quinta-feira, março 01, 2007

Miss Torrada


O Verão está à porta e é necessário eleger a Miss Torrada 2007, para isso a organização do concurso percorrerá disfarçada todos os lugares de venda ao público de torradas. A votação far-se-á de acordo três critérios objectivos e um crtério subjectivo. Preço, tempo de confecção, relação manteiga/pão e o gosto pessoal. Os leitores são convidados a votar e frequentar as casas recomendadas. Que começem os jogos !

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

OPA

A Sonae.com quer comprar as acções da PT mas oferece muito dinheiro a quem não vender. Tem lógica. É como querer comprar um carro e oferecer dinheiro para o actual dono não mo vender.
A OPA cheira cada vez menos a OPA e cada vez mais a uma rebuscada mega operação financeira.
Por quanto é que a Sonae.com comprou as acções da PT que já possui?



Fonte: Agência financeira

E por quanto as vai vender se a OPA falhar?

17,15

Há qualquer coisa de estranho com as 17,15. Ainda não percebi bem o que será mas parece ser sempre por volta dessa altura que sucedem determinados acontecimentos twilightzoneanos. Uma certa inquietação de espírito apodera-se das pessoas e depois... Parece a hora coca-cola light mas mais tarde, sem coca-cola e sem a parte do tipo em tronco nu. Não é que um dia, pelo andar da carruagem, isto não descambe para aí, em jeito de pratical joke, mas até agora é mais em formato electrónico. Tipo vírus provocatório insidioso que induz uma certa boa disposição, um je não sei quê argumentativo, uma maionese de gambas com pretensões a molho de bróculos. Os sintomas perduram por vezes durante todo o percurso do IC19 fazendo com que, mesmo no meio do trânsito caótico, seja o único tipo que se vai a rir sozinho no meio daquela gente toda, o que, já se sabe, tende a irritar muito boa gente que ouve a rádio renascença sem o mesmo efeito.

Consultório Sentimental 2

O prof. Catarse regressa para mais uma sessão do seu consultório sentimental, desta vez para dar resposta à menina Suzy Silva, de 17 anos, da Baixa da Banheira, que escreveu:

"Oi Prof! Tá tudo? Ixto por aki n tá nada bem. Desde k fui levada pra um ritual pagão numa mata perto de Massamá, de k n me lembro mto bem por causa dos kopos e das drogas, k acho k algo está a crescer ká por dentro. Tenho mta vontade de komer koisas exkisitas, ganhei uma língua komo a das kobras, brilho no escuro e akordo de noite a flutuar meio metro acima da kama. E todas as noites passam ká por kasa uns tipos mto extranhos com antenas e nem extamos no karnaval. O k devo fazer? BxB rules. Props pá crew do Bleguitas!"

Cara SS, o seu caso não é o primeiro que me aparece por aqui. Trata-se de mais um episódio de extraterrestres desocupados, fanáticos dos Ficheiros Secretos. Andam por aí sem muito o que fazer, ovni novo, dinheiro dos pais, completamente irresponsáveis. Gostam é de farra, copos e orgias desenfreadas. O seu m.o. é muito simples: abrem uma página no Hi5, criam um grupo de fans, organizam uns rituais e abusam de raparigas inocentes e indefesas, sem que nada lhes aconteça a coberto da história de não serem de cá! No seu caso, certamente por causa dos químicos na água da torneira da Baixa da Banheira, foi ultrapassada a barreira fértil interespécies e está agora grávida de um híbrido, o que claramente está a deixar os ET's muito nervosos por causa dos possíveis testes de paternidade e processos legais para atribuíção de pensão! Se fosse a si não hesitava em ter o mutante, perdão, a criança e em processá-los! Caso necessite de ajuda estarei ao seu dispor!

"Oi Prof! Segui o seu konselho e tive a kriança. O processo de paternidade ainda vai demorar porke a força aérea não os konsegue katar. Pelo menos a koisa, o puto, é saudável. Ker dizer, axo k é saudável. Pelo menos voa a direito, konsegue arrankar árvores pela raíz e gosta mto de roer kabos de aço! E tem tanta piada kuando me traz vakas mortas de noite! Mesmo assim, axo k ele precisa de kem o eduke. Anda um poko selvagem e tenho medo k faça mal a alguém, sem kerer, klaro! Vou passar aí por sua kasa ainda esta semana! Obrigado!"

Minha menina, o prof. Catarse já não mora aqui. Fez as malas e partiu para parte incerta. Não deixou morada ou contacto, lamento. Escusa de se maçar em vir para estes lados. Aqui não há nada de interesse, nem jardins de infância, nem jardins zoológicos sequer. Cumprimentos. A porteira.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Geração iPod

Auriculares nos cafés, na ruas, nos metros, de pé e sentados, a andar e parados.
Já nem comboios e aviões são bons sítios para meter conversa.

sábado, fevereiro 24, 2007

causa e efeito

Um prenúncio de chuva deixou toda a população indígena encharcada por antecipação, dada a inevitabilidade que o futuro assumia naquele lugar. As coisas aconteciam porque tinham de acontecer e não era só porque afinal alguém decidiu sair com o chapéu de chuva ao ouvir o oráculo dizer que ia apanhar uma molha que isso ia deixar de acontecer como estava previamente determinado. Claro que isto era um grande transtorno para o fluxo linear do tempo e para o destino, que tinha de fazer horas extra para trazer um tufão vindo de lugar nenhum e poder fazer aquilo que antes da previsão teria conseguido com um simples aguaceiro, não fora o parvo ter levado um guarda-chuva - agora pulverizado pelos ventos ciclónicos. Como estas coisas são mesmo assim e ninguém faz as perguntas certas aos oráculos, nunca saberemos se a morte tenebrosa que o tipo do guarda chuva sofreu devido ao tufão teria igualmente sucedido com o aguaceiro. Ou melhor, nunca teríamos sabido não fora o facto de um anónimo estivador da marinha mercante não tivesse feito uma observação jocosa com o sucedido:

Apanha antes com uma chuvada

Não provoques o destino

Ou um piano vindo do nada

Ainda te trespassa o intestino

Ora sucede que isto foi dito na presença de um dos maiores físicos teóricos da actualidade que rapidamente sacou da régua de cálculo (de parte incerta, uma vez que estava num quarto de uma pensão reles, nu e com um estivador da marinha mercante) e brilhantemente enunciou pela primeira vez a primeira lei de Gaynerdovski: "Os acontecimentos chave, que servem de âncora a essa realidade, acontecerão sempre, independentemente de todas as outras variáveis." E o corolário: "Quanto mais força for exercida para impedir ou modificar um acontecimento chave, maior será a força contrária exercida por esse acontecimento chave nos acontecimentos vizinhos." Ou em linguagem mais corrente: "Algumas merdas têm mesmo de acontecer e quanto mais as tentas evitar, de mais alto elas te caem em cima!" As implicações desta lei foram imediatas e rapidamente os oráculos foram parar ao desemprego e um turbilhão de inevitabilidade irresponsável assolou o mundo. Ninguém se importava com as consequências dos seus actos e as seguradoras foram à falência. Era a loucura completa mas, simultaneamente, eram tempos felizes pois ninguém andava preocupado. Aliás, em breve ninguém andava para lado nenhum pois a probabilidade de acontecer algo tenebroso subiram em flecha com os condutores de avião iniciados, os móveis pela janela, os tiros e facas atiradas ao ar e o pior de tudo, a quantidade de gente nua pelas ruas que desafiava a concentração do condutor mais atento e assim, mal por mal, as pessoas preferiam ficar em casa a ver televisão e a ter ideias esquisitas. Até que um acontecimento chave chegou, vindo sabe-se lá de onde, inexorável como poucas coisas (talvez um tsunami de 50 metros de altura a 250 kms/hora desse uma pálida ideia mas…), imparável no seu trajecto. "Desculpem, disse o cientista, tenho andado a pensar na minha teoria e descobri um pequeno erro. É que a minha régua de cálculo estava um pouco, enfim, difícil de ler e afinal os acontecimentos chave inevitáveis só acontecem de 10000 em 10000 anos e a uma escala cósmica. Não ao tentar voar montado num aspirador do 7º andar! Eh. Pois, foi uma pequena falha na casa decimal… Eh. Eh. Bom, vou andando…" O motivo pelo qual este era um dos acontecimentos chave está relacionado com o facto de o que sucedeu ao pequeno cientista ter sido tão desagradável que deu origem a um movimento compensatório de amor e carinho global que salvou a Humanidade do seu triste destino de auto extinção.

pérolas...

A vida é como uma caixa de chocolates: nunca há aquele que queremos e para o fim só ficam aqueles esquisitos, recheados com uma coisa verde inidentificável.

O amor é como os soluços. Além de te obrigar a fazer coisas estranhas, como prender a respiração e beber água pelo lado de fora do copo, quando pensas que já passou, vem mais um.
A verdade é o bem mais precioso do mundo. Para impedir a sua desvalorização não a devemos dar a toda a gente.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Há dias assim...

Há dias assim... não sai uma para a caixa. Em nada. A conversa não flui. A condução está perra. O sono não descansa. A comida não sabe bem. Tudo irrita. Tudo é mau. Há uma nuvem negra que tapa o sol. Está frio. Está calor. Chove. Acaba a gasolina. Acaba o saldo e a bateria do telemóvel. Chegam 4 contas no correio. A renda subiu outra vez. Não tenho dinheiro na carteira quando vou pagar o almoço e não há MB. Sujo as calças ou a camisa sabe-se lá onde. Não há lugar à porta. O emprego não motiva, ainda por cima é mal pago e ainda me enganei a enviar aquele documento importante portanto o mais certo é vir a ser despedido em breve. Não há programa nem companhia. Os amigos não atendem. A namorada foi embora. O cão morreu e matou o periquito antes. O carro não pega e quando pega tem um pneu furado (nem vou falar do sobresselente e do macaco). A net não liga. O word não responde a meio do texto não guardado. Esqueci-me da chave na gaveta do emprego. Esqueci-me dos óculos em casa. Perdi a carteira quando estava a tentar pagar o almoço. Deixei a janela aberta (e, ver acima, choveu); a luz acesa, que fundiu e não há mais lâmpadas; a torneira a correr e inundou o resto do chão de madeira que a chuva tinha poupado. Não há roupa lavada porque não pus a roupa a secar e aquela camisola vermelha transformou metade do meu guarda roupa num pesadelo cor de rosa. Não tirei o jantar do congelador e só há uma lata de anchovas na dispensa, fora do prazo, claro. A lâmpada ao fundir deitou o quadro abaixo e desligou o frigorífico que descongelou e estragou tudo o que tinha dentro. A louça está por lavar e o único copo acaba de cair ao chão. A mulher que está à minha frente na fila tirou o dia para falar sobre a novela. A televisão não dá nada de jeito. O DVD pifou com o filme do clube de vídeo atrasado para entrega lá dentro. Há imensas coisas para fazer mas não apetece fazer nada do que podia e só quero fazer o que não posso. Não sei do livro que estava a ler e quando o encontro perdi a marcação da página. Não posso tirar férias nos próximos 4 meses. Estou a ficar doente com as anchovas que comi. Acabou o papel higiénico. O armário dos medicamentos só tem pastilhas para garganta e 5 caixas vazias que me podiam ajudar imenso se não estivessem vazias. A última das quais era a de valium para dormir ou para me matar. Moro num primeiro andar e só me magoava se saltasse. Reparo que cortaram o gás quando tento meter a cabeça no forno. Não tenho corda para me enforcar nem sítio para a pendurar em casa descubro eu quando encontro o cinto do roupão, que também era curto demais. A pistola do meu avô não tem balas que funcionem, mas também os vizinhos iam reclamar do barulho e ficava tudo sujo. A ponte fica longe e não me apetece ir até lá a pé. Saio para espairecer um pouco e sou assaltado. Como não tinha carteira e o telemóvel não funcionava, o gajo espeta-me com uma faca tão cheia de doenças que o vírus da Sida morreu lá. Enquanto me esvaio em sangue no chão, tento encontrar algo que me ajude, passa um carro com a minha ex-namorada e o seu novo namorado por cima de uma poça e molham-me com lama que arde na ferida. Tiro um papel do bolso da camisa e vejo na televisão da loja ao lado os números do jackpot do euromilhões a saírem iguais ao do meu boletim. Fraquejo e solto o papel que esvoaça para longe, enquanto morro com dores... Acreditem ou não, isto já me aconteceu três vezes este ano e só estamos em Fevereiro!

um miminho

O guincho do metal arrastando-se na pedra rasgou a noite. Um rasto vermelho marcava o percurso por onde tinha passado o machado. A lâmina embotada testemunhava a violência dos golpes desferidos. Mas onde, quem, porquê? O cenário lúgubre e desolado não prometia nada de bom. A cara fechada do homem vestido de negro que carregava a ferramenta sangrenta também não. Já o mimo que jazia morto a uns metros dava um toque mais agradável a toda a cena, pois, como é do conhecimento público, o único mimo bom é o mimo morto. E uma vez que se tratava de um daqueles vestidos de Pierrot, especialmente irritantes, deu direito a bónus extra. 1000 pontos, diria eu. E mais 500 porque a primeira machadada apanhou-o a fazer a cena da parede invisível, que aparentemente era mais frágil do que parecia. Não se pode confiar nas paredes imaginárias como dantes para deter um bom e sólido machado de lenhador apontado com mestria ao cachaço. Louve-se a tentativa de defesa que o mimo esboçou, tentando inutilmente explicar por gestos que até nem era má pessoa. Não resultou. Se não era fácil em circunstâncias normais gesticular noções como clemência, piedade, misericórdia e prometo nunca mais ser mimo e arranjar um emprego decente, sem os bracinhos ficou tudo muito mais difícil.

domingo, fevereiro 18, 2007

Finais

José Mourinho diz que foram feitas para serem ganhas.
Alguém tem que as perder. Que não seja por falta de comparência.

entrevista

Excerto fictício do que poderia ser uma entrevista a um jogador de futebol se lhes fizessem perguntas de jeito ou se eles não respondessem sempre a mesma coisa:

Diga-me lá qual foi o sabor do golo da vitória sobre o Real?
Hummmm... Morango. Sim, morango.
E agora, atingiram os 1/4 de final. Qual é a ambição da equipa? Chegar à final?
Não, nem por isso. Acho que ficamos por aqui. Temos outras coisas para fazer.
Acha que passou ao lado de uma grande carreira por ter ficado tanto tempo aqui no Freamunde? Olhe que até nem estava à espera de chegar tão longe. Eu nem sei jogar bem futebol. Gosto mesmo é de curling.
Ao intervalo pareciam um pouco cansados mas depois entraram com mais energia. O que se passou?
Doping. O mister trouxe uns comprimidos verdes e disse para tomarmos. Aquilo dá cá um pedal...
Acha que as coisas podiam ter sido diferentes se o árbitro não tivesse expulso três jogadores e assinalado aqueles 2 penaltis nos primeiros 15 minutos de jogo contra a outra equipa?
Olhe que não. Os gajos que foram expulsos ainda jogam pior que eu. Os penaltis nem fizeram muita diferença, afinal o guarda redes deles é meu primo e já lhe tinha prometido uma viagem ao Brasil com uma gajas se ele desse umas abébias.
Gostou de ter sido substituído de 10 minutos depois de ter entrado?
Claro. Tinha combinado outras coisas e deu-me muito jeito sair mais cedo. Eu nem estava para vir.

O direito ao duelo

Proponho que se restitua imediatamente o direito ao duelo (ou então que se despenalize o assassinato por motivos imperiosos – do género, ele estava mesmo a pedi-las, com aquele mau feitio). É que anda para aí cada besta que merecia tanto... Mal por mal, em Portugal, já se mata tanta gente e, ainda por cima, sem critérios válidos - na estrada, nos abortos ilegais, com a má alimentação, com os acidentes de trabalho, com os incêndios, com a droga, o tabaco e o álcool. Só vejo vantagens: a população estaria mais em forma, para se poder defender (e não só física como mentalmente, já que um novo artigo na lei dos duelos permitiria que o desafio fosse de outros âmbitos que não o da violência física – quem recusasse mais do que três âmbitos de duelo para a resolução de uma questão assumiria a sua falha e transitaria para o código legal apropriado de livre vontade – por outro lado quem desafiasse sem razão, mais do que três vezes perderia o direito a desafiar por um período a determinar). Estariamos todos mais atentos para não provocar ninguém sem motivo e todos tratariam os outros com maior consideração e respeito. A sociedade, livre dos pesos mortos inúteis e da sobrepopulação, que sorvem recursos preciosos, evoluíria rapidamente para algo mais civilizado, em que a honra e a dignidade seriam valores a ter em conta. Claro que o preço a pagar é alto mas também o seria a recompensa. Já vejo o reluzir de duas alabardas a voltear num parque, combates intensos e fatais de par ou ímpar num qualquer vão de escada, duelos de chapada de mão aberta ou de cócegas até à morte, verdadeiras chacinas com achas de armas ou lutas acesas entre trovadores de cítaras em riste, desfiando estrofes verrinosas.

Apelo

JP desapareceu de sua casa há cerca de 3 dias, tendo sido visto pela última vez vestido de cinzento. A sua falta está a ser imensamente sentida, o dia a dia está completamente comprometido, não se desenrolando da forma usual. O regresso à normalidade está a ser muito difícil, dada a importância de que se revestia a sua presença.

Juízo Perfeito, onde quer que estejas, nunca serás esquecido nem substituído por qualquer forma de terapia ou tratamento, não importa o que dizem os senhores de branco.

sábado, fevereiro 17, 2007

desperdício

O maior problema com os acidentes nas estradas portuguesas não é o número de acidentes ou de mortos. É nunca acontecerem às pessoas certas!
Que desperdício de desgraças...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

read my lips

Não pagamos nem mais um cêntimo por cada acção da PT!
Vá, pagamos mais um euro. Mas agora não pagamos nem mais um cêntimo!

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Tempo

Sem imaginação: Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca. Tédio. Seca. Seca. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca. Hummm, que bom. Já passaram mais 30 segundos. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca. Tédio. Seca. Seca. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca. Mais 30 segundos. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca. Tédio. Seca. Seca. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca. Mais 30. Ainda faltam 8 horas, 58 minutos e 30 segundos para me ir embora. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca. Tédio. Seca. Seca. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Tédio. Seca. Seca. Seca.
Com imaginação: O relógio avançava velozmente, inexoravelmente, indiferente a todo o que sucedia, marcava a compasso o tempo que passava sem volta. De repente, mesmo quando estava a olhar para o mostrador, parou. Tudo se imobilizou, congelado. O que se passava? Aparentemente era ele o único não afectado por este estranho acontecimento. Lentamente moveu-se pelo espaço, sentindo algo de indefinível, como se faltasse consistência ao ar e às coisas. E faltava: uma dimensão. Apercebendo-se do sucedido, milhares de hipóteses lhe acorreram ao espírito: estava livre para fazer tudo o que quisesse. Ninguém o podia deter ou impedir! E deu largas à imaginação; carta branca aos seus desejos. Fez de tudo e de todos o que lhe passou pela cabeça, do mais banal e previsível ao mais insano. Razão pela qual, na altura em que o fluxo do tempo, retemperado pelo descanso, retomou a sua marcha, foi com imensa surpresa que a reunião mensal do conselho de administração o encontrou nu, de óculos escuros e coberto de chocolate, deitado na sua mesa de reuniões, deitando champanhe no decote da vice presidente enquanto fumava um charuto e cantava "Ora zumba na caneca" aos berros.

Inquietação, inquietação...

A pressão negativa que a sociedade, consciente ou inconscientemente, exerce sobre os solteiros atinge hoje, quarta-feira, 14/02, o seu expoente máximo com a celebração dessa data intragável que é o dia dos namorados. Atente-se à hipocrisia comercial dos slogans que prometem amor eterno a quem comprar pneus, uma casa ou aquele iogurte torna-se quase insuportável, fazendo crer a todos que a recompensa da felicidade a dois vale todos os sacrifícios e que está mesmo ali ao virar da esquina, rápida e acessível. Não há filme, canção, anúncio ou festa que escape (filme obrigatório para dia 14/02: No soy vos, soy yo). Os restaurantes estão cheios de casais enamorados que, ainda o ano passado, diziam as mesmas frases feitas a outra pessoa qualquer e que, para o ano, as dirão a outra diferente. Tudo se suporta para não se ficar sozinho, derradeiro falhanço social ao que parece, desde discussões constantes a feitios incompatíveis. As pistas do final inevitável estão lá mas o tal "amor" mascara tudo isso e faz-nos estoicamente continuar a tentar adiá-lo. As estatísticas estão mesmo a nossa frente, com o número de divórcios a subir e o dos casamentos a descer ou a sua duração encurtada (quando um casamento dura menos que uma BIC algo está errado). As trocas constantes de par na nossa geração reflectem bem a futilidade de copiar o modelo dos nossos pais, o de uma relação para sempre, e fazem-nos sentir miseráveis por falharmos. A questão é que os tempos mudaram e agora nada dura mais do que um instante. O emprego, o carro, a casa, a relação. Outros objectivos de vida, pérfidos na deturpação do sentido último da vida – a perpetuação da espécie - mas verdadeiros para o egoísmo da felicidade individual, contribuem também para este cenário que ganha contornos de realidade com o envelhecimento da população. Estamos desadequados, desenquadrados e complicados (ouvir conversa entre Danny Archer e Solomon Vandy, no Diamante de Sangue, sobre objectivos de vida); lutamos para cumprir com o plano da geração anterior sem perceber que já não é a nossa. Agora é a intensidade do efémero que conta, é o experimentalismo do imediato, é queimar todos os cartuchos porque, de facto, não há motivo para os guardar. Para quem, para quê? Não há nenhuma grande ordem das coisas, não há nenhum significado escondido, não há recompensa ou castigo eterno à nossa espera no final, ou pelo menos, é essa a sensação que fica ao observarmos o dia a dia. Apesar de tudo, este frio modo de pensar, quando confrontado com a chama da paixão ou perspectivado pelo filtro cor de rosa do amor, não tem a mínima hipótese, pois não há abordagem racional possível perante a loucura irracional desses sentimentos. Claro que existirá o amor verdadeiro mas, ao que parece, como tantas outras coisas, está a sentir algumas dificuldades com este cínico estilo de vida, e é espantoso como, se quantificássemos em 10% as vezes em que é mesmo verdadeiro, estaríamos todos incluídos nesses 10% e os outros é que seriam a vasta maioria dos iludidos. Tadinhos deles. Resta acrescentar que, nas circunstâncias certas, me comportarei e comporto como os demais, ou pior ainda, escravo voluntário de um romantismo incurável que procura o mesmo que todos os outros; o final feliz! Bom dia dos Animais para todos!

Há monstros debaixo da cama?

Estou sozinho em casa e ouço um raspar indistinto, vindo de parte incerta. De início ignoro. Depois repete-se e já nem sequer é igual à primeira vez. Mudou de sítio? A suspeita cresce e começo a racionalizar. São os canos. É o soalho de madeira que é velho. Vem de casa do vizinho. Que parvoíce a minha, o que é que pode ser? No máximo, um rato dentro da parede ou outro bicho qualquer. É que parece mesmo qualquer coisa viva. Sem saber bem porquê. Bom, que se lixe. Vou mas é dormir que isto não é nada e estou só para aqui a imaginar coisas. Quando estou quase a adormecer, eis que surge de novo. Mais sólido que nunca. Mais distinto que nunca. Não há dúvidas. Está cá dentro, mesmo perto da porta. Bolas. Agora tenho de ir ver, não vá ser um insecto nojento qualquer mesmo à espera de me apanhar durante o sono para se passear pela minha cara. Acendemos a luz. Olhamos em volta. Nada. Caca. Eu sabia. Apago a luz. Deito-me. Será que ouvi alguma coisa? Já que acordei ao menos levanto-me e dou uma olhadela pela casa. Acendo a luz de novo. Espreito o chão, olho para baixo da cama, para trás da porta e em redor vistorio as paredes e o tecto. O quarto está limpo. Nada à vista. Abro a porta devagar, cauteloso. Nada no corredor. Faço uma ronda rápida pela casa. Portas e janelas fechadas. Excepto uma que está só encostada. Hummm, que estranho. Podia jurar que tinha fechado todas. Deve ter passado. Fecho-a. Ao virar-me parece mesmo que ali atrás do sofá algo passou veloz, apenas um vulto. Que bela merda. Porquê que fui ver o filme de terror? Agora estou completamente paranóico. Acabou. Vou dormir! Quarto e cama. Demoro um pouco a voltar ao sono porque o barulho misterioso insiste. Que se lixe, é para ignorar e dormir, que amanhã trabalho cedo. Adormeço. A meio da noite, enquanto me viro na cama, entreabro os olhos por segundos, mesmo a tempo de apanhar um vislumbre de algo pálido de olhos negros raiados de sangue, garras e dentes afiados caindo do tecto, rosnando baixinho, na minha direcção…

Rocky Balboa

O regresso de Sylvester Stalone ao grande ecran sob a forma de um Rocky Balboa entrevado mas com problemas por resolver, deve ser entendido como tal. Entrevado e com problemas por resolver. O filme tem o perfume dos clássicos dos anos 80, com todos os ingredientes que esperávamos encontrar, se bem que as doses em que são servidos estejam um pouco diferentes de outras versões. Por exemplo, o primeiro murro é apenas desferido passados que estavam 60 minutos de filme. É pouco mas entende-se que o Balboa de 50 anos tenha amadurecido e agora prefira conversar sobre os seus problemas. Escusava era de ter 8 discursos moralizadores, daqueles que normalmente antecedem os grandes momentos deste tipo de histórias, em vez do tradicional único e épico. Ele fala com o filho, com o amigo, com a amiga, com a mulher morta, com ele próprio, outra vez com o filho, com o cão, com o filho da amiga, e, de discurso estafado em discurso forçado, passa o tempo até entrar a música grandiosa para o Rocky começar a malhar ferro rumo ao combate. Todos sentimos (pelo menos um pouco) aquele frémito que nos puxa para fora da cadeira do cinema para fazermos flexões com ele. O beijo da praxe da amiga ambígua e eis que chega o grande dia, com a entrada no ringue ao som de Sinatra. Dezenas de murros trocados, litros de sangue escorrido (vá, meio litro, que o senhor não caminha para novo e aquele tipo de sangue já não se fabrica), golpes furiosos, momentos de nenhum suspense com as previsíveis idas ao tapete de parte a parte e as inversões de domínio e, momento decisivo, um flashback com a Adrian para conseguir com que Rocky se levante de novo para um ataque final. Mau? Sim. Mau demais? Está bem. Mas dá a volta e vê-se, perdido o amor ao dinheiro do bilhete, principalmente para quem tem idade para ter vibrado com os outros. "ADRIAAAAAAAAAAAAN!"

O despertar da mente

Num local recôndito da mente, bem abaixo dos níveis iluminados da consciência, um lodo mental viscoso goteja e escorre pelas sinuosidades do cérebro primitivo. Lenta mas deliberadamente começa a tomar forma e, produto de recalcamentos, frustrações, medos, raiva, maus sentimentos e feridas antigas, não é uma forma agradável. A gosma ganha força e expressão e insinua-se rumo aos centros superiores de decisão, mas subreptíciamente, nunca ostensiva, para não ser detectada e contrariada nas suas péssimas intenções. Um toque aqui, uma palavra ali, puxa, morde, mexe, por vezes de dia, muitas vezes de noite quando sabe que a vulnerabilidade é maior. Usando todos os expedientes e aliados, como a dúvida, o medo e a mágoa, vai reunindo potencial. Até que a oportunidade surge, cínica e cirurgicamente calculada para optimizar o efeito, para o ataque certeiro e mortífero numa manhã fria e chuvosa de segunda-feira.

Piiiiiiii, piiiiiiiiiii, piiiiiiiiiiiiiiii, ......

Rapidamente, o braço emerge dos cobertores que o escondiam e decidido lança-se no espaço que separa a cama do botão snoooze do despertador. Ahhhhhhhhh...que se lixe, hoje não vou trabalhar!!! Mudando de direcção para o botão do alarme, silencia o aparelho maldito de uma vez por todas, antes que este inicie o seu concerto infernal pela 4ª vez naquele dia.