quinta-feira, maio 22, 2008

Há um direito natural ao trabalho? Será o trabalho uma actividade tão essencial como comer? Sim. Mas por partes. Há o trabalho alienado, e o trabalho natural. O alienado não é trabalho no sentido que lhe quero dar. É uma actividade que alguém cumpre para poder bastar-se a si e aos seus. Por seu lado, o trabalho natural é o conjunto de tarefas que um cada cumpriria, ainda que pudesse bastar-se a si e aos seus. O trabalho natural tem como principal característica a sensação de transformação. Alguém que trabalhe naturalmente, sente que faz algum tipo de diferença. Que, de algum modo transforma o meio onde se insere para melhor. Pelo contrário, no trabalho alienado o indivíduo que o executa pouco sabe de que modo a sua actividade influência as coisas, ou os outros à sua volta. Não há actividades que se possam classificar em absoluto como trabalho alienado, ou como trabalho natural, pois essa distinção cabe a quem executa , porém há áreas de actividade onde é predominante a sensação de trabalho natural. Refiro-me às tarefas simples e manuais como jardinagem, pesca, agricultura, actividades médicas, e as tarefas criativas. Pois em ambas, há uma parte do executante que passa para o exterior. Sendo estas que preenchem o conceito de trabalho natural, é relativamente a estas que reivindico um direito natural de todos.

quarta-feira, maio 21, 2008

Curiosa a relação entre trabalho e prazer. Entre trabalho e lazer. Os excluídos um do outro. Trabalho é trabalho e conhaque é uma bebida. Trabalho para beber, para o lazer. Não trabalho no lazer nem bebo quando conduzo. Tenho para mim, numa incerteza que dói, que a separação entre trabalho e prazer está por um lado ligada ao éter crístico que nos envolve e, por outro, à necessidade que a esquerda política, e por isso direita cerebral, tem de nos defender do sofrimento terreno. Ambas, as duas, têm assim a mesma intenção messiânica: salvar. Dizem o que condena, o que salva e o que podem fazem para ajudar. Um converte, outro revoluciona: ambas fazem pé de bombeiro para passar o muro do pecado ou de classe.

terça-feira, maio 20, 2008

Do trabalho e das suas realizações

Há quem consiga trabalhar horas seguidas de enfiada. Há quem consiga estar horas sem trabalhar. Há quem viva para trabalhar. Há quem trabalhe para viver.
A verdade é que, bem ou mal, mais ou menos, todos temos de o fazer. Por mim, o que faço é apenas um meio para atingir um fim: sustentar um estilo de vida que me agrada e poder prover para mais e melhor no futuro, contemplando a possibilidade de vir a ter uma família. Não gosto do que faço mas, no entanto, consigo perfeitamente (dias melhores e dias piores) lidar com isso e fazê-lo de uma forma aceitável.
Para ser feliz e estar satisfeito com o meu trabalho teria de fazer algo mais livre e criativo, teria de interagir mais com pessoas, teria de poder ter mais poder decisório e responsabilidade no rumo a tomar, estar no terreno e agir em vez de sempre sentado em frente a um monitor. Pode ser que um dia isto mude e tenha a coragem de criar ou aceitar o risco de mudar de ramo. Várias hipóteses se perfilam e todas teriam de passar por uma abertura, um golpe de sorte ou por um empenho total. Escrever um livro para publicar, criar material para publicidade, desenhar peças para vender, abrir um bar (para enriquecer ou enlouquecer, esta já por mais de uma vez se atravessou no meu caminho e insiste em voltar) são as mais sólidas, vendo ainda num horizonte mais longínquo vinhas alentejanas numa herdade de turismo rural. Tudo isto são sonhos ou nem sequer isso, que têm muito que andar para conquistarem o direito a existir ou a passarem a projectos exequíveis.
Actualmente não concebo que o trabalho possa encabeçar uma lista de prioridades na minha vida e ocupa apenas um lugar secundário ainda que me tome a maior fatia do tempo e providencie a maior parte do orçamento mensal pelo que dele não posso abdicar. Resta-me esperar (e fazer por isso) pela oportunidade certa que possa aparecer para dar um salto quantitativo (sim, a remuneração importa) e qualitativo (sim, a satisfação pessoal também).

segunda-feira, maio 19, 2008

Dá muito trabalho gerir o tempo livre...

São 9 horas de trabalho diárias. Mais 3h30 no mestrado. Com 1h30 na estrada de um lado para o outro, 1h em banhos e quejandos e 2h em refeições dá 17h. Sobram 7h para o dia terminar. Considerando que durmo 6h, tenho 1h livre por dia. Daqui saltam-me ao espírito várias considerações:
- Preciso de dias maiores;
- Não sei como é físicamente possível às terças jogar 2h de volley sem violar as leis que regem a inexorável marcha do tempo;
- 1h dá para tanta coisa quando planeamos tudo direitinho que nem parece verdade;
- Parece incrível mas 1h, mesmo planeando tudo direitinho, não dá para nadinha;
- É certinho que ando a sobrepôr actividades (ignorando as celebérrimas frases da família "Se conduzir não beba" como "Se tomar banho não leia", "Se conduzir não estude", "Se almoçar não remate", "Se trabalhar não durma" e outras que tais.
- Ler "O Idiota" do Dostoevski aos soluços de meia hora (ver frase anterior sobre acumular tarefas) está a matar-me a mim e ao livro mas está quase, quase e é muito bom;
- Os dias sem aulas parecem-me quase férias;
- A televisão, que actualmente nem tenho, não faz grande falta e só serve para consumir tempo com o cérebro desligado (ok, sinto a falta de algumas séries como Scrubs, Friends, Seinfield, Simpsons, South Park, Trigger Happy, Britcom, House e outras do género mas nenhuma dos programas da treta ou das notícias do tema da moda, dos recados encomendados ou das desgraças do costume. Leio jornais. Uso a net. Filtro.);
- Quero mais cinema! (O Blade Runner é genial e o director's final cut só veio confirmar isso. Espantosa a forma como ele conseguiu condensar 2h de filme na minha hora livre);
- Morro de saudades tuas durante estes dias.

sexta-feira, maio 16, 2008

Mordam-se de ciúmes!

Estou de saída! É sexta-feira. Ou melhor, fim de semana! Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Have fun! I know I will!


(ups, a pressa era tanta que até a cor desbotou...)

quinta-feira, maio 15, 2008

Bem uns para os outros

Pinto da Costa jantou ontem com deputados da Assembleia da República.
À porta da Assembleia, Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres, Valentim Loureiro e Sérgio Silva, o famoso investidor do Boavista, fizeram uma cena de ciúmes por não terem sido convidados.

A Maria vai ter ciúmes do António...

... pelo menos nestes primeiros meses de vida do segundo sobrinho que nasceu saudável, como os pais, às 00h50 de dia 14/05/08.
Por um lado pode ser que lhe faça bem saber que tem de partilhar, aprender a dividir, lutar pela atenção e deixar de ser o único centro das atenções. Por outro, um tio babado baba de igual modo pelos dois, sem distinguir nadinha no afecto e na atenção dispensada.

Parabéns mana-bi-mamã, cunhado-bi-pápá e pelo dia de vida, bebezinho! Vais no bom caminho; um de cada vez!

quarta-feira, maio 14, 2008

Coimbra, Fac. de Medicina, segunda-feira


Eat your heart out, Champions League!

O torneio vai começar. Farmacêuticas Futsal Cup.

Alá está do nosso lado. Meca fica para ali. Os Ultra-Intifada estão a postos. Os rastilhos dos homens-bomba estão acesos. As quarenta virgens aguardam no balneário os que se sacrificarem pela equipa.

Agora espero que as intrigas, ciúmes e invejas no balneário não destruam o espírito da equipa. Cabe ao mister evitá-lo, manter a moral e a confiança altas e, não menos importante, escolher o cinco inicial e dar a táctica para a vitória!

Venham as fans fazer claque. Com pompons, claro!

As-Salaamu 'alaykum" السلام عليكم

terça-feira, maio 13, 2008

Jealous Girls

...é uma grande música dos Gossip (também aplicável a gajos), cantada por Beth Dido, a vocalista, que nos diz que de nada vale sentir isto e que conduz apenas à destruição do sentimento base. I beg to differ, Beth. Ou melhor, concordo mas apenas quando falamos da parte doentia e obsessiva da questão, quando já não é amor mas perda, quando já não é partilha mas posse, quando já não é vontade mas hábito. Porque numa relação saudável existe ciúme como sinónimo de interesse, como quem exerce um direito territorial conquistado e o protege como seu. E é bom. Evita que se dê alguém por certo e faz sentir que se quer ou se é querido. Tempera e apimenta, quando usado q.b. e com gosto. Morde o orgulho e obriga à humildade de reconhecer dependência e medo de perder o que nos é mais valioso e insubstituível. Mostra o que tens; mostra que tens - é um direito que te assiste.

domingo, maio 11, 2008

Rui non aver paura

Coragem, altruísmo, fantasia. Nem por medida se faria uma canção melhor para o Rui Costa. Até ao último dia como um miúdo com a bola nos pés.



Obrigado, Maestro!

Como criancinhas...

Só pode ser assim que nos consideram. A orquestra toca sempre a mesma música e dançamos todos da mesma forma. O acórdão do CD da Liga saiu com os castigos. A mensagem é clara, tanto pelo timming (tãããão apropriado depois de tanto tempo com o processo parado) como pelos castigos (tããããão apropriado terem um bode "respiratório" ali ao lado): Os campeões podem ser corruptos, se for pouquinho. Os outros não. Tão conveniente para o reforço da mensagem do mesmo assim somos os maiores típico dessa equipa azul e podre. Tudo igual, tudo na mesma e assim sai toda a gente de alma lavadinha, prontos para mais uma época de fachada. E a pouca vergonha é tanta que nem recorrem do castigo, assumindo prontamente e ainda com um certo orgulho gozão o que verdadeiramente são: um clube sem vergonha e de sem vergonhas.

Não que seja preciso muito para abater os ditos rivais. Estes encarregam-se de dar tiros nos próprios pés de tal maneira que nem precisam de ser empurrados para baixo, como se queixou o Chalana outro dia. Para remate final, fica a pérola que só FCP e SLB têm os salários do mês passado em dia (no caso dos primeiros isso deve incluir árbitros, assistentes, observadores, dirigentes, inspectores, fruta e frutistas, agências de viagem, capangas e mesmo, pasme-se perante o altruísmo máximo, alguns jogadores de outros clubes, o que é um digno tributo à capacidade financeira dos Dragões. Deve ser isso que chamam organização estrutural porque o líder do SD revelou recentemente que tem um BMW não sei quantos, casa e mais não sei quê e tudo pago sendo, ena!, líder de claque).
Entre pérolas destas e o facto de sermos das piores ligas do mundo em termos de média de golos e número de empates, vai-se o espetáculo e a emoção do jogo. Assim não admira ver os estádios vazios e as assistências a diminuirem. E depois é ver aqueles programas de televisão onde três senhores trocam previsíveis e cada vez menos interessantes piropos, galhardetes, insinuações de que sabem algo dos bastidores que depois nunca contam ou bitaites sobre as incidências da semana sem perderem um minuto que seja a falar do que interessa mesmo: futebol.
Bahhh.... chega. Não vale a maçada que dá e o meu tempo vale mais que isto. Não pago mais o custo de oportunidade de ir fazer algo bem mais interessante do que a modorra entediante do futebol nacional.

sexta-feira, maio 09, 2008

Como tirar doces de uma criança

O preço do barril de petróleo poderá subir aos 200 dólares até ao final deste ano. Segundo 2 fontes que ouvi comentar o assunto, os motivos são o aumento desmesurado da procura por parte das economias gigantes emergentes China e Índia, que procuram sustentar a todo o custo o seu crescimento e abertura de mercado (motivo a mais longo prazo), o ataque às explorações da Nigéria (circunstancial), a instabilidade política nas zonas produtoras (circunstancial mas a longo prazo pelos vistos), especulação (circunstancial), exploração mais cara com o escassear das reservas (estrutural). E tudo isto apesar do câmbio euro-dólar estar favorável a nós, europeus.
Anos a habituar-nos a depender de gasolina e combustíveis fósseis e agora começa a extorsão. Os lucros das petrolíferas disparam em flecha, o governo enche os bolsos e quem se lixa, para variar, é o mexilhão. Isto é, o mexilhão que tem carros que gastam muito porque eu tenho um Smart! (ou, como diz a sobrinha, "o tio tem o carro do dinoshauro") Eheheheheheh! Bom, pode ser que, ultrapassada esta fase crítica, algo positivo acabe por acontecer como a adopção de hábitos mais racionais e ecológicos. Nada como mexer no bolso para estimular mudanças. Na dúvida, e mesmo com o Smart, vou comprar uma bicicleta. Os patins em linha já tenho, ainda que não saiba andar decentemente (resolução do momento: ir cair mais umas quantas vezes até conseguir).

quinta-feira, maio 08, 2008

...com o palhaço no comboio ao circo...

Nunca foi espetáculo, o maior do mundo, que me atraísse por aí além. Fui algumas vezes mas o encanto de criança com o circo evaporou-se rapidamente. Talvez porque ultimamente os circos parecessem apenas sujos, velhos, tristes. Mais ainda, para mim, os palhaços são e serão sempre figuras assustadoras pelo eterno sorriso que esconde, ou pode esconder, a) psicopatia b) tristeza c) degradação (pior que palhaços só mimos). A excepção positiva será talvez o Krusty dos Simpsons ou ainda o tipo da máscara do Saw mas apenas pelo encanto das personagens. Ainda assim admito que possa haver retorno desta sensação estranha e que melhor cenário para tal que o Cirque du Soleil que por cá está nestes dias? Veremos no que dá.
Quem foi diz que gostou. Vou ver e logo digo o que achei.

quarta-feira, maio 07, 2008

O puto quer um brinquedo novo

PSL candidatou-se a presidente do PSD com ambições a primeiro-ministro em 2009.
A cada minuto nasce um otário.
Estas duas frases devem ter estado na base das sondagens eleitorais que validaram a candidatura e, caso vença, o que não acredito porque ainda tenho alguma fé no discernimento das pessoas e na sua memória colectiva, acho que poderá ser o fim do PSD e o reinício do tempo das vacas gordas para o país. Para os abutres do costume, claro. Ontem já lá andava (desculpem a emenda mas tenho de adicionar as palavrinhas "pelo menos" aqui senão os outros podem achar que são diferentes ou que foram esquecidos, o que não é o caso) um que conheço como tal, a rondar, a fazer o que sabe melhor para ser nomeado para o que não sabe fazer, para rapar o tacho. Escroques. Pulhas. Ladrões. Estas últimas são só palavras do dicionário, nada tendo a ver com juízos de valor sobre as pessoas em questão. Para essas julgo que nem o Mia Couto conseguiu ainda inventar terminologia adequadamente insultuosa.
A política partidária em Portugal (não falo no resto do mundo porque me escapa, ainda que, repito, veja com bons olhos a quase vitória do Obama) enoja-me com os seus joguinhos de trocas de poleiro e favores, da esquerda à direita. Já há muito que me deixei disso e, a julgar pelos crescentes números da abstenção, não serei o único. Para mim, o futuro está nas candidaturas apartidárias independentes, baseadas em movimentos temporários dedicados a uma missão, que reúnam pessoas capazes com vontade de fazer e sem vontade de serem políticos profissionais, o que cada vez mais soa a um nome feio.
E bem que gostava de ver um dia um mecanismo de responsabilização política das promessas eleitoralistas. Isto para não falar num cadastro do funcionário do Estado que impedisse a dança dos incompetentes dos aparelhos pelos apetitosos cargos de gestão e consultadoria nas empresas públicas nacionais e municipais - a nova vergonha inventada para contornar a lei.

terça-feira, maio 06, 2008

Crise alimentar

Com tantas boquinhas para alimentar por aí era já previsível que este dia chegasse e sem querer discutir a veracidade ou o alarmismo da notícia, isto é matéria antiga e antes vista. Sem ser, de longe, especialista na matéria, acho que as teorias de Malthus sobre o crescimento exponencial da população e o apenas geométrico dos recursos (que são limitados neste nosso cantinho da galáxia) são muito prementes e cada vez mais confirmadas pelos cenários actuais de escassez. Falta àgua, comida, energia, medicamentos, dinheiro, ar puro, biodiversidade... Sobram problemas como a fome, guerras, pestes, mortes, desgraças e, acima de tudo, pessoas... A pressão populacional atinge níveis incríveis, nunca antes vistos e que, fatalmente, conduzirão a mais infelicidade dos que por cá andam. As desigualdades sócio-económicas tendem a agravar-se, a instabilidade cresce, a qualidade de vida diminui para todos (sim, mesmo para os mais ricos, chegará o dia em que terão de viver, ainda que dentro de cupulazinhas protectoras ricamente decoradas, num mundo de merda, sozinhos ou com companhias muito pouco recomendáveis, sempre à espreita de um deslize para os predar). Isto para não falar em cenários catastróficos se o ecossistema global não reagir como se espera que tais sistemas auto-regulados o façam, contrariando a (imensa) pressão a que está a ser por nós sujeito com uma força de igual módulo e de sinal contrário que reduza drasticamente o número de humanos. Sim, vai haver sangue (leia-se mais ainda). Sim, vai haver mortes (leia-se mais ainda). Não, não vai ser bonito (leia-se menos ainda). E tudo isto vai bater à nossa (ainda) tranquila porta um destes dias. Já não falta muito. E depois? Haverá solução? Talvez, com o advento da energia livre, não poluente e barata, o próximo grande desafio que se coloca à Humanidade, haja esperança. Sem isso, vejo apenas dois blocos cada vez mais divergentes que se oporão: o dos que têm e o dos que não têm. Uns, poucos, muito poucos, ricos e felizes (aqui incluo todo o primeiro mundo) e bem fornecidos e armados a todos os níveis. Outros pobres, muito pobres (o terceiro mundo), muitos, mesmo muitos, e muito, muito zangados e insatisfeitos, muito, muito esfomeados, capazes de tudo. O intermédio, a classe média, verdadeira cola social, caminha para o desaparecimento, para a extinção, o que acentuará as desigualdades e o fosso entre os extremos. Negro este cenário? Sim. Sem dúvida. Futurista distante? Nem por isso. As nossas próximas criancinhas terão, infelizmente mas com toda a certeza, uma visão muito mais nítida e próxima de todos estes problemas para os quais teimamos, a bem da nossa paz de espírito e alicerçados num confortável discurso umbiguista do tipo o problema-não-é-meu-e-não-posso-fazer-nada-para-alterar-isto, em seguir, rumo ao precipício de olhinhos bem fechados. Até ao dia em que, Cu-cu!, tudo isto nos bater violentamente à porta, seja de que inesperada forma for. Para já está lá em baixo, na porta do prédio, a deixar publicidade não endereçada, daquela que ninguém lê...
P.S. - Há mais uns quantos cenários a explorar como corolário de tudo isto: O tal final mais feliz da energia livre, uso racional de recursos, controlo da natalidade, etc. O da especiação total dos dois extremos. O da conquista de um pelo outro, o mais forte e apto a sobreviver nesse mundo. O da extinção completa da raça humana. Agora qual deles virá a ser realidade...

segunda-feira, maio 05, 2008

F-R-A

Não há nenhuma diferença entre o que sinto hoje num cortejo de queima das fitas de Coimbra e o que sentia há vinte e cinco anos atrás, quando lá ia em criança.
São iguais os carros com flores, igualmente estranhos os estudantes de capa e batina; os banquinhos de praia em que se sentam as velhotas na primeira fila da rua são os mesmos; o mesmo cheiro a cerveja; as mesmas pedras da Praça da República a que os pés se colam só nesse dia; a mesma confusão; os mesmos empurrões; os mesmos bêbedos de que não pensamos mal só nesse dia; a mesma alegria que nos é completamente exterior; os mesmos pais em lágrimas a abandonarem o cortejo porque o carro do filho já passou; os mesmos cânticos, bengalas, cartolas, pipocas e balões; os mesmos coleccionadores de cervejas (parece-me que dantes se coleccionava mais plaquetes).
Durante uns anos tudo aquilo fez sentido e foi diferente. Agora voltou ao mesmo. Até voltou a inexplicável pequena inveja de quem vai cima do carro. Só desses.

Nem todas as criancinhas nascem filhos da puta...

... alguns são mesmo alimentados a fel até nisso serem transformados. Pelas agruras da vida e por contaminação (leia-se filhadaputices, agora sem hifens) de outros. Um carácter forte aliado a uma educação sólida e um bom círculo de amigos costumam conseguir ajudar a resistir a estes agentes do exterior mas, às vezes, tanto para quem conta com tais predicados como, muito mais facilmente, para quem não conta com eles à partida, é difícil resistir ao metafórico lado negro da Força e podemos mesmo acabar assim, amargos, rancorosos, vingativos, maldosos, ruins. E, uma vez do lado de lá, o regresso é penoso e quase impossível. Se bem que também acredito que alguns nasçam já naturalmente maldosos...

Se o universal sistema moralo-judicial do karma funcionar como espero, nascidos ou criados (o velho dilema nature vs nurture, fenótipo vs genótipo) terão o que merecem, mais reencarnação menos reencarnação. A minhoca-nojenta-que-hão-de-ser tarda mas não falha!

domingo, maio 04, 2008

Odeio esta música mas...

You make me feel
Just like a child

Isto para não falar em dançar... anda, vem dançar comigo, sim?

sábado, maio 03, 2008

Criancices

Em visita à sobrinha e face a um comportamento que se repetiu já por mais que uma vez, de birra e recusa em interagir, ouvi da minha irmã a frase "Cuidado que elas [as crianças] são cruéis. Quanto mais lhe ligares ou pedires menos ela dá. Experimenta ignorá-la.". Aceitando o conselho, assim fiz e os resultados não tardaram. Face a esta nova atitude, diferente da que estava habituada de ter sempre tudo à disposição à mercê dos seus caprichos, privada dos 100% de atenção, estranhou. Começou por provocar e não teve nada em troca. Depois pedinchou e obteve o mesmo. Até que percebeu que tinha de dar para receber, uma lição sem dúvida valiosa, tanto para ela como para mim.

Os princípios da psicologia reversa em acção são de facto admiráveis e, à escala, parece-me que, independentemente da idade, continuam a ser, em certa medida, válidos para todos os escalões etários. Tendemos a dar as coisas como certas e a não lhes dar o devido valor, relaxando no esforço sempre necessário que mantém uma relação biunívoca equilibrada. Algumas pessoas são, naturalmente, mais self-centered e talvez até um pouco mais egoístas ou com um certo excesso de mimo, com uma parcimónia muito particular no que toca a dar mas exigentes no que toca a receber. Umas ultrapassam isso em crianças, outras nem por isso e ficam sem perceber porquê que há amizades e relações mais fortes com outras pessoas do que com elas. Claro que cada um é como é mas isso tem implicações óbvias no tipo de pessoas que atraem (ou repelem). Por essas e por outras é que alguns têm um leal e solidamente construído círculo de amigos, namoradas, confidentes e outros acabam mais isolados e sozinhos. É preciso dar para receber. É preciso lealdade, honestidade, abrir um pouco o que nos vai na alma, dar sem esperar nada em troca, partilhar com desprendimento, emocional e materialmente, para que os outros também o façam, estabelecendo laços de compreensão e entendimento que são o cerne das (boas) relações. Sem isso não adianta entrar em queixumes e lamúrias de género "ninguém me liga". E não é um processo fácil nem imediato, nem sequer garantia de que dê certo, mas atitudes, perdoem-me o excesso de linguagem, filhas da puta, mesquinhas, egoístas, vingativas ou imaturas (ou tão somente de laxismo, o tal dados por certos) terão sempre o merecido resultado de isolar cada vez mais essas pessoas que acabarão, certamente, mais sozinhas ou rodeadas de outros da mesma cepa. Isto é válido em vários graus de intensidade e para as mais variadas interacções, sejam elas de amizade, colegas de trabalho, familiares ou relações amorosas (especificidades de cada uma à parte) e, uma vez ultrapassado um certo limite de paciência, tolerância ou compreensão, pode acontecer que certos laços fiquem irremediavelmente comprometidos ou se transformem em algo banal e de circunstância.

No caso inicial, o da sobrinha mais bonita do mundo (e só o digo agora porque sei que ela ainda não sabe ler, senão estava bem tramadinho e ela não me ia ligar nenhuma nos tempos mais próximos), não me parece que haja qualquer risco de se vir a tornar em alguém assim, até pelos moldes em que está a ser educada e porque tem muito tempo para aprender, mas a moral é válida para outras pessoas porque a desculpa da idade já não lhes serve e o tempo não volta para trás. Da minha parte, se incorrer em tal falha (já me bastam os mal-entendidos ou a falta de tempo), agradeço uma chamada de atenção (directa se as indirectas falharem) a tempo de corrigir tal comportamento porque prezo bastante todos aqueles que me orgulho de chamar de amigos e não quero correr riscos de os perder sem motivo.