quinta-feira, agosto 17, 2006

Olha que... que...

O Estado português faz bem o papel terceiro-mundista de cobrador-do-fraque.
Não lhe ficava mal fazer o papel de pessoa de bem, honesta e que paga atempadamente as suas dívidas. Mas para isso já vamos tarde...


Vivo num Estado em que me é cobrado IRS e segurança social; segurança social à minha entidade patronal por conta do meu salário; IVA em tudo o que compro a uma das taxas mais altas da União Europeia; em que os carros são mais caros do que nos outros países e isso acontece por causa do imposto automóvel; onde ainda pago imposto de circulação; onde auto-estradas que em Espanha seriam gratuitas são pagas a peso de ouro; onde os combustíveis são mais caros do que em Espanha e isso acontece por causa dos impostos; num estado cheio de assessores, deputados, autarcas e governantes desqualificados, pagos principescamente; em que para se ser funcionário público é preciso ser filho ou amigo de alguém com influência; em que o défice das contas públicas é altíssimo mas abundam os motoristas, as secretárias e os estagiários; em que os concursos públicos (nas raras ocasiões em que são feitos) são viciados e já ninguém se dá sequer ao trabalho de os contestar; em que por um lugar num infantário se paga uma fortuna; em que a Câmara Municipal da cidade em que vivo demora mais de um ano a pagar aos seus fornecedores; em que os funcionários públicos enchem os corredores das instituições sem nada para fazer; em que se acena constantemente com a falência da segurança social; em que quase nada é bem feito, falta sempre um papel, há sempre mais uma dificuldade e uma chatice para quem usa os serviços públicos; num Estado que não paga nunca a horas e que muitas vezes cria dificuldades a quem tem dinheiro para receber.

Vivo num Estado podre, sem dignidade nem vergonha na cara. É esse o Estado que quer moralizar o sistema, publicando listas de devedores às finanças e à segurança social? Como dizia o nosso amigo Marco do Big Brother: Olha que... que... FODA-SE!!!

Cinema Reprise 1

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quarta-feira, agosto 16, 2006

Álcoois

Eu nunca engatei uma gaja numa discoteca. E sei que nunca vou engatar: sóbrio não entro em discotecas, alegre, o ritual entedia-me, bêbado, prefiro dançar e, muito bêbado não me deixam entrar. Porém, ontem, tentei.

E de repente, enquanto tocava com o harpejar da pontinha dos meus dedos as ondas desordenadas do som e da luz, censurei a vergonha de olhar uma desconhecida nos olhos e, postei-me à frente dela.

Dancei, dancei e continuei a dançar. Olhei-a nos olhos, invadi o espaço social de distância e tentei acertar os movimentos dos meus ombros, com o ondular da cintura dela. Não consegui.

Então a gaja avança em direcção ao meu ouvido e põe a mão em cima do meu ombro. Eu fecho os olhos, para me concentrar em absoluto nas primeiras palavras. Já não te vi em algum lado? Nunca a vira. Juro. Mas dado o contexto, percebi que não devia entender a pergunta literalmente e devia perceber que aquilo era apenas uma desculpa para começarmos a conversar.

Precisava de uma resposta à altura da coragem dela para quebrar as barreiras do desconhecimento. Uma resposta forte, uma resposta total. A resposta perfeita. A resposta que dispensa toda a conversa supérflua. A resposta profunda mas simples, banal mas única, biunívoca mas certeira.

És tão boa que até chupava o polegar do teu ginecologista. Seria a resposta adequada? O inicio de uma carreira de engate em discotecas? O Graal dos engatatões? Aproximei-me, coloquei a mão na cintura, rasei-lhe os lábios e segredei-lhe ao ouvido: És tão boa que chupava o dedo grande do pé ao teu ginecologista.

E passou Shakira, Madonna e creio que U 2, e só no meio da música seguinte a rapariga respondeu. Eu também estou a fazer isto pela primeira vez. E sorriu. Então, perdi a vergonha de a olhar nos olhos, de invadir o espaço de distância social e de lhe falar ao ouvido. Agora, as ondas que captava com o harpejar dos dedos tinham o mesmo ritmo que os meus ombros e a cintura dela sincronizados.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Também o texto entra a gosto

O mês de Agosto é o mês dos blogs. Para quem escreve e para quem lê. Quem escreve porque podendo fermentar ideias, pode, escrevendo menos, escrever mais. Para quem lê porque tem outro tempo. Um tempo que resulta da leve perversidade que sente quem está a trabalhar no mês de Agosto. Uma perversidade, uma reserva mental, um olhar que esconde a superioridade moral de quem às quatro da tarde, no exacto momento em que a R T P transmite a subida à torre, está frente ao Excel. E é esse olhar de soberba moral que também o é de abertura ao mundo, que convém muito a quem escreve. Pois sabe que alguém o vai ler com uma certa transformação no olhar.

sexta-feira, julho 28, 2006

Lost in the supermarket

É típico. Sempre que venho da praia à hora de jantar e paro num supermercado para comprar qualquer coisa, acontece sempre o mesmo. Enfim...entro vestido como com quem acaba precisamente de sair da praia. Chinelos com pó, calções velhos e t-shirt rota. Cabelo desgrenhado e aquele olhar de fome que só quem já passou três horas a surfar consegue ter. Passado um minuto, digo um minuto mesmo, tenho um segurança a bailar atrás de mim. Faz-se notar, pára ostensivamente, segue-me com o olhar. Preencho o cliché que a empresa de segurança o fez fixar de gente que furta em supermercados e só por isso tenho de levar com ele. Está bem.

quinta-feira, julho 27, 2006

Filosofia de vida

Os noticiários não param de passar imagens de escombros. Aposto que são os marotos do Sócrates e do Belmiro a dar conta dos restantes mamarrachos de Tróia.

Trocadilho verdadeiro e uma consideração


A perda da inocência ocorre com a constatação de que a técnica é indispensável. A recuperação da inocência ocorre quando se consegue dispensar a técnica.
Foi o trocadilho. Segue a consideração.
E porque o ciclo se fecha: é verdade. E só as coisas redondas são verdadeiras,porque só elas reisistem ao tempo. A verdade, amigos, não é uma qualidade mas uma duração. É a constancia no tempo.

quarta-feira, julho 26, 2006

NOT

I'm going to be just like you; the job, the family, the fucking big television, the washing machine, the car, the compact disc and electrical tin opener, good health, low cholesterol, dental insurance, mortage, starter home, leisurewear, luggage, three piece suite, DIY, game shows, junk food, children, walks in the park, nine-to-five, good at golf, washing the car, choice of sweaters, family Christmas, indexed pension, tax exemption, clearing the gutters, getting by, looking ahead, the day you die.

Do écran para o mundo IV


Trainspotting - Choose life
"I chose something else"

João IV


João trinca uma flor amarela. Está deitado no carro com os bancos reclinados. Teresa agarra-o pelo braço e encosta a face no ombro escutando o som da pele transpirada quando devagarinho se afasta dele.
João:
Ia ao Algarve fazer um estágio na estação de correios para onde fui destacado.
Teresa:
Trabalhas nos C T T?
João:
Sou carteiro.
Teresa:
Eu ia para Lisboa, estava de banco no Santa Maria.
João:
És do Algarve?
Teresa:
Mais, ou menos. O meu marido é...casamos ontem...
João:
E a aliança?
Teresa:
Tirei-a antes de te pedir os cigarros.
João:
Ainda bem que a tiraste.

terça-feira, julho 25, 2006

Nada contra

Os trabalhadores por conta de outrem que passam recibos verdes pagarão mais segurança social por causa disso?
Muito bem. E no dia em que eu deixar de os passar passam a pagar-me subsídio parcial de desemprego? Ou o meu dinheiro servirá para pagar as reformas milionárias do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Depósitos?

João Deão III


João dorme. Teresa passa os dedos pelo cabelo de João enquanto observa a longa fila de carros parados. Chapéus de praia abertos espalhados pelos lados da auto-estrada. Grupos de pessoas em redor das sombras das arvores isoladas no meio da erva dourada. Muito pouca actividade. Apenas algumas crianças jogam às escondidas entre os carros. Teresa limpa suavemente o suor da testa de João com o indicador. Passa com o dedo nos lábios dele. João acorda e tenta afastar a cara. Chiu, descansa. Ela inclina-se para a frente e beija-lhe os lábios fechando os olhos. João tenta resistir mas ao sentir o sabor fresco da amarga que Teresa trincara sente que esse beijo é a única coisa que faz sentido nesse meio de tarde de Verão.

segunda-feira, julho 24, 2006

Do écran para o mundo III


Bowling for Columbine - Uma breve história dos EUA

A decadência da minha cidade


Se tivesse que escolher uma figura que representasse as pessoas da minha cidade seria o Mickael Carreira.


Que está em início de carreira mas já se acha o "máior".

Que deve ganhar imenso dinheiro apesar de não fazer nada de útil para o mundo.

Que nunca teria o emprego que tem se não fosse filho de quem é.

sexta-feira, julho 21, 2006

João Deão II


O som de um carro que tenta derrubar os rails da auto-estrada acorda João. Que barulheira. O tipo ainda se vai é magoar. Incapaz de lidar com a intimidade que a posição com Teresa supunha, levanta-se como uma massa mole e arrastada. Tenho que ir buscar água. Queres água. Eu trago. Ainda tenho. Não preciso. O tempo que dormira dera-lhe uma sensação de peso, de prostração e uma certa dificuldade em manter o equilíbrio. Pálido começou a descer as quadrículas de pedra da base da ponte em direcção à auto-estrada. Um pé mal posto, e uma porção de areia esguia fizeram-no escorregar e criar aquilo a que os miúdos chamam de bate-cu. Tal foi secura do choque que trincou a língua. João quase nem se apercebeu, tal era o estado de dormência em que a sono o tinha deixado, mas quando deixou a sombra da ponte e leva com o Sol de chapa na nuca acorda para um estado de absoluta tensão. Faz movimentos abruptos, rápidos enquanto frenético procura uma porcaria de garrafa de água que ele jurara que comprara ontem. Onde está? Não tens pernas! Não ias fugir! Mas onde raio... então recordou os miúdos que se guerreavam em cima dos jipe. Bate com força a porta do carro e exaspera pela primeira vez por estar assim parado no meio do Alentejo. Que grande merda! E volta de gatas a subir as lages da ponte onde Teresa dava agora um pequeno gole numa garrafa de água. Magoaste-te? Estiveste a dormir e ficaste com a tensão muito baixa, por isso é que...Teresa ri-se com a boca mas mostra carinho com os olhos. João senta-se desengonçado, mete a boa na garrafa de água e sorve um grande gole. Depois dá AHHHH de satisfação ostensiva como se assim gozasse com as circunstâncias, coloca a parte interior do cotovelo sobre os olhos e tenta dormir.

quinta-feira, julho 20, 2006

João Deão I



A2. 15 de Agosto. Duas das tarde. 55º. Trânsito parado como paradas ficam as serpentes gordas e pretas nas curvas a rebrilhar ao sol. Pernas e braços pendem das janelas e portas abertas. Dois miúdos fazem dos tejadilhos abertos dos jipes trincheiras e atiram sacos com água. João e Teresa estão debaixo de uma ponte à sombra. Estão aqui há 24 horas. Teresa prende os cabelos com um lenço, limpa o suor do nariz com os dedos. Atira ar para a testa quando João lhe pega na garrafa de água e sem lhe tocar com os lábios, a verte para a boca. Já bebi chá quente mais frio. Estás a entornar tudo. Teresa pega no lenço que tem no cabelo e oferece-o a João. João recusa e passa as costas da mão pela boca para se limpar. Estou a começar a passar-me com o raio dos putos a desperdiçarem água. Teresa puxa uma erva que cresce entre duas lajes. Tenta mas é dormir, se começar a andar chamo-te. João fecha os olhos com força, passa os dedos sobre as pálpebras, deita-se muito direito sobre as lajes frescas. Teresa afasta uma pedra do sítio onde ele encosta a nuca, e encosta-lhe a cabeça sobre o colo. Os miúdos param de atiram água e João dorme encolhido sobre o colo de Teresa que de pernas cruzadas apoiada para trás pelos braços masca o resto da amarga que arrancou do chão.

quarta-feira, julho 19, 2006

Sobre a falência da Segurança Social

Considere-se um indivíduo que:
ganha 1000 euros por mês;
descontará para a segurança social dos 30 aos 65 anos;
viverá até aos 80 anos.


E uma segurança social que:
consegue, em média, taxas líquidas de 5% para as suas aplicações (baixas tendo em conta o volume de dinheiro que gere);
recebe 34,75% dos rendimentos dos trabalhadores.


Os descontos do primeiros mês de trabalho do indivíduo (347,5 euros), 35 anos e um mês depois, quando ele receber o primeiro mês de reforma, terão sido transformados pela segurança social em 1925 euros. O mesmo acontecerá com cada um dos restantes meses.

Supondo que o indivíduo receberá de reforma 1500 euros por mês (tenho sérias dúvidas que seja tanto), sobram por mês 425 euros dos descontos deste contribuinte médio.

Quando ele morrer, a segurança social continuará a receber 1925 euros por mês, durante 20 anos, o que completará, sem juros, a quantia de 539.000 euros. Somando-lhe os 425, 14 meses por ano, durante os quinze anos que receberá a reforma, temos um lucro total para o sistema de 628.250 euros. Mais de 125 mil contos.

Considere-se uma taxa de desemprego média de 10% e baixas que representem 3% do total do mercado. Sejamos benevolentes com os assessores e considere-se que os custos administrativos ascendem a 7% do sistema. Estes custos somados representariam 20% do dinheiro que a segurança social teria disponível para pagar ao reformado ao longo dos 35 anos. Ou seja, 188.650 euros.
Do lucro do sistema sobrariam ainda 439.600 euros. Por contribuinte médio.

A segurança social está falida? Não tem viabilidade?
Vai um PPR?

Santinha de Balasar


Com a devida vénia ao Eduardo Brito, que, ao enviar-me este ficheiro, me proporcionou horas e horas de riso.

Compras

Pá e vassoura a 1,99 no Lidl.
É bem!

terça-feira, julho 18, 2006

Do écran para o mundo II


Clube dos Poetas Mortos

«Oh Captain, my Captain!»