quinta-feira, abril 24, 2008

Nos 80's...

...tinha eu de 4 a 14 anos e, durante essa década, muito mudou... ou talvez não...

Fui traquina e irrequieto ao ponto do exasperanço completo dos meus pais e restante família. Armei confusão da grossa em quase todo o lado onde estava, em casa ou na rua, sem que houvesse mão em mim que não fosse para uma merecida palmada (ou colher-de-pau-zada, no caso das mãos mais delicadas da minha mãe que, despidas, falhavam no propósito de inflingir o castigo). Fechei todas as portas da casa, roubando as chaves de seguida. Simulei duas sensacionais fugas de casa (uma da quinta que valeu esvaziar de tanques e batida dos campos, aparecendo somente quando ouvi a minha avó sentir-se mal e outra escondido atrás dos cortinados onde adormeci, depois de ter ameaçado que me ia embora, o que foi ignorado até o beijo de boas noites encontrar uma cama vazia). Soltei os animais das jaulas onde estavam por mais de uma vez, para gáudio dos cães da Toca do Velhaco que devoraram meia coelheira; para infortúnio dos cortinados e sofás da minha avó que foram roídos sem contemplações pelos hamsters; com perda total para o dono das galinhas, já que nunca retornaram a casa. Fui o proverbial hipópótamo na loja de cristais, o que me valeu um seguro de acidentes pessoais desde tenra idade. Tentei, por mais de uma vez e de método, despachar a minha irmã: pela janela, berço e tudo; pelas escadas, no andarilho; com uma raquete de ténis na cabeça (tendo providencialmente recebido umas novas nesse mesmo dia que, adianto, passei de castigo) ou alimentando-a de piriscas de cigarro, o que lhe valeu o vício eterno (temporariamente suspenso a bem da prole). Liguei a pista de carrinhos à tomada de 220V com consequente ignição do veículo que, no entanto, antes de dar o peido mestre protagonizou o melhor arranque de sempre. A minha própria integridade física de nada me interessava, com banhos auto-inflingidos de leite a ferver (atraído pelo barulho chocolhoante daqueles discos de vidro que se punham nas cafeteiras para evitar que o leite subisse - leite do dia não ultrapasteurizado, em pacotes moles, claro); banhos de lixívia, hence the name; cocktails de medicamentos que me valeram uma lavagem ao estômago; fuga e atropelamento (ao contrário do que seria de esperar) por um R5 na baixa; lápis espetado na palma da mão, deixando para trás até hoje a ponta de grafite; 2 enganganços quase fatais, um com um drop de laranja (ao saltitar sufocante em frente ao televisor para pedir ajuda recebi um seco "sai da frente da televisão" ao que retorqui vomitando o jantar e o malfadado drop) e outro com uma peça de lego sugada por uma palhinha (simulava um elevador numa construção vanguardista) que foi prontamente engolida por um whisky&soda (começou aqui uma bela relação com a pinga) da minha tia, que estava, felizmente, ali à mão; uma mordidela num cotovelo por uma "lassie" traiçoeira; um escaldão solar valente que obrigou ao corte da pele das minhas costas e a 10 dias à sombra (que tormento, em pleno verão no Algarve); esmagamento dos dentes da frente num balouço (com 15 dias a soro e sopa e um novo look ainda hoje por corrigir mas que já faz parte da imagem de marca); corte de lado a lado no lábio inferior por um copo maldosamente manuseado (com 10 pontos por dentro e por fora que adicionaram mais uma marca simpática)...
Noutro tema, já vos disse que os meus genes são dominantes?

quarta-feira, abril 23, 2008

© 1982

Aparecia no monitor quando eu ligava a engenhoca que me ocupou muitos meses da década de 80. O Timex 2068 era uma versão melhorada do Spectrum 48K. Para jogar os jogos do Spectrum era preciso meter-lhe uma espécie de disquete que o reduzia ao nível do 48K. Parece-me que essa disquete não saiu do sítio mais que uma dúzia de vezes.
Load "" enter. Load "" enter. Limpa a cabeça do gravador. Roda o parafuso no gravador. Reza para que o jogo não caia.
Horas a jogar Match Day (I e II), Jet Set Willy II, Commando, Skool Daze, Chequered flag, Emilio Butragueño, Formula one, Parashoot, Match Point... Horas boas.

terça-feira, abril 22, 2008

A grande final

Não tenho muitas saudades dos 80s. A minha década melhor foram os 90s. Dos 80s recordo, antes de mais, três pátios, em escadinha, que estiveram vinte anos escondidos atrás de um prédio e recentemente voltei a ver de uma janela amiga. Três pátios onde joguei muitos milhares de futeboladas. Com bolas de futebol, com pacotes castanhos de leite "achocolatado", com bolas de ténis e até sem bola. Naqueles pátios eu era o Paolo Rossi e o meu melhor amigo o Maradona. Ele fintava tudo e todos e eu metia-a lá dentro. Os tipos da turma B eram como a selecção alemã: mais fortes e implacáveis, embora menos talentosos. Parece-me que toda a escola primária serviu apenas de preparação para aquele grande jogo final, no último dia da primária: turma A contra turma B. O tira-teimas. Tínhamos o Xana (encontrei-o há dias no Continente, com dois filhos pela mão) na baliza, o Pedro Neto e o João Miguel na defesa, o Paulo e o David no meio, o Rossi e o Diego na frente. A Professora arbitrou de uma janela alta e a bola era autografada pelo Paolo Rossi (não eu, o outro). Chegámos ao intervalo a vencer por um (que grande remate de meio-campo), mas fomos ainda a tempo de ser esmagados pela fúria germânica na segunda parte. Acabou 4-1. O Maradona saiu antes do fim do jogo, desolado com a exibição pouco inspirada e foi directamente para casa. Não me lembro se voltou ao colégio nesse dia. Só o voltei a encontrar nos 90s, ainda a tempo de discutir o jogo. Se os alemães nos tivessem autorizado a utilizar a Sandra, terceiro melhor jogador da turma, tudo teria sido diferente.

A minha geração não tem tesão: tem medo. Medo, medinho, tanto medo que cria bicho. E é por ter medo, que precisa da segurança que a memória dos anos 80 lhe trás. Falo das Stan Smith, do Cid, do Verão Azul e de tudo o resto. Medo que a instabilidade no trabalho ou que a incapacidade em acreditar no amor, na política ou na religião, gerou como monstro dentro de cada um. Por isto, sinto o aparecimento dos anos 80 como expressão de profunda decadência e tristeza: última bóia de salvação para uma geração que deixou de acreditar. Mais que um património comum de partilha. Porque se fosse património, era coisa do presente com pulsão de futuro, de mudança, e de acreditar. Mas como é só um sorriso inócuo, um pacificador das angústias e de incertezas, não pode ser património. Ouçamos 1970 (Retrato) de Jp Simões

segunda-feira, abril 21, 2008

Retro

Em plenos anos 80, as coisas eram o que eram. Uma coisa era uma coisa e o Glorioso era mesmo o Glorioso! Campeonatos, Taças, Supertaças, Competições Europeias, tudo marchava da mesma forma, sérios, dignos, honrados, sem medos, hesitações ou contemplações. A nostalgia do passado reflecte apenas a palidez do presente, sem chama nem brio que não uns fogachos intermitentes por parte de intervenientes mais mercenários que meritórios da honra de ostentar aquele símbolo na camisola. O desgaste de presidentes cinzentos e desprestigiantes erodiu parte do património do clube, tanto moral como material e pior que a fúria dos adeptos quando assistem a derrotas e empates inglórios (este ano o SLB tem mais empates que vitórias e isto ainda não acabou) é ver a apatia e o desinteresse de quem já nem tem tempo ou paciência para 90 minutos daquilo e se limita a encolher os ombros e a abanar a cabeça. Assim se destrói um clube rico em títulos, conquistas, honra e simbolismo que levou tão longe e tão bem o nome de Portugal por esse mundo fora e é triste assistir a este penoso caminhar para o término do campeonato, sabendo ainda que nada de bom virá no próximo (já nem o para o ano é que é nos vale). Agora assistimos à hegemonia de um clube sem berço, sem dignidade, sem honra, que lidera à custa de não olhar a meios para atingir os seus fins, que espezinha e amesquinha tudo o que se lhe opõem, sejam políticos, juízes, liga, federação ou governos, num claro desprezo por qualquer tipo de princípios e alicerçados na doutrina do contra tudo e contra todos do seu presidente (até tremo quando vejo aqueles bardinos da ribeira de azul e branco vestidos, ostentando cartazes sobre os méritos do JNPC, quais fiéis correlegionários da Fátima Felgueiras, Valentim ou Avelino F. Torres) e no seu intocável braço armado, os SD. Quem quiser que vibre com este futebol à moda do Wrestling americano em que vale mais o resultado do que a disputa desportiva e que nem espetáculo proporciona para além do gozo com as derrotas alheias. A mim, cada dia me diz menos...
Na fotografia os saudosos protagonistas do SLB de 80 (em que, adianto, nem gostava de futebol e só via basket à frente: a NBA e o SLB de Carlos Lisboa e Jean Jacques, claro): Silvino; Veloso, Dito, Mozer e Álvaro; Chiquinho, Shéu, Elzo e Pacheco; Magnusson e Rui Águas

sábado, abril 19, 2008

No exacto momento em que escrevo, cai a maior quantidade de granizo que alguma vez vi. Bem, na verdade, talvez a segunda maior. Sim, a segunda. A primeira foi outra. Aconteceu há alguns anos no mês de Maio. Maio, o mês em que um grupo de quatro ou cinco rapazes combinava passar um dia, um dia todinho, nas piscinas do Grande Hotel do Luso. Apanhávamos a camioneta na rodoviária nacional, comprávamos os bilhetes ao condutor e, às 10 da manhã, estávamos já a hesitar saltar ou não saltar da prancha de 5 metros. Todos dela saltaríamos -eventualmente- antes do almoço. Almoço? Enfim… batatas fritas, encharcadas com molho de tomate e sal, no restaurante das piscinas digeridas com leitura para alguns, e com mini-golf para outros. E depois, depois chegava a Teresa. Uma amiga que, imagine-se, dizia e fazia, o salto mais perigoso de toda a minha infância: a prancha de 10 metros da piscina do Luso. De cabeça. Recordo bem o fato de banho da Teresa. Preto e com cores florescentes de lado. E splash! Toda a tarde o grupo de rapazes a que pertencia, ficava a olhar a Teresa a saltar de cabeça da prancha de 10 metros da piscina do Luso. Daí os escaldões, com que chegávamos à rodoviária e, entrávamos no carro de um dos pais que nos iam buscar. Curioso, é que eram as mães e não os pais que sempre nos iam buscar à camioneta quando vínhamos das piscinas do Grande Hotel do Luso. E foi numa dessas vezes que caiu maior quantidade de granizo que alguma vez vi.

sexta-feira, abril 18, 2008

A vermelho, recordo principalmente, as linhas das esferográficas das minhas professoras primárias. A notação de certo, que no final da minha frase a azul, legitimava as hesitações e as rasuras de que a frase nascia. A nota de errado: cruz ou “E” impiedoso; muro intransponível na entrega das notícias em casa. E, a classificação da prova. Se sempre tive a intuição que existe uma relação entre a beleza e o verdadeiro, experimentei-a pela primeira vez nas provas de avaliação do colégio onde fiz a primária. Para mim, a diferença entre um “Muito Bom” e um “Não satisfaz menos” era uma diferença estética. Sabia intuitivamente que se produzisse uma prova sem rasuras, com respeito pelas margens, paragrafando quando fosse para paragrafar e com uma letra legível, teria, só por isso, um “Satisfaz Bem”. Não que houvesse uma percentagem para a apresentação, mas porque é assim que o conteúdo académico de um “Satisfaz Bem” se apresenta. Um boa nota era antes de mais uma prova bem escrita. Evolui muito pouco desde esse tempo. Claro que encontrei na ciência ecos desta intuição, acrescentei-a na organização de pessoas e desenvolvi-a na escolha de trabalhos, mas no fundo, sinto exactamente o mesmo de quando tinha 8 anos e recebia as provas na primária. Um prova limpinha é uma boa prova, uma prova cheia de rasuras tem uma má nota. Como não já não tenho 8 anos, e lido com mais responsabilidades, aplico esse principio analogicamente: às relações, às ideias, aos textos, e ao discurso médico. E tal como quando tinha 8 anos, o "Satisfaz bem" é sempre limpinho, e o "Não satisfaz" confusão.

A vermelho...

* A minha virilha, depois de a ter distendido ontem na jogatana diluviana, que, fora isso, foi magnífica!
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* Quando tanto o SLB e o PSD convocam (ou pretendem convocar) eleições antecipadas é sinal que entraram no vermelho. O paralelismo assusta-me.
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* As respostas e as perguntas trocadas ontem, noite fora. Sabes que te respondo a tudo e que, na dúvida, qualquer dúvida, é melhor mesmo perguntar.
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* Rapinando a ideia, porque partilhada e não consubstanciada de TCravidão, à menção da palavra "vermelho" saltam-me imediatamente ao espírito (e a palavra "saltam" não foi aqui empregue de ânimo leve) as mamas da Fáfá de Belém acompanhadas da repetição da mencionada cor nas suas variantes aumentativas (novamente saliento a inexistência de acaso na escolha deste termo).

quinta-feira, abril 17, 2008

Um dia marcado a vermelho (escuro) para não esquecer!

Ponto prévio: não vi o jogo, apenas acompanhei a marcha do marcador (via sms, cortesia da leoa mais gira do mundo - estou quase convertido ao teu SCP porque a ti já me rendi por completo) e uns vislumbres dos lances chave no rescaldo.
Pontos soltos:
Um resultado de 5-3 é sinónimo de jogo grande;
Quem está a ganhar 2-0 e fica a perder 3-2 sofre por inépcia e culpa própria;
Quem sofre 5 golos em 24 minutos não está, de certeza, bem;
Um derby com apenas 2 lances polémicos é um bom derby (ainda que ambos tenham sido decididos contra o SLB);
O Rui Costa merecia melhor final de carreira (e já agora um título) que este;
O SLB dificilmente ganhará mais algum jogo até ao final do campeonato;
O próximo campeonato do SLB está já posto em causa dado o final deste que vai acarretar limpeza étnica, desmoralização de jogadores e equipa técnica que vão querer folha limpa para esquecer o passado (erro crasso, deviam lembrar-se para não repetirem), ausência da Champions com acrescidas dificuldades na escolha de treinador e jogadores e decréscimo substancial de receitas;
Na minha opinião e sem saber que impacto isso teria no resultado final (se a ganhar por 2-0 perdem por 5-3, se chegassem a maior vantagem...), fico com a impressão que os dois lances de que falei anteriormente foram mal avaliados pelo árbitro.
Tempo ainda para falar um pouco sobre o meu mau feitio nestas coisas:
Se estivesse naquele campo não ficava ponta de energia para queimar nem km por percorrer. E se isso não bastasse, alguma perna de verde e branco vestida iria pagar o pato... detesto perder.
Na final, mais do que um vencedor, espero dois derrotados. Se isso não for possível, lesões e cartões em barda e tumultos nas bancadas num jogo de 0-0 cheio de casos e erros. Lamento se isto parece mau perder. É que é mesmo. Fair play, moderação e temperança? Chiça penico... Isso é apanágio do xadrez ou do bridge (e mesmo assim lembro-me de umas mesas viradas na sequência de uma abertura falhada ou de uns leilões mal conduzidos). Isto é futebol, raios!!

quarta-feira, abril 16, 2008

Um dia marcado a vermelho para não esquecer!

Um dia diferente o de ontem, dentro de um espírito que todos partilham mas que nem sempre se consegue materializar por manifesta falta de vontade, mais do que de tempo ou disponibilidade...
A HFP decidiu, e bem, começar a demonstrar preocupações sociais dentro do meio em que se insere e instituiu o dia do voluntário. Angariados os aderentes, ontem foi a altura encontrada para ir dar o contributo à causa escolhida. Rumo ao IPO de Lisboa, lá fomos ajudar na renovação de parte das instalações da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Realidade triste, difícil de aceitar ou compreender, injustiça maior e mais revoltante quando inflingida a crianças, o cancro, nos nossos dias, cresce em incidência em todos os escalões etários e sociais, fruto do aumento descontrolado dos contaminantes ambientais e de factores de predisposição genética, com os correspondentes danos físicos, morais e psicológicos para o próprio, familiares e amigos. É uma doença particularmente complicada pelo grau de casualidade com que ataca, pela sentença certa de morte e sofrimento a prazo que dita e ainda pela violência debilitante dos tratamentos que igualam a da própria doença.
O contacto com doentes e familiares fica, e bem, reservado para quem passa pelos 6 meses de formação obrigatória do IPO (contam com 500 voluntários nas mais diversas funções!) dada a sensibilidade do assunto mas foi, de facto, muito recompensante, na medida do que nos foi possível, poder ajudar a instituição. Louvam-se ainda o espírito do grupo e a camaradagem que sairam fortalecidos e a inestimável colaboração do empreiteiro local e da sua prestável equipa que tanta paciência demonstraram para nos ensinar o B-A-BA da bricolage.
E, de brinde, não tive de aturar o IC19 duas vezes, não tive de acordar às 6,45h (9h) e saí às 16,30h. Ser solidário é bom e de mais que uma maneira...

terça-feira, abril 15, 2008

Corar de vergonha

Não me imagino a pertencer a um clube, a um partido ou a uma religião sem me identificar com os valores da maioria das pessoas que dele façam parte.
Envergonha-me o resultado das eleições de ontem na Académica. Não pela vitória neste momento do anterior presidente, mas pelas memórias de festejos e sofrimento passados com as pessoas que agora o elegem.
Não me identifico com pessoas que acham que vale tudo para ajudar a Académica. E percebo que essas estão em maioria. Por isso estou de fora há dois anos. Mas tinha esperança que destas eleições viesse um sinal de mudança.
Não sou da Académica neste momento como não poderia ser do FC Porto. Como teria deixado de gostar do Benfica se o Vale e Azevedo não tivesse sido derrubado pela maioria dos sócios.
Tenho vergonha de ter festejado aquela subida fantasma, garantida por um golo do Aves (?) que nunca existiu, de ter celebrado a subida contra o Estoril em 97, acreditando que era de um clube diferente, para perceber agora que os sócios da Briosa acreditam que vale tudo para ganhar.

segunda-feira, abril 14, 2008

Vermelho

Encarnado. Sangue. Paixão. Morango. Fúria. Limite. Coração. Extremo. Calor. Amor. Red line. Rosas. Comunismo. Cereja. Aviso. Cardeal. Poder. Natal. Vida. Cereja. Pecado. Fogo. Desejo. Energia. Exaltação. Força. Lava. Mar. China. Vinho. Maçã. Rubi. Ferrari. Cruz. Barão. Bull. Smart. Pele. Coragem. Honra. Sacrifício. Perigo. Escarlate.

domingo, abril 13, 2008

O vermelho e o negro

Escreveu Stendhal este romance a pensar na crítica à sociedade francesa do período da Restauração, particularmente sobre a frustração dos objectivos racionalmente traçados pelos excessos das paixões mas facilmente se consegue um paralelo com o jogo do Benfica contra a Briosa. Nado e criado em terras da lusa atenas, adianto desde já que, se era para perder, que tenha sido para a Académica que bem precisa daqueles pontos para a justa manutenção na primeira divisão. Adiante. A analogia com a obra do título prossegue na observação dos adeptos encarnados e desta direcção do LFV com evidentes reflexos na prestação da equipa:
- Estes jogadores não são assim tão maus como os pintam e exemplos de vassouradas indescriminadas para mostrar serviço estão cheias de reviravoltas de sucesso de acabados na luz a vingarem com outros emblemas ao peito;
- O clube tem, de facto, condições físicas, materiais e humanas para ter sucesso, com um estádio novo e um centro de estágios moderno;
- Ultrapassado um passado recente de descalabro a todos os níveis, o que se agradece aos actuais gestores, começa a ser patente a sua inépcia para mais do que isto;
- A paixão em demasia cega e chega de envocá-la para sanar o insanável.
Há problemas estruturais bem complicados por resolver, ainda que acredite nos méritos do Rui Costa, dadas as condições próprias de tempo e autonomia, para formar uma equipa técnica profissional e capaz de atingir o almejado sucesso continuado e regular, sem ceder à pressão de mais uma "limpeza étnica" só para encher o olho do adepto insatisfeito com bodes expiatórios e caras novas sobre as quais ninguém pode falar por desconhecimento mas que cedo verão os dedos acusatórios apontados, terminado o estado de graça e sem tempo para provarem os seus méritos (vide Lisandro, Tarik, Miguel Veloso, etc). A formação tem de ser posta a render de uma forma regular à imagem do rival da segunda circular. O balneário blindado e posto imune às habituais encomendas jornalísticas provocatórias à imagem do rival do norte. As fugas de informação seladas assim como a boca do presidente que tem de aprender a conter-se de modo a não personificar a falta de nível que censura aos outros quando as coisas não lhe correm a contento. O equilíbrio financeiro assegurado, já que se trata do único clube em Portugal que tem o potencial de gerar receitas suficientes para se manter estável independentemente (dentro de limites razoáveis, até porque as vitórias nunca fizeram mal a ninguém) dos resultados desportivos. Por último, mas não menos importante, o culto de vitória e dignidade de outros tempos tem de ser recuperado a bem do prestígio de uma instituição de nível mundial.
Aproveite-se o bom e repare-se o mal. Olho nos bons exemplos e no espelho para não cometer os erros que apontamos aos outros. Apoio incondicional à equipa, principalmente nos momentos difíceis, mas mantendo um sentido crítico para não deixar que se instale um comodismo injustificado ou uma inércia e apatia que nos retirem o brio e a vontade de vencer tudo.
SLB SLB SLB!

sexta-feira, abril 11, 2008

Ler nas entrelinhas

Nem tudo é o que parece e, sem contexto apropriado ou conhecimento de causa, é fácil cair em perigosos erros de interpretação, para mais quando falamos de textos ou frases isoladas. A blogosfera está cheia destes casos em que o tom de voz é substituído por smiles, reticências e pontos de exclamação (cuja introdução nos hábitos de escrita é estranhamente viciante e, ao removê-los, deixam a frase fria e despida de emoção) sem que, contudo, toda a informação que se pretendia comunicar chegue ou possa chegar correctamente ao seu destinatário. Acrescente-se a isto factores como o de não conhecer pessoalmente o autor, o seu sentido de humor ou de ironia, deste pretender deliberadamente ser vago, mal compreendido, induzir alguém em erro ou estar num dia mau. Ou ainda de pura e simplesmente não ter conseguido, por inépcia, falta de léxico ou momentânea perda da necessária verve, expressar-se da melhor forma.
Noutra escala, ainda assim com maior (diferente) capacidade de transmissão de informação, um telefonema pode padecer do mesmo mal. Ainda que possua a vantagem do som e do tom, perde-a no imediatismo da formulação da frase, na distorção por interferências de algumas palavras chave e ao não permitir (salvo 3G ou Skype e mesmo assim...) a visualização da expressão do interlocutor, capaz de veicular muito mais do que as palavras ditas ou escritas.
Seja como for, tudo isto faz parte do gozo de escrever (e ler), do jogo das insinuações e interpretações, dos innuendos e segundos sentidos que geram valor acrescentado e compõem um estilo próprio. A produção de textos tem, quase sempre, uma motivação muito própria e, regra geral, quanto mais pessoal for o tema, mais difícil se torna a sua interpretação, principalmente para aqueles que optam, redactores e leitores, por uma abordagem desprovida de sentido crítico, de proporções ou sensibilidade.
Enfim, siga a novela. Os leitores aguardam ansiosos...

-Então, gostaste?
-Não sei, dá-me uma semana para pensar.
Hoje, custa ler crítica de cinema pois, a utilidade desses textos é seleccionar as frases que os leitores vão poder utilizar para comentar o filme. O leitor dirá que o actor A ou B tem um “papelão”, que a fotografia é notável, que o argumento foi uma adaptação ou que a música é de um mocinho que morreu na rodagem. Clichés que legitimam que duas pessoas estejam frente a frente, mas que impedem que conheçamos e, por consequência que produzamos, um discurso pessoal sobre determinado filme.

quinta-feira, abril 10, 2008

Sina

Ler a sina na palma das mãos, consultar o horóscopo, jogar os búzios, deitar o Tarot, ouvir o oráculo são tudo misticismos em que se pode acreditar mais ou menos. Sejam eles meios científicamente não comprovados de prescutar o futuro ou meras aldrabices de feira cujo efeito é meramente psicológico, fruto da coincidência ou de uma habilidade inata para constatar o óbvio, o senso comum, uma escrita habilidosa/manhosa ou uma aguda perspicácia, a verdade é que, de vez em quando, acertam ou ficam assustadoramente perto. Actualmente sigo atentamente o que o Oráculo da Dica da Semana tem para me dizer sobre a semana em termos de amor, saúde, dinheiro e trabalho e posso dizer que:
1) Desconfio que estou a enlouquecer, ainda que lá não diga nada sobre isto;
2) Alguém me anda a vigiar e a bufar ao vidente;
3) O gajo é mesmo místico;
4) Afinal, Margarida RP, há coincidências;
5) Toda a civilização ocidental assenta nos pressupostos errados;
6) Esta semana tenho 3 sóis em tudo menos no dinheiro (só 2 mas tenho um mercedes vermelho descapotável, nha nha nha nha nha nha) num máximo de 4 e mínimo de uma nuvem;
7) A Dica da Semana é, afinal, o grande repositório de toda a sabedoria humana;
8) A minha cor é o azul, o meu dia é hoje, quinta, e se tivesse decorado os números da sorte era um gajo bestial ou autista porque eram alguns 3000;
9) O grande segredo sobre o significado da vida esteve este tempo todo escondido numa publicação de distribuição gratuita de uma superfície comercial de preços baixos (gosto muito dos yogurtes gigantes com pedaços), entre a entrevista com a personalidade desinteressante e a promoção de congelados, razão pela qual nunca ninguém o encontrou;
10) Sim, caso-me contigo (parece que é a semana certa para ela discutir este tipo de coisas comigo e adianta ainda que irei concordar com tudo).
Adenda: Acima do Oráculo da Dica da Semana só mesmo a madame Zandinga! Madame Zandinga lê tudu, sabi tudu, vê tudu! Lê nuis búziu, nuis mão, nuis pé, nuis turnuzelu, nuis joelho, nius coxa, nu... MADAME ZANDINGA!!!! Nunca tinha conhecido nenhuma mística que lesse o futuro em braille...

Leituras matinais

E se, de repente, o PCP merecesse um voto?

PCP denuncia que metade das empresas do PSI-20 é gerida por ex-governantes

quarta-feira, abril 09, 2008

Da importância de não ler.

Isitgettingbetter,ordoyoufeelthesame?WillitmakeiteasieronyounowYougotsomeoneto blameYousayOneloveOnelifeWhenit'soneneedinthenightOneloveWegettoshareitLeaves youbabyifyoudon'tcareforitDidIdisappointyou?Orleaveabadtasteinyourmouth?YouactlikeyouneverhadloveAndyouwantmetogowithoutWellit's…Too lateTonightTodragthepastoutintothelightWe'reone,butwe'renotthesameWegettocarry eachotherCarryeachotherOneHaveyoucomehereforforgiveness?Haveyoucometorraisethedead?HaveyoucomeheretoplayJesusTothelepersinyourhead?DidIasktoomuch?More thanalotYougavemenothing,nowit'sallIgotWe'reone,butwe'renotthesameWellwehurt eachotherThenwedoitagainYousayLoveisatempleLoveahigherlawLoveisatempleLove thehigherlawYouaskmetoenterbutthenyoumakemecrawlAndIcan'tbeholdingontowhat yougotWhenallyougotishurtOneloveOnebloodOnelifeYougottodowhatyoushouldOne lifeWitheachotherSistersBrothersOnelifeButwe'renotthesameWegettocarryeachotherCarryeachotherOne

terça-feira, abril 08, 2008

Leio cada vez mais.
São muitas dezenas de mails em cada dia da semana. Mais na empresa e no hotmail, menos no gmail.
O Google Reader anuncia-me todos os dias talvez uns 40 posts que devo ler.
Leio o Público, os desportivos, os regionais, um económico e um ou outro estrangeiro, quando a pressa não é demasiada, logo pela manhã.
Leio cartas e faxes, textos e sites. Respondo, corrijo, confirmo, sugiro e volto a ler.
Regulamentos, legislação, formulários, manuais, propostas e projectos. Diariamente.
Há muito que abandonei o Orkut e já não me lembro de ir ao Facebook. Ainda estou a tentar perceber o Star Tracker e tenho curiosidade pelo Linked in. Mensagens, propostas e desafios. Texto.
Os motores de busca e as bases de dados estão a matar a relevância das teses e dos artigos como o trânsito mata o prazer de conduzir. Pela democratização. Lê-se, lê-se, lê-se e escreve-se o que outros já escreveram. E quase tudo já foi escrito ou é inútil. A percentagem de textos científicos relevantes deve estar a aproximar-se perigosamente de zero. Tenho dúvidas de que deva ler mais do mesmo, sabendo que a probabilidade de ler algo novo é reduzida. Escreve-se sobre o já escrito e lê-se sobre o já lido.
Leio, leio, leio e cada vez tenho menos vontade de ler o que lia antigamente. Já quase não leio "bons" livros, daqueles tão interessantes e sobrevalorizados neste cantinho do mundo.
Leio cada vez menos.

Há na leitura um segredo que me encanta. Privacidade, recato, afastamento, individualidade: transformação do mais palavroso, no mais cartuxo reflexivo. Interessa-me o silêncio, e a percepção de um mundo inacessível a nascer dentro do ser público. Quem lê, no momento que o faz, fica mais espesso, coberto pela camada da imaginação de quem, de fora, não sabe o que quem lê, lê. Tem que ver com o tempo: suspensão. Abandono do orgânico e social. Corpo que se agência para a imaginação. Matéria que se sublima . E isso encanta-me.

És como um livro aberto...

Da maneira como leio as coisas, ou melhor, as pessoas, existem 7 tipos de personagem da vida real. Ou melhor, é possível, para mim, categorizar as pessoas em 7 grandes categorias. A saber:

- Camaleões
Adaptam-se facilmente a qualquer situação sem nunca mostrarem, se a têm verdadeiramente ou se esta muda constantemente, a sua essência. Podem ser qualquer um dos outros tipos.

- Aventureiros
Thrillseekers cheios de energia e positivismo desde que devidamente motivados pelas circunstâncias e acontecimentos fora do normal. Viciados em adrenalina. Loucos. Imprevisíveis. Espontâneos. Excêntricos.

- Carneiros
Parecidos com os primeiros mas primando pela apatia com que se sujeitam a tudo o que lhes acontece ou com o afã com que procuram a protecção da manada, sem nunca se destacarem. Cinzentos. Previsíveis. Banais.

- Sombrios
Vêem o lado escuro da vida como algo cool e de culto. Cínicos, cáusticos, críticos, quiçá traumatizados, falta-lhes a alegria assumida do lado upbeat e colorido da vida (ou assumirem a alegria) para serem completos ainda que sejam interessantes.

- Ms./Mr. Right
Tudo by the book. As regras, a coerência e as aparências são tudo e cumprir o plano estipulado está-lhes no sangue. Vão ser aquilo que sempre quiseram ser nem que isso os mate.

- Deprês
Deprimidos. Depressivos. Insatisfeitos. Incapazes de serem espontâneos ou verdadeira e despreendidamente alegres. Sugam a felicidade dos outros em proveito próprio sem nenhum retorno.

- Boa onda
Sempre na maior. Sempre alegres, bem dispostos, satisfeitos, despreocupados. Riem como respiram nem que seja à custa de serem saudavelmente tolos ou um pouco inconsequentes, excepto no que à alegria, relax e felicidade diz respeito.

Acredito que, no curso da vida, se possa mudar de um estilo para outro. Aceito também que alguns estejam presos entre géneros, dependendo do que os rodeia e do que a vida lhes apresenta. Mas, até ver, consigo encaixar, em determinada altura e dado um conhecimento suficientemente aprofundado que me permita ler o âmago da pessoa em questão, a grande maioria das pessoas numa delas. Quanto às restantes, estou na dúvida se tal se deve a ainda não as ter compreendido suficientemente bem ou se me faltam categorias para juntar a estas.

segunda-feira, abril 07, 2008

Ler

Lia-se-lhe nos olhos um misto de admiração e gula. Paixão e amor. Adoração e desejo. Porque nunca o quis esconder, porque, mesmo que o quisesse, ser-lhe-ia impossível dado o ímpeto do sentimento que o enchia, preenchia e jorrava pelos poros, radiante. Um brilho diferente fazia com que se notasse no meio da multidão como se de um farol de felicidade se tratasse e nada o detinha no seu caminho para o que mais desejava. Todos o viam, todos o conseguiam ler, no rosto, nos actos, nas palavras, nos textos... O amor não passa despercebido e não pode ser mascarado nem contido.
Nem sempre nos é fácil ler emoções. Seja nas expressões faciais, seja nos actos ou palavras. Mas há alturas em que é impossível esconder ou calar o que nos vai na alma. Até podemos tentar disfarçar ou conter o melhor que pudermos, mercê de circustâncias que nos ultrapassam, embora, para quem está atento, seja sempre visível um brilho, um olhar, um tom de voz que revela toda a força do que vai lá dentro, fervente e intenso, que não pode ser contido por convenções ou racionalizações.
Por mim falo porque não o consigo fazer e, mais a mais, a partir de certa altura e sendo certo e sabido que o que sinto sai cá para fora em torrentes, que a minha vontade passa mais pelo apregoar em grande de toda a imensa felicidade de ter encontrado alguém incrível com quem sou feliz, acrescido do facto de bastarem uns instantes de convívio em comum para ser claro e nítido de quem se trata, passa depois, na minha opinião, por demasiado hipócrita insistir numa tese de negação. Mais a mais parece-me que, quando tudo está bem na sua génese, não há motivos válidos para a clandestinidade.
Por força da distração também não serei o melhor dos perscrutadores de almas, mesmo daquelas que estão mais abertas a essa sondagem, ainda que, como já me têm dito, seja eu próprio de fácil leitura, o que não me agrada a 100% por gostar de reservar para mim algumas reacções pelo grau de inconveniência que podem conter e pela perda de margem negocial que implica. Somente aos mais próximos sou receptivo àquelas subtis indirectas, àqueles sinais subliminares que são lidos nas entrelinhas, mas mesmo nesses casos é possível uma má leitura e interpretação dessas emanações.

sexta-feira, abril 04, 2008

Dá-me música que eu gosto...

A história entre a música e as relações não é recente e não dá sinais de divórcio. Dar música, literal ou figurativamente, faz parte do tema e a dança da sedução corre ao som de uma banda sonora própria, por vezes ouvida apenas pelos intervenientes directos. Descontado o tipicamente teen feeling de sentir que aquela música foi escrita só para mim, a verdade é que existem bons autores capazes de descreverem exactamente o que nos vai na alma com uma canção. Das baladas mais tristes às mais tórridas batidas, vai toda a escala das situações que normalmente sucedem entre duas pessoas que se envolvem, numa composição nem sempre harmoniosa, por vezes mesmo dissonante, mas que, espera-se, conduza a um grand finale retumbante!
As variações sobre este tema são intermináveis, com letra e música a variarem sobre sedução, encontros, paixão, raiva, atracção, zangas, pazes, sexo, traição, perda, amor, desilusão e tantos outros cambiantes presentes. E há tantos e tão bons exemplos para todos eles...
Eu, já o disse, gosto muito de música. Também já o disse mas gosto sempre de o repetir, gosto mesmo muito de ti. E gosto, no bom sentido, literal e figurativamente, de te dar música! Já dizia o shô Palma "se eu fosse compositor, compunha em teu louvor um hino triunfal" mas "eu não passo de um homem vulgar que tem a sorte de saborear esse teu passo inseguro e o paraíso no teu olhar". E agradeço essa sorte todos os dias!

quinta-feira, abril 03, 2008

Música

A vida precisa de uma banda sonora, risos e aplausos! Calvin dixit, ou frase semelhante.
O conceito é muito bom até porque esta divina comédia em que vivemos teria tudo a ganhar com este mui cinematográfico acrescento sonoro. Em boa verdade, graças à propagação indescriminada dos leitores de mp3, a noção de música portátil e em qualquer lado deu um significativo salto em frente (e adivinha-se já o próximo: música digital de difusão wireless portátil), com tudo de bom, música em qualquer altura e lugar, e mau, os autistas dos phones, que isso acarreta.
Eu gosto e não dispenso. No trabalho, no relax, no estudo, no carro, em casa, na praia, na rua, no café, nas compras e, combinação perfeita, na pista de dança. Os estilos são variados, do pop ao rock, do alternativo ao clássico, do pimba ao electrónico. Em português, inglês, brasileiro, francês, italiano, japonês... Há alturas e disposições para todos eles.
Há-as para ambientes mais tranquilos, mais românticos, mais animados, mais contemplativos, mais tristes, mais divertidos, mais melancólicos, mais reaccionários ou revolucionários, mais tresloucados... É escolher o efeito pretendido, de sedução a sedição, e alguém já compôs o acompanhamento musical! É escolher o tema, de break-ups a breakfasts, e alguém já redigiu a letra perfeita!
A propósito, estas linhas são escritas ao som das bandas sonoras da trilogia Matrix e do Lost Highway - messiânicas, épicas, empolgantes, dão vontade de pegar num machado, sabre de luz, AK-47 ou equivalente e ir ali num instantinho derrotar o mal ou conquistar o universo. Até já!

Money, it's a crime

E o melhor presidente que o dinheiro da Mota-Engil pode pagar é... Jorge Coelho!

Foi tudo dito há muito tempo, nesta música dos Pink Floyd, que cada dia nos descreve melhor.

quarta-feira, abril 02, 2008

Vira o disco e toca o mesmo...

A banda sonora podia ser a música do Padrinho mas mais provavelmente só com os intocáveis do Eliott Ness lá chegarão infelizmente...
As acusações sucedem-se, as histórias mais ou menos credíveis sobre prendas, viagens, prostitutas, bolas no frigorífico, ameaças, espancamentos, chantagens são já do conhecimento público, as gravações das escutas estão lá, preto no branco ainda que cinzentas à luz das normas processuais que deveriam ter sido seguidas para que não fossem declaradas inválidas. O poder e a impunidade andam, neste país, lado a lado juntamente com a pouca vergonha de quem ainda comemora com desfaçatez os títulos justificando-os com os sucessos extra-portas. Ora, somente com o descanso artifical da liga interna que lhes garantiu sucessivas presenças na Champions, foi possível orçamentar e ganhar o calo tão necessário para formar equipas cada vez mais fortes e competitivas, é verdade, e mais tranquilas pela senda de vitórias internas, porque já se sabe qual o impacto de feedback positivo que têm os resultados positivos no desporto. Os paralelos com o Marselha de Tapie ganham força e eco lá fora a cada dia que passa manchando para sempre o nome do FCPorto, tanto tempo associado a um bom exemplo e que, sem dúvida, tem algumas lições, principalmente em termos de organização, planeamento e capacidade negocial para dar. Mas o âmago podre mantém-se e conspurca tudo o resto...
Que os grandes sempre gozaram de um certo poder extra sobre os pequenos é certo e sabido (e sim, tempos houve em que outros clubes empunharam o ceptro negro do propalado sistema, o que não pode servir de argumentação para o que sucede agora, em tempos mais modernos e esclarecidos), com a justificação a cair na maior representatividade destes, no âmbito da natureza humana e das paixões intensas que impedem uma leitura isenta no desporto-rei. Influências maiores ou menores deste ou daquele personagem, pelas suas características e habilidades, idem. A força do capital também não é excepção no futebol para o que se vê na restante sociedade em que este se insere. Agora há e tem de haver limites para o que se pode fazer antes que o desporto perca o seu encanto por despido de competição. E se os outros grandes têm títulos a lamentar, que dizer daqueles clubes de linha secundária que lá poderiam, pontualmente como o Boavista, lá ter ido? E, pela tabela classificativa abaixo, os sonhos europeus destruídos, as descidas de divisão e as extinções de clubes históricos? A nódoa do apito dourado (e de processos semelhantes que têm de continuar a existir porque, gorada uma via, certamente que este cancro continuará a crescer até ser extripado, bastando ver resultados recentes tão bem conseguidos em campo próprio e alheio mau grado a larga vantagem já conquistada - quando roubar é um hábito de tão boas lembranças, é difícil largar o vício) tem de ser vista sob um prisma mais alargado que o da habitual tríade de candidatos a campeões. Mancha a peça toda e não apenas a face mais visível.
A justiça civil deu início ao processo até porque a desportiva, que só agora, tarde e a más horas dá mostras de um tímido arranque, está inquinada desde há muito tempo por uma teia de compadrio que prende tudo e todos a um código de silêncio e lealdade de um por todos e todos fora da cadeia que, tombada a primeira peça do dominó, virá a ruir pela base frágil onde assenta: os corruptos ratos do navio.
A música tem de mudar para bem de um desporto que arrasta multidões. Football is coming home e tem de sair dos bordéis onde andou a ser jogado para voltar ao habitat natural: a relva!

terça-feira, abril 01, 2008

Música de paz

Excerto de uma entrevista de António Lobo Antunes (ALA) à revista Visão (V) onde, às tantas, se evoca a "guerra do Ultramar", em Angola.

V: Ainda sonha com a guerra?
ALA: (...) Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.
V: Parava a guerra?
ALA: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
V: Não vou pôr isso na entrevista...
ALA: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?



PS:
Prestígio em França, Canadá, Reino Unido, Austrália, EUA, Espanha, Itália, Holanda, enfim, um pouco por todo o mundo.

E foi assim, nesta data, que a música começou...


Poucas pessoas podem ter a prova documental do momento em que tudo começou, do episódio zero da saga, do dia em que a música começou a tocar para não mais parar, numa coreografia perfeita... O acaso tem, felizmente, destas cerejas no topo do bolo! And the beat goes on...

sexta-feira, março 28, 2008

Os sete pecados magníficos... perdão, mortais

Quem nunca pecou que atire a primeira pedra... ao contrário do que cada um de nós estará pronto a afirmar, não surge após esta frase nenhuma revoada de calhaus, seja para que audiência for proferida. Sempre prontos para afirmar solenemente uma qualquer qualidade camuflada de defeito como teimosia por persistência ou demasiado críticos numa espiral depressiva, é dificil ser assertivo numa auto-análise. Tomando como referência, por exemplo, os sete pecados mortais, temos:
Da minha parte, destes posso dizer been there, done that pelo que o meu lugar no Inferno estaria garantido se tal local ainda existisse. Claro que o grau em que os cometes importa e era importante aferi-los por uma qualquer escala para se poder ter uma melhor noção sobre o dito pecado. Por exemplo, por Gula nunca fiz mais do que ficar mal disposto. Por luxúria se calhar estava caladinho. Avareza é um ponto fraco da minha parte e teria muito a melhorar neste capítulo para poder garantir bilhete. Ira sim, um must; ainda que raros, tenho no cadastro uns épicos ataques de fúria daqueles que fazem ver tudo em vermelho sendo que, ultimamente, estou bem mais tranquilo. Soberba, sim, dado que não nego que gosto das coisas boas da vida, tanto materiais como imateriais. Vaidade, na óptica da minha óptima auto-estima, admito-a em certo grau. Quanto à Preguiça, já foi pior, bem pior, tendo agora uma dose razoável que me permite apreciar um belo fim de tarde espapaçado ao sol tranquilamente.
Como em tudo é a dose que faz o veneno e por isso, mesmo um pecado pode ser o tempero certo para condimentar uma vida demasiado insossa. Em demasia pode estragar tudo, pelo que todo o cuidado é pouco. É pecar, malta, é pecar. Mas com juízo! A redenção está à porta assim como o fim de semana! Aproveitem e depois confessem-se aqui!

quinta-feira, março 27, 2008

Adoro traidores. Detesto mentirosos, mas adoro traidores. Traidores à séria. Os que escolhem construir sozinhos o seu próprio caminho, contra as expectativas da família, dos amigos, do estado ou da religião. Esses sim, são os sozinhos. Os singulares, os que interessam. A traição, enquanto acto contrário às expectativas que uma instituição, ou pessoa tem de outra, é por definição sempre um acto de liberdade.

Selecção Nacional e a sua némesis

"Tudo que se eleva acima da sua condição, tanto no bem quanto no mal, expõe-se a represálias dos deuses. Tende, com efeito, a subverter a ordem do mundo, a pôr em perigo o equilibrio universal e, por isso, tem de ser castigado, se se pretende que o universo se mantenha como é."

Deve ser por isto que volta e meia levamos uma coça destes gajos; para nos porem no nosso lugar. Bom, nunca sabem bem mas se há altura para uma derrota é num amigável. Agora aprendam com os erros para ver se não os repetem quando for a doer.

E que falta faz o Karagounis ao meio campo do Benfica...

quarta-feira, março 26, 2008

Democratite

Lindíssima forma de governo que funciona com base num pressuposto de que todos somos iguais no direito ao voto e na escolha de um governo eleito pela mairia mas que na prática e no nosso ainda demasiado imaturo sistema:
- Impede que falem mal dela própria por causa do papão do fascismo (que serve de areia para os olhos enquanto enchem os bolsos);
- Impede que falem mal dela porque é anti-democrático (parabéns pelo inovador conceito de pôr anti antes de qualquer forma de crítica a algo);
- Impede que falem mal dela própria porque não há outra melhor;
- Porque as assimetrias socio-económicas colocam demasiado stress num sistema que priveligia a igualdade;
- Porque o sistema fiscal é demasiado falível e permeável na distribuição da riqueza;
- Porque a segurança social é tudo menos segura;
- Porque há quem troque votos por sacos de plástico e electrodomésticos;
- Porque há crime sem castigo e a justiça há muito que deixou de ser cega;
- Porque há quem tenha elegido a Fátima Felgueiras, o Valentim Loureiro, o Alberto João Jardim e o Avelino Ferreira Torres, assista à pouca vergonha e ainda goste deles e venha para as ruas falar (Quem lhes deu o direito de expressão e o direito ao voto não os pode revogar por justa causa?);
- Porque os políticos mentem mais do que fazem e ninguém tem já paciência para os desmentir
- Porque a imprensa tem o rabo preso e cala-se ou diz o que lhe mandam;
-Porque já poucos se interessam (quem se pode dar a esse luxo) ou votam ou porque têm muito mais com que se preocupar dado o aumento do custo de vida;
- Porque enquanto não houver igualdade de educação e civismo o conceito não funciona porque os votos não valem todos o mesmo se não forem votos informados;
- Porque com a falência de todas as outras soluções governativas que faliram ou secaram perto do eucalipto democrático hegemónico, este reina agora soberano, incontestado e descontrolado (salvo uns poucos feudos ditatoriais ou utópicos ainda mais descontrolados) como qualquer monopólio.

My thoughts exactly

Só que para ser politicamente incorrecto, eu diria: quem nos anda a roubar?

Leiam isto.

Se o preço do barril de petróleo em euros desceu de 2000 até agora, por que é que o gasóleo custa agora mais do dobro do que custava então?

E quando o dólar começar a subir, será essa a justificação para que os preços dos combustíveis continuem a disparar?

Que roubalheira...

Hoje, ser politicamente incorrecto, é ter uma opinião precedida pela classificação de que a opinião que se segue é politicamente incorrecta. É assim, como, classificar de pintura tudo o que foi pintado, ou de cinema tudo o que foi filmado. Ser politicamente incorrecto é ser politicamente correcto. Por causa do advérbio. Os advérbios são as lulas da corte. Os moldáveis, os intriguistas, os traidores. Tal como os politicamente incorrectos. Prefiro o tipo substantivo. Calhau abrupto, burro, elefante parado, Bartleby, que só sai para a guerra quando sabe que pode perder tudo. Por isso, borrifo-me em ter opiniões sobre as contingências da governação, sobre ambiguidades das vontades ou sobre questões fracturantes. Prefiro ver saias rodadas, o medo de ser descoberto a fumar, a falta de preservativos, a tosse que o vinagre das saladas causa na garganta, as aftas dos outros, as bifanas gordurentas, os empregados do cinema, os mendigos na rua, as escolhas de comprar ou não comprar um carro, as hesitações e as palavras trocadas.

terça-feira, março 25, 2008

Só que na Islândia os sifões são mais caros

A Madeira pode vir a ser uma ilha sustentável. Mas apenas em termos energéticos. De resto, comparar a Islândia à ilha em que vigora o "andavas de jerico a vender sifões e agora és milionário", só por brincadeira...

(este post é uma experiência. se tudo correr bem, na página do Público linkada a Gabardina terá link de volta. Viva a tecnologia!)

O pequeno Necrotério Rêgo Grande Cólica de Jesus era coxo, anão, preto e albino (uma combinação raríssima e supinamente infeliz), cego, surdo, mudo, maneta, corcunda, vesgo, paraplégico, mongolóide, desdentado, gordo, zarolho, atrasado mental, careca, feio (mesmo sabendo que há gostos para tudo e que estes não se discutem, neste caso havia consenso generalizado sobre o quão hediondo era o rapazinho), sopinha de massa e gago (titubeava ciciante os gemidos incoerentes que a custo conseguia emitir entre rios de baba), tinha mau feitio, lábio leporino, síndroma de Tourette (felizmente era mudo e por isso não incomodava muito), acne, lepra, gases, sarna, artrite, renite, lúpus, sida, herpes, hepatite, doença de crohn, parkinson, alzheimer, unha encravada, halitose, pele oleosa, caspa e pulgas, era gay, judeu ortodoxo, fumava, ressonava, consumia gorduras saturadas e álcool, drogas, conduzia (a cadeira de rodas, claro) como um louco que, adianto, também era (paranóico - sempre que passava achava que toda a gente ficava a olhar para ele; e histriónico - adorava ser o centro das atenções) e votou Santana, Soares e Sócrates nas últimas eleições, não respectivamente. Mas acreditava piamente na reencarnação, razão pela qual tinha muita fé que um dia, nem que fosse na próxima vida, pertenceria a uma minoria mais feliz e menos discriminada. Teve azar. Nasceu portista.

segunda-feira, março 24, 2008

Blogar é uma forma de engate

Quando os mais ilustres assumem coisas semelhantes, não há por que o negar: este blog existe para o engate.
Ter este blog não é propriamente andar no Second Life, site que todos sabemos para o que serve. (Não quer dizer que alguns dos seus colaboradores não tenham por lá um avatar... a gerência não põe as mãos no fogo nem por ela própria). Ter este blog é, digamos assim, um meio termo aceitável e socialmente correcto entre ser uma pessoa estável, dedicada à família, e passar os dias fechado num quarto sombrio, a fumar, sem tomar banho, a tentar convencer desconhecidas a fazer sexo via messenger.
Apesar dos textos mais ou menos artísticos, da preocupação estética e da oferta musical, textos e caixas de comentários, títulos e sitemeter servem um único e nobre propósito: o engate.
A julgar pela reportagem sobre o Second Life, e exclusivamente em termos de eficácia, este blog tem-se revelado um acertadíssimo investimento.

Números de telemóvel nesta caixa de comentários. Na ausência de forma de contacto, uma leitura mais demorada poderá ser encarada como tentativa de aproximação e o teu IP investigado exaustivamente até que cheguemos até ti. Volta sempre.

Em defesa da pena de morte

Foi já com os eléctrodos bem ferrados nas pernas, logo após me terem perguntado se queria dizer mais alguma coisa que tudo começou. Começar é uma forma de dizer, já que o meu fim estava, de facto, à distância de uma descarga eléctrica. Mas começava, começava mesmo. Começava a consciência de que ninguém pode levar tanto da vida impunemente. Ninguém pode amar, como eu amei e sair sem arranhadura. Por isso, começava, começava depois da pergunta da última vontade, o sentido que faltou ao tribunal humano, cheio de erros e equívocos, de advogados e juízes. Eu era pobre: estava no sítio errado: fui condenado em três tempos. Mas agora, agora mesmo, no espaço de tempo em que a descarga eléctrica já saiu do interruptor, mas que ainda não me atingiu, agradeço, dou graças, comovido, graças ao Juiz vesgo, ao advogado incompetente e, principalmente à vontade humana de ter culpados. O meu fim, torresmo, é o merecido. Se morresse naturalmente o meu cadáver sublimar-se-ia pela potência do amor que dei e recebi.

Delico-doce

Ultimamente anda tudo em bicos dos pés para não pisar calos a ninguém, sempre com falinhas mansas e linguagem cuidada, uma criteriosa escolha de palavras e expressões para não ferir susceptibilidades que, muitas vezes, nem sequer são assim tão fáceis de ferir e só por andarmos com todos estes rodriguinhos e cerimónias se tornam florzinhas de estufa.
À menção de qualquer tema minimamente polémico logo saltam associações e comentadores profundamente indignados e ofendidos com a abordagem menos própria. Com tantos paninhos quentes torna-se difícil conseguir dizer seja o que for sobre qualquer tema com medo de ultrapassar uma fasquia que se vai tornando cada vez mais alta nessa selecção. O cuidado com as minorias deve ser uma preocupação, claro, mas sem cair no ridículo de ofender pela redução ao indefeso.
Sempre houve, há e continuará a haver temas mais sensíveis, mais polémicos, mais delicados mas há, na minha opinião, mais vantagens numa abordagem descomplexada e aberta, mesmo correndo o risco de melindrar alguém, do que num chove-não-molha morninho que não leva a lado nenhum.
A primeira vítima deste tipo de discurso é o sentido de humor que, limitado e agrilhoado por todas estas convenções, mirra e definha, num ciclo vicioso que leva a mais cinzentismo e ainda menor capacidade de encaixe e de, muito importante, rir de nós próprios. Não tarda nada estamos uns suiços. Rigorosos, mecânicos, perfeitos, inflexíveis. E sem pontinha de graça ou interesse.
Vamos! Venham daí piadas sobre maricas, pretos, sportinguistas, gajas, surdos, aleijados, católicos e alentejanos. Mas também sobre garanhões, brancos, portistas, gajos, cuscos, atletas, mórmones e lisboetas. Qualquer tema é um bom tema desde que abordado com inteligência e que provoque um riso saudável típico de uma mente aberta e descomplexada. Não há assuntos tabu. Excepto, claro, o Glorioso! E a correcção gramatical das minhas frases de 14 linhas. Isso é que não!! Com essas coisas não se brinca!

domingo, março 23, 2008

I/E/migrações

O plano era simples. Agarrar o borrego pelas patas da frente e hipnotizá-lo com uma chispa de lume. Depois: corte rápido: batatinhas: cebola: forno muito quente e prato. Assim mesmo. Porém, o borrego era gado fino. Patinha tratada no salão do Rolo. Gravata de seda. Fato estilo colonial de linho egípcio. E, um cachimbo aromático que, pensei – mal – ser o tempero. Eu, que sirvo refeições desde o século de Péricles, tenho, como podem imaginar, visto muitas coisas, mas um borrego com ares de David Livingston… Sentei-me muito convictamente, e com a segurança que a experiência de servir à mesa há 25 séculos inevitavelmente trás, olhei bem nos olhos do bicho. O borrego que não era burro nenhum, e que, já cá deve andar há tanto tempo quanto eu, percebendo a minha hesitação, pisgou-se. Cabisbaixo e derrotado, sentei-me ao canto da cozinha à espera de uma epifania que me salvasse o almoço de Páscoa. E foi então que recordei o Morrison. “Esta semana no Pingo-Doce, lombinho de sangacho em tomatada e coentros só 99 cêntimos”.E, mais que a conveniência do preço, apreciei o estar morto. Pois, se são conhecidas as manhas dos borregos, as do sangacho são as mais temidas. Há aliás uma história…

sexta-feira, março 21, 2008

epifania do dia

“Acredita porque é absurdo.” disse Søren Kierkegaard, à pequena rapariga que se preparava para saltar para o outro lado do arroio. A rapariga decidiu dar trela ao velho rebarbado. Estalou os dedos sem razão aparente; disse: duvidar é já acreditar. Kierkegaard arregalou muito, muito, muito os olhos remelosos, fez o esgar do coiote que pisa a bomba que preparou para o Bip-Bip e epifanou-se para um país do sul. Hoje, gere uma pequena empresa de ferro-velho, lá para os lados de Espiche. Consta que gosta de meixão e que não perde as promoções do LidL de Silves.

quinta-feira, março 20, 2008

Não estou de Acordo!

http://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_Ortogr%C3%A1fico_de_1990

http://orto.no.sapo.pt/

Sinto-me um imigrante dentro do meu próprio país quando já não reconheço a minha própria língua. Não bastando os constantes atropelos que a vejo sofrer no meu local de trabalho, coisa que, confesso, me arrepia de um modo que roça a intransigência, levando-me, por vezes, a não conter algumas respostas irónicas que me poderão um dia sair caras ou a ferir os sentimentos de alguém (como é que se corrige alguém que passa o dia a dizer "fostes" sem a clássica resposta, que, aposto, passaria despercebida, "Reparastes? Já não digo vistes!"), arruinando o bom ambiente de trabalho que tanto custou a construir, atropelos esses cometidos tanto por quem vive no topo da pirâmide como pela base e ainda, vantagem duvidosa bem sei, com o bónus de chacinarem também o inglês quando a sede de sangue gramatical não fica saciada com a barbárie cometida contra a língua materna, somam-se-lhe ainda os autênticos estrangeirismos nacionais como pips (people, malta, turma) e cubs (cubo, cubíbulo, casa), estes oriundos desse glorioso viveiro onde se reinventa e renova constantemente a língua de Camões, a margem sul.

Não querendo ser um velho do Restelo nesta ou noutras matérias e sabendo que a velocidade das mudanças (sociais, económicas, tecnológicas,...) tende a aumentar de dia para dia na nossa sociedade, deixando rapidamente para trás os cadáveres (metafóricos) ressequidos e esquecidos de quem não se adaptou, custa-me a aceitar sem uma razão solidamente sustentada toda ou qualquer mudança só porque alguns (aos quais não reconheço superiores competências na matéria) decididaram que seria assim e, quase exclusivamente, por critérios economicistas ou de suposto fortalecimento e união dos falantes da língua. Admito alguma nostalgia ligada aos meus argumentos, assim como algum receio de ter de reaprender noções e conceitos que dava como adquiridos para sempre mas que me interessa se passamos a ser muitos mais a usar algo coerente e consistentemente se o que iremos usar é, para mim, menos rico e de pior qualidade? E porquê tamanha aproximação ao brasileiro (sendo que não tenho nenhum sentimento contra aquele país ou língua, bem pelo contrário até por causa das minhas próprias raízes)?

Ninguém pára para pensar? Ou melhor, ninguém para para pensar?

(Versão 2.0: Correcção de um erro gramatical graças à atenta revisão de um anónimo leitor. Vide comentários anexos)

quarta-feira, março 19, 2008

Futebolices

Tozé Marreco, avançado que emigrou (como tantos outros jovens portugueses em busca de melhores condições e por falta de apostas cá dentro) para o FC Zwolle da Holanda, foi convocado para a equipa de sub-21 de Portugal.

Também o Garrincha era coxo e não foi por isso que foi pior jogador ou que o empurraram para fora do Brasil mas a infelicidade do nome, simultaneamente prenhe de alma lusa, Tozé, e de um peso nos ombros, Marreco, é demasiado grande para não nos compadecermos dele.

Força, Tozé, estamos contigo! Aposto que vais carregar a equipa às costas! Ou isso ou se falhas o golo decisivo és rapidamente promovido a Areias, o camelo, mas só com uma bossa. Seu dromedário!

Em Portugal, os estrangeiros dividem-se em dois grupos: nos que têm dinheiro, e nos que não têm. Os primeiros, são turistas, os segundos, são ilegais. Aos primeiros: hotéis, acessibilidades e moças simpáticas de menu nas mãos, aos segundos: camaratas limpas, fronteiras e jagunços de menu nas mãos. Para mim os estrangeiros em Portugal deviam ser divididos em dois grupos: os que dizem p´jama, e os que dizem pí´jama. E isto logo na fronteira. Haveria um palanque, o estrangeiro subiria ao microfone -com malas e tudo-, e uma voz perguntaria: Dizes p´jama, ou pí´jama? O estrangeiro responderia e, era de imediato dirigido para a fila da esquerda ou da direita.

terça-feira, março 18, 2008

Portugal, que imigração?

Vamos imaginar um tipo na Roménia. A vida está má. Não dá pra comer. O Munteanu - vamos chamar-lhe assim - decide emigrar. Decide emigrar para um (outro) país da União Europeia, onde se viva melhor. Parece-me lógico. Fica perto e deve ser um dos melhores sítios no mundo para se viver. Presumo que alguém que decide emigrar não escolhe o destino à sorte ou comprando o bilhete mais barato da Ryan Air. O Munteanu informa-se. Presumo que escolhe de acordo com as coisas que mais valoriza. Presumo que faça uma lista dos países da UE e ponha uma cruzinha aos três ou cinco países melhores em cada categoria. País mais tranquilo: Luxemburgo, Finlândia, Dinamarca. Pais com salários mais altos: Inglaterra, Alemanha, Suécia. País com mais protecção social: França e nórdicos. País com mais sol: Grécia, Itália, Espanha, Portugal. País com menos desemprego: Irlanda. País com mais crescimento económico: Irlanda, Espanha. É difícil (impossível?) imaginar um cenário em que o resultado desta análise indique como melhor país para emigrar: Portugal.

O que me leva à conclusão de que quem imigra para Portugal à procura de melhor vida ou é uma pessoa que não se sabe informar ou tem critérios muito estranhos. Ou seja, ou o Munteanu é uma pessoa muito inapta ou procurava um país com baixos salários, pouca protecção social e muita corrupção. Só assim se explica que tenha vindo parar a Portugal.

segunda-feira, março 17, 2008

Fazer vida longe. Reconstruindo cumplicidades com o homem do café. Interpretando os ruídos dos vizinhos e, catalogando como estão catalogadas as borboletas os hábitos dos outros. O velho de pantufas que ainda está a atravessar a passadeira, as flores de plástico em cima da mesa, a ordem dos livros, ou a falta deles, o chiar do chão, e o cheiro do eventual cão. Sim, porque há muitos cães eventuais e viver com pessoas efectivas. Fazer vida longe, é necessário ter uma vida perto. É necessário ter o Cohen sabido, o Reed esquecido, o Chico no mp3 e o Art e o amigo bem escondidos. Para se ser imigrante, para se imigrar para uma cidade, para uma pessoa, para uma profissão, para uma religião, é necessário ter os tarecos bem arrumados.

Longe de casa?

2 anos e 4 meses depois, a minha casa é Lisboa. Já o disse anteriormente mas sinto-o cada vez mais e não vejo um retorno à base a perspectivar-se como possível. Depois de umas quantas atropeladas mudanças e de perder um pouco a noção de onde era a minha casa - a Amadora nunca convenceu neste papel -, começo, numa perspectiva mais alargada da coisa, a ver Lisboa como o sítio que reconheço como lar. Home is where the heart is, pelo que, nesta ordem de ideias e sabendo que o meu neste momento nem me pertence por inteiro, é aqui que me sinto bem e onde quero ficar.
O estatuto de imigrante implica um afastamento do local onde estamos em casa e para onde queremos voltar, sendo que, neste momento, me sinto muito mais deslocado quando rumo a Coimbra (é um deslocado relativo, claro, porque estão lá família, amigos e locais cheios de memórias que não me deixam ser-lhe indiferente) do que aqui.
Uma vontade de sempre, a de sair do país, nesta altura deixa de fazer sentido, até porque há, agora mais que nunca, alguém que me faz querer muito ficar por cá e uma série de planos a solo ou a dois por concretizar. Tudo na vida são conjunturas pelo que não é possível fazer futurologia (e acho que quanto mais damos algo por certo mais certo é que se esfume logo a seguir) mas, tanto quanto me é dado perceber, o imigrante (re)encontrou o seu lar.

domingo, março 16, 2008

Pensar o cinema segundo o critério da escassez: um cinema – recurso e um cinema – visão. O primeiro existiria enquanto arte, na medida em que mostra a condição humana através de valores de produção (actores, decores, pós-produção etc...). O segundo, cinema – visão, evitaria propositadamente aqueles valores de produção, para ser arte na medida em que em vez de se limitar a mostrar a condição humana, a interpreta segundo um determinado ponto de vista. Assim, no primeiro ressaltará o que se vê na imagem, e, no segundo, a visão de quem produziu a imagem.

VW Polo


100.000 kms e 10 anos depois chegou ao final a nossa relação. Tanto passeio, tanta viagem, risos e lágrimas, sustos e surpresas, fases boas e más, por tudo isto passei ao volante do JT. Agora é altura de dizer adeus e escolheres um novo dono. O motor 1.0 a gasolina que me locomoveu durante estes últimos tempos tem tudo para fazer outro tanto, fiel e regular como sempre. De mim ficam só boas referências para quem as quiser ouvir.

1500 euros são um valor escasso para tanta memória mas a vida é assim mesmo...

sexta-feira, março 14, 2008

Homens & Mulheres

Li num blog chocolateiro o desabafo de uma amiga sobre o relacionamento entre homens e mulheres. Nem a dita miúda é burra nem acredito que se preste muito a desempenhar tal papel. Por outro lado, há coisas que não são mesmo para perceber ou para meter a foice em seara alheia.
Salvaguardado este ponto, acho que já não vivemos (este nós refere-se principalmente a pessoas da minha geração, cultas, instruídas, inteligentes, emocionalmente estáveis e, no geral, urbanas e evoluídas) numa altura em que se possam manter ou encarnar de livre vontade esses chavões de burras e machistas. É certo que cada um tem aquilo que (faz por) merece(r) e só se mete nas merdas quem quer, pelo que, ultrapassada que está a queima dos sutiãs dos anos 60 (mesmo dado o habitual lag da tradicionalista e conservadora (se calhar mesmo só inerte e preguiçosa) sociedade Portuguesa quanto aos hábitos, usos e costumes) e lutas pela igualdade de deveres e direitos, é tempo de partir para a assunção honesta das diferenças existentes entre géneros, quanto a mim a única e verdadeira maneira de respeitar todos por igual, para facilitar o diálogo que, de vez em quando, parece estar a ser falado em línguas completamente diferentes pelas partes envolvidas. O respeito mútuo, a confiança (tão difícil de recuperar uma vez perdida) e a compreensão são pilares sobre os quais assenta uma relação seja ela de que cariz for e não há, para mim, espaço para imposições autistas lado a lado com amor, amizade e carinho.
Felizmente, a cada dia que passa e por força das imutáveis leis de "mercado", procura e oferta, e se não faltar força de vontade, personalidade e carácter, escasseiam estes dinossauros que caminham para a extinção ou para nichos muito reduzidos.

quinta-feira, março 13, 2008

Viking - Strip Bar

Por ocasião da festa pós-ante-estreia dos passaroucos enamorados, calhou por força do destino e das circunstâncias que o cast & crew do filme rumasse ao Cais do Sodré e a este antro em particular. O contraste entre a entourage cinematográfica e os frequentadores habituais do tasco fazia lembrar uma sopa passada com pedaços. O caldo era semelhante mas os legumes inteiros destacavam-se. Mais ainda se destacava uma tríade de dignos personagens entre os locals:

Um Patrick Swayze em versão marinheiro tatuado, degradado e drogado que dançava de braços cruzados sobre o peito, gesto de rockeiro com dedos em riste nas mãos e ar de concentração introspectiva enquanto entoava para si as letras profundas da playlist infernal que emanava da cabine do DJ.

Um ser híbrido de cabelo à la actual Nick Cave revamped para mais careca e mais poupa, óculos dourados redondos, semblante enigmático, olhar perdido e um viveiro de herpes simplex, duplex e triplex em que insistentemente remexia num tique obsessivo-compulsivo.

Uma stripper, Vivianne, mecânica e sem réstia de sensualidade, em regime de exibição despudurada em palco desmontada à saída em pêlo pelo meio da assistência por entre olhares provocadores para a cabine do DJ e um sorriso confiante de quem tem, pelo menos parte, da assistência masculina refém do seu tarimbado corpo.

Decadente. Ambiente estranhamente familiar para a fauna de habitués residentes. Degradante. Pleno de histórias, estórias e personagens absolutamente cativantes e fora do normal. Depravado. Atraente e repulsivo ao mesmo tempo na óptica do observador.

Escasseava por lá classe, nível, sensualidade, limpeza, elevação, dignidade, aprumo, saúde física ou mental.


Apesar de haver escassa a informação sobre esta banda, posso garantir que os rapazes são simpáticos, têm um som sério e que gostam do que fazem. Será por isso um gosto o concerto de hoje no Music Box, numa das ultimas zonas sérias de Lisboa: o cais do Sodré.

quarta-feira, março 12, 2008

Benfiquices

Ultimamente tudo escasseia para os lados da luz.
Boas exibições. Vitórias. Pontos. Golos. E ultimamente até jogadores (7 indisponíveis, 3 dos quais titulares indiscutíveis entre os quais a dupla de centrais titulares e o melhor marcador, para o jogo de logo num plantel de 25 fazem alguma mossa) e treinador...
Seja como for, do outro lado a coisa também não está fácil para Laudrup, com poucas escolhas disponíveis e a cantera a ter também de colaborar para a elaboração da lista dos convocados.
O apoio, como sempre, mantém-se porque a vitória é o único caminho!
O palpite:
Quim; Leo, Katsouranis, Edcarlos, Nélson; Rodriguez, Petit, Rui Costa, Maxi; Nuno Gomes, Makukula
Do banco sairão: Sepsi, Mantorras e Di Maria para os lugares de Maxi, Nuno Gomes e Makukula
Marcadores: Rui Costa, Makukula e Mantorras. De La Red pelos espanhóis.
E que o resultado não peque por escasso!

terça-feira, março 11, 2008

Exposição

A escassez é, não só o critério de valor mais utilizado, o que significa que uma coisa valerá mais ou menos, não pelas qualidades próprias que possui, mas, pela circunstância acidental de ser ou não abundante, mas também e necessariamente a contrario, mecanismo que extingue o valor do seu antónimo abundante. Tentarei exemplificar.

Muy raro, tio...

Como sinónimo de escasso, raro é, em português, muito utilizado mas toma em espanhol um outro significado, similar é certo, mas mais positivo. O de precioso.
Nesse sentido, temos que há coisas verdadeiramente raras nesta vida às quais nem sempre damos o valor que merecem. Tal costuma suceder apenas quando nos faltam, quando não estão, como sempre esperámos que estivessem, lá. Ou quando se tornam escassas.
Por outro lado, é certo que sendo o que é demais moléstia o que é de menos também não é bom. Pode argumentar-se que a necessidade estimula o engenho mas pode acabar por aparecer uma solução imprevista. Em resumo, a dose faz o veneno, frase lindíssima retirada de uma aula de bioquímica perdida no tempo.
Como o tempo é escasso e o trabalho abunda, de momento não vai dar para mais.

segunda-feira, março 10, 2008

Ser escasso

Há palavras que se usam noutras línguas em sentidos que fazem falta à língua portuguesa. Uma delas é o italiano scarso que, correspondendo também ao português escasso, é muito utilizado para definir a insuficiente capacidade de alguém para desempenhar determinada função.
Muitas vezes me apetece dizer que o Luís Filipe Menezes é escassíssimo como líder da oposição, que a Ministra da Educação é escassa ou que o Ronny enquanto lateral esquerdo do Sporting é notoriamente escasso. Na falta deste sentido, sou obrigado a utilizar substitutos não totalmente satisfatórios, como idiota, desastrado e incapaz. Não respectivamente.

Não tanto escassa como mal distribuída

Disse David Hume que a escassez era a fonte de todos os conflitos. É uma maneira de ver as coisas. Outra pode ser a má distruibuição. Face à crescente inovação tecnológica que permite a exploração de matérias primas cada vez mais distantes ou anteriormente consideradas não rentáveis ou inatingíveis (no limite fora do nosso berlinde azul) e ao aumento do uso de energias renováveis, inesgotáveis por definição, será válido manter esta premissa? Penso que não e que passará antes pela desigualdade na acumulação e controlo de certos bens e serviços, essa sim alimentada por algo aparentemente ilimitado: a ganância humana. Concordo que, para já, vivemos "presos" neste mundo cada vez mais mundinho e que importa ser racional na utilização de alguns recursos como a àgua potável (cuja privatização, da rede pública, adianto, vejo como perigosa e sem retorno), sob pena de assistirmos ao encarecimento dela até se tornar num bem de tal modo caro que o seu uso sem restrições se torne apanágio dos ricos e poderosos e se transforme (como de certa forma já o é na agricultura e indústria) num factor limitante para o desenvolvimento e mesmo para a sobrevivência, à imagem do que vimos em grandes filmes (premonitórios?) como Mad Max ou no fiasco Waterworld.

Escassez e neurose

Os denominadores comuns que encontro na geração a que pertenço são a escassez e, por via dela, a neurose. Houve, em tudo o que passei, sempre a nota de escasso, de recurso a disputar, de limitação. Uma voz a dizer “não há para todos” e violentar os que ficam de fora. Falo das vagas para entrada na universidade, dos elegíveis estágios profissionais, dos empregos, da segurança social, do serviço de saúde, enfim…tudo o que a geração anterior teve em barda, mas que resolveu apresentar à minha como escasso. Por isso, há na geração a que pertenço, uma permanente sensação de risco, de medo de perder do que há pouco. Uma permanente neurose, que resulta da impossibilidade de ter mão na escassez. Mais importantes que a traição que os pais do estado social fizeram aos seus filhos, serão as consequências que essa terá no futuro.

sexta-feira, março 07, 2008

Gostar de pés

Há quem adore. Não eu mas, por exemplo, o Tarantino. E essa fixação do Tarantino traz-nos desgostos, como os feios pés da Uma Thurman, em grande plano no Kill Bill. Os pés dos filmes do Tarantino aqui.

Levar ou dar com os pés

Faz parte. Acontece. Quando uma relação, seja ela de que índole for, corre mal eventualmente é algo que sucede. Sim, é triste. Sim, custa. Mas, tantas vezes, é mesmo a melhor coisa que se pode fazer ainda que não seja fácil ver isso na altura. Para "ambos os dois". Para quem dá com eles porque chegou ao limite, para quem leva com eles porque não faz sentido querer ficar com quem não quer ficar. Do choque nasce a mudança e uma vontade de melhorar, uma oportunidade para crescer, para nos reinventarmos. Às vezes perpetuamos uma relação apenas por comodismo, por inércia, pela manutenção do status quo. É a paz podre só para evitar a convulsão da ruptura. Mas a ruptura pode ser boa e até necessária para avançar, para evoluir.
O mais importante nestas alturas de perda é assumir o sucedido, recuperar a auto-estima, sarar o orgulho ferido e levantar a cabeça, mais que não seja pelo simples motivo de não valer a pena querer quem não nos quer, ficar com a pessoa errada e porque o sentimento tem de ser recíproco (mais a mais, por vezes gostar, mesmo que seja muito, não chega). A quebra dos hábitos e das rotinas é sempre dolorosa mas não é por adiarmos algo que o problema se resolve. E mais vale resolvermos o problema nos nossos termos e calendário do que esperar que ele se resolva por si ou por terceiros.
Claro que falar é fácil mas, por muito que pareça impossível perceber isto no momento em que ocorre a ruptura, o passar do tempo ajuda imenso e há sempre amigos e farras para ocupar o espírito e ajudar no processo. Também é necessário fazer uma auto-avaliação para ver quais os pontos a melhorar, se os houver, quais os erros cometidos, para evitar cometê-los de novo, e avaliar compatibilidades, para não sair outra fava na rifa. Por muito difícil e frio que isto pareça, as feridas saram, a disponibilidade para novo envolvimento emocional ressurge e, com sorte, sem forçar nada, acaba por aparecer outra pessoa. Com muita sorte, a pessoa certa. Aquela com que apetece ficarmos para o resto da vida. Aquela que faz todo o sentido e que dá sentido a tudo.
Eu sinto-me com sorte, com muita sorte mesmo. Isto apesar de ontem, no jogo de futebol das quintas, me terem dado com um pé. Aliás, com mais do que um pé. Vendo bem, deram-me cabo de um pé. Mais precisamente, acho que me partiram um dedo do pé. Hélas. Faz parte...

quinta-feira, março 06, 2008

PES - Pro Evolution Soccer

Ou, como o conheci originalmente, Winning Eleven. Muito, muito bom! Talvez até, nas últimas versões, demasiado bom, demasiado completo, se isto pode ser um defeito, tornando-se menos rápido ou intuitivo o domínio sobre as capacidades do jogo, o que acaba por exigir mais empenho e horas de treino para se poder efectivamente usufruir plenamente desta pérola da programação de simuladores de futebol.
Relembro as horas passadas em frente à televisão (com este e com outros jogos, inclusivamente um certo fim de semana, de sexta a domingo, em que a minha realidade se transferiu para o interior do fabuloso mundo do Final Fantasy IX com grande frustração por, independentemente de apenas ter feito curtas pausas para comer e dormir, não ter sequer terminado o primeiro dos três CDs) a ganhar calos nas mãos e entoando já com um razoável domínio da pronúncia japonesa os cânticos dos adeptos da J-League. Kashima Antlers, Sanfrecce Hiroshima, Urawa Reds...
Ossoiotoiossoiotoio! 出場停止選手のお知らせ!!! Goooooooool!!

Hoje ao norte, 12 ao sul, 13 em todo o lado

The LoveBirds

Corto uma unha do pé. Os sistemas têm o doce desespero da inclusão total. Limo uma unha do pé. Os fechados, mas também os abertos, pois estes têm na definição de fronteira, outra vez o doce desespero da inclusão total. Raspo um calo do pé. O mecanismo de inclusão que mais me comove nos sistemas fechados é o argumento a contrario, pois exige que se postule uma dualidade absoluta entre o que está dentro e o que está fora. Tiro um espigão da mão.

quarta-feira, março 05, 2008

Pés p'rá cova

Os últimos suicídios e acidentes mortais em Portugal fazem-me lembrar o caso JFK, em que as testemunhas-chave tinham o estranho hábito de se suicidarem com tiros na nuca.

terça-feira, março 04, 2008

O glorioso mundo dos PEZ

A elegância tem sempre pés de barro.

Só tem pés de barro o que não é de barro. Se de barro fosse, não se falaria nos pés.

Ter pés de barro, é, na verdade só ter de barro os pés. Por isto, gosto dos de pés de barro. Fortes e frágeis: a derrubável e gentil força.

segunda-feira, março 03, 2008

Dependente e

Inútil é o que me sinto por não conseguir calçar a próprias meias ou atar os próprios atacadores. Ainda que seja temporário e por um breve período, serve de lição aos 31 anos: tudo fazer para chegar aos 131 conseguindo tocar sem dificuldade nas pontas dos pés.

Happy feet

Provavelmente os pés mais habilidosos do mundo, e que serão em breve também os mais bem pagos, os de Cristiano Ronaldo continuam este ano a mostrar que nem só de malabarismo vivem, com a veia goleadora que, aparentemente apenas por decisão sua - do género, ai são golos que querem?, - decidiram mostrar para coleccionar mais um recorde - o de Gerge Best, com 32 golos numa época, juntando a essa uma forte candidatura aos prémios de melhor marcador da Liga Inglesa, Liga dos Campeões e Bota de Ouro Europeia. O que mais será preciso para calar as eternas críticas de vaidade e arrogância, claramente coisa de quem não tem mais nada que lhe apontar na sua área específica de especialização em que se mostra como o melhor do mundo que sempre assumiu, com justas pretensões, que quis ser e tudo tem feito para lá chegar? Será assim tão necessário mascarar o seu brilho com uma falsa modéstia que, diga-se, a ser usada seria, certamente, também alvo de maledicência? Auguro-lhe para este ano, para além dos títulos individuais, a conquista da Premiership e da Champions. E já agora, venha daí o Europeu para verem o que é bom para a tosse. O puto é bom. É muito bom mesmo. É, neste momento, o melhor do mundo - a recente atribuição do imerecido terceiro lugar pela FIFA mais não fez que espicaçar-lhe o orgulho, pelo que agradecemos - e ponto final. Aliás, ponto de exclamação porque ele merece!

sábado, março 01, 2008

Deusa

A eterna questão sobre se Deus existe parece esquecer um pormenor importante: o género!

Porquê esta insistência num Deus masculino e que criou o Homem à sua imagem e a mulher a partir de uma costela deste? Este masculinocentrismo que prespassa toda a civilização ocidental bem que já ia dar uma volta ao bilhar grande... É que bem vistas as coisas, não podemos falar de uma representação plena da Humanidade sem mencionar os dois lados que a compõem, o yin e yang, o masculino e o feminino. Não somos uma sociedade matriarcal mas longe vão os tempos em que à mulher era apenas reservado um papel secundário nesta trama. Entenda-se secundário, mesmo nesses tempos, como apenas aparente porque mesmo (e a maior parte das vezes é mesmo assim) os maiores machistas caem derretidos (ainda que a maioria apenas no retiro escondido do lar) aos pés da eleita do seu coração. E vice-versa (sim, nada de feminismos exacerbados porque isto vale para os dois lados).

Pessoalmente assumo que posso até ter algumas dúvidas teológicas por resolver mas não tenho nenhuma dúvida sobre quem é a minha Αφροδίτη.