Estórias de Sampi, o ET esquizofrénico III – Escolhas
(ver Sampi I e II em Gabardina Setembro 2006)
Como é do conhecimento (aprovado pelo governo para consumo) público, existem, presentemente, cerca de 6 biliões de seres humanos neste planeta. Se contarmos com a capacidade de se deslocar no eixo do tempo que Sampi possui, este número crescerá de um modo perturbador e obsceno, e que, por razões de saúde pública e decoro, nos abstemos de mencionar. (Desculpem, mas muitas vezes uso o plural real para me referir a mim próprio – tenho uma auto-estima bastante saudável, além de que, como referi algures, tenho imensa personalidade, perdão, imensas personalidades – nota do narrador)
Ao aperceber-se deste facto, Sampi sentiu o equivalente em felicidade a 2,6 vezes a potência da bomba de Hiroshima. Escolha! Variedade! Oferta! Foi quase como se a Imelda Marcos tivesse entrado na antiga Biblioteca de Alexandria e gostasse de livros em vez de sapatos! Assim, Sampi, qual turista destemido que chega a uma cidade onde não é conhecido, partiu para a borga, devassa e pilhagem. Um desvario. No início, a coisa nem era muito sofisticada: desde que ainda tivesse dentes e um conjunto funcional de equipamento sensorial e reprodutivo, marchava. Tipo test-drive, Sampi ensaiou corpos de todas as formas, cores, feitios e sexos. E quando não gostava de algum não hesitava em fazer obras profundas, se considerava que tinha algum potencial ou em abandonar a carapaça vazia qual trapo velho. A esta fase experimentalista devemos alguns dos habitantes mais bizarros que marcaram as páginas da nossa história. Para nomear apenas alguns dos mais conhecidos: Marquês de Sade; Merlin; Aleister Crowley; Weird Al Yankovic; Marilyn Manson (óbvio – o gajo original era perfeitamente normal); Michael Jackson; António Variações (de tempos a tempos como músico pop – umas férias bem merecidas); Platão (primeira trip conhecida de LSD com aquela cena da caverna); Yeti – o abominável homem das neves; Cleópatra (alguém no seu perfeito juízo bebe pérolas em vinagre?!); Dennis Rodman (a fase pós-Detroit); o primeiro gajo que bebeu leite de uma vaca (era aquele hominídeo que estava atrás à esquerda na cena inicial do 2001 do Kubrick); Conde Dracul;... Enfim, a lista estende-se...
Lamentavelmente nem sempre se pode dizer que ao sair Sampi fosse dos melhores inquilinos...mas também diga-se que a maioria dos recipientes que Sampi escolheu tinham já dentro de si a semente da demência! Alguns tardavam em recuperar o seu estado normal (poucos o conseguiram na totalidade), sendo que a maioria reteve alguma excentricidade para o resto da sua curta existência (a ciência médica não estava muito avançada; era tramado arranjar um transplante fosse do que fosse antes de 1950 ou psicoterapia antes de Sampimoid Freud). Mas nem todos se podem queixar. Aliás, não fora o frenesim de mudanças por volta do século XV e, provavelmente, hoje não teríamos tido o Renascimento!

