terça-feira, outubro 11, 2005

Com o devido bacio

à João.

Sa cosa stavo pensando? Io stavo pensando una cosa molto triste, cioé che io, anche in una società più decente di questa, mi troverò sempre con una minoranza di persone. Ma non nel senso di quei film dove c'é un uomo e una donna che si odiano, si sbranano su un'isola deserta perché il regista non crede nelle persone. Io credo nelle persone, però non credo nella maggioranza delle persone. Mi sa che mi troverò sempre a mio agio e d'accordo con una minoranza...e quindi...





Nanni Moretti em Caro Diario

Nobel

Afinal, ao contrário do que disse a Gabardina, nem todos os membros do Comité Nobel dormiam descansados.

Cavalos votados

Por que é que os políticos portugueses têm, quase todos, os dentes podres?

segunda-feira, outubro 10, 2005

Poeta

Isto é futebol. É um bocado como a vida, de vez em quando as coisas correm bem, de vez em quando as coisa correm mal.

Artur Jorge, seleccionador nacional dos Camarões, à RR, depois de a sua equipa ter falhado, no último minuto da fase de apuramento, um penalty que garantiria a presença na fase final do próximo Campeonato do Mundo de Futebol.

Ou como diria Valentim Loureiro...

Desilusão

Valentim Loureiro está louco, eufórico, irritado, impaciente. Farto de não ter um microfone para falar, arranca-o das mãos do técnico de som gritando "Foda-se!".
Eu espero pelo grande insulto a Marques Mendes (daqueles tão puxadinhos que em vez de começarem por filho começam por filha). Mas tudo o que Valentim chama ao homem é "Zé Ninguém qualquer".
Foi uma noite de desilusão.

quinta-feira, outubro 06, 2005

João Deão 32


Estabeleci a minha lojinha da foda no meio do passeio: um ândito solarengo, género open-space, em calçada Portuguesa a tornejar rua Almirante Reis para a rua Maria, e, que por ter chão calcário, permite de imediato, fazer o teste ácido-base à esporra do cliente. Aí, bati punhetas por atacado, fiz broches a retalho e, pari pelo gasganete, pregões de corar Calígulas. "Enche-me a tripa de carne"; "Amor, vai de apanha cavacas?"; "Atesta-me de meita, e arruma-me os lençóis da cona". Longos anos assar o olho e a boca do corpo com fricção de barrote zarolho, ensinaram-me o talmude das putas: é o jingle usas que escolhe a esporra que bebes. Era assim nos clássicos e é assim agora. O jingle para atrair anciões para arejamento das peles e tirar o mofo à pintelheira rala: "é a última amor". Para capões que só lambem: "Tu tens é tesão no cu, Oh! meu corno paneleiro". Para os juvenis basta olhar e exibir língua tesa. A esporra que se bebe dos velhos: uma aguadilha macilenta, dos panascas: pequenos grumos, e dos juvenis litradas de nha-nha peganhenta com sabor a diospiro verde. Todas as beberagens são ricas em proteínas e fazem bem à pele.

terça-feira, outubro 04, 2005

Hoje em Coimbra

Adelaide Ferreira canta na discoteca Broadway.

Portugal tem futuro

Enquanto políticos, economistas e cidadãos em geral se desdobram em comentários sobre os perigos que representam a China e a Índia para o nosso país, chorando pelas fábricas que se deslocam para aqueles países, uma luz intensa parece surgir ao fundo do túnel da economia portuguesa.

É verdade que muitas indústrias e mesmo alguns serviços têm sido passados para a Ásia. Não é menos verdade que outras empresas têm sido transferidas para a Suécia, para a Finlândia ou para a Alemanha. Portugal parece, assim, ter sido apanhado a meio caminho nesta revolução tecnológica. Não somos suficientemente pobres nem suficientemente desenvolvidos para atrair investimento estrangeiro.

Mas o tempo joga a nosso favor e a estratégia de desenvolvimento que tem vindo a ser seguida nos últimos anos deverá dar resultados. Daqui a dez ou quinze anos a China e a Índia, fruto do seu actual crescimento, terão já empresas competitivas a nível internacional, que quererão instalar filiais na Europa. As empresas dos países do primeiro mundo, preferem ter as suas filiais europeias instaladas nos países nórdicos, na Alemanha ou na Irlanda, pois não conseguem viver sem eficiência e transparência.

Mas às empresas asiáticas interessará sobretudo o baixo custo e um pouco de promiscuidade com a classe política não será de todo mal vinda. Neste cenário Portugal reune todas as condições para garantir que uma parte significaticva do investimento asiático na Europa se instale por cá:
-Salários baixos;
-Grande quantidade de recibos verdes e contratos a prazo mesmo quando essas situações não se justificam;
-O direito à greve no sector privado só é exercido em empresas em situação de falência;
-99 em cada 100 portugueses pensam que a greve só deve ser feita quando não prejudicar ninguém;
-Altos índices de corrupção.

O investimento chinês será nosso! Portugal tem futuro!

Muito bom


João Deão 31


Dona de papudos beiços, treçolho enorme e fartas cerdas, vim-me pelo nariz e estreei piça na glote na mesma tarde de vindimas. Uns tratavam da bucha: eu dava caralhinho juvenil à cona esfaimada. Escarranchada de cócoras, em cima do rapazote que com o polegar quase me inaugurou o cu, cheirei marsapo vetusto por perto. "E o que fazes ao meu netinho, sua porca?" Como se seguram os cachos de uvas antes do corte, assim aparei os colhões do avozinho da criatura que me areava o cono. Desapertei as calças de sarapinheira seguras por uma corda e, abocanhei inteira e de só trago, toda essa massa de pele que lhe caia abaixo do umbigo. Cheia a boca do corpo de piço viçoso de neto, e a boca da cara, de piço macilento de avô, decidi que estava na altura de me vir. Porém, as pregas mortiças que tinha na boca, começaram a fermentar. Um cepo de velho intumescia contra meu palato e, não tendo para onde medrar, esgueirou-se-me garganta abaixo, cortando-me a respiração. Fiquei da cor do vinho e sem vontade de me vir. De igrejo caralho encravado na garganta, e de pila noviça a esbodegar-me a cona, meti frenética, indicador no cu do velho para que se viesse nesse instante. Com os movimentos bruscos, o neto desferiu esguiços lancinantes e o avô pingões de torneira mal fechada. Ainda hoje, quando gargarejo, sento o mofo que sua esporra deixou no meu nariz.

segunda-feira, outubro 03, 2005

Vida dura na Fórmula 1

João Deão 30



Para senaita afogueada, esfregaço de beita. Para picha chorona, ranhola de cona. Saber de experiência feito, este tipo de mézinhas são a encíclica das putas: o conhecimento passado de Madalenas em Madalenas, até às Madalenas de hoje. Mas quando, não há norma que preveja, situação sub judicatura, então: inventa-se. Recordo um celerado. Entremeava o rego do cu com pedra de esquina, cigarros com imperiais e vontade de foder com vontade de mijar, quando o cabrão chegou. Com chumaço de pau feito, ajeitou a picha para cima, antes de me falar. "E o preço? E a pensão? E gostas de ver" "oh filho, dás-me 5 contos e sou tua por meia hora." Pelo cu rijo, e pela língua pontuda, topei-o: ou artista ou atleta. Já deitada, com a berbigona a latejar aguardei por injecção de carne, porém, o dançarino, dono de piça afilada e mui longa, cabriolou como um fauno em êxtase. Em pontas executou um battement frappé e um échappé. De seguida, pirouette piquée. Termina em Arabesque*. Aí, estático, sacou o margalho de dentro coquilha apaneleirada, olhou a berbigona assanhada e vai de esgalhar pessegueiro. Em equilíbrio. Perdida no que fazer e não recordando solução para o caso: inventei. Então, apertei bem o indicador e médio contra a rata, fiz pontaria como só as mulheres sabem fazer. De seguida, solto um peidinho e um de esguicho da cerveja bebida com potencia diurética dos cigarros fumados. O tipinho, cego, continuou frenético, como se as luzes do palco o impedissem de ver o público. Veio-se em todas as direcções. No chão, deste palco de pensão, as pétalas de rosas eram pétalas de esporra.


Nota:
Arabesque-Uma posição onde o dançarino eleva uma perna, recta ou dobrada, com a outra estendida para trás, geralmente em ângulos similares ao do corpo,

Causa também minha

Eu que tantas vezes tenho criticado os textos de Ana Gomes, aconselho a leitura deste. Muito bom. Concordo plenamente. Assino por baixo.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Auto-post


Este mês batemos todos os recordes de visitas e page views. Sem links novos de blogs famosos e sem pesquisas repetidas nos motores de busca por algo que escrevemos. Dá ânimo! Obrigados aos leitores!

João Deão 29


Ao contrário de meu cono, sempre resguardado por selvática pintelheira, meu olho negro, sempre alojou pelagem civilizada: senaita revolucionária e cu aristocrata, eis, a parelha que me paga o T2 com mezzanine. O pêlo do pito é o pintelho: "Olá, pintelhinho, pá". O do cu, mutatis mutandis é o cuelho: "Estimado D. cuelhinho". As diferenças, mais que no esbudeganço de caralho, é no lamber que se revelam. Um dia, um celerado novito, enquanto de me enrabava com o indicador e me fodia com o anelar, como se metesse os dedos numa tomada eléctrica, perguntou-me se podia lamber. "Oh filho, mas tu lambe à vontade." O cabrão do trombeteiro, chupou-me a pachacha com uma força que o lençol acabou por me enrabar. Depois de assim se lambuzar com o chispe, deu idêntico tratamento ao meu olho mais fechado. Ora: o olho que nasceu burguês e passou a nobre com uma enrabadela de diplomata, acusou a igualdade do tratamento. Snobeira, presunção, arrogância ou tudo junto, a verdade é que logo ali avisei o putanheiro: "tu chupar o cu, não chupas, tu nesse cu, fazes é cornucópias com a língua". O puto corou, como coram os bebedores da água com limão num jantar de marisco, desentesou-se e foi ter com a mulherzinha.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Europa em 2005

O presidente da Câmara Municipal de Cascais, António Capucho, lamentou hoje a morte de uma mãe e dos seus cinco filhos num incêndio numa barraca do bairro do Fim do Mundo e revelou que esta família estava prestes a ser realojada.

Quatro horas depois de a barraca ter ardido os escapes dos Porsches ecoavam na Avenida da Liberdade e, pelas ruas de Lisboa, os ministros liam os jornais do dia, tranquilamente, no banco de trás dos seus carros de luxo, conduzidos por motoristas.

João 28



Se o nariz detectava mexilhona húmida por piça, logo o porro hirsuto, se lhe trepava umbigo acima, lacrimejando pingos do tesão. Se os olhitos encovados afilavam em regueifas atulhada de pano, cuecas sem tufo pintelhoso frontal, ou tetões mui livres, logo um esguicho de esporra o esmifrava. Se as badanas ouviam suspiro, ou roçar femeeiro de gambias,logo uma baba esbranquiçada, embebia o zarolho. Ora, se, no prostíbulo da sacristia, onde afogava os acólitos em hectolitros de beita, ou nos bordéis onde engasgava o putame, esta precocidade do libertino era bem tolerada, ao Domingo, por debaixo da nave central, frente ao altar ou no meio das recepções nos claustros, estes espirros de visco eram uma limitação à progresso na carreira do clérigo. Então: procurou-me. Que, sua manápula, me coçasse sem medo a cona. Que, as falanges roliças me entesasse os tetos. Que desse, língua mui direita, meu cu acima. Tudo executou sem molhar pintelho. À mata-cavalos, meti-lhe cu acima os dedos, que em gadanha, agito frente ao nariz do leitor . O indicador, que vedes, pressionou as costas dos tomates e a boca que vos fala, garroteou o porro pela base: à bruta. Com o susto repentino e a ver vidinha a andar para trás, assim aprendeu a nunca mais ter pressas.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Trespassa-se

parte (importante) de uma juventude.

E o acontecerá agora à Luísa, que me perguntava sempre, sorrindo, "E para o cavalheiro, o que vai ser?"?

João Deão 27


Graças a Deus: nunca constipação maçou minha rata. Agasalho de porros e folhada de indicadores: exibiu sempre viçosa pintelheira - o foder, sem tufos desgrenhados, não é o foder: é pastelaria fina-. Nunca a rapei, nem a mostrei ao astro rei: cono ensolarado, é cono assado, e cono assado, tem valor venal de unha de pé roída. Só uns calos me deram um outro andar. Três em cada beiço, logo acima do vau para o caralho. A córnea lisura de corrimão, nasceu com um conanas: suporte dos mais plúmbeos e pesados colhões que senti numa vida de berleitadas. Apesar de preferir cu de macho, a rego de fêmea, este delinquente de cona passando-lhe uma pelas vistas, esfodaçava-a a bem esfodaçar. Os pintelhos ficavam electrizados e picavam como espinhos, o marasapo hirto perfurava cego, e os colhões...Os colhões bradavam nas bordas da cona em onomatopeias começadas por "P" e plenas de vogais todas abertas. É claro, o chispe, que não é de ferro, engrossou em sola de pé descalço. Bati-lhe segóvias, antes da injecção de carne. Usei esferovite, e outros isolantes. Nada evitava as contusões labiais. Mandei o matarruano à vidinha, e pus a seneita de molho. Calicidas importados, pachos de mel, banhos tépios de leite e lambidelas amigas de amigas: foi assim que voltei a ter coninha de anjo.

terça-feira, setembro 27, 2005

SLB

Independentemente do resultado de logo à noite, viva a antecipação da grande noite europeia!

Boa publicidade

João Deão 26



O meu olho do cu nunca recusou tranca valente, e, talvez por isso, seja hoje, com uma ruga funda na bochecha de velho: um leve sorriso de peles secas e esgaçadas. Agasalhou grandes caralhões e obrou ainda maiores cagalhões. A diferença não foi só vectorial. Foi moral. Recordo um cliente. Nunca atestara cona de carne, ia casar-se, e queria, a bem de berlaitadas felizes, saber das linhas gerais das coisas da foda. Mormente da localização precisa da bicha. Deitei-me de barriga para cima, acalmei-o, abri as perninhas, exibi a berbigona, e preparei-me para o foder missionário. Assim, tal qual os padres mandam. O nubente, segurou o caralho com as mãos transpiradas e procurou-me a rata. Porém, encontrou-me o cu. Veio-se, corou de vergonha, agradeceu a ajuda e partiu convencido da sua sapiência sobre a localização da senaita. Que bela essa noite, em que, com propriedade, escuta a enrabada mulherzinha a urrar: "oh da guarda, que me esfacelam o cu!"

segunda-feira, setembro 26, 2005

Utopia ou merda

Um Portugal afundado e triste, mas ainda com uma réstia de esperança, elegeria Manuel Alegre Presidente da República.
Os portugueses votariam em Alegre, não pela sua competência em matérias de economia e finanças nem pela sua simpatia ou experiência do lugar. Votariam em Alegre por nele verem a sua própria revolta, o seu próprio inconformismo com a situação miserável e medíocre a que chegámos. Votariam em Alegre porque a tristeza que traz espelhada na cara, a vontade de desistir e dizer "está bem, eu estou velho e isto já não me interessa nada. Façam lá o que quiserem com a merda do país!", e a vontade ir contra o poder instalado, contra os seus e contra os outros, que dentro dele venceu, seriam iguais às suas vontades. Votariam em Alegre porque saberiam que foi ele o último a tentar parar o mentiroso que é hoje primeiro-ministro de Portugal, eleito com a promessa de não aumentar os impostos. E mostrariam ao PS e a Sócrates que não gostam de mentiras. Votariam no poeta e no utópico que é Manuel Alegre, porque é de poesia e de utopia que nós precisamos. E Alegre ganharia como Soares ganhou em 86, vindo de trás. A meio do que foram os melhores seis ou sete anos de que temos memória. Mas por cá serão os poetas, os artistas e os vendedores de utopias os primeiros a votar em Soares ou em Cavaco. Porque os artistas e os utópicos do burgo vivem dos subsídios do Estado, e não lhes interessa que a utopia passe para as ruas.
Manuel Alegre não mandou o país à merda e, mesmo que já não fosse a tempo de o tirar de lá, ficava bem como Presidente da República. Mas talvez lhe fique melhor, talvez seja mais justo para a sua figura, perder pelas cruzes feitas com as mesmas mãos e canetas que elegerão Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras e Ferreira Torres e que antes deles elegeram Durão e Sócrates.
Se eu ainda votasse, se eu ainda acreditasse, votaria em Manuel Alegre. Assim, se passar no sítio onde voto no dia das eleições, votarei num dos outros, à sorte. Tudo para não misturar Alegre com esta merda em que o país se transformou.

Este não é um post sobre mim

apesar de muitas vezes a mim se aplicar.

Às vezes a verdade pode vir até dos Xutos:

Se gosto de ti,
Se gostas de mim,
Se isto não chega
Tens o mundo ao contrário.


(a viagem de ressaca e a cabecear não foi completamente improdutiva...)

:)

No outro dia cheguei a casa e a minha mulher insistiu para que eu a levasse a um sítio bem caro...
Levei-a a uma bomba de gasolina!



(recebido por e-mail)

João Deão 25



Sempre desconfiei dos que só lambem as pachachinhas. A minha, conheceu língua cedo, por um paneleiro seminarista que, por conto de reis, se esbodegou todo na boca do corpo. Macérrimo, e com um touco em vez de piça, disse a tresandar a morcela, que os caralhitos que chupava na catequese, sabiam ao meu grelo. Desconfiei. Um dia trouxe um amiguinho. Durante uma hora, entremeou potente minetada, com delicado abocanhamento da tomatada do petiz. "lambere humanum est, ergo lambamus". Dizia.
A verdade é que as declinações latinas ensinaram-lhe a revirar bem a língua naquela prega de cona, em que o cabeçudo espreita, e à conta dessas latinadas vinha-me imperialmente. Tenho saudades o meu primeiro seminarista.

sábado, setembro 24, 2005

João Deão 24



João, guiado pelas luzes verdes intermitentes da farmácia no final da rua, avança pelo passeio: invadido por carros, por andaimes; e ele: pela sensação de que se esqueceu de algo. À porta, duas pessoas. Um viciado em heroína. E uma enorme prostituta. João procura dinheiro nos bolsos. Apenas umas moedinhas. O drogado está aviado e prostituta recebe as moedas de que precisa. João pede-lhe uns trocos, mas ela diz que lhe compra o que ele precisar. João agradece e acompanha-a à pensão, onde ele pernoita e onde ela trabalha há 20 anos. Conversam.

quinta-feira, setembro 22, 2005

João Deão 23


Isabelle, deitada de lado, leva o braço ao fundo das costas dele e puxa-o para si, enquanto se empurra para ele. Nunca tanta pele respirou tanta pele. As costas dela: inteirinhas no peito dele; a cintura dela: colhida pelo colo dele. As pernas em cordame entrelaçadas. As mamas ocupadas pelas mãos. Torce o pescoço para trás à procura da boca de João que lhe beija o ombro. João percorre o contorno do corpo de Isabelle com a mão. Sente um corpo amolecido e sonolento ficar tenso de desejo. Isabelle beija-lhe a boca. Soluça ao inspirar. Morde-lhe a orelha, mete-lhe a língua no ouvido, e esmaga a sua boca contra a cara de João. Sussurra-lhe umas palavras enquanto o segura entre as pernas.

João desce as escadas da pensão a correr, pára antes da recepção, mete a camisa para dentro e pergunta ao empregado:
-Onde é a farmácia mais próxima?

quarta-feira, setembro 21, 2005

João Deão 22

Se fosse há 20 anos e estivesse em Coimbra João iria ao Moçambique:

Eu sou um Coca Billy de poupinha no ar
que me excito todo com o Elvis a cantar
só faço javardeira e só dou mau aspecto
passo a noite inteira a beber um bom caneco
e não há melhor lugar para se divertir
que o Moçambique Bar para beber beber até cair
De segunda a sexta feira o Moçambique é o meu tecto
só faço javardeira e só dou mau aspecto
Coca Billy é a minha graça e passo as noites no engate
a comer uma louraça até que me farte.
Coca Coca Coca Coca Cola Billy
No Moçambique há os negros de África
Ái ái ái ái ái que saudades de ir no Angola.
No Moçambique também há os Freaks desvairados
No Moçambique também há uma quantidade de parolos
Quando a rosinha morreu, acenderam-se as velinha
lá no alto da igreja, que até metia imbeija
No Moçambique também há os Punks mauzões
Coca Coca Coca Cola Billy
COCA COLA BILLY



ÉMASFOI-SE

MÚSICA Sérgio Cardoso
LETRA Sérgio Cardoso


CD à venda aqui:
http://www1.interacesso.pt/~jhaergio/2_bandas/x_emasfoise/3_c_intro_emas.html"

A criança que há em mim

Your Inner Child Is Happy

You see life as simple, and simple is a very good thing.
You're cheerful and upbeat, taking everything as it comes.
And you decide not to worry, even when things look bad.
You figure there's just so many great things to look forward to.

Dica da Bomba.

terça-feira, setembro 20, 2005

Professores angariam clientes

A realidade é esta: verificou-se uma grande quebra de natalidade há alguns anos atrás em Portugal, o que fez com que a geração que hoje frequenta as escolas portuguesas (em especial os liceus e as Universidades) tenha muito menos alunos do que a anterior. Por isso, e porque o Estado continua a financiar escandalosamente escolas privadas (seja a Universidade Católica sejam os colégios) enquanto as escolas públicas funcionam muito abaixo do seu potencial, há muitos milhares de professores do secundário desempregados e os professores do ensino superior, em especial os que não estão nas grandes universidades, fazem de tudo para continuar a ter clientes.

Já ouvíamos, de vez em quando, spots de rádio publicitando cursos em Universidades públicas (se isso é legal e moralmente aceitável, talvez fosse bom discuti-lo). Agora o Instituto Superior de Engenharia de Coimbra (ISEC) dá um novo passo, que me parece totalmente desesperado, despropositado e inaceitável: abre um "ano zero" para os alunos que não conseguiram entrar nos seus cursos, que funcionará como explicações preparatórias para as específicas do próximo ano.
Os argumentos que defendem esta medida são os de sempre: "necessidade de aumentar a qualidade de ensino nas áreas tecnológicas"; "contribuir para o desenvolvimento do país "; "pretende-se aumentar as vocações nas áreas tecnológicas"; bláblá, bláblá, bláblá...
O truque de fidelização do cliente é engenhoso: os alunos que entrarem no ISEC terão equivalência a cadeiras feitas no "ano zero".
Os proveitos são evidentes: 500 euros de propinas por ano.

Os perigos, no entanto, são evidentes. Abre-se uma guerra com os professores do ensino secundário, descredibilizando-os completamente e chamando-lhes, com todas as letras, incompetentes para levarem a cabo a sua missão de preparar os alunos do secundário para as provas de acesso ao ensino superior. Por outro lado, quebra-se a separação, que me parecia saudável, entre ensino secundário e ensino superior. E o que farão as restantes instituições de ensino superior? O mesmo, pois claro... A não ser que os seus professores não percebam que são os seus empregos que estão a ser atacados pelo ISEC...

A isto, o que se segue? Explicações gratuitas dadas pelos professores de liceu? Professores da primária que levam os seus alunos a casa, porta a porta, e os ajudam a fazer os TPCs? Educadoras de infância que organizam chás para senhoras grávidas?

E daqui a 30 anos, quando esta geração for a principal cliente de cuidados de saúde, ouviremos num spot de rádio um médico do Serviço Nacional de Saúde (se tal coisa ainda existir) a convidar: "Apareça nas Urgências do nosso Hospital! É um prazer tê-lo por cá!"?

Vamos brincar!

Algumas coisas são demasiado importantes para serem escritas num blog. Se assim não fosse, bem sabes o que aqui escreveria hoje...

segunda-feira, setembro 19, 2005

Carmona vs. Carrilho

O que mais me inquietou no debate entre os dois candidatos foi: o que é que a Bárbara viu naquele palerma?

João deão 21



Isabelle dorme de costas para João. O lençol delicadamente abaixo da cintura permite que as sombras rectas das portadas se projectem nas curvas no seu corpo, como se à força de tanta harmonia, as ripas de madeiras duras, feitas sombra pela lua, se contorcessem. João abre os olhos sem acordar e observa Isabelle com se sonhasse. Passa a mão por cima das costas sem lhes tocar. Sente o calor que exala. Feronoma térmica: um calor lento e lânguido como só as mulheres a dormir ao lado de um homem podem emitir. João submerge a mão no lençol, e sente com a ponta do dedo indicador o ângulo do osso da cintura de Isabelle. Depois o contorno do final das costas. Isabelle a dormir sorri. Isabelle a dormir sorri. João aproxima-se, levantando o lençol, que num buraco de vácuo os separa. A sua pele fria contra a pele quente de Isabelle. Desce a mão para o outro lado das costas e avança barriga acima. Percorre com os dedos a pele e tenta definir o milímetro exacto em que o peito se eleva. Tenta. E tenta. Isabelle acorda, olha para a mão de João, agarra-a, e afunda-a perto do coração que bate lento e pesado. Depois inspira e ajeita o rabo contra João. O frio da pele dela, contra o quente do amor dele. Isabelle ajeita-se de um lado para o outro, e afasta ligeiramente as pernas, deixando que João ocupe o preciso triângulo entre o seu sexo e as suas pernas. Como se de mais uma prova de compatibilidade se tratasse, sorriem com a precisão das medidas. Assim, apreciando sem saberem as transformações geométricas das linhas rectas das ripas em linhas curvas do copo, e da ocupação de um espaço triangular por um cilindro, subvertem a física clássica, a lógica matemática e a concordância gramatical. O tempo parou. Mesmo. E durante seis anos toda a terra esteve imóvel. Claro que poucos se aperceberam disso, pois o tempo recomeçou no preciso momento do sorrido de Isabelle dando a 90% da população uma normalíssima sensação de dejá vu.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Unir para dividir

Foi aprovado pela autoridade competente o domínio de internet .cat, destinado a sites da comunidade línguistica e cultural da Catalunha. Não é ainda o .ct que a associação PuntCat pretende ver aprovado como domínio do país Catalunha, mas é um primeiro passo no mau caminho.

O mundo nunca se verá livre desta gente pequena e mesquinha que exibe com orgulho os seus hinos e as suas bandeiras, que vê em cada passado histórico comum e em cada língua regional uma oportunidade para desunir, criar fronteiras e desencadear guerras.

A day without a smile


is a wasted day

Amarante 2005

Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Erro Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Erro Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete Repete

quinta-feira, setembro 15, 2005

Portugueses de sucesso

No site lyrics-songs.com há uma banda portuguesa em 12.º lugar nas letras mais procuradas. à frente dos U2, dos Beatles, do Robbie Williams, da Jennifer Lopez, da Christina Aguilera, da Beyonce ou da Madonna.

De entre as 50 letras mais procuradas, sete são destes rapazes que animam os fins de tarde das adolescentes portuguesas (e não só das adolescentes...). Não sabes quem são os D'ZRT? Tens que ver as tardes da TVI.

Pedi-lo é humano


so i turned the radio on, i turned the radio up,
and this woman was singing my song:
the lover's in love, and the other's run away,
the lover is crying 'cause the other won't stay.

some of us hover when we weep for the other who was
dying since the day they were born.
well, this is not that:
i think that i'm throwing, but i'm thrown.

and i thought I'd live forever, but now i'm not so sure.

you try to tell me that i'm clever,
but that won't take me anyhow, or anywhere with you.

you said that i was naive,
and i thought that i was strong.
i thought, "hey, i can leave, i can leave."
but now i know that i was wrong, 'cause i missed you.

João Deão 20


João está sentado na última fila da plateia. O espectáculo já começou. João não consegue olhar para o palco. Observa a rapariga à sua frente. Tem um casaco de malha cor-de-rosa claro apertadíssimo e umas saias compridas, enrugadas e com brilhos. João matou o cavalo e arrancou-lhe os olhos com os dedos. Vê o perfil do peito através da malha do casaco. João abriu a veia jugular do cavalo com a fivela do cinto. Observa os pés da rapariga nas costas da cadeira da frente. Encaixou a massa do animal num dos compartimentos privados da enorme casa de banho do teatro, e, viu uma maré de sangue sair por debaixo da porta. A rapariga apanha os cabelos e prende-os com um elástico; em contra luz, a linha do seu pescoço que se inclina para se expor ao fresco. O sangue avançou em leque pelo chão imaculado, impelido pelas golfadas que saíram do pescoço do cavalo contorcido dentro da boxe feito matadouro. A rapariga agita as saias e descruza as pernas, João escuta o som das coxas húmidas a separarem-se.

Algo está errado

Quando aquele que é suposto ser o homem mais poderoso do mundo tem que perguntar por escrito a uma sua colaboradora se pode ir à casa-de-banho.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Em quem votam alguns dos portugueses

A euro-deputada Ana Gomes ataca fortemente o seu partido, actualmente no Governo, afirmando (concordando com um representante do povo) que "A responsabilidade (...) em nomear para a chefia (...) um indivíduo sem qualquer qualificação (...) apenas para (o) recompensar (...) é 'criminosa'."
O eng.º Sócrates ficou com as orelhas a arder pelas nomeações de Fernando Gomes para a Galp e de Armando Vara para a Caixa Geral de Depósitos. Esta Ana Gomes não tem papas na língua!
Não? Ana Gomes falava afinal de uma nomeação do Presidente Bush? Peço desculpa pelo engano... mas qualquer um se confundiria com as semelhanças...

João Deão 19



João, o cavaleiro que bebe café, aguarda o início do espectáculo frente ao bar. A agitação da sala acalmou, e cavalo e cavaleiro foram civilizadamente integrados nos convivas. Mas, um bicho é um bicho, e um cavalo é um bicho grande. A montada de João começa a revirar as orelhas sem sentido, tem espasmos dérmicos no jarrete e na perna, abana a cabeça soltando placas de saliva seca, e defeca uma bola de basket em cima de um gin tónico preparado num copo de martini. João faz um sinal sonoro com a boca, aperta as all-stars contra os flancos, ondula com cuidado as rédeas e desfila em direcção à porta de entrada da sala de espectáculo. Atrás de si, a cauda que quase chega ao chão, em lentos e poderosos movimentos, vai apagando os cigarros, acordando os críticos mortiços, despenteando os gays lavadinhos e acariciando as mamas das madamas. Pelo corredor, João leva o cavalo ao quarto de banho. No foyer, som de gente a cuspir pêlos. Ao fundo, um homem gordíssimo vomita. Como não se consegue curvar, o vómito sai-lhe paralelo ao chão, sujando quem dele se aproxima. Tem um pêlo da cauda do cavalo a fazer-lhe uma endoscopia digestiva. O pêlo que ninguém ousa tirar, desce com uma pequena curva frente à boca e toca no chão. O homem com os olhos congestionados de lágrimas e com os movimentos descoordenados pela violência do vómito não consegue apanhar o grosso pêlo, por isso anda de um lado para o outro, na esperança de, pisando-o com os sapatos, ele saia e pare o reflexo incontrolável. Entretanto vomita, vomita e vomita. E vomitará até ao exacto momento em que João conseguir entrar no quarto de banho a cavalo. Quando a porta deste se fechar, num estrondo veneziano que ecoará pelo teatro inteiro, o homem pisará o pêlo com o pé e avançará sobre ele, extraindo-o assim, do tubo digestivo. O momento exacto é este. "Pum". "aaahhh que alivio."
João entra no quarto de banho e fecha o cavalo num dos compartimentos privados. Na boxe o cavalo relincha.

terça-feira, setembro 13, 2005

Dar-vos música


Há umas semanas que não dou. Não porque não queira mas porque encontrá-las no lycos está a ficar cada vez mais difícil.
Hoje encontrei esta, que me parece adequada. Não falta quem diga
What the hell am I doing here?
I don't belong here.


nem quem pense
I don't care if it hurts
I want to have control
I want a perfect body
I want a perfect soul

You're so fuckin' special

segunda-feira, setembro 12, 2005

Dignidade


João Deão 18



João entra pelo foyer do D. Maria adentro. Vai montado num cavalo de pêlo preto, que reluz os projectores da entrada, os castiçais, os candeeiros. A antecâmara da sala Garrett está à pinha com gays sofisticados, críticos cigarrentos, madamas eruditas e cheirosos estudantes de teatro. O cavalo avança em pizzicato; as patas derrapam no chão de pedra polida. Aproxima-se do bar, onde há uma carpete para o cavalo e café para João. Todos arregalam os olhos: os gays sofisticados, atrás dos seus óculos rectangulares de massa preta, e borrados de medo do cavalo, observam com atenção. Os críticos, com a atenção amolecida pela nicotina, acham que faz parte do espectáculo. As madamas fantasiam com o membro do cavalo. As estudantes de teatro limitam-se a gostar da performance. Apenas um velho de barbas, esparramando num dos sofás e estranhando um equídeo incontinente numa sala de fumo de um teatro, diz "Eh, pá, já deixavas, é o bicho à porta". João, pede o café, recebe-o numa mão. Faz um meio volteio para virar a cara do cavalo para a sala. Segura o pires na mão esquerda, mexe o café com a colher e pegando a chávena com a mão direita bebe sossegadamente.

sexta-feira, setembro 09, 2005

Aviso à PETA


Em Portugal também há touros de morte. Vinde manifestar-vos!

Imagem do dia

O riso estúpido de Sócrates, Belmiro de Azevedo e Manuel Pinho, segundos depois de o primeiro ter feito implodir as duas torres em Tróia.

É o contentamento indisfaçável de quem gosta de destruir e ganhar dinheiro. O riso de quem precisa de sentir que tem esse poder.

quinta-feira, setembro 08, 2005

Absurdo

Hoje, juntando as 500 pessoas mais ricas do mundo obtém-se um rendimento superior ao obtido por 416 milhões de pessoas pobres.

Mas depois fazem umas doações para a caridade e são considerados as melhores pessoas do planeta...

Eis o futuro

Professores indianos dão explicações on line a estudantes americanos. De matemática, ciências e... gramática inglesa. Por 20 dólares/hora, contra os 50 cobrados nos EUA.

quarta-feira, setembro 07, 2005

João Deão 17



Os barbeiros que conversam são como as putas que beijam. O corte de cabelo, como o foder, para além de ser todo mais ou menos idêntico, é, como a foda, uma espécie de morte controlada. Um corte de cabelo é procedimento. Exige tempo, desconforto e surpresa. Tal qual a morte, e as melhores fodas. Um barbeiro que me entope os ouvidos com a repetição das notícias do 24 Horas, que tem o rádio a pilhas na Antena 1 e que liga para o fórum da T.S.F, é uma puta que quer sair para a rua de mão dada. Quero silêncio, distância, seriedade. Quero que me aparem a franja e quero "esbazá-los" em paz. Quero as patilhas no sítio, e umas tetas grandes. Sem conversa, nem línguas encarniçadas. Quero máquina quando tiver de ser máquina, pente quanto tiver de ser pente e lâmina quando, lâmina tiver de ser. Quero broche porque sim, cona porque tem de ser, e cu se tiver de ser. Sucessivamente. Afinal, pago, só para isso. A puta abre as perninhas, o barbeiro abre e fecha os dedos. È só isso. Não é necessário mas nada. Ou é? Ou será que na essência, todos os barbeiros acham que cada corte altera o cliente e que cada puta quer, na essência, beijos no pescoço e falinhas mansas na rua. Será? Será a procura da construção de um mundo melhor e do amor, o essencial destas duas profissões. Será? pois se sim, então afastem o mediador: o bago, o pilim, o cacau. Aparem os cavanhaques à borla! Punhetaços para todos e já! Para as barbearias em força! Que se esgalhem 1000 pessegueiros e mais 1000. (não sei se continua)

Impotência

É estar dentro de uma carrugaem de metro com uma rapariga da minha idade, loira, que se percebe que era bonita, e que cheira mal a três metros de distância, tem a cara coberta de lesões e nas costas feridas, exibidas para justificar a mão estendida, que escorrem pus como até ontem eu só tinha visto pinheiros feridos a escorrer resina.

Ralações

Partilhar é muito diferente de dividir.

terça-feira, setembro 06, 2005

Pergunta para os meus amigos

Desde quando é que a grande questão deixou de ser Até que idade pensas divertir-te? e passou a ser Até que idade pensas sofrer por amor? ?

segunda-feira, setembro 05, 2005

Festa do Avante 2010

Conferência sobre o programa espacial idealizado por Álvaro Cunhal e que entretanto tem sido posto em prática pela NASA.

Festa do Avante 2009

No evento será apresentado o revolucionário software de gestão de stocks produzido por Álvaro Cunhal.

Festa do Avante 2008

Serão projectadas as três longas metragens realizadas por Álvaro Cunhal.

Festa do Avante 2007

Maquete do projecto arquitectónico de Álvaro Cunhal para o edifício mais alto do mundo.

Festa do Avante 2006

Na festa, os visitantes poderão ouvir pela primeira vez as duas sinfonias compostas por Álvaro Cunhal.

Festa do Avante 2005

Exposição dedicada à obra de Cunhal enquanto pintor e desenhador e ainda "como pensador de questões relativas à estética e ao papel da arte e do artista na sociedade". Estarão em exposição, pela primeira vez publicamente, duas pinturas de Álvaro Cunhal.

Joâo Deão 16


Cremilde tem um metro e quarenta e cinto centímetros. De perfil, desenha uma barrica de vinho cortada em altura: curva para a frente e muito direita para trás. Braços pequenos e grossos, afastados da cintura. A cara, corada, é redonda e inchada. Cabelo de rata velha. Baço, eriçado e ralo que se prolonga em farripas sobre as orelhas cor da uva pisada. Aproxima-se da porta da loja da ginga, onde João está colado. Botas de plástico vermelhas, saia branca um palmo acima do joelho, e um decote. Decote que nada mostra, mas que Cremilde tapa e protege. Usa-o como se todos os homens o olhassem. Ostenta, pelo seu peito, um pudor incompreensível. Uma, das réstias de humanidade que sobreviveu na filha de criada da casa de proprietários rurais do Douro, imigrada para Lisboa, atrás de um amor de infância, e perdida na baixa prostituição e no vinho. A outra. A outra é a memória que o vinho lhe traz. Se durante os últimos 25 anos se tornou alcoólica foi porque em cada copo que bebia, havia, de algum modo uma recordação da infância em que servia com a mãe os doutores da quinta.
10 euros pela limpeza da loja e 15 ou 20, pelos broches aos velhos que por ali vagueiam, são o necessário para pagar o quarto onde vive e de que diz com um orgulho que dá pena: "está sempre muito limpinho".
Uma onda de àgua fria contra as All-stars de João. Detergente. Uma esfergona descontrolada. O cimo de uma cabeça muito perto de si. O salto. João desgruda do chão. Pede outra ginga. Quase cai ao passar pela frente da porta limpa e a meio do caminho para o teatro percebe a razão do chão, ali estar sempre a segurar as pessoas.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Descanso

Depois dos incêndios virão as autárquicas e as presidenciais. No entretanto, a bem dos resultados eleitorais, ninguém nos tentará convencer de que a segurança social está falida, de que aumentos dos impostos são inevitáveis, de que as portagens nas SCUTs são justas.
Até Janeiro estamos safos.

A ponta do iceberg do sistema

tem 171 nomes.

Pinto da Costa, Valentim Loureiro, Sousa Cintra e os árbitros Lucílio Baptista, Carlos Xistra, Jacinto Paixão, Paulo Paraty são alguns dos arguidos.

quinta-feira, setembro 01, 2005

João Deão 15


Rapariga que tem o mesmo nome que outra que João encontrará mais tarde. Rapariga, que logo que o viu encostado à parede, no início da rua, fantasiou se seria simpático e meigo. Se dava um bom namorado: um bom marido: um bom pai. Em andamento, a tudo, concluiu que sim, por isso, porque nunca se perde nada em tentar, porque estaria sempre protegida pelas regras que definem as relações entre homens e mulheres e porque viu todos os episódios do Sexo e a Cidade; esta Teresa, noiva de um ascendente engenheiro na Mota Engil, pára frente a João e simula procurar o telemóvel na carteira, para se demorar no campo de visão dele. João se a olha, é, para a ver à transparência. Interessa-lhe observar a mulher que vem atrás: Cremilde. Teresa, como para o mundo, só ia à procura do seu telefone, acredita que só ia à procura do telefone, e, acelera o passo, para ir lanchar com Miguel, seu namorado super-star do betão armado, à esplanada, virada para o Rossio, da pastelaria Suiça. Pedirá um chá verde, um bolo de chocolate e dirá: "Está frio, devia ter trazido um casaco pelas costas."

Fotoesfera

A minha fotojornalista preferida tem um blog. Aqui.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Férias

® SR

Mudança na Gabardina

Andámos demasiado tempo a abichanar com o amarelinho.

Ibéria

Volto a Portugal. Ligo a televisão e vejo o grande Alberto João Jardim a explicar que a Maçonaria ibérica, concentrada nos partidos socialistas, tem um plano, desde o século XIX, para que Portugal seja integrado em Espanha.

Pela primeira vez vejo um bom motivo para votar PS.

Pequenas diferenças

Chego a Espanha. Ligo a televisão. Morreram doze soldados espanhóis na queda de um helicóptero no Afeganistão. Notícia seguinte: Zapatero interrompeu as suas férias e só voltará para elas quando for claro o que se passou.

E e repente, ao ler um jornal, percebo por que é que algumas pessoas estão vivas

Porcas clonadas dão leite terapêutico

João Deão 14


João sai do restaurante. Cheira a fritos e uma azia começa a queima-lhe a garganta. É fim de tarde em Lisboa, e a peça de teatro que à sorte decidiu ir ver, só começa dentro de duas horas. Coloca a mão na barriga e entra numa pequena loja que vende ginginha. Doce, com ou sem elas, num copo de plástico ao final de tarde, eis João, encostado à parede, levando o copo à boca e fixando o olhar em quem está e, em quem passa. Se fechasse os olhos saberia apenas pelo som onde estava. È que ao final de uma tarde de Verão, depois de servidas, entornadas, vomitadas, celebradas e roubadas, milhares de ginginhas, com o sol a pôr cobro a tudo isto, o chão fica cola. Pegajoso, como se a cada passada uma mão se elevasse do chão, agarrasse o calçado que cruza a frente da loja, e gritasse o som dos sapatos a descolarem-se. Por isso, por razões estéticas, João não passarinha de um lado para o outro. Está quieto. Imóvel. Observa um velho. Sapatilhas brancas, calções vermelhos e t-shirt a dizer "Dar sangue é dar vida". Com ele um rapazote. Sapatos de vela castanhos, camisa de riscas grossas, calças de ganga apertadas, boné e brinco de ouro na orelha esquerda. Aproximam-se do balcão descolando os pés do chão. O velho transpirado e vermelhão paga. O puto bebe. Uma, duas, três. O velho aperta-o contra si num gesto lúbrico, apopléctico e fremente com a visão da juventude que embriaga. Passa-lhe a mão pela linha do cabelo, afagando-o com a indiferença com que se sacode um pacote de açúcar. Porque o que ser quer não é o açúcar, é satisfazer a dependência cega do café. A azia, por força da ginga melhora, mas o vomito por força do velho, piora. E o pior, e o pior, é João descobre por que é que as pessoas andam à frente da loja de um lado para o outro, e não ficam parados como ele. A borracha, o calor, o chão pegajoso. E, é assim, que a querer ir buscar outra ginga, com uma azia prestes a desaparecer com a próxima "com", muito colado ao chão, aparece uma Teresa.

segunda-feira, agosto 29, 2005

João Deão 13



E nus adormecem. Equilibram os ritmos cardíacos, dão a mesma profundidade à respiração, sincronizam os movimentos oculares. São um. Vistos de fora. João sonha e Isabelle não. João revive no sono, todos os detalhes do início daquela noite: a saída de casa, as ruas, o restaurante, a entrada de Isabelle. Relembra o momento em que viu Isabelle. Procura o milionésimo de segundo em que tudo mudou. Identifica-o: o exacto momento em que ele, vendo pela visão periférica a entrada de raparigas no restaurante, se virou. Como se de um filme se tratasse, João percorre a película à procura do fotograma preciso em que decide tirar os olhos do empregado lagarto e olhar para a porta. Fixa a imagem. E, vê, naquele vinte e quatro avos de segundo, todas as potencialidades da noite com Isabelle, e da vida com Isabelle. Porém, o desejo de ter mão no tempo; o demónio da perversidade; e a sedução do abismo tentam-no a fazer exactamente o contrário, como se esse acto fosse um murro no estômago do tempo e mas trombas de Deus. E isso atraiu. Muito. E sempre. A decisão. Nesse fotograma João decide não se voltar para trás. E, não a vê entrar. "A sua cerveja. Acabou-se-nos a carne de bifana, pode ser um prego?" "Não, quero um pastel de bacalhau, quanto devo?". E sai do restaurante, para um futuro alternativo que seguiremos.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Joáo Deão 12

Passam pela gente cor de chão adormecida nas portas das lojas. Cruzam um bêbado, que a cambalear, do cimo dos seus quatro pacotes de vinho bebidos, com as mãos nos bolsos rotos, e de nariz empinado lhes diz, numa mole de sons mastigados por uma boca fétida de álcoois e pungentes feridas: "eu também já...". Produzido este som, fica ali, no meio da praça, com os pombos a saltitarem à sua volta, a morder a língua e ganhar tempo à inevitável queda que lhe abrirá um profundo lenho na testa, e que o sangrará até à morte, num canto perto de um centro comercial.
Pensão, hotel, residencial ou quarto. Uma varanda: terceiro andar de uma casa antiga. Vista sobre o rio, exposta toda a noite à luz da lua. Gradeada, e com quatro portadas de ripas, a lembrar as antigas casas coloniais da América Latina. O quarto, lá dentro, podia ser, e é, dos anos 50 em Cuba, com uma ventoinha no tecto, uma cama de madeira cor de tabaco, um espelho pequeno que se inclina para a frente, e um candeeiro na mesa de cabeceira que desenha na parede um cone invertido de luz amarelada. Abrem metade das portadas. A luz branca que entra da lua, contrasta com o tom de âmbar do interior, e marca com traços definidíssimos as ripas das portadas no corpo de Isabelle.

quarta-feira, agosto 24, 2005

João Deão 11


A respiração fremente impede que os lábios se unam. Pequenos sons guturais: de alegria. Ela geme quando ele entra no vestido e lhe toca o peito. Ele sorri pela exacta medida das suas mãos. Ela recua. Sobe o vestido até à cintura. Aproxima-se e senta-se ao colo dele. De frente. Segura-lhe nas mãos e encosta-as ao seu peito. Perfeito. Percorre o peito de João como se lhe cravasse as unhas. Desce até as calças. Sente-o com a palma da mão. Uma e outra vez. Ele puxa-a e beija-lhe o pescoço. Ela desperta-lhe o cinto, os botões das calças. Um, dois, três, quatro e o último. Desce-lhe as calças e aproxima o seu tronco do tronco dele. Abre-lhe a camisa. Faz um pequeno círculo com as ancas, leva os braços atrás do pescoço e desfaz o nó que segura a parte de cima do seu vestido. Abraçam-se, colando a pele. Ela arranha com as pontas dos dedos as costas dele, até ao pescoço que beija, envenoando-se com o cheiro da nuca dele. Ele segura o peito dela com as palmas de mão, pressionando-os de vez em quando os mamilos entre os dedos. Dançam sentados, num ritmo lento, circular e profundíssimo. Ela sente-o. Ele sente-a. Ele beija-lhe o peito, inspirando o cheiro que vem dela. Olham-se nos olhos e sorriem. Ondulam juntos. Estão absolutamente sós no mundo.

Descem a rua de mão dada. Pudicamente. Procuram um sitio onde passar a o resto da noite.

terça-feira, agosto 23, 2005

João Deão 10




O restaurante está vazio. Apenas a luz azulada do mata-moscas ilumina as cadeiras viradas ao contrário em cima das mesas. As amigas de Isabelle foram para casa. "e estamos é cansadas, os pés inchados, e blábláblá, e mais isto e mais aquilo, e temos de acordar cedo, e temos de dormir bem, e..."

Isabelle está escondida atrás do muro do Jardim botânico que João decidiu saltar. A luz dos faróis de um carro varre o murro e projecta as sombras do gradeamento, mesmo em frente de Isabelle. João já no meio da mata chama-a. O coração salta-lhe da boca, tem a face quente da excitação e sente uma agilidade há muito esquecida. Curvada corre para junto de João. Ele corre pela densa vegetação desaparecendo de imediato. Isabelle tenta adaptar a sua visão à pouca luz. Perdida, procura-o. Mata densa. Clareira mais à frente. Sentado num banco do jardim sobre a cidade: João. Aproxima-se. Coloca as mãos na cintura, sente a frescura do vento na sua pele transpirada e observa deste promontório a cidade.

Sente a mão de João a descer-lhe as costas e tornear-lhe o corpo. Demorando-se. João repete o gesto, como se lhe despisse a roupa interior por cima do fino vestido. Desce pela perna até à parte de trás do joelho. Pára. Com a ponta dos dedos toca, ao de leve, nessa pele sensível. Inclina-se e beija-a. A saliva arrefecida pelo vento, arrepia-a. Desce a mão ao tornozelo. Agora, com firmeza, percorre o caminho até ao limite do vestido. Pára. A mão entre as pernas de Isabelle. Aperta com suavidade o interior das coxas. Isabelle, de pé, estremece. E, abre-as ligeiramente. João toca-lhe com segurança. Com o indicador. Sente-a, movendo o dedo. Constrangida, vira-se para João, afastando-lhe o braço. Ele sentado, ela de pé frente a ele. Ele abraça-lhe a cintura e beija-lhe a barriga. Sente o paladar do suor na pele abaixo do umbigo. Brinca com os pelinhos. Visualiza desfalecer por cima dele. Abraçam-se. Beijam-se na boca. Sentem o coração a latejar em todo o corpo.

segunda-feira, agosto 22, 2005

O inferno 20 anos depois

Da janela do meu quarto tudo arde. Quilómetros de chamas. Uma lareira gigante. Nos telhados das casas à volta da minha poisam folhas de árvores em chamas que logo se apagam.

O vento traz o fogo para a cidade e o fogo nunca passará da Elysio de Moura. Não tenho com que me preocupar, mas não consigo dormir.

Está a fazer 20 anos que fui apresentado ao fogo. 20 anos em que não fomos capazes de fazer nada para que ele não voltasse.

Notas de Verão 2


Manifesto
Os combates são difíceis mas alguém os tem de travar. Como os minaretes, de execução delicada. Começaremos com argumentos racionais. Seguiremos com manifestações. Pegaremos em armas. Esta é uma luta que une todos os homens e mulheres de bom gosto. È uma luta que começa hoje, aqui, e só terminará quando de uma vez por todas, se eliminar o culto pérfido da caipirinha neste Pais. Bebida diabólica que todos parecem saber confeccionar. Bebida maléfica que todos dizem estar muito forte. Bebida feia, servia num copo molhado, com fruta esmagada dentro, sobre um guardanapo de papel. Bebida pirosa que se presta a rimas pirosas: a caipirinha bebe-se por uma palhinha. Gorda, baixa e larga, uma palhinha que assassina a nobreza de beber um copo na rua. Lutemos com determinação para a erradicação absoluta desta bebida, deste erro moral feito produto de bar. A caipirinha degrada. A caipirinha suja. A caipirinha é nojo.

Proposta:
Eliminação imediata das limas do mercado Português (se querem esmagar fruta dentro de copos, esmagam maçãs raineta, ou fruta seca).
Erradicação do açúcar amarelo e sua substituição por farelo. Têm a mesma terminação fonética e pode ser que vão ler o Gil Vicente.
Confisco das palhinhas atarracadas.
Criação de uma força de segurança especial, com livre transito em todo o território nacional para verificar estas medidas.

Só com a mão pesada podemos zelar pela segurança das nossas crianças adolescentes e defender o que é nosso: a doce ginginha, o apaziguador licor beirão, divertido licor de medronho, as alegres pinhoadas, o louco bagaço, os torresmos sérios, o courato crocante e o belo do tremoço. Contra a caipira, regalemo-nos um doce de Odemira.

sexta-feira, agosto 19, 2005

João Deão 8 e 9

João entrega ao empregado lagarto, o saco de plástico já sem gelo. Senta-se ao lado de Isabelle. Olha-a. Olha uma recém chegada imperial. Pega-lhe.
-Sabes é por isto que eu detesto chinelos.
Bebe um golo a sorrir.
-Ouviste o barulho do chinelar quando ela foi à casa de banho pôr gelo na ferida? Assustador.
-Sádico!
-Não somos todos.
-Estavas a olhar para ontem?
-Não. Estava a olhar para ti.



De pé, encostados ao balcão, com duas imperiais fresquíssimas, João e Isabelle conversam. Estão frente a frente. Entre eles, meio palmo. João com a mão na cintura de Isabelle sente na ponta dos dedos o vinco da roupa interior. Ela: visualiza-a. Sorri. Ele olha-a nos olhos. Ela desvia o olhar, aproxima-se dele, eleva-se para lhe dizer um segredo. Ele baixa a cabeça, para a escutar, e vê o peito dela com gotículas de transpiração. Agora, sente-o de encontra o seu, com se esse fosse a única superfície que a impedisse de cair. João sorri, como se ouvisse alguma coisa do que ela lhe segreda ao ouvido. O hálito na sua orelha arrepia-o, o pescoço que o serpenteia hipnotiza-o e os cabelos molhados na nuca atraem-lhe os lábios para a extremidade do ombro . Toca-me ao de leve e a temperatura invade-lhe as faces. Inspira em pequeninos espasmos e nem repara a sua mão no meio das costas dela a aperta contra si. Com uma força hesitante que treme. Ela afasta as pernas, avança uma para o meio das dele. Sente-o. Cora de lisonja e olhando-o nos olhos, beija-o acima da boca, depois afasta-a a mão dele que lhe torneja toda a cintura. Vira-lhe as costas e puxa-o pela mão para a mesa onde as amigas ainda cacarejam acerca do enorme hematoma no pé da belga e nas calças de João. Ela percebe e coloca-o atrás de si. Sentindo-o frente ás amigas

quinta-feira, agosto 18, 2005

João Deão 7

João senta-se numa mesa ao lado. Coloca o prato na mesa, mas a imperial cai estrondosamente. Salpica ligeiramente o joelho esquerdo de Isabelle que no recuo abrupto para evitar a molha, puxa a cadeira para trás pisando com uma das pernas o pé descalço de uma amiga. Um grito silencia o restaurante. E prologa-se. E prolonga-se. Uma goela aberta, emite a plenos pulmões a dor de uma rapariga belga que enquanto aguardava uma água fresca e uma sandes de ovo com paio, fica com a unha do dedo mindinho esmagada. Unha forte, pele macia e uma Isabelle levíssima fazem com que João apenas tenha de desculpa a Isabelle e esta a Marie. Desculpa, desculpa, deixa ver, não foi nada, ficou vermelho, põe gelo, eu vou buscar, a tua amiga está melhor, obrigada não foi nada, desculpa.

quarta-feira, agosto 17, 2005

João Deão 6


Os cabelos molhados pelo suor. O brilho da pele do peito. A linha dos ombros e do pescoço definidíssima e frágil.Tornozelo fino. E, o vestido de menina usado como coisa que protege e que não esconde. Foi nesta que João reparou. Não como o narrador, mas pelas mamas tesinhas e por se ter sentado mesmo à sua frente de perna aberta.
João olha. Ela percebe-o. Num reflexo, compõe-se na cadeira, para logo se voltar a recostar, agora consciente. "O seu prego" disse o empregado. Um homem estranhamente alto, com os braços muito fino e longos, curvado para frente a partir de meio das costas, um queixo projectado e uma pele de doença hepática. Mexe-se abruptamente, sem a fluidez e suavidade que reconhecemos aos mamíferos. Tem os movimentos de um réptil. Angulosos e instantâneos. Para João: era apenas o cabrão do empregado que sempre que podia, confundia uma moeda de 1 euro com uma de dois.
Com um cabrão à sua frente, com um bife a cavalo debaixo dos queixos e com um rapariga lindíssima atrás de si, João percebeu que era altura de sair do balcão. Pegou no prato, colocou os talheres no bolso e levantou-se.
-Vou para aquela mesa, mais outra imperial.
-Psst. Psst. Olhe que não pode mudar. Já pediu, e a conta é feita para o lugar onde está sentado.
-Oh chefe! É para ir ter com as gajas.
-Aquilo não é material para essas unhas.
Mas é. Isabelle tinha reparado em João logo que entrou. Gostou da imagem dele ao balcão, dos dois copos de cerveja vazios e principalmente da camisa de manga curta preta. "Quem usa uma camisa daquelas é capaz de qualquer coisa". 25 anos, nascida perto de Carcassone, filha de viticultores artesanais, vive em Paris. O que Isabelle mais queria era que João entornasse o copo de cerveja que transporta para a mesa por ela abaixo, para ver, se assim, ele perdia o olhar sobranceiro com que a olhou.


terça-feira, agosto 16, 2005

joão deão 5

Sete raparigas loiras entram. Mochilas vermelhas, garrafas de águas no fim, cabelos apanhados, óculos escuros na cabeça, breves e frescos vestidos e um certo afogueamento. Eis os detalhes que prenderam a atenção de João. O rubor das faces destas raparigas que perdidas no trabalho de arranjarem cadeiras para todas, ajeitarem as mochilas a um canto, de se sentarem, de pedirem o jantar e encontrarem a casa de banho, embriagavam-no com um sentimento de paternidade e quase pena. Mas a pulsão hormonal era mais poderosa que a doçura da meia-idade. "que maminhas...". Encantado pela beleza daqueles movimentos despreocupados e honestos observou-as com mais detalhe. "A sua cerveja. Acabou-se-nos a carne de bifana, pode ser um prego? " " no prato, por favor.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Notas de verão 1



Hoje, o que mais desejo é não ter este gosto. Ou melhor, este desgosto, profundo horrível e pungente. Odeio chinelos. Os de enfiar no dedo, especialmente se tiverem a bandeira do Brasil, dão-me cãibras no estômago tão intensas, que todas as salmonelas de uma maionese ao sol, durante um casamento no dia 15 de Agosto, não me dariam tantos vómitos. Os de solas grossas, feitos para caminhar, dão-me dó. Dos pretos, fechados à frente, desconfio mais que de um jesuíta simpático, ou de duas velhinhas que na rua me querem dar a ladainha das testemunhas de Jeová.
Mas hoje, queria não ter este gosto. Esquecer quem sou, e usar por uma hora que seja, as havaianas oferecidas com o MacPitta. Tento. Calço-os, quer dizer enfio-lhes o dedo (com é feio o gesto, a separar o que Deus uniu) e levanto-me decidido. Vou à cozinha. Se até consigo lidar com o aspecto, o som derreou-me. O chinelar derrotou a tentativa visceral e honesta de usar chinelos este Verão. Por isso estou assim, de pés inchadíssimos, macerados pelo calor. Com a pele cozida e cair em grandes folhas. As unhas são uma papa esbranquiçada, assadas pela canícula, que tento manter na ponta dos dedos para que a parte de baixo não infecte. Coisa que aliás só consigo no mindinho do pé esquerdo, os outros dedos exibem coloridas e quentes infecções. Sentado na varanda com os pés em cima de uma velha mesa, olho com resignação para estas duas patas brutais e vejo, numa veia mais saliente, o meu coração latejar. Como gostava de gostar de chinelos.

As aventuras de João Deão seguem a seguir.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Vou

Vou ver o que fazem e como fazem os que vivem melhor do que nós. Já não o faço há demasiado tempo e infelizmente serão pouco dias. Parece-me que a Gabardina continuará a ter textos novos.
Parto com uma única certeza: quando voltar o Benfica ainda não terá ponta-de-lança.
A.

Van Zero

Ontem ouvi o senhor eng.º Van Zeller, director da CIP, patrão dos patrões, na televisão. E percebi que o homem utiliza indistintamente as expressões "as empresas" e "a economia", tendo mesmo distinguido esta última dos consumidores, dizendo que os efeitos do aumento do preço do petróleo se repercutirão na economia e os que não se repercutirem na economia serão repercutidos nos consumidores.
Isto explica tanta coisa sobre o estado actual do país... São estes efeitos colaterais dos tempos do António de Oliveira e Van Salazar que nos têm acompanhado e acompanharão durante muitas décadas ainda, ao que parece...

Joaõ Deão 4

Entra num restaurante frente à estação de comboios. Senta-se ao balcão. Com uma voz profunda e absoluta pede num tom "imperial e sandes, rápido que tenho pessoas à espera!". Coloca os braços no inox do balcão. Sente-o demasiado quente e evita tocar-lhe. O ar humanizado pelo fumo do tabaco e pelo cheiro a fritos irrita João. Gosta da nuvem de fumo mas detesta o cheiro que deixa. Chega a imperial, primeiro que a sandes. Bebe-a em dois tragos. Sente a luminosidade áurea da bebida a irradiar-lhe pelas paredes do trato digestivo. Uma imensa luz refrescante desce-lhe pela garganta, e vai extinguindo-se à medida que assenta no estômago. "Traga-me outra" e segue com olhar o percurso do empregado de dedos longíssimos até à bica de cerveja. O emprega coloca o copo ligeiramente inclinado contra o metal retorcido e olha para a porta do restaurante.

quinta-feira, agosto 11, 2005

João Deão 3

Sai de casa. Desce a rua. Não toca no chão. Vê à transparência. Sintonizado com os objectos e com a gente. Uma janela partida. Uma velha gorda de bata verde, apoiada com os braços à janela de um rés-do-chão, com um gato a passa-lhe à frente, elevando a cauda escandalosamente. Os néons de uma sex-shop. Ruído de curto-circuito. O casal norueguês que partilha meia garrafa de vinho branco gelado. As cascatas de revistas nos quiosques. Ementas a canetas de filtro em tolhas de mesa. E o vento quente a fazer esquecer tudo isto.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Sabedoria popular

Tenho pressa de ter um rumo para o futuro. E muitas vezes esqueço-me de que a pressa é inimiga da perfeição.

João Deão 2

De toalha enrolada à cintura entra no quarto. Veste umas calças e fica à janela a apreciar o vento quente na sua pele fria. Arrepia-se com prazer. Está calmo e move-se como se o ar tivesse espessura, densidade. Veste uma camisa de manga curta preta, comprada por 5 euros na feira da ladra e calça umas All Stars puídas pelas ruas. Senta-se frente à banca da cozinha com um pedaço de haxixe e um maço de cigarros. Parte um cigarro em dois, retira o tabaco para a palma da mão esquerda e coloca o que resta do cigarro entre os dedos. Aquece a pedra, derrete-a e mistura-a com o tabaco. Vira num gesto tudo para a mortalha. Coloca o filtro e enrola com precisão. Acende.

terça-feira, agosto 09, 2005

Sistema Brasil

Diálogo provável entre o director de uma grande empresa portuguesa no Brasil e um dirigente do PT:

Tuga: Bom dia, Sua Exa.. Venho aqui em nome do Grupo X apresentar os cumprimentos ao governo brasileiro!
PTista: Vocês sabem como funciona aqui no Brasil... O sistema democrático tem que funcionar. E para que o país se desenvolva é importante que todos estejam do nosso lado. Ora isso custa dinheiro. Seria uma honra ter connosco um grupo com o vosso prestígio...
Tuga: Não sei do que está a falar, Exa.. Mas quero deixar claro que o nosso grupo não faria nunca nada de ilegal, nem pretende obter vantagens da parte dos políticos brasileiros. Nunca, aconteça o que acontecer, faremos nada à margem da lei para obter vantagens! É esse o comportamento que temos no nosso país e assim nos comportaremos aqui. Muito bom dia!


Nota: No Brasil TODAS as empresas (desde as multinacionais ao vendedor de sanduíche)facturam uma parte substancial do seu volume de negócios por fora. E todas as que eu conheci têm uma contabilidade paralela dessa actividade. Talvez por causa da boa disposação reinante no país, essa facturação costuma ter um nome dentro da empresa. O melhor dos nomes que encontrei para o sistema foi o de uma loja de móveis em São Bento do Sul - Santa Catarina. Os livrinhos de facturas, em tudo idênticos aos da Contabilidade oficial, ostentavam orgulhosamente o nome "Sistema Brasil".





Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer "sim, sim"

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair


Brasil, Cazuza

João Deão I


São sete da tarde. João mete a chave na porta da casa arrendada onde vive, entra e poisa a mochila no chão. Despe-se enquanto acende o esquentador e liga a água quente. "é melhor fria". Nu, desliga o esquentador e mete-se na banheira. Com espasmos inspira, à medida que vai molhando o peito. Com o chuveiro de água gelada frontal à testa, sente um frio polar entrar-lhe cabeça dentro. Gela-lhe o cérebro. Da base da nuca, um azul frio espalha-se através da medula pelo corpo inteiro num último espasmo respiratório. João expira profundamente. Está relaxado e frio.

Eu não queria dizer nada...

...mas é mesmo verdade que o primeiro-ministro de Portugal foi fazer um safari?

sexta-feira, agosto 05, 2005

Não saber

Quando não sabíamos éramos felizes. Não sabíamos e éramos felizes. Éramos felizes e não sabíamos. E não soubemos até tão tarde. Hoje sabemos. Não vale a pena fingir que não.
Por que sofrem tanto as melhores pessoas que eu conheço? Tudo era tão melhor não sabendo. Por que é que não podemos ser inocentes como a Alice?



Alice guarda i gatti
e i gatti guardano nel sole
mentre il mondo sta girando senza fretta.
Irene al quarto piano è lì tranquilla
che si guarda nello specchio
e accende un'altra sigaretta.
E Lillì Marlen, bella più che mai,
sorride e non ti dice la sua età,
ma tutto questo Alice non lo sa.
Ma io non ci sto più gridò lo sposo e poi,
tutti pensarono dietro ai capelli,
lo sposo è impazzito oppure ha bevuto
ma la sposa aspetta un figlio e lui lo sa.
Non è così e se ne andrà.
Alice guarda i gatti
e i gatti muoiono nel sole
mentre il sole a poco a poco si avvicina,
e Cesare perduto nella pioggia
sta aspettando da sei ore il suo amore ballerina.
E rimane lì, a bagnarsi ancora un pò,
e il tram di mezzanotte se ne va
e tutto questo Alice non lo sa.
Ma io non ci sto più e i pazzi siete voi,
tutti pensarono dietro ai capelli,
lo sposo è impazzito oppure ha bevuto
ma la sposa aspetta un figlio e lui lo sa.
Non è così e se ne andrà.
Alice guarda i gatti
e i gatti girano nel sol
mentre il sole fa l'amore con la luna.
Il mendicante arabo ha un cancro nel cappello
ma è convinto che sia un portafortuna.
Non ti chiede mai pane o carità
e un posto per dormire non ce l'ha,
ma tutto questo Alice non lo sa.
Ma io non ci sto più gridò lo sposo e poi,
tutti pensarono dietro ai capelli,
lo sposo è impazzito oppure ha bevuto
ma la sposa aspetta un figlio e lui lo sa.
Non è così e se ne andrà


Francesco de Gregori, 1973

Vida de treinador

Depois de "encostar" Jorge Costa, Nuno Valente, Quaresma, Sandro e Ibson, Co Adriaanse será hoje obrigado a escolher o pior dos seus dois guarda-redes para ser titular do Porto esta época. Se assim não fizesse o "encostado" seria ele...

quinta-feira, agosto 04, 2005

quarta-feira, agosto 03, 2005

O post do dia

Aqui ao lado, no Mar Salgado:

PEQUENO ANÚNCIO GRÁTIS NO JORNAL DO PARTIDO: "PROCURA-SE Sabujo encartado com cartão do partido desde tenra idade para cargo de administração de empresa pública. Não é necessária qualquer licenciatura ou experiência de coisa alguma, sendo irrelevantes quaisquer antecedentes de uso indevido de dinheiros públicos. Situações de amizade ou de anteriores sociedades com o PM serão consideradas. Salário superior ao do Presidente da República."

Ainda não tenho

Assim que eu tiver forças para arrumar a mesa de casa e a mesa do trabalho a minha vida pode continuar.

terça-feira, agosto 02, 2005

E nos dois primeiros meses as coisas até pareciam estar a correr bem...

Durante horas este jovem só conseguia dizer: "O Vara? O Vara?"


Armando Vara administrador da Caixa Geral de Depósitos.

Os senhorios
podem solicitar às finanças informações sobre os rendimentos dos inquilinos.

A Associação Nacional de Farmácias afirma que os preços absurdos a que as farmácias são vendidas em nada seriam alterados com a sua liberalização.

E agora a boa notícia:
Ministra acredita que limites à acumulação dos professores vão criar três mil empregos
Para quando os limites às acumulações dos médicos?

segunda-feira, agosto 01, 2005

Tell me why

I don't like Mondays.