
- Deixa-nos ir embora!, lamuriaram-se e sacudiram-se inutilmente nas cadeiras contras as amarras.
- Isso é que era bom...
Estendeu a mão nodosa cheia de garras para um pedaço de pão negro que devorou e empurrou com um trago de uma bebida particularmente nauseabunda. Empunhando um cutelo enorme, levantou-se e dirigiu-se ao outro lado da mesa, onde estavam as duas irrequitas criaturinhas aprisionadas. Salivando abundantemente por cima delas, apalpou-lhes os dorsos e braços avaliadoramente.
- Magros como cães! Raios partam...
- Larga-nos! Larga-nos!
- Calem-se!, berrou tonitroante e ergueu o cutelo acima da cabeça.
Desferiu o golpe com perícia e cortou ambas as cabeças de uma só vez. Satisfeito, avaliou o resultado e, com mais uns quantos golpes cirúrgicos, obteve alguns pedaços de carne relativamente limpos de ossos e cartilagens.
- Boa chicha esta. Adoro carninha tenra e fresca!
Com uma tenaz, agarrou a esmo pedaços gotejantes de sangue e dispô-los nos pratos.
- Ahhhh... e agora vamos finalmente ao almoço!, exclamou ávido, dando meia volta para o seu lugar.
- Não gostamos disto. Queremos MacDonalds. Um happy meal com um sundae de caramelo..., pedincharam os putos.
- Já vos avisei vezes e vezes sem conta; nem pensem nessas porcarias! Comam os veadinhos antes que a carne seque.
- Não comemos, não comemos, não comemos. - E atiraram a carne para o chão com a cauda, enquanto incineravam tudo o que estava ao alcance com línguas de chamas que cuspiam entre risos e galhofa.
Vai ser um dia tãããão longo, pensou o gárgula para si próprio, suspirando. Queria tanto que eles fossem normais e calminhos como aqueles humanos cor de rosa que vejo nos anúncios da televisão.

quinta-feira, abril 24, 2008

Nos 80's...

...tinha eu de 4 a 14 anos e, durante essa década, muito mudou... ou talvez não...

Fui traquina e irrequieto ao ponto do exasperanço completo dos meus pais e restante família. Armei confusão da grossa em quase todo o lado onde estava, em casa ou na rua, sem que houvesse mão em mim que não fosse para uma merecida palmada (ou colher-de-pau-zada, no caso das mãos mais delicadas da minha mãe que, despidas, falhavam no propósito de inflingir o castigo). Fechei todas as portas da casa, roubando as chaves de seguida. Simulei duas sensacionais fugas de casa (uma da quinta que valeu esvaziar de tanques e batida dos campos, aparecendo somente quando ouvi a minha avó sentir-se mal e outra escondido atrás dos cortinados onde adormeci, depois de ter ameaçado que me ia embora, o que foi ignorado até o beijo de boas noites encontrar uma cama vazia). Soltei os animais das jaulas onde estavam por mais de uma vez, para gáudio dos cães da Toca do Velhaco que devoraram meia coelheira; para infortúnio dos cortinados e sofás da minha avó que foram roídos sem contemplações pelos hamsters; com perda total para o dono das galinhas, já que nunca retornaram a casa. Fui o proverbial hipópótamo na loja de cristais, o que me valeu um seguro de acidentes pessoais desde tenra idade. Tentei, por mais de uma vez e de método, despachar a minha irmã: pela janela, berço e tudo; pelas escadas, no andarilho; com uma raquete de ténis na cabeça (tendo providencialmente recebido umas novas nesse mesmo dia que, adianto, passei de castigo) ou alimentando-a de piriscas de cigarro, o que lhe valeu o vício eterno (temporariamente suspenso a bem da prole). Liguei a pista de carrinhos à tomada de 220V com consequente ignição do veículo que, no entanto, antes de dar o peido mestre protagonizou o melhor arranque de sempre. A minha própria integridade física de nada me interessava, com banhos auto-inflingidos de leite a ferver (atraído pelo barulho chocolhoante daqueles discos de vidro que se punham nas cafeteiras para evitar que o leite subisse - leite do dia não ultrapasteurizado, em pacotes moles, claro); banhos de lixívia, hence the name; cocktails de medicamentos que me valeram uma lavagem ao estômago; fuga e atropelamento (ao contrário do que seria de esperar) por um R5 na baixa; lápis espetado na palma da mão, deixando para trás até hoje a ponta de grafite; 2 enganganços quase fatais, um com um drop de laranja (ao saltitar sufocante em frente ao televisor para pedir ajuda recebi um seco "sai da frente da televisão" ao que retorqui vomitando o jantar e o malfadado drop) e outro com uma peça de lego sugada por uma palhinha (simulava um elevador numa construção vanguardista) que foi prontamente engolida por um whisky&soda (começou aqui uma bela relação com a pinga) da minha tia, que estava, felizmente, ali à mão; uma mordidela num cotovelo por uma "lassie" traiçoeira; um escaldão solar valente que obrigou ao corte da pele das minhas costas e a 10 dias à sombra (que tormento, em pleno verão no Algarve); esmagamento dos dentes da frente num balouço (com 15 dias a soro e sopa e um novo look ainda hoje por corrigir mas que já faz parte da imagem de marca); corte de lado a lado no lábio inferior por um copo maldosamente manuseado (com 10 pontos por dentro e por fora que adicionaram mais uma marca simpática)...
Noutro tema, já vos disse que os meus genes são dominantes?

quarta-feira, abril 23, 2008

© 1982

Aparecia no monitor quando eu ligava a engenhoca que me ocupou muitos meses da década de 80. O Timex 2068 era uma versão melhorada do Spectrum 48K. Para jogar os jogos do Spectrum era preciso meter-lhe uma espécie de disquete que o reduzia ao nível do 48K. Parece-me que essa disquete não saiu do sítio mais que uma dúzia de vezes.
Load "" enter. Load "" enter. Limpa a cabeça do gravador. Roda o parafuso no gravador. Reza para que o jogo não caia.
Horas a jogar Match Day (I e II), Jet Set Willy II, Commando, Skool Daze, Chequered flag, Emilio Butragueño, Formula one, Parashoot, Match Point... Horas boas.

terça-feira, abril 22, 2008

A grande final

Não tenho muitas saudades dos 80s. A minha década melhor foram os 90s. Dos 80s recordo, antes de mais, três pátios, em escadinha, que estiveram vinte anos escondidos atrás de um prédio e recentemente voltei a ver de uma janela amiga. Três pátios onde joguei muitos milhares de futeboladas. Com bolas de futebol, com pacotes castanhos de leite "achocolatado", com bolas de ténis e até sem bola. Naqueles pátios eu era o Paolo Rossi e o meu melhor amigo o Maradona. Ele fintava tudo e todos e eu metia-a lá dentro. Os tipos da turma B eram como a selecção alemã: mais fortes e implacáveis, embora menos talentosos. Parece-me que toda a escola primária serviu apenas de preparação para aquele grande jogo final, no último dia da primária: turma A contra turma B. O tira-teimas. Tínhamos o Xana (encontrei-o há dias no Continente, com dois filhos pela mão) na baliza, o Pedro Neto e o João Miguel na defesa, o Paulo e o David no meio, o Rossi e o Diego na frente. A Professora arbitrou de uma janela alta e a bola era autografada pelo Paolo Rossi (não eu, o outro). Chegámos ao intervalo a vencer por um (que grande remate de meio-campo), mas fomos ainda a tempo de ser esmagados pela fúria germânica na segunda parte. Acabou 4-1. O Maradona saiu antes do fim do jogo, desolado com a exibição pouco inspirada e foi directamente para casa. Não me lembro se voltou ao colégio nesse dia. Só o voltei a encontrar nos 90s, ainda a tempo de discutir o jogo. Se os alemães nos tivessem autorizado a utilizar a Sandra, terceiro melhor jogador da turma, tudo teria sido diferente.

A minha geração não tem tesão: tem medo. Medo, medinho, tanto medo que cria bicho. E é por ter medo, que precisa da segurança que a memória dos anos 80 lhe trás. Falo das Stan Smith, do Cid, do Verão Azul e de tudo o resto. Medo que a instabilidade no trabalho ou que a incapacidade em acreditar no amor, na política ou na religião, gerou como monstro dentro de cada um. Por isto, sinto o aparecimento dos anos 80 como expressão de profunda decadência e tristeza: última bóia de salvação para uma geração que deixou de acreditar. Mais que um património comum de partilha. Porque se fosse património, era coisa do presente com pulsão de futuro, de mudança, e de acreditar. Mas como é só um sorriso inócuo, um pacificador das angústias e de incertezas, não pode ser património. Ouçamos 1970 (Retrato) de Jp Simões

segunda-feira, abril 21, 2008

Retro

Em plenos anos 80, as coisas eram o que eram. Uma coisa era uma coisa e o Glorioso era mesmo o Glorioso! Campeonatos, Taças, Supertaças, Competições Europeias, tudo marchava da mesma forma, sérios, dignos, honrados, sem medos, hesitações ou contemplações. A nostalgia do passado reflecte apenas a palidez do presente, sem chama nem brio que não uns fogachos intermitentes por parte de intervenientes mais mercenários que meritórios da honra de ostentar aquele símbolo na camisola. O desgaste de presidentes cinzentos e desprestigiantes erodiu parte do património do clube, tanto moral como material e pior que a fúria dos adeptos quando assistem a derrotas e empates inglórios (este ano o SLB tem mais empates que vitórias e isto ainda não acabou) é ver a apatia e o desinteresse de quem já nem tem tempo ou paciência para 90 minutos daquilo e se limita a encolher os ombros e a abanar a cabeça. Assim se destrói um clube rico em títulos, conquistas, honra e simbolismo que levou tão longe e tão bem o nome de Portugal por esse mundo fora e é triste assistir a este penoso caminhar para o término do campeonato, sabendo ainda que nada de bom virá no próximo (já nem o para o ano é que é nos vale). Agora assistimos à hegemonia de um clube sem berço, sem dignidade, sem honra, que lidera à custa de não olhar a meios para atingir os seus fins, que espezinha e amesquinha tudo o que se lhe opõem, sejam políticos, juízes, liga, federação ou governos, num claro desprezo por qualquer tipo de princípios e alicerçados na doutrina do contra tudo e contra todos do seu presidente (até tremo quando vejo aqueles bardinos da ribeira de azul e branco vestidos, ostentando cartazes sobre os méritos do JNPC, quais fiéis correlegionários da Fátima Felgueiras, Valentim ou Avelino F. Torres) e no seu intocável braço armado, os SD. Quem quiser que vibre com este futebol à moda do Wrestling americano em que vale mais o resultado do que a disputa desportiva e que nem espetáculo proporciona para além do gozo com as derrotas alheias. A mim, cada dia me diz menos...
Na fotografia os saudosos protagonistas do SLB de 80 (em que, adianto, nem gostava de futebol e só via basket à frente: a NBA e o SLB de Carlos Lisboa e Jean Jacques, claro): Silvino; Veloso, Dito, Mozer e Álvaro; Chiquinho, Shéu, Elzo e Pacheco; Magnusson e Rui Águas

sábado, abril 19, 2008

No exacto momento em que escrevo, cai a maior quantidade de granizo que alguma vez vi. Bem, na verdade, talvez a segunda maior. Sim, a segunda. A primeira foi outra. Aconteceu há alguns anos no mês de Maio. Maio, o mês em que um grupo de quatro ou cinco rapazes combinava passar um dia, um dia todinho, nas piscinas do Grande Hotel do Luso. Apanhávamos a camioneta na rodoviária nacional, comprávamos os bilhetes ao condutor e, às 10 da manhã, estávamos já a hesitar saltar ou não saltar da prancha de 5 metros. Todos dela saltaríamos -eventualmente- antes do almoço. Almoço? Enfim… batatas fritas, encharcadas com molho de tomate e sal, no restaurante das piscinas digeridas com leitura para alguns, e com mini-golf para outros. E depois, depois chegava a Teresa. Uma amiga que, imagine-se, dizia e fazia, o salto mais perigoso de toda a minha infância: a prancha de 10 metros da piscina do Luso. De cabeça. Recordo bem o fato de banho da Teresa. Preto e com cores florescentes de lado. E splash! Toda a tarde o grupo de rapazes a que pertencia, ficava a olhar a Teresa a saltar de cabeça da prancha de 10 metros da piscina do Luso. Daí os escaldões, com que chegávamos à rodoviária e, entrávamos no carro de um dos pais que nos iam buscar. Curioso, é que eram as mães e não os pais que sempre nos iam buscar à camioneta quando vínhamos das piscinas do Grande Hotel do Luso. E foi numa dessas vezes que caiu maior quantidade de granizo que alguma vez vi.

sexta-feira, abril 18, 2008

A vermelho, recordo principalmente, as linhas das esferográficas das minhas professoras primárias. A notação de certo, que no final da minha frase a azul, legitimava as hesitações e as rasuras de que a frase nascia. A nota de errado: cruz ou “E” impiedoso; muro intransponível na entrega das notícias em casa. E, a classificação da prova. Se sempre tive a intuição que existe uma relação entre a beleza e o verdadeiro, experimentei-a pela primeira vez nas provas de avaliação do colégio onde fiz a primária. Para mim, a diferença entre um “Muito Bom” e um “Não satisfaz menos” era uma diferença estética. Sabia intuitivamente que se produzisse uma prova sem rasuras, com respeito pelas margens, paragrafando quando fosse para paragrafar e com uma letra legível, teria, só por isso, um “Satisfaz Bem”. Não que houvesse uma percentagem para a apresentação, mas porque é assim que o conteúdo académico de um “Satisfaz Bem” se apresenta. Um boa nota era antes de mais uma prova bem escrita. Evolui muito pouco desde esse tempo. Claro que encontrei na ciência ecos desta intuição, acrescentei-a na organização de pessoas e desenvolvi-a na escolha de trabalhos, mas no fundo, sinto exactamente o mesmo de quando tinha 8 anos e recebia as provas na primária. Um prova limpinha é uma boa prova, uma prova cheia de rasuras tem uma má nota. Como não já não tenho 8 anos, e lido com mais responsabilidades, aplico esse principio analogicamente: às relações, às ideias, aos textos, e ao discurso médico. E tal como quando tinha 8 anos, o "Satisfaz bem" é sempre limpinho, e o "Não satisfaz" confusão.

A vermelho...

* A minha virilha, depois de a ter distendido ontem na jogatana diluviana, que, fora isso, foi magnífica!
-
* Quando tanto o SLB e o PSD convocam (ou pretendem convocar) eleições antecipadas é sinal que entraram no vermelho. O paralelismo assusta-me.
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* As respostas e as perguntas trocadas ontem, noite fora. Sabes que te respondo a tudo e que, na dúvida, qualquer dúvida, é melhor mesmo perguntar.
-
* Rapinando a ideia, porque partilhada e não consubstanciada de TCravidão, à menção da palavra "vermelho" saltam-me imediatamente ao espírito (e a palavra "saltam" não foi aqui empregue de ânimo leve) as mamas da Fáfá de Belém acompanhadas da repetição da mencionada cor nas suas variantes aumentativas (novamente saliento a inexistência de acaso na escolha deste termo).

quinta-feira, abril 17, 2008

Um dia marcado a vermelho (escuro) para não esquecer!

Ponto prévio: não vi o jogo, apenas acompanhei a marcha do marcador (via sms, cortesia da leoa mais gira do mundo - estou quase convertido ao teu SCP porque a ti já me rendi por completo) e uns vislumbres dos lances chave no rescaldo.
Pontos soltos:
Um resultado de 5-3 é sinónimo de jogo grande;
Quem está a ganhar 2-0 e fica a perder 3-2 sofre por inépcia e culpa própria;
Quem sofre 5 golos em 24 minutos não está, de certeza, bem;
Um derby com apenas 2 lances polémicos é um bom derby (ainda que ambos tenham sido decididos contra o SLB);
O Rui Costa merecia melhor final de carreira (e já agora um título) que este;
O SLB dificilmente ganhará mais algum jogo até ao final do campeonato;
O próximo campeonato do SLB está já posto em causa dado o final deste que vai acarretar limpeza étnica, desmoralização de jogadores e equipa técnica que vão querer folha limpa para esquecer o passado (erro crasso, deviam lembrar-se para não repetirem), ausência da Champions com acrescidas dificuldades na escolha de treinador e jogadores e decréscimo substancial de receitas;
Na minha opinião e sem saber que impacto isso teria no resultado final (se a ganhar por 2-0 perdem por 5-3, se chegassem a maior vantagem...), fico com a impressão que os dois lances de que falei anteriormente foram mal avaliados pelo árbitro.
Tempo ainda para falar um pouco sobre o meu mau feitio nestas coisas:
Se estivesse naquele campo não ficava ponta de energia para queimar nem km por percorrer. E se isso não bastasse, alguma perna de verde e branco vestida iria pagar o pato... detesto perder.
Na final, mais do que um vencedor, espero dois derrotados. Se isso não for possível, lesões e cartões em barda e tumultos nas bancadas num jogo de 0-0 cheio de casos e erros. Lamento se isto parece mau perder. É que é mesmo. Fair play, moderação e temperança? Chiça penico... Isso é apanágio do xadrez ou do bridge (e mesmo assim lembro-me de umas mesas viradas na sequência de uma abertura falhada ou de uns leilões mal conduzidos). Isto é futebol, raios!!

quarta-feira, abril 16, 2008

Um dia marcado a vermelho para não esquecer!

Um dia diferente o de ontem, dentro de um espírito que todos partilham mas que nem sempre se consegue materializar por manifesta falta de vontade, mais do que de tempo ou disponibilidade...
A HFP decidiu, e bem, começar a demonstrar preocupações sociais dentro do meio em que se insere e instituiu o dia do voluntário. Angariados os aderentes, ontem foi a altura encontrada para ir dar o contributo à causa escolhida. Rumo ao IPO de Lisboa, lá fomos ajudar na renovação de parte das instalações da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Realidade triste, difícil de aceitar ou compreender, injustiça maior e mais revoltante quando inflingida a crianças, o cancro, nos nossos dias, cresce em incidência em todos os escalões etários e sociais, fruto do aumento descontrolado dos contaminantes ambientais e de factores de predisposição genética, com os correspondentes danos físicos, morais e psicológicos para o próprio, familiares e amigos. É uma doença particularmente complicada pelo grau de casualidade com que ataca, pela sentença certa de morte e sofrimento a prazo que dita e ainda pela violência debilitante dos tratamentos que igualam a da própria doença.
O contacto com doentes e familiares fica, e bem, reservado para quem passa pelos 6 meses de formação obrigatória do IPO (contam com 500 voluntários nas mais diversas funções!) dada a sensibilidade do assunto mas foi, de facto, muito recompensante, na medida do que nos foi possível, poder ajudar a instituição. Louvam-se ainda o espírito do grupo e a camaradagem que sairam fortalecidos e a inestimável colaboração do empreiteiro local e da sua prestável equipa que tanta paciência demonstraram para nos ensinar o B-A-BA da bricolage.
E, de brinde, não tive de aturar o IC19 duas vezes, não tive de acordar às 6,45h (9h) e saí às 16,30h. Ser solidário é bom e de mais que uma maneira...

terça-feira, abril 15, 2008

Corar de vergonha

Não me imagino a pertencer a um clube, a um partido ou a uma religião sem me identificar com os valores da maioria das pessoas que dele façam parte.
Envergonha-me o resultado das eleições de ontem na Académica. Não pela vitória neste momento do anterior presidente, mas pelas memórias de festejos e sofrimento passados com as pessoas que agora o elegem.
Não me identifico com pessoas que acham que vale tudo para ajudar a Académica. E percebo que essas estão em maioria. Por isso estou de fora há dois anos. Mas tinha esperança que destas eleições viesse um sinal de mudança.
Não sou da Académica neste momento como não poderia ser do FC Porto. Como teria deixado de gostar do Benfica se o Vale e Azevedo não tivesse sido derrubado pela maioria dos sócios.
Tenho vergonha de ter festejado aquela subida fantasma, garantida por um golo do Aves (?) que nunca existiu, de ter celebrado a subida contra o Estoril em 97, acreditando que era de um clube diferente, para perceber agora que os sócios da Briosa acreditam que vale tudo para ganhar.

segunda-feira, abril 14, 2008

Vermelho

Encarnado. Sangue. Paixão. Morango. Fúria. Limite. Coração. Extremo. Calor. Amor. Red line. Rosas. Comunismo. Cereja. Aviso. Cardeal. Poder. Natal. Vida. Cereja. Pecado. Fogo. Desejo. Energia. Exaltação. Força. Lava. Mar. China. Vinho. Maçã. Rubi. Ferrari. Cruz. Barão. Bull. Smart. Pele. Coragem. Honra. Sacrifício. Perigo. Escarlate.

domingo, abril 13, 2008

O vermelho e o negro

Escreveu Stendhal este romance a pensar na crítica à sociedade francesa do período da Restauração, particularmente sobre a frustração dos objectivos racionalmente traçados pelos excessos das paixões mas facilmente se consegue um paralelo com o jogo do Benfica contra a Briosa. Nado e criado em terras da lusa atenas, adianto desde já que, se era para perder, que tenha sido para a Académica que bem precisa daqueles pontos para a justa manutenção na primeira divisão. Adiante. A analogia com a obra do título prossegue na observação dos adeptos encarnados e desta direcção do LFV com evidentes reflexos na prestação da equipa:
- Estes jogadores não são assim tão maus como os pintam e exemplos de vassouradas indescriminadas para mostrar serviço estão cheias de reviravoltas de sucesso de acabados na luz a vingarem com outros emblemas ao peito;
- O clube tem, de facto, condições físicas, materiais e humanas para ter sucesso, com um estádio novo e um centro de estágios moderno;
- Ultrapassado um passado recente de descalabro a todos os níveis, o que se agradece aos actuais gestores, começa a ser patente a sua inépcia para mais do que isto;
- A paixão em demasia cega e chega de envocá-la para sanar o insanável.
Há problemas estruturais bem complicados por resolver, ainda que acredite nos méritos do Rui Costa, dadas as condições próprias de tempo e autonomia, para formar uma equipa técnica profissional e capaz de atingir o almejado sucesso continuado e regular, sem ceder à pressão de mais uma "limpeza étnica" só para encher o olho do adepto insatisfeito com bodes expiatórios e caras novas sobre as quais ninguém pode falar por desconhecimento mas que cedo verão os dedos acusatórios apontados, terminado o estado de graça e sem tempo para provarem os seus méritos (vide Lisandro, Tarik, Miguel Veloso, etc). A formação tem de ser posta a render de uma forma regular à imagem do rival da segunda circular. O balneário blindado e posto imune às habituais encomendas jornalísticas provocatórias à imagem do rival do norte. As fugas de informação seladas assim como a boca do presidente que tem de aprender a conter-se de modo a não personificar a falta de nível que censura aos outros quando as coisas não lhe correm a contento. O equilíbrio financeiro assegurado, já que se trata do único clube em Portugal que tem o potencial de gerar receitas suficientes para se manter estável independentemente (dentro de limites razoáveis, até porque as vitórias nunca fizeram mal a ninguém) dos resultados desportivos. Por último, mas não menos importante, o culto de vitória e dignidade de outros tempos tem de ser recuperado a bem do prestígio de uma instituição de nível mundial.
Aproveite-se o bom e repare-se o mal. Olho nos bons exemplos e no espelho para não cometer os erros que apontamos aos outros. Apoio incondicional à equipa, principalmente nos momentos difíceis, mas mantendo um sentido crítico para não deixar que se instale um comodismo injustificado ou uma inércia e apatia que nos retirem o brio e a vontade de vencer tudo.
SLB SLB SLB!

sexta-feira, abril 11, 2008

Ler nas entrelinhas

Nem tudo é o que parece e, sem contexto apropriado ou conhecimento de causa, é fácil cair em perigosos erros de interpretação, para mais quando falamos de textos ou frases isoladas. A blogosfera está cheia destes casos em que o tom de voz é substituído por smiles, reticências e pontos de exclamação (cuja introdução nos hábitos de escrita é estranhamente viciante e, ao removê-los, deixam a frase fria e despida de emoção) sem que, contudo, toda a informação que se pretendia comunicar chegue ou possa chegar correctamente ao seu destinatário. Acrescente-se a isto factores como o de não conhecer pessoalmente o autor, o seu sentido de humor ou de ironia, deste pretender deliberadamente ser vago, mal compreendido, induzir alguém em erro ou estar num dia mau. Ou ainda de pura e simplesmente não ter conseguido, por inépcia, falta de léxico ou momentânea perda da necessária verve, expressar-se da melhor forma.
Noutra escala, ainda assim com maior (diferente) capacidade de transmissão de informação, um telefonema pode padecer do mesmo mal. Ainda que possua a vantagem do som e do tom, perde-a no imediatismo da formulação da frase, na distorção por interferências de algumas palavras chave e ao não permitir (salvo 3G ou Skype e mesmo assim...) a visualização da expressão do interlocutor, capaz de veicular muito mais do que as palavras ditas ou escritas.
Seja como for, tudo isto faz parte do gozo de escrever (e ler), do jogo das insinuações e interpretações, dos innuendos e segundos sentidos que geram valor acrescentado e compõem um estilo próprio. A produção de textos tem, quase sempre, uma motivação muito própria e, regra geral, quanto mais pessoal for o tema, mais difícil se torna a sua interpretação, principalmente para aqueles que optam, redactores e leitores, por uma abordagem desprovida de sentido crítico, de proporções ou sensibilidade.
Enfim, siga a novela. Os leitores aguardam ansiosos...

-Então, gostaste?
-Não sei, dá-me uma semana para pensar.
Hoje, custa ler crítica de cinema pois, a utilidade desses textos é seleccionar as frases que os leitores vão poder utilizar para comentar o filme. O leitor dirá que o actor A ou B tem um “papelão”, que a fotografia é notável, que o argumento foi uma adaptação ou que a música é de um mocinho que morreu na rodagem. Clichés que legitimam que duas pessoas estejam frente a frente, mas que impedem que conheçamos e, por consequência que produzamos, um discurso pessoal sobre determinado filme.

quinta-feira, abril 10, 2008

Sina

Ler a sina na palma das mãos, consultar o horóscopo, jogar os búzios, deitar o Tarot, ouvir o oráculo são tudo misticismos em que se pode acreditar mais ou menos. Sejam eles meios científicamente não comprovados de prescutar o futuro ou meras aldrabices de feira cujo efeito é meramente psicológico, fruto da coincidência ou de uma habilidade inata para constatar o óbvio, o senso comum, uma escrita habilidosa/manhosa ou uma aguda perspicácia, a verdade é que, de vez em quando, acertam ou ficam assustadoramente perto. Actualmente sigo atentamente o que o Oráculo da Dica da Semana tem para me dizer sobre a semana em termos de amor, saúde, dinheiro e trabalho e posso dizer que:
1) Desconfio que estou a enlouquecer, ainda que lá não diga nada sobre isto;
2) Alguém me anda a vigiar e a bufar ao vidente;
3) O gajo é mesmo místico;
4) Afinal, Margarida RP, há coincidências;
5) Toda a civilização ocidental assenta nos pressupostos errados;
6) Esta semana tenho 3 sóis em tudo menos no dinheiro (só 2 mas tenho um mercedes vermelho descapotável, nha nha nha nha nha nha) num máximo de 4 e mínimo de uma nuvem;
7) A Dica da Semana é, afinal, o grande repositório de toda a sabedoria humana;
8) A minha cor é o azul, o meu dia é hoje, quinta, e se tivesse decorado os números da sorte era um gajo bestial ou autista porque eram alguns 3000;
9) O grande segredo sobre o significado da vida esteve este tempo todo escondido numa publicação de distribuição gratuita de uma superfície comercial de preços baixos (gosto muito dos yogurtes gigantes com pedaços), entre a entrevista com a personalidade desinteressante e a promoção de congelados, razão pela qual nunca ninguém o encontrou;
10) Sim, caso-me contigo (parece que é a semana certa para ela discutir este tipo de coisas comigo e adianta ainda que irei concordar com tudo).
Adenda: Acima do Oráculo da Dica da Semana só mesmo a madame Zandinga! Madame Zandinga lê tudu, sabi tudu, vê tudu! Lê nuis búziu, nuis mão, nuis pé, nuis turnuzelu, nuis joelho, nius coxa, nu... MADAME ZANDINGA!!!! Nunca tinha conhecido nenhuma mística que lesse o futuro em braille...

Leituras matinais

E se, de repente, o PCP merecesse um voto?

PCP denuncia que metade das empresas do PSI-20 é gerida por ex-governantes

quarta-feira, abril 09, 2008

Da importância de não ler.

Isitgettingbetter,ordoyoufeelthesame?WillitmakeiteasieronyounowYougotsomeoneto blameYousayOneloveOnelifeWhenit'soneneedinthenightOneloveWegettoshareitLeaves youbabyifyoudon'tcareforitDidIdisappointyou?Orleaveabadtasteinyourmouth?YouactlikeyouneverhadloveAndyouwantmetogowithoutWellit's…Too lateTonightTodragthepastoutintothelightWe'reone,butwe'renotthesameWegettocarry eachotherCarryeachotherOneHaveyoucomehereforforgiveness?Haveyoucometorraisethedead?HaveyoucomeheretoplayJesusTothelepersinyourhead?DidIasktoomuch?More thanalotYougavemenothing,nowit'sallIgotWe'reone,butwe'renotthesameWellwehurt eachotherThenwedoitagainYousayLoveisatempleLoveahigherlawLoveisatempleLove thehigherlawYouaskmetoenterbutthenyoumakemecrawlAndIcan'tbeholdingontowhat yougotWhenallyougotishurtOneloveOnebloodOnelifeYougottodowhatyoushouldOne lifeWitheachotherSistersBrothersOnelifeButwe'renotthesameWegettocarryeachotherCarryeachotherOne

terça-feira, abril 08, 2008

Leio cada vez mais.
São muitas dezenas de mails em cada dia da semana. Mais na empresa e no hotmail, menos no gmail.
O Google Reader anuncia-me todos os dias talvez uns 40 posts que devo ler.
Leio o Público, os desportivos, os regionais, um económico e um ou outro estrangeiro, quando a pressa não é demasiada, logo pela manhã.
Leio cartas e faxes, textos e sites. Respondo, corrijo, confirmo, sugiro e volto a ler.
Regulamentos, legislação, formulários, manuais, propostas e projectos. Diariamente.
Há muito que abandonei o Orkut e já não me lembro de ir ao Facebook. Ainda estou a tentar perceber o Star Tracker e tenho curiosidade pelo Linked in. Mensagens, propostas e desafios. Texto.
Os motores de busca e as bases de dados estão a matar a relevância das teses e dos artigos como o trânsito mata o prazer de conduzir. Pela democratização. Lê-se, lê-se, lê-se e escreve-se o que outros já escreveram. E quase tudo já foi escrito ou é inútil. A percentagem de textos científicos relevantes deve estar a aproximar-se perigosamente de zero. Tenho dúvidas de que deva ler mais do mesmo, sabendo que a probabilidade de ler algo novo é reduzida. Escreve-se sobre o já escrito e lê-se sobre o já lido.
Leio, leio, leio e cada vez tenho menos vontade de ler o que lia antigamente. Já quase não leio "bons" livros, daqueles tão interessantes e sobrevalorizados neste cantinho do mundo.
Leio cada vez menos.

Há na leitura um segredo que me encanta. Privacidade, recato, afastamento, individualidade: transformação do mais palavroso, no mais cartuxo reflexivo. Interessa-me o silêncio, e a percepção de um mundo inacessível a nascer dentro do ser público. Quem lê, no momento que o faz, fica mais espesso, coberto pela camada da imaginação de quem, de fora, não sabe o que quem lê, lê. Tem que ver com o tempo: suspensão. Abandono do orgânico e social. Corpo que se agência para a imaginação. Matéria que se sublima . E isso encanta-me.

És como um livro aberto...

Da maneira como leio as coisas, ou melhor, as pessoas, existem 7 tipos de personagem da vida real. Ou melhor, é possível, para mim, categorizar as pessoas em 7 grandes categorias. A saber:

- Camaleões
Adaptam-se facilmente a qualquer situação sem nunca mostrarem, se a têm verdadeiramente ou se esta muda constantemente, a sua essência. Podem ser qualquer um dos outros tipos.

- Aventureiros
Thrillseekers cheios de energia e positivismo desde que devidamente motivados pelas circunstâncias e acontecimentos fora do normal. Viciados em adrenalina. Loucos. Imprevisíveis. Espontâneos. Excêntricos.

- Carneiros
Parecidos com os primeiros mas primando pela apatia com que se sujeitam a tudo o que lhes acontece ou com o afã com que procuram a protecção da manada, sem nunca se destacarem. Cinzentos. Previsíveis. Banais.

- Sombrios
Vêem o lado escuro da vida como algo cool e de culto. Cínicos, cáusticos, críticos, quiçá traumatizados, falta-lhes a alegria assumida do lado upbeat e colorido da vida (ou assumirem a alegria) para serem completos ainda que sejam interessantes.

- Ms./Mr. Right
Tudo by the book. As regras, a coerência e as aparências são tudo e cumprir o plano estipulado está-lhes no sangue. Vão ser aquilo que sempre quiseram ser nem que isso os mate.

- Deprês
Deprimidos. Depressivos. Insatisfeitos. Incapazes de serem espontâneos ou verdadeira e despreendidamente alegres. Sugam a felicidade dos outros em proveito próprio sem nenhum retorno.

- Boa onda
Sempre na maior. Sempre alegres, bem dispostos, satisfeitos, despreocupados. Riem como respiram nem que seja à custa de serem saudavelmente tolos ou um pouco inconsequentes, excepto no que à alegria, relax e felicidade diz respeito.

Acredito que, no curso da vida, se possa mudar de um estilo para outro. Aceito também que alguns estejam presos entre géneros, dependendo do que os rodeia e do que a vida lhes apresenta. Mas, até ver, consigo encaixar, em determinada altura e dado um conhecimento suficientemente aprofundado que me permita ler o âmago da pessoa em questão, a grande maioria das pessoas numa delas. Quanto às restantes, estou na dúvida se tal se deve a ainda não as ter compreendido suficientemente bem ou se me faltam categorias para juntar a estas.

segunda-feira, abril 07, 2008

Ler

Lia-se-lhe nos olhos um misto de admiração e gula. Paixão e amor. Adoração e desejo. Porque nunca o quis esconder, porque, mesmo que o quisesse, ser-lhe-ia impossível dado o ímpeto do sentimento que o enchia, preenchia e jorrava pelos poros, radiante. Um brilho diferente fazia com que se notasse no meio da multidão como se de um farol de felicidade se tratasse e nada o detinha no seu caminho para o que mais desejava. Todos o viam, todos o conseguiam ler, no rosto, nos actos, nas palavras, nos textos... O amor não passa despercebido e não pode ser mascarado nem contido.
Nem sempre nos é fácil ler emoções. Seja nas expressões faciais, seja nos actos ou palavras. Mas há alturas em que é impossível esconder ou calar o que nos vai na alma. Até podemos tentar disfarçar ou conter o melhor que pudermos, mercê de circustâncias que nos ultrapassam, embora, para quem está atento, seja sempre visível um brilho, um olhar, um tom de voz que revela toda a força do que vai lá dentro, fervente e intenso, que não pode ser contido por convenções ou racionalizações.
Por mim falo porque não o consigo fazer e, mais a mais, a partir de certa altura e sendo certo e sabido que o que sinto sai cá para fora em torrentes, que a minha vontade passa mais pelo apregoar em grande de toda a imensa felicidade de ter encontrado alguém incrível com quem sou feliz, acrescido do facto de bastarem uns instantes de convívio em comum para ser claro e nítido de quem se trata, passa depois, na minha opinião, por demasiado hipócrita insistir numa tese de negação. Mais a mais parece-me que, quando tudo está bem na sua génese, não há motivos válidos para a clandestinidade.
Por força da distração também não serei o melhor dos perscrutadores de almas, mesmo daquelas que estão mais abertas a essa sondagem, ainda que, como já me têm dito, seja eu próprio de fácil leitura, o que não me agrada a 100% por gostar de reservar para mim algumas reacções pelo grau de inconveniência que podem conter e pela perda de margem negocial que implica. Somente aos mais próximos sou receptivo àquelas subtis indirectas, àqueles sinais subliminares que são lidos nas entrelinhas, mas mesmo nesses casos é possível uma má leitura e interpretação dessas emanações.

sexta-feira, abril 04, 2008

Dá-me música que eu gosto...

A história entre a música e as relações não é recente e não dá sinais de divórcio. Dar música, literal ou figurativamente, faz parte do tema e a dança da sedução corre ao som de uma banda sonora própria, por vezes ouvida apenas pelos intervenientes directos. Descontado o tipicamente teen feeling de sentir que aquela música foi escrita só para mim, a verdade é que existem bons autores capazes de descreverem exactamente o que nos vai na alma com uma canção. Das baladas mais tristes às mais tórridas batidas, vai toda a escala das situações que normalmente sucedem entre duas pessoas que se envolvem, numa composição nem sempre harmoniosa, por vezes mesmo dissonante, mas que, espera-se, conduza a um grand finale retumbante!
As variações sobre este tema são intermináveis, com letra e música a variarem sobre sedução, encontros, paixão, raiva, atracção, zangas, pazes, sexo, traição, perda, amor, desilusão e tantos outros cambiantes presentes. E há tantos e tão bons exemplos para todos eles...
Eu, já o disse, gosto muito de música. Também já o disse mas gosto sempre de o repetir, gosto mesmo muito de ti. E gosto, no bom sentido, literal e figurativamente, de te dar música! Já dizia o shô Palma "se eu fosse compositor, compunha em teu louvor um hino triunfal" mas "eu não passo de um homem vulgar que tem a sorte de saborear esse teu passo inseguro e o paraíso no teu olhar". E agradeço essa sorte todos os dias!

quinta-feira, abril 03, 2008

Música

A vida precisa de uma banda sonora, risos e aplausos! Calvin dixit, ou frase semelhante.
O conceito é muito bom até porque esta divina comédia em que vivemos teria tudo a ganhar com este mui cinematográfico acrescento sonoro. Em boa verdade, graças à propagação indescriminada dos leitores de mp3, a noção de música portátil e em qualquer lado deu um significativo salto em frente (e adivinha-se já o próximo: música digital de difusão wireless portátil), com tudo de bom, música em qualquer altura e lugar, e mau, os autistas dos phones, que isso acarreta.
Eu gosto e não dispenso. No trabalho, no relax, no estudo, no carro, em casa, na praia, na rua, no café, nas compras e, combinação perfeita, na pista de dança. Os estilos são variados, do pop ao rock, do alternativo ao clássico, do pimba ao electrónico. Em português, inglês, brasileiro, francês, italiano, japonês... Há alturas e disposições para todos eles.
Há-as para ambientes mais tranquilos, mais românticos, mais animados, mais contemplativos, mais tristes, mais divertidos, mais melancólicos, mais reaccionários ou revolucionários, mais tresloucados... É escolher o efeito pretendido, de sedução a sedição, e alguém já compôs o acompanhamento musical! É escolher o tema, de break-ups a breakfasts, e alguém já redigiu a letra perfeita!
A propósito, estas linhas são escritas ao som das bandas sonoras da trilogia Matrix e do Lost Highway - messiânicas, épicas, empolgantes, dão vontade de pegar num machado, sabre de luz, AK-47 ou equivalente e ir ali num instantinho derrotar o mal ou conquistar o universo. Até já!

Money, it's a crime

E o melhor presidente que o dinheiro da Mota-Engil pode pagar é... Jorge Coelho!

Foi tudo dito há muito tempo, nesta música dos Pink Floyd, que cada dia nos descreve melhor.

quarta-feira, abril 02, 2008

Vira o disco e toca o mesmo...

A banda sonora podia ser a música do Padrinho mas mais provavelmente só com os intocáveis do Eliott Ness lá chegarão infelizmente...
As acusações sucedem-se, as histórias mais ou menos credíveis sobre prendas, viagens, prostitutas, bolas no frigorífico, ameaças, espancamentos, chantagens são já do conhecimento público, as gravações das escutas estão lá, preto no branco ainda que cinzentas à luz das normas processuais que deveriam ter sido seguidas para que não fossem declaradas inválidas. O poder e a impunidade andam, neste país, lado a lado juntamente com a pouca vergonha de quem ainda comemora com desfaçatez os títulos justificando-os com os sucessos extra-portas. Ora, somente com o descanso artifical da liga interna que lhes garantiu sucessivas presenças na Champions, foi possível orçamentar e ganhar o calo tão necessário para formar equipas cada vez mais fortes e competitivas, é verdade, e mais tranquilas pela senda de vitórias internas, porque já se sabe qual o impacto de feedback positivo que têm os resultados positivos no desporto. Os paralelos com o Marselha de Tapie ganham força e eco lá fora a cada dia que passa manchando para sempre o nome do FCPorto, tanto tempo associado a um bom exemplo e que, sem dúvida, tem algumas lições, principalmente em termos de organização, planeamento e capacidade negocial para dar. Mas o âmago podre mantém-se e conspurca tudo o resto...
Que os grandes sempre gozaram de um certo poder extra sobre os pequenos é certo e sabido (e sim, tempos houve em que outros clubes empunharam o ceptro negro do propalado sistema, o que não pode servir de argumentação para o que sucede agora, em tempos mais modernos e esclarecidos), com a justificação a cair na maior representatividade destes, no âmbito da natureza humana e das paixões intensas que impedem uma leitura isenta no desporto-rei. Influências maiores ou menores deste ou daquele personagem, pelas suas características e habilidades, idem. A força do capital também não é excepção no futebol para o que se vê na restante sociedade em que este se insere. Agora há e tem de haver limites para o que se pode fazer antes que o desporto perca o seu encanto por despido de competição. E se os outros grandes têm títulos a lamentar, que dizer daqueles clubes de linha secundária que lá poderiam, pontualmente como o Boavista, lá ter ido? E, pela tabela classificativa abaixo, os sonhos europeus destruídos, as descidas de divisão e as extinções de clubes históricos? A nódoa do apito dourado (e de processos semelhantes que têm de continuar a existir porque, gorada uma via, certamente que este cancro continuará a crescer até ser extripado, bastando ver resultados recentes tão bem conseguidos em campo próprio e alheio mau grado a larga vantagem já conquistada - quando roubar é um hábito de tão boas lembranças, é difícil largar o vício) tem de ser vista sob um prisma mais alargado que o da habitual tríade de candidatos a campeões. Mancha a peça toda e não apenas a face mais visível.
A justiça civil deu início ao processo até porque a desportiva, que só agora, tarde e a más horas dá mostras de um tímido arranque, está inquinada desde há muito tempo por uma teia de compadrio que prende tudo e todos a um código de silêncio e lealdade de um por todos e todos fora da cadeia que, tombada a primeira peça do dominó, virá a ruir pela base frágil onde assenta: os corruptos ratos do navio.
A música tem de mudar para bem de um desporto que arrasta multidões. Football is coming home e tem de sair dos bordéis onde andou a ser jogado para voltar ao habitat natural: a relva!

terça-feira, abril 01, 2008

Música de paz

Excerto de uma entrevista de António Lobo Antunes (ALA) à revista Visão (V) onde, às tantas, se evoca a "guerra do Ultramar", em Angola.

V: Ainda sonha com a guerra?
ALA: (...) Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
V: Não vou pôr isso na entrevista...
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?



PS:
Prestígio em França, Canadá, Reino Unido, Austrália, EUA, Espanha, Itália, Holanda, enfim, um pouco por todo o mundo.

E foi assim, nesta data, que a música começou...


Poucas pessoas podem ter a prova documental do momento em que tudo começou, do episódio zero da saga, do dia em que a música começou a tocar para não mais parar, numa coreografia perfeita... O acaso tem, felizmente, destas cerejas no topo do bolo! And the beat goes on...

sexta-feira, março 28, 2008

Os sete pecados magníficos... perdão, mortais

Quem nunca pecou que atire a primeira pedra... ao contrário do que cada um de nós estará pronto a afirmar, não surge após esta frase nenhuma revoada de calhaus, seja para que audiência for proferida. Sempre prontos para afirmar solenemente uma qualquer qualidade camuflada de defeito como teimosia por persistência ou demasiado críticos numa espiral depressiva, é dificil ser assertivo numa auto-análise. Tomando como referência, por exemplo, os sete pecados mortais, temos:
Da minha parte, destes posso dizer been there, done that pelo que o meu lugar no Inferno estaria garantido se tal local ainda existisse. Claro que o grau em que os cometes importa e era importante aferi-los por uma qualquer escala para se poder ter uma melhor noção sobre o dito pecado. Por exemplo, por Gula nunca fiz mais do que ficar mal disposto. Por luxúria se calhar estava caladinho. Avareza é um ponto fraco da minha parte e teria muito a melhorar neste capítulo para poder garantir bilhete. Ira sim, um must; ainda que raros, tenho no cadastro uns épicos ataques de fúria daqueles que fazem ver tudo em vermelho sendo que, ultimamente, estou bem mais tranquilo. Soberba, sim, dado que não nego que gosto das coisas boas da vida, tanto materiais como imateriais. Vaidade, na óptica da minha óptima auto-estima, admito-a em certo grau. Quanto à Preguiça, já foi pior, bem pior, tendo agora uma dose razoável que me permite apreciar um belo fim de tarde espapaçado ao sol tranquilamente.
Como em tudo é a dose que faz o veneno e por isso, mesmo um pecado pode ser o tempero certo para condimentar uma vida demasiado insossa. Em demasia pode estragar tudo, pelo que todo o cuidado é pouco. É pecar, malta, é pecar. Mas com juízo! A redenção está à porta assim como o fim de semana! Aproveitem e depois confessem-se aqui!

quinta-feira, março 27, 2008

Adoro traidores. Detesto mentirosos, mas adoro traidores. Traidores à séria. Os que escolhem construir sozinhos o seu próprio caminho, contra as expectativas da família, dos amigos, do estado ou da religião. Esses sim, são os sozinhos. Os singulares, os que interessam. A traição, enquanto acto contrário às expectativas que uma instituição, ou pessoa tem de outra, é por definição sempre um acto de liberdade.

Selecção Nacional e a sua némesis

"Tudo que se eleva acima da sua condição, tanto no bem quanto no mal, expõe-se a represálias dos deuses. Tende, com efeito, a subverter a ordem do mundo, a pôr em perigo o equilibrio universal e, por isso, tem de ser castigado, se se pretende que o universo se mantenha como é."

Deve ser por isto que volta e meia levamos uma coça destes gajos; para nos porem no nosso lugar. Bom, nunca sabem bem mas se há altura para uma derrota é num amigável. Agora aprendam com os erros para ver se não os repetem quando for a doer.

E que falta faz o Karagounis ao meio campo do Benfica...

quarta-feira, março 26, 2008

Democratite

Lindíssima forma de governo que funciona com base num pressuposto de que todos somos iguais no direito ao voto e na escolha de um governo eleito pela mairia mas que na prática e no nosso ainda demasiado imaturo sistema:
- Impede que falem mal dela própria por causa do papão do fascismo (que serve de areia para os olhos enquanto enchem os bolsos);
- Impede que falem mal dela porque é anti-democrático (parabéns pelo inovador conceito de pôr anti antes de qualquer forma de crítica a algo);
- Impede que falem mal dela própria porque não há outra melhor;
- Porque as assimetrias socio-económicas colocam demasiado stress num sistema que priveligia a igualdade;
- Porque o sistema fiscal é demasiado falível e permeável na distribuição da riqueza;
- Porque a segurança social é tudo menos segura;
- Porque há quem troque votos por sacos de plástico e electrodomésticos;
- Porque há crime sem castigo e a justiça há muito que deixou de ser cega;
- Porque há quem tenha elegido a Fátima Felgueiras, o Valentim Loureiro, o Alberto João Jardim e o Avelino Ferreira Torres, assista à pouca vergonha e ainda goste deles e venha para as ruas falar (Quem lhes deu o direito de expressão e o direito ao voto não os pode revogar por justa causa?);
- Porque os políticos mentem mais do que fazem e ninguém tem já paciência para os desmentir
- Porque a imprensa tem o rabo preso e cala-se ou diz o que lhe mandam;
-Porque já poucos se interessam (quem se pode dar a esse luxo) ou votam ou porque têm muito mais com que se preocupar dado o aumento do custo de vida;
- Porque enquanto não houver igualdade de educação e civismo o conceito não funciona porque os votos não valem todos o mesmo se não forem votos informados;
- Porque com a falência de todas as outras soluções governativas que faliram ou secaram perto do eucalipto democrático hegemónico, este reina agora soberano, incontestado e descontrolado (salvo uns poucos feudos ditatoriais ou utópicos ainda mais descontrolados) como qualquer monopólio.

My thoughts exactly

Só que para ser politicamente incorrecto, eu diria: quem nos anda a roubar?

Leiam isto.

Se o preço do barril de petróleo em euros desceu de 2000 até agora, por que é que o gasóleo custa agora mais do dobro do que custava então?

E quando o dólar começar a subir, será essa a justificação para que os preços dos combustíveis continuem a disparar?

Que roubalheira...

Hoje, ser politicamente incorrecto, é ter uma opinião precedida pela classificação de que a opinião que se segue é politicamente incorrecta. É assim, como, classificar de pintura tudo o que foi pintado, ou de cinema tudo o que foi filmado. Ser politicamente incorrecto é ser politicamente correcto. Por causa do advérbio. Os advérbios são as lulas da corte. Os moldáveis, os intriguistas, os traidores. Tal como os politicamente incorrectos. Prefiro o tipo substantivo. Calhau abrupto, burro, elefante parado, Bartleby, que só sai para a guerra quando sabe que pode perder tudo. Por isso, borrifo-me em ter opiniões sobre as contingências da governação, sobre ambiguidades das vontades ou sobre questões fracturantes. Prefiro ver saias rodadas, o medo de ser descoberto a fumar, a falta de preservativos, a tosse que o vinagre das saladas causa na garganta, as aftas dos outros, as bifanas gordurentas, os empregados do cinema, os mendigos na rua, as escolhas de comprar ou não comprar um carro, as hesitações e as palavras trocadas.

terça-feira, março 25, 2008

Só que na Islândia os sifões são mais caros

A Madeira pode vir a ser uma ilha sustentável. Mas apenas em termos energéticos. De resto, comparar a Islândia à ilha em que vigora o "andavas de jerico a vender sifões e agora és milionário", só por brincadeira...

(este post é uma experiência. se tudo correr bem, na página do Público linkada a Gabardina terá link de volta. Viva a tecnologia!)

O pequeno Necrotério Rêgo Grande Cólica de Jesus era coxo, anão, preto e albino (uma combinação raríssima e supinamente infeliz), cego, surdo, mudo, maneta, corcunda, vesgo, paraplégico, mongolóide, desdentado, gordo, zarolho, atrasado mental, careca, feio (mesmo sabendo que há gostos para tudo e que estes não se discutem, neste caso havia consenso generalizado sobre o quão hediondo era o rapazinho), sopinha de massa e gago (titubeava ciciante os gemidos incoerentes que a custo conseguia emitir entre rios de baba), tinha mau feitio, lábio leporino, síndroma de Tourette (felizmente era mudo e por isso não incomodava muito), acne, lepra, gases, sarna, artrite, renite, lúpus, sida, herpes, hepatite, doença de crohn, parkinson, alzheimer, unha encravada, halitose, pele oleosa, caspa e pulgas, era gay, judeu ortodoxo, fumava, ressonava, consumia gorduras saturadas e álcool, drogas, conduzia (a cadeira de rodas, claro) como um louco que, adianto, também era (paranóico - sempre que passava achava que toda a gente ficava a olhar para ele; e histriónico - adorava ser o centro das atenções) e votou Santana, Soares e Sócrates nas últimas eleições, não respectivamente. Mas acreditava piamente na reencarnação, razão pela qual tinha muita fé que um dia, nem que fosse na próxima vida, pertenceria a uma minoria mais feliz e menos discriminada. Teve azar. Nasceu portista.

segunda-feira, março 24, 2008

Blogar é uma forma de engate

Quando os mais ilustres assumem coisas semelhantes, não há por que o negar: este blog existe para o engate.
Ter este blog não é propriamente andar no Second Life, site que todos sabemos para o que serve. (Não quer dizer que alguns dos seus colaboradores não tenham por lá um avatar... a gerência não põe as mãos no fogo nem por ela própria). Ter este blog é, digamos assim, um meio termo aceitável e socialmente correcto entre ser uma pessoa estável, dedicada à família, e passar os dias fechado num quarto sombrio, a fumar, sem tomar banho, a tentar convencer desconhecidas a fazer sexo via messenger.
Apesar dos textos mais ou menos artísticos, da preocupação estética e da oferta musical, textos e caixas de comentários, títulos e sitemeter servem um único e nobre propósito: o engate.
A julgar pela reportagem sobre o Second Life, e exclusivamente em termos de eficácia, este blog tem-se revelado um acertadíssimo investimento.

Números de telemóvel nesta caixa de comentários. Na ausência de forma de contacto, uma leitura mais demorada poderá ser encarada como tentativa de aproximação e o teu IP investigado exaustivamente até que cheguemos até ti. Volta sempre.

Em defesa da pena de morte

Foi já com os eléctrodos bem ferrados nas pernas, logo após me terem perguntado se queria dizer mais alguma coisa que tudo começou. Começar é uma forma de dizer, já que o meu fim estava, de facto, à distância de uma descarga eléctrica. Mas começava, começava mesmo. Começava a consciência de que ninguém pode levar tanto da vida impunemente. Ninguém pode amar, como eu amei e sair sem arranhadura. Por isso, começava, começava depois da pergunta da última vontade, o sentido que faltou ao tribunal humano, cheio de erros e equívocos, de advogados e juízes. Eu era pobre: estava no sítio errado: fui condenado em três tempos. Mas agora, agora mesmo, no espaço de tempo em que a descarga eléctrica já saiu do interruptor, mas que ainda não me atingiu, agradeço, dou graças, comovido, graças ao Juiz vesgo, ao advogado incompetente e, principalmente à vontade humana de ter culpados. O meu fim, torresmo, é o merecido. Se morresse naturalmente o meu cadáver sublimar-se-ia pela potência do amor que dei e recebi.

Delico-doce

Ultimamente anda tudo em bicos dos pés para não pisar calos a ninguém, sempre com falinhas mansas e linguagem cuidada, uma criteriosa escolha de palavras e expressões para não ferir susceptibilidades que, muitas vezes, nem sequer são assim tão fáceis de ferir e só por andarmos com todos estes rodriguinhos e cerimónias se tornam florzinhas de estufa.
À menção de qualquer tema minimamente polémico logo saltam associações e comentadores profundamente indignados e ofendidos com a abordagem menos própria. Com tantos paninhos quentes torna-se difícil conseguir dizer seja o que for sobre qualquer tema com medo de ultrapassar uma fasquia que se vai tornando cada vez mais alta nessa selecção. O cuidado com as minorias deve ser uma preocupação, claro, mas sem cair no ridículo de ofender pela redução ao indefeso.
Sempre houve, há e continuará a haver temas mais sensíveis, mais polémicos, mais delicados mas há, na minha opinião, mais vantagens numa abordagem descomplexada e aberta, mesmo correndo o risco de melindrar alguém, do que num chove-não-molha morninho que não leva a lado nenhum.
A primeira vítima deste tipo de discurso é o sentido de humor que, limitado e agrilhoado por todas estas convenções, mirra e definha, num ciclo vicioso que leva a mais cinzentismo e ainda menor capacidade de encaixe e de, muito importante, rir de nós próprios. Não tarda nada estamos uns suiços. Rigorosos, mecânicos, perfeitos, inflexíveis. E sem pontinha de graça ou interesse.
Vamos! Venham daí piadas sobre maricas, pretos, sportinguistas, gajas, surdos, aleijados, católicos e alentejanos. Mas também sobre garanhões, brancos, portistas, gajos, cuscos, atletas, mórmones e lisboetas. Qualquer tema é um bom tema desde que abordado com inteligência e que provoque um riso saudável típico de uma mente aberta e descomplexada. Não há assuntos tabu. Excepto, claro, o Glorioso! E a correcção gramatical das minhas frases de 14 linhas. Isso é que não!! Com essas coisas não se brinca!

domingo, março 23, 2008

I/E/migrações

O plano era simples. Agarrar o borrego pelas patas da frente e hipnotizá-lo com uma chispa de lume. Depois: corte rápido: batatinhas: cebola: forno muito quente e prato. Assim mesmo. Porém, o borrego era gado fino. Patinha tratada no salão do Rolo. Gravata de seda. Fato estilo colonial de linho egípcio. E, um cachimbo aromático que, pensei – mal – ser o tempero. Eu, que sirvo refeições desde o século de Péricles, tenho, como podem imaginar, visto muitas coisas, mas um borrego com ares de David Livingston… Sentei-me muito convictamente, e com a segurança que a experiência de servir à mesa há 25 séculos inevitavelmente trás, olhei bem nos olhos do bicho. O borrego que não era burro nenhum, e que, já cá deve andar há tanto tempo quanto eu, percebendo a minha hesitação, pisgou-se. Cabisbaixo e derrotado, sentei-me ao canto da cozinha à espera de uma epifania que me salvasse o almoço de Páscoa. E foi então que recordei o Morrison. “Esta semana no Pingo-Doce, lombinho de sangacho em tomatada e coentros só 99 cêntimos”.E, mais que a conveniência do preço, apreciei o estar morto. Pois, se são conhecidas as manhas dos borregos, as do sangacho são as mais temidas. Há aliás uma história…

sexta-feira, março 21, 2008

epifania do dia

“Acredita porque é absurdo.” disse Søren Kierkegaard, à pequena rapariga que se preparava para saltar para o outro lado do arroio. A rapariga decidiu dar trela ao velho rebarbado. Estalou os dedos sem razão aparente; disse: duvidar é já acreditar. Kierkegaard arregalou muito, muito, muito os olhos remelosos, fez o esgar do coiote que pisa a bomba que preparou para o Bip-Bip e epifanou-se para um país do sul. Hoje, gere uma pequena empresa de ferro-velho, lá para os lados de Espiche. Consta que gosta de meixão e que não perde as promoções do LidL de Silves.

quinta-feira, março 20, 2008

Não estou de Acordo!

http://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_Ortogr%C3%A1fico_de_1990

http://orto.no.sapo.pt/

Sinto-me um imigrante dentro do meu próprio país quando já não reconheço a minha própria língua. Não bastando os constantes atropelos que a vejo sofrer no meu local de trabalho, coisa que, confesso, me arrepia de um modo que roça a intransigência, levando-me, por vezes, a não conter algumas respostas irónicas que me poderão um dia sair caras ou a ferir os sentimentos de alguém (como é que se corrige alguém que passa o dia a dizer "fostes" sem a clássica resposta, que, aposto, passaria despercebida, "Reparastes? Já não digo vistes!"), arruinando o bom ambiente de trabalho que tanto custou a construir, atropelos esses cometidos tanto por quem vive no topo da pirâmide como pela base e ainda, vantagem duvidosa bem sei, com o bónus de chacinarem também o inglês quando a sede de sangue gramatical não fica saciada com a barbárie cometida contra a língua materna, somam-se-lhe ainda os autênticos estrangeirismos nacionais como pips (people, malta, turma) e cubs (cubo, cubíbulo, casa), estes oriundos desse glorioso viveiro onde se reinventa e renova constantemente a língua de Camões, a margem sul.

Não querendo ser um velho do Restelo nesta ou noutras matérias e sabendo que a velocidade das mudanças (sociais, económicas, tecnológicas,...) tende a aumentar de dia para dia na nossa sociedade, deixando rapidamente para trás os cadáveres (metafóricos) ressequidos e esquecidos de quem não se adaptou, custa-me a aceitar sem uma razão solidamente sustentada toda ou qualquer mudança só porque alguns (aos quais não reconheço superiores competências na matéria) decididaram que seria assim e, quase exclusivamente, por critérios economicistas ou de suposto fortalecimento e união dos falantes da língua. Admito alguma nostalgia ligada aos meus argumentos, assim como algum receio de ter de reaprender noções e conceitos que dava como adquiridos para sempre mas que me interessa se passamos a ser muitos mais a usar algo coerente e consistentemente se o que iremos usar é, para mim, menos rico e de pior qualidade? E porquê tamanha aproximação ao brasileiro (sendo que não tenho nenhum sentimento contra aquele país ou língua, bem pelo contrário até por causa das minhas próprias raízes)?

Ninguém pára para pensar? Ou melhor, ninguém para para pensar?

(Versão 2.0: Correcção de um erro gramatical graças à atenta revisão de um anónimo leitor. Vide comentários anexos)

quarta-feira, março 19, 2008

Futebolices

Tozé Marreco, avançado que emigrou (como tantos outros jovens portugueses em busca de melhores condições e por falta de apostas cá dentro) para o FC Zwolle da Holanda, foi convocado para a equipa de sub-21 de Portugal.

Também o Garrincha era coxo e não foi por isso que foi pior jogador ou que o empurraram para fora do Brasil mas a infelicidade do nome, simultaneamente prenhe de alma lusa, Tozé, e de um peso nos ombros, Marreco, é demasiado grande para não nos compadecermos dele.

Força, Tozé, estamos contigo! Aposto que vais carregar a equipa às costas! Ou isso ou se falhas o golo decisivo és rapidamente promovido a Areias, o camelo, mas só com uma bossa. Seu dromedário!

Em Portugal, os estrangeiros dividem-se em dois grupos: nos que têm dinheiro, e nos que não têm. Os primeiros, são turistas, os segundos, são ilegais. Aos primeiros: hotéis, acessibilidades e moças simpáticas de menu nas mãos, aos segundos: camaratas limpas, fronteiras e jagunços de menu nas mãos. Para mim os estrangeiros em Portugal deviam ser divididos em dois grupos: os que dizem p´jama, e os que dizem pí´jama. E isto logo na fronteira. Haveria um palanque, o estrangeiro subiria ao microfone -com malas e tudo-, e uma voz perguntaria: Dizes p´jama, ou pí´jama? O estrangeiro responderia e, era de imediato dirigido para a fila da esquerda ou da direita.

terça-feira, março 18, 2008

Portugal, que imigração?

Vamos imaginar um tipo na Roménia. A vida está má. Não dá pra comer. O Munteanu - vamos chamar-lhe assim - decide emigrar. Decide emigrar para um (outro) país da União Europeia, onde se viva melhor. Parece-me lógico. Fica perto e deve ser um dos melhores sítios no mundo para se viver. Presumo que alguém que decide emigrar não escolhe o destino à sorte ou comprando o bilhete mais barato da Ryan Air. O Munteanu informa-se. Presumo que escolhe de acordo com as coisas que mais valoriza. Presumo que faça uma lista dos países da UE e ponha uma cruzinha aos três ou cinco países melhores em cada categoria. País mais tranquilo: Luxemburgo, Finlândia, Dinamarca. Pais com salários mais altos: Inglaterra, Alemanha, Suécia. País com mais protecção social: França e nórdicos. País com mais sol: Grécia, Itália, Espanha, Portugal. País com menos desemprego: Irlanda. País com mais crescimento económico: Irlanda, Espanha. É difícil (impossível?) imaginar um cenário em que o resultado desta análise indique como melhor país para emigrar: Portugal.

O que me leva à conclusão de que quem imigra para Portugal à procura de melhor vida ou é uma pessoa que não se sabe informar ou tem critérios muito estranhos. Ou seja, ou o Munteanu é uma pessoa muito inapta ou procurava um país com baixos salários, pouca protecção social e muita corrupção. Só assim se explica que tenha vindo parar a Portugal.

segunda-feira, março 17, 2008

Fazer vida longe. Reconstruindo cumplicidades com o homem do café. Interpretando os ruídos dos vizinhos e, catalogando como estão catalogadas as borboletas os hábitos dos outros. O velho de pantufas que ainda está a atravessar a passadeira, as flores de plástico em cima da mesa, a ordem dos livros, ou a falta deles, o chiar do chão, e o cheiro do eventual cão. Sim, porque há muitos cães eventuais e viver com pessoas efectivas. Fazer vida longe, é necessário ter uma vida perto. É necessário ter o Cohen sabido, o Reed esquecido, o Chico no mp3 e o Art e o amigo bem escondidos. Para se ser imigrante, para se imigrar para uma cidade, para uma pessoa, para uma profissão, para uma religião, é necessário ter os tarecos bem arrumados.