Bons sentimentos!
Ontem saí do trabalho e entrei no carro ao som de uma música alegre e bem disposta, o sol brilhava, ia correr um pouco para um parque com circuito de manutenção lá perto de casa e depois tinha um jantar porreiro no bairro com uns amigos, ou seja, basicamente, o dia até me estava a correr bem, na generalidade, e começou a nascer um post óptimo, muito positivo, sobre as coisas boas da vida...
Rolei ligeiro durante umas centenas de metros, ainda a pensar no texto que ia escrever, bem disposto e contente da vida, e saí da curva do IC30 em bom ritmo, com os pneus a chiarem alegremente, bem dispostos e contentes com o alcatrão debaixo deles, o motor a roncar num regime agradável, fruto da redução de caixa prudente que acompanhou a manobra e acenei, também alegremente e de uma forma perfeitamente cordial, com o dedo do meio para o carro de trás que devia queria trocar de faixa por cima de mim. Tudo dentro da rotina normal, portanto.
Qual o meu espanto quando, no meio de uma frase particularmente inspirada sobre aqueles bons sentimentos que nos aquecem por dentro e nos reconfortam, que renovam a nossa fé na Humanidade e fazem de nós melhores seres humanos, me deparei com uma infinidade de luzinhas vermelhas aos pares de três a olharem para mim. C******, exclamei de pronto, claramente ainda cheio de bonomia para com as contrariedades da vida, enquanto pisava firmemente o pedal do travão para imobilizar o carro mesmo antes deste ir conhecer de perto a traseira da pick up da frente.
Pensando na felicidade que me enchia a alma momentos antes, vi-me subitamente no meio daqueles testes rigorosos à paciência e boa vontade dos melhores entre nós: o belo engarrafamento do IC19, certamente motivado por um acidente. Ao ver passar o INEM que se esgueirava entre os carros que civicamente se desviavam, não pude deixar de admirar a dedicação destes profissionais à ajuda de terceiros e, pensei, espero que cheguem a tempo aos sinistrados. Reclinei-me no banco e prossegui mentalmente com o tal post sobre... sobre... ah, sobre a bondade e a alegria. Quando uma outra frase razoavelmente inspirada foi interrompida pelo soar de uma sirene da polícia, notei que nos últimos quinze minutos tinha percorrido apenas uns 100 metros. Que bela m**** de polícia que temos, pensei eu construtivamente, que nem sequer sabe desviar o trânsito para poupar tempo aos utentes das estradas, pagadores dos impostos que vão para os salários deles. E pus o rádio um pouco mais alto pois estava a dar o “Nothing but flowers” dos Talkings Heads que vinha mesmo de encontro ao teor do meu texto, com a noção de ecologia e a crítica ao urbanismo selvagem implícita. Cantarolando satisfeito e bem disposto os últimos versos da música dei lugar à troca de faixa do estúpido do lado que devia achar que os kms de carros enganadoramente PARADOS EM AMBAS AS FAIXAS à frente dele iam subitamente desaparecer com aquela manobra genial.
Ao ouvir o locutor anunciar a passagem das sete e meia um rápido cálculo mental relembrou-me que estava quase no mesmo local e que pouco me tinha afastado do sítio de onde partira naquela última hora. E que magnífico sítio era este para passar um pedaço da minha vida. E, raios partam, já não vou conseguir ir correr para o parque, para o meio das àrvores, em contacto com a natureza, com o ar puro... espera! Que cheiro é este? Ar puro não é certamente e só a bosta do escape do imbecil da frente cheira assim. Onde pouco tempo antes habitavam bons pensamentos (os que restavam e que mais uma ambulância de passagem se encarregou de escorraçar), vivia agora, alegre e bem disposto, um saudável ódiozinho rancoroso contra os anormais que não sabem conduzir e que se estoiram na estrada. Espero que estejam bem desfeitozinhos. Ou aprendem a guiar, ou se concentram no que estão a fazer ou andam mais devagar. Agora isto de me prenderem no trânsito é que não se encaixa nada na minha visão optimista da Humanidade. Palermas. Bom, onde é que eu ia? Ah, na parte em que acreditava nas pessoas, que há sempre um lado bom, que devemos confiar no potencial... f**** da ...! Isto é incrível... o parvalhão da mota, armado aos cucos a passar daquela maneira entre os carros!
E nisto passaram quase duas horas... foi-se a corrida... foi-se a paciência... e quando estava à espera de encontrar umas toneladas de destroços, um rio de sangue e óleo na estrada, corpos embebidos em aço, quando mal podia conter a expectativa de poder parar o carro para acender com o isqueiro os cabelos de uma cabeça decapitada, medir a distância e rematá-la colocada ao ângulo, ali mesmo na gaveta, para o banco de trás do carro que provocou o acidente, onde a mulher do gajo sem cabeça ainda estava a gemer agonizante numa poça de gasolina, acompanhada com o característico dizer do Figo, “Toma!” e ainda um “Que é para aprenderes! Para a próxima tens mais cuidado! Palhaço!” cuspido pela janela e gargalhando insano, acelerava loucamente rumo a casa, acabei por não vislumbrar ponta de uma ráspia, nem um parafuso que me explicasse o que me tinha deixado aquele tempo todo ali a pastar... Abri as janelas, acelerei e aumentei o volume do rádio, respirei fundo e pensei, alegre, bem disposto e feliz, que a vida é bela e deve ser sempre vista pelo lado bom, cheia de bons sentimentos, fé nos Homens, apreciada e gozada na sua plenitude!








































