segunda-feira, setembro 05, 2005

Festa do Avante 2008

Serão projectadas as três longas metragens realizadas por Álvaro Cunhal.

Festa do Avante 2007

Maquete do projecto arquitectónico de Álvaro Cunhal para o edifício mais alto do mundo.

Festa do Avante 2006

Na festa, os visitantes poderão ouvir pela primeira vez as duas sinfonias compostas por Álvaro Cunhal.

Festa do Avante 2005

Exposição dedicada à obra de Cunhal enquanto pintor e desenhador e ainda "como pensador de questões relativas à estética e ao papel da arte e do artista na sociedade". Estarão em exposição, pela primeira vez publicamente, duas pinturas de Álvaro Cunhal.

Joâo Deão 16


Cremilde tem um metro e quarenta e cinto centímetros. De perfil, desenha uma barrica de vinho cortada em altura: curva para a frente e muito direita para trás. Braços pequenos e grossos, afastados da cintura. A cara, corada, é redonda e inchada. Cabelo de rata velha. Baço, eriçado e ralo que se prolonga em farripas sobre as orelhas cor da uva pisada. Aproxima-se da porta da loja da ginga, onde João está colado. Botas de plástico vermelhas, saia branca um palmo acima do joelho, e um decote. Decote que nada mostra, mas que Cremilde tapa e protege. Usa-o como se todos os homens o olhassem. Ostenta, pelo seu peito, um pudor incompreensível. Uma, das réstias de humanidade que sobreviveu na filha de criada da casa de proprietários rurais do Douro, imigrada para Lisboa, atrás de um amor de infância, e perdida na baixa prostituição e no vinho. A outra. A outra é a memória que o vinho lhe traz. Se durante os últimos 25 anos se tornou alcoólica foi porque em cada copo que bebia, havia, de algum modo uma recordação da infância em que servia com a mãe os doutores da quinta.
10 euros pela limpeza da loja e 15 ou 20, pelos broches aos velhos que por ali vagueiam, são o necessário para pagar o quarto onde vive e de que diz com um orgulho que dá pena: "está sempre muito limpinho".
Uma onda de àgua fria contra as All-stars de João. Detergente. Uma esfergona descontrolada. O cimo de uma cabeça muito perto de si. O salto. João desgruda do chão. Pede outra ginga. Quase cai ao passar pela frente da porta limpa e a meio do caminho para o teatro percebe a razão do chão, ali estar sempre a segurar as pessoas.

sexta-feira, setembro 02, 2005

Descanso

Depois dos incêndios virão as autárquicas e as presidenciais. No entretanto, a bem dos resultados eleitorais, ninguém nos tentará convencer de que a segurança social está falida, de que aumentos dos impostos são inevitáveis, de que as portagens nas SCUTs são justas.
Até Janeiro estamos safos.

A ponta do iceberg do sistema

tem 171 nomes.

Pinto da Costa, Valentim Loureiro, Sousa Cintra e os árbitros Lucílio Baptista, Carlos Xistra, Jacinto Paixão, Paulo Paraty são alguns dos arguidos.

quinta-feira, setembro 01, 2005

João Deão 15


Rapariga que tem o mesmo nome que outra que João encontrará mais tarde. Rapariga, que logo que o viu encostado à parede, no início da rua, fantasiou se seria simpático e meigo. Se dava um bom namorado: um bom marido: um bom pai. Em andamento, a tudo, concluiu que sim, por isso, porque nunca se perde nada em tentar, porque estaria sempre protegida pelas regras que definem as relações entre homens e mulheres e porque viu todos os episódios do Sexo e a Cidade; esta Teresa, noiva de um ascendente engenheiro na Mota Engil, pára frente a João e simula procurar o telemóvel na carteira, para se demorar no campo de visão dele. João se a olha, é, para a ver à transparência. Interessa-lhe observar a mulher que vem atrás: Cremilde. Teresa, como para o mundo, só ia à procura do seu telefone, acredita que só ia à procura do telefone, e, acelera o passo, para ir lanchar com Miguel, seu namorado super-star do betão armado, à esplanada, virada para o Rossio, da pastelaria Suiça. Pedirá um chá verde, um bolo de chocolate e dirá: "Está frio, devia ter trazido um casaco pelas costas."

Fotoesfera

A minha fotojornalista preferida tem um blog. Aqui.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Férias

® SR

Mudança na Gabardina

Andámos demasiado tempo a abichanar com o amarelinho.

Ibéria

Volto a Portugal. Ligo a televisão e vejo o grande Alberto João Jardim a explicar que a Maçonaria ibérica, concentrada nos partidos socialistas, tem um plano, desde o século XIX, para que Portugal seja integrado em Espanha.

Pela primeira vez vejo um bom motivo para votar PS.

Pequenas diferenças

Chego a Espanha. Ligo a televisão. Morreram doze soldados espanhóis na queda de um helicóptero no Afeganistão. Notícia seguinte: Zapatero interrompeu as suas férias e só voltará para elas quando for claro o que se passou.

E e repente, ao ler um jornal, percebo por que é que algumas pessoas estão vivas

Porcas clonadas dão leite terapêutico

João Deão 14


João sai do restaurante. Cheira a fritos e uma azia começa a queima-lhe a garganta. É fim de tarde em Lisboa, e a peça de teatro que à sorte decidiu ir ver, só começa dentro de duas horas. Coloca a mão na barriga e entra numa pequena loja que vende ginginha. Doce, com ou sem elas, num copo de plástico ao final de tarde, eis João, encostado à parede, levando o copo à boca e fixando o olhar em quem está e, em quem passa. Se fechasse os olhos saberia apenas pelo som onde estava. È que ao final de uma tarde de Verão, depois de servidas, entornadas, vomitadas, celebradas e roubadas, milhares de ginginhas, com o sol a pôr cobro a tudo isto, o chão fica cola. Pegajoso, como se a cada passada uma mão se elevasse do chão, agarrasse o calçado que cruza a frente da loja, e gritasse o som dos sapatos a descolarem-se. Por isso, por razões estéticas, João não passarinha de um lado para o outro. Está quieto. Imóvel. Observa um velho. Sapatilhas brancas, calções vermelhos e t-shirt a dizer "Dar sangue é dar vida". Com ele um rapazote. Sapatos de vela castanhos, camisa de riscas grossas, calças de ganga apertadas, boné e brinco de ouro na orelha esquerda. Aproximam-se do balcão descolando os pés do chão. O velho transpirado e vermelhão paga. O puto bebe. Uma, duas, três. O velho aperta-o contra si num gesto lúbrico, apopléctico e fremente com a visão da juventude que embriaga. Passa-lhe a mão pela linha do cabelo, afagando-o com a indiferença com que se sacode um pacote de açúcar. Porque o que ser quer não é o açúcar, é satisfazer a dependência cega do café. A azia, por força da ginga melhora, mas o vomito por força do velho, piora. E o pior, e o pior, é João descobre por que é que as pessoas andam à frente da loja de um lado para o outro, e não ficam parados como ele. A borracha, o calor, o chão pegajoso. E, é assim, que a querer ir buscar outra ginga, com uma azia prestes a desaparecer com a próxima "com", muito colado ao chão, aparece uma Teresa.

segunda-feira, agosto 29, 2005

João Deão 13



E nus adormecem. Equilibram os ritmos cardíacos, dão a mesma profundidade à respiração, sincronizam os movimentos oculares. São um. Vistos de fora. João sonha e Isabelle não. João revive no sono, todos os detalhes do início daquela noite: a saída de casa, as ruas, o restaurante, a entrada de Isabelle. Relembra o momento em que viu Isabelle. Procura o milionésimo de segundo em que tudo mudou. Identifica-o: o exacto momento em que ele, vendo pela visão periférica a entrada de raparigas no restaurante, se virou. Como se de um filme se tratasse, João percorre a película à procura do fotograma preciso em que decide tirar os olhos do empregado lagarto e olhar para a porta. Fixa a imagem. E, vê, naquele vinte e quatro avos de segundo, todas as potencialidades da noite com Isabelle, e da vida com Isabelle. Porém, o desejo de ter mão no tempo; o demónio da perversidade; e a sedução do abismo tentam-no a fazer exactamente o contrário, como se esse acto fosse um murro no estômago do tempo e mas trombas de Deus. E isso atraiu. Muito. E sempre. A decisão. Nesse fotograma João decide não se voltar para trás. E, não a vê entrar. "A sua cerveja. Acabou-se-nos a carne de bifana, pode ser um prego?" "Não, quero um pastel de bacalhau, quanto devo?". E sai do restaurante, para um futuro alternativo que seguiremos.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Joáo Deão 12

Passam pela gente cor de chão adormecida nas portas das lojas. Cruzam um bêbado, que a cambalear, do cimo dos seus quatro pacotes de vinho bebidos, com as mãos nos bolsos rotos, e de nariz empinado lhes diz, numa mole de sons mastigados por uma boca fétida de álcoois e pungentes feridas: "eu também já...". Produzido este som, fica ali, no meio da praça, com os pombos a saltitarem à sua volta, a morder a língua e ganhar tempo à inevitável queda que lhe abrirá um profundo lenho na testa, e que o sangrará até à morte, num canto perto de um centro comercial.
Pensão, hotel, residencial ou quarto. Uma varanda: terceiro andar de uma casa antiga. Vista sobre o rio, exposta toda a noite à luz da lua. Gradeada, e com quatro portadas de ripas, a lembrar as antigas casas coloniais da América Latina. O quarto, lá dentro, podia ser, e é, dos anos 50 em Cuba, com uma ventoinha no tecto, uma cama de madeira cor de tabaco, um espelho pequeno que se inclina para a frente, e um candeeiro na mesa de cabeceira que desenha na parede um cone invertido de luz amarelada. Abrem metade das portadas. A luz branca que entra da lua, contrasta com o tom de âmbar do interior, e marca com traços definidíssimos as ripas das portadas no corpo de Isabelle.

quarta-feira, agosto 24, 2005

João Deão 11


A respiração fremente impede que os lábios se unam. Pequenos sons guturais: de alegria. Ela geme quando ele entra no vestido e lhe toca o peito. Ele sorri pela exacta medida das suas mãos. Ela recua. Sobe o vestido até à cintura. Aproxima-se e senta-se ao colo dele. De frente. Segura-lhe nas mãos e encosta-as ao seu peito. Perfeito. Percorre o peito de João como se lhe cravasse as unhas. Desce até as calças. Sente-o com a palma da mão. Uma e outra vez. Ele puxa-a e beija-lhe o pescoço. Ela desperta-lhe o cinto, os botões das calças. Um, dois, três, quatro e o último. Desce-lhe as calças e aproxima o seu tronco do tronco dele. Abre-lhe a camisa. Faz um pequeno círculo com as ancas, leva os braços atrás do pescoço e desfaz o nó que segura a parte de cima do seu vestido. Abraçam-se, colando a pele. Ela arranha com as pontas dos dedos as costas dele, até ao pescoço que beija, envenoando-se com o cheiro da nuca dele. Ele segura o peito dela com as palmas de mão, pressionando-os de vez em quando os mamilos entre os dedos. Dançam sentados, num ritmo lento, circular e profundíssimo. Ela sente-o. Ele sente-a. Ele beija-lhe o peito, inspirando o cheiro que vem dela. Olham-se nos olhos e sorriem. Ondulam juntos. Estão absolutamente sós no mundo.

Descem a rua de mão dada. Pudicamente. Procuram um sitio onde passar a o resto da noite.

terça-feira, agosto 23, 2005

João Deão 10




O restaurante está vazio. Apenas a luz azulada do mata-moscas ilumina as cadeiras viradas ao contrário em cima das mesas. As amigas de Isabelle foram para casa. "e estamos é cansadas, os pés inchados, e blábláblá, e mais isto e mais aquilo, e temos de acordar cedo, e temos de dormir bem, e..."

Isabelle está escondida atrás do muro do Jardim botânico que João decidiu saltar. A luz dos faróis de um carro varre o murro e projecta as sombras do gradeamento, mesmo em frente de Isabelle. João já no meio da mata chama-a. O coração salta-lhe da boca, tem a face quente da excitação e sente uma agilidade há muito esquecida. Curvada corre para junto de João. Ele corre pela densa vegetação desaparecendo de imediato. Isabelle tenta adaptar a sua visão à pouca luz. Perdida, procura-o. Mata densa. Clareira mais à frente. Sentado num banco do jardim sobre a cidade: João. Aproxima-se. Coloca as mãos na cintura, sente a frescura do vento na sua pele transpirada e observa deste promontório a cidade.

Sente a mão de João a descer-lhe as costas e tornear-lhe o corpo. Demorando-se. João repete o gesto, como se lhe despisse a roupa interior por cima do fino vestido. Desce pela perna até à parte de trás do joelho. Pára. Com a ponta dos dedos toca, ao de leve, nessa pele sensível. Inclina-se e beija-a. A saliva arrefecida pelo vento, arrepia-a. Desce a mão ao tornozelo. Agora, com firmeza, percorre o caminho até ao limite do vestido. Pára. A mão entre as pernas de Isabelle. Aperta com suavidade o interior das coxas. Isabelle, de pé, estremece. E, abre-as ligeiramente. João toca-lhe com segurança. Com o indicador. Sente-a, movendo o dedo. Constrangida, vira-se para João, afastando-lhe o braço. Ele sentado, ela de pé frente a ele. Ele abraça-lhe a cintura e beija-lhe a barriga. Sente o paladar do suor na pele abaixo do umbigo. Brinca com os pelinhos. Visualiza desfalecer por cima dele. Abraçam-se. Beijam-se na boca. Sentem o coração a latejar em todo o corpo.

segunda-feira, agosto 22, 2005

O inferno 20 anos depois

Da janela do meu quarto tudo arde. Quilómetros de chamas. Uma lareira gigante. Nos telhados das casas à volta da minha poisam folhas de árvores em chamas que logo se apagam.

O vento traz o fogo para a cidade e o fogo nunca passará da Elysio de Moura. Não tenho com que me preocupar, mas não consigo dormir.

Está a fazer 20 anos que fui apresentado ao fogo. 20 anos em que não fomos capazes de fazer nada para que ele não voltasse.

Notas de Verão 2


Manifesto
Os combates são difíceis mas alguém os tem de travar. Como os minaretes, de execução delicada. Começaremos com argumentos racionais. Seguiremos com manifestações. Pegaremos em armas. Esta é uma luta que une todos os homens e mulheres de bom gosto. È uma luta que começa hoje, aqui, e só terminará quando de uma vez por todas, se eliminar o culto pérfido da caipirinha neste Pais. Bebida diabólica que todos parecem saber confeccionar. Bebida maléfica que todos dizem estar muito forte. Bebida feia, servia num copo molhado, com fruta esmagada dentro, sobre um guardanapo de papel. Bebida pirosa que se presta a rimas pirosas: a caipirinha bebe-se por uma palhinha. Gorda, baixa e larga, uma palhinha que assassina a nobreza de beber um copo na rua. Lutemos com determinação para a erradicação absoluta desta bebida, deste erro moral feito produto de bar. A caipirinha degrada. A caipirinha suja. A caipirinha é nojo.

Proposta:
Eliminação imediata das limas do mercado Português (se querem esmagar fruta dentro de copos, esmagam maçãs raineta, ou fruta seca).
Erradicação do açúcar amarelo e sua substituição por farelo. Têm a mesma terminação fonética e pode ser que vão ler o Gil Vicente.
Confisco das palhinhas atarracadas.
Criação de uma força de segurança especial, com livre transito em todo o território nacional para verificar estas medidas.

Só com a mão pesada podemos zelar pela segurança das nossas crianças adolescentes e defender o que é nosso: a doce ginginha, o apaziguador licor beirão, divertido licor de medronho, as alegres pinhoadas, o louco bagaço, os torresmos sérios, o courato crocante e o belo do tremoço. Contra a caipira, regalemo-nos um doce de Odemira.

sexta-feira, agosto 19, 2005

João Deão 8 e 9

João entrega ao empregado lagarto, o saco de plástico já sem gelo. Senta-se ao lado de Isabelle. Olha-a. Olha uma recém chegada imperial. Pega-lhe.
-Sabes é por isto que eu detesto chinelos.
Bebe um golo a sorrir.
-Ouviste o barulho do chinelar quando ela foi à casa de banho pôr gelo na ferida? Assustador.
-Sádico!
-Não somos todos.
-Estavas a olhar para ontem?
-Não. Estava a olhar para ti.



De pé, encostados ao balcão, com duas imperiais fresquíssimas, João e Isabelle conversam. Estão frente a frente. Entre eles, meio palmo. João com a mão na cintura de Isabelle sente na ponta dos dedos o vinco da roupa interior. Ela: visualiza-a. Sorri. Ele olha-a nos olhos. Ela desvia o olhar, aproxima-se dele, eleva-se para lhe dizer um segredo. Ele baixa a cabeça, para a escutar, e vê o peito dela com gotículas de transpiração. Agora, sente-o de encontra o seu, com se esse fosse a única superfície que a impedisse de cair. João sorri, como se ouvisse alguma coisa do que ela lhe segreda ao ouvido. O hálito na sua orelha arrepia-o, o pescoço que o serpenteia hipnotiza-o e os cabelos molhados na nuca atraem-lhe os lábios para a extremidade do ombro . Toca-me ao de leve e a temperatura invade-lhe as faces. Inspira em pequeninos espasmos e nem repara a sua mão no meio das costas dela a aperta contra si. Com uma força hesitante que treme. Ela afasta as pernas, avança uma para o meio das dele. Sente-o. Cora de lisonja e olhando-o nos olhos, beija-o acima da boca, depois afasta-a a mão dele que lhe torneja toda a cintura. Vira-lhe as costas e puxa-o pela mão para a mesa onde as amigas ainda cacarejam acerca do enorme hematoma no pé da belga e nas calças de João. Ela percebe e coloca-o atrás de si. Sentindo-o frente ás amigas

quinta-feira, agosto 18, 2005

João Deão 7

João senta-se numa mesa ao lado. Coloca o prato na mesa, mas a imperial cai estrondosamente. Salpica ligeiramente o joelho esquerdo de Isabelle que no recuo abrupto para evitar a molha, puxa a cadeira para trás pisando com uma das pernas o pé descalço de uma amiga. Um grito silencia o restaurante. E prologa-se. E prolonga-se. Uma goela aberta, emite a plenos pulmões a dor de uma rapariga belga que enquanto aguardava uma água fresca e uma sandes de ovo com paio, fica com a unha do dedo mindinho esmagada. Unha forte, pele macia e uma Isabelle levíssima fazem com que João apenas tenha de desculpa a Isabelle e esta a Marie. Desculpa, desculpa, deixa ver, não foi nada, ficou vermelho, põe gelo, eu vou buscar, a tua amiga está melhor, obrigada não foi nada, desculpa.

quarta-feira, agosto 17, 2005

João Deão 6


Os cabelos molhados pelo suor. O brilho da pele do peito. A linha dos ombros e do pescoço definidíssima e frágil.Tornozelo fino. E, o vestido de menina usado como coisa que protege e que não esconde. Foi nesta que João reparou. Não como o narrador, mas pelas mamas tesinhas e por se ter sentado mesmo à sua frente de perna aberta.
João olha. Ela percebe-o. Num reflexo, compõe-se na cadeira, para logo se voltar a recostar, agora consciente. "O seu prego" disse o empregado. Um homem estranhamente alto, com os braços muito fino e longos, curvado para frente a partir de meio das costas, um queixo projectado e uma pele de doença hepática. Mexe-se abruptamente, sem a fluidez e suavidade que reconhecemos aos mamíferos. Tem os movimentos de um réptil. Angulosos e instantâneos. Para João: era apenas o cabrão do empregado que sempre que podia, confundia uma moeda de 1 euro com uma de dois.
Com um cabrão à sua frente, com um bife a cavalo debaixo dos queixos e com um rapariga lindíssima atrás de si, João percebeu que era altura de sair do balcão. Pegou no prato, colocou os talheres no bolso e levantou-se.
-Vou para aquela mesa, mais outra imperial.
-Psst. Psst. Olhe que não pode mudar. Já pediu, e a conta é feita para o lugar onde está sentado.
-Oh chefe! É para ir ter com as gajas.
-Aquilo não é material para essas unhas.
Mas é. Isabelle tinha reparado em João logo que entrou. Gostou da imagem dele ao balcão, dos dois copos de cerveja vazios e principalmente da camisa de manga curta preta. "Quem usa uma camisa daquelas é capaz de qualquer coisa". 25 anos, nascida perto de Carcassone, filha de viticultores artesanais, vive em Paris. O que Isabelle mais queria era que João entornasse o copo de cerveja que transporta para a mesa por ela abaixo, para ver, se assim, ele perdia o olhar sobranceiro com que a olhou.


terça-feira, agosto 16, 2005

joão deão 5

Sete raparigas loiras entram. Mochilas vermelhas, garrafas de águas no fim, cabelos apanhados, óculos escuros na cabeça, breves e frescos vestidos e um certo afogueamento. Eis os detalhes que prenderam a atenção de João. O rubor das faces destas raparigas que perdidas no trabalho de arranjarem cadeiras para todas, ajeitarem as mochilas a um canto, de se sentarem, de pedirem o jantar e encontrarem a casa de banho, embriagavam-no com um sentimento de paternidade e quase pena. Mas a pulsão hormonal era mais poderosa que a doçura da meia-idade. "que maminhas...". Encantado pela beleza daqueles movimentos despreocupados e honestos observou-as com mais detalhe. "A sua cerveja. Acabou-se-nos a carne de bifana, pode ser um prego? " " no prato, por favor.

segunda-feira, agosto 15, 2005

Notas de verão 1



Hoje, o que mais desejo é não ter este gosto. Ou melhor, este desgosto, profundo horrível e pungente. Odeio chinelos. Os de enfiar no dedo, especialmente se tiverem a bandeira do Brasil, dão-me cãibras no estômago tão intensas, que todas as salmonelas de uma maionese ao sol, durante um casamento no dia 15 de Agosto, não me dariam tantos vómitos. Os de solas grossas, feitos para caminhar, dão-me dó. Dos pretos, fechados à frente, desconfio mais que de um jesuíta simpático, ou de duas velhinhas que na rua me querem dar a ladainha das testemunhas de Jeová.
Mas hoje, queria não ter este gosto. Esquecer quem sou, e usar por uma hora que seja, as havaianas oferecidas com o MacPitta. Tento. Calço-os, quer dizer enfio-lhes o dedo (com é feio o gesto, a separar o que Deus uniu) e levanto-me decidido. Vou à cozinha. Se até consigo lidar com o aspecto, o som derreou-me. O chinelar derrotou a tentativa visceral e honesta de usar chinelos este Verão. Por isso estou assim, de pés inchadíssimos, macerados pelo calor. Com a pele cozida e cair em grandes folhas. As unhas são uma papa esbranquiçada, assadas pela canícula, que tento manter na ponta dos dedos para que a parte de baixo não infecte. Coisa que aliás só consigo no mindinho do pé esquerdo, os outros dedos exibem coloridas e quentes infecções. Sentado na varanda com os pés em cima de uma velha mesa, olho com resignação para estas duas patas brutais e vejo, numa veia mais saliente, o meu coração latejar. Como gostava de gostar de chinelos.

As aventuras de João Deão seguem a seguir.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Vou

Vou ver o que fazem e como fazem os que vivem melhor do que nós. Já não o faço há demasiado tempo e infelizmente serão pouco dias. Parece-me que a Gabardina continuará a ter textos novos.
Parto com uma única certeza: quando voltar o Benfica ainda não terá ponta-de-lança.
A.

Van Zero

Ontem ouvi o senhor eng.º Van Zeller, director da CIP, patrão dos patrões, na televisão. E percebi que o homem utiliza indistintamente as expressões "as empresas" e "a economia", tendo mesmo distinguido esta última dos consumidores, dizendo que os efeitos do aumento do preço do petróleo se repercutirão na economia e os que não se repercutirem na economia serão repercutidos nos consumidores.
Isto explica tanta coisa sobre o estado actual do país... São estes efeitos colaterais dos tempos do António de Oliveira e Van Salazar que nos têm acompanhado e acompanharão durante muitas décadas ainda, ao que parece...

Joaõ Deão 4

Entra num restaurante frente à estação de comboios. Senta-se ao balcão. Com uma voz profunda e absoluta pede num tom "imperial e sandes, rápido que tenho pessoas à espera!". Coloca os braços no inox do balcão. Sente-o demasiado quente e evita tocar-lhe. O ar humanizado pelo fumo do tabaco e pelo cheiro a fritos irrita João. Gosta da nuvem de fumo mas detesta o cheiro que deixa. Chega a imperial, primeiro que a sandes. Bebe-a em dois tragos. Sente a luminosidade áurea da bebida a irradiar-lhe pelas paredes do trato digestivo. Uma imensa luz refrescante desce-lhe pela garganta, e vai extinguindo-se à medida que assenta no estômago. "Traga-me outra" e segue com olhar o percurso do empregado de dedos longíssimos até à bica de cerveja. O emprega coloca o copo ligeiramente inclinado contra o metal retorcido e olha para a porta do restaurante.

quinta-feira, agosto 11, 2005

João Deão 3

Sai de casa. Desce a rua. Não toca no chão. Vê à transparência. Sintonizado com os objectos e com a gente. Uma janela partida. Uma velha gorda de bata verde, apoiada com os braços à janela de um rés-do-chão, com um gato a passa-lhe à frente, elevando a cauda escandalosamente. Os néons de uma sex-shop. Ruído de curto-circuito. O casal norueguês que partilha meia garrafa de vinho branco gelado. As cascatas de revistas nos quiosques. Ementas a canetas de filtro em tolhas de mesa. E o vento quente a fazer esquecer tudo isto.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Sabedoria popular

Tenho pressa de ter um rumo para o futuro. E muitas vezes esqueço-me de que a pressa é inimiga da perfeição.

João Deão 2

De toalha enrolada à cintura entra no quarto. Veste umas calças e fica à janela a apreciar o vento quente na sua pele fria. Arrepia-se com prazer. Está calmo e move-se como se o ar tivesse espessura, densidade. Veste uma camisa de manga curta preta, comprada por 5 euros na feira da ladra e calça umas All Stars puídas pelas ruas. Senta-se frente à banca da cozinha com um pedaço de haxixe e um maço de cigarros. Parte um cigarro em dois, retira o tabaco para a palma da mão esquerda e coloca o que resta do cigarro entre os dedos. Aquece a pedra, derrete-a e mistura-a com o tabaco. Vira num gesto tudo para a mortalha. Coloca o filtro e enrola com precisão. Acende.

terça-feira, agosto 09, 2005

Sistema Brasil

Diálogo provável entre o director de uma grande empresa portuguesa no Brasil e um dirigente do PT:

Tuga: Bom dia, Sua Exa.. Venho aqui em nome do Grupo X apresentar os cumprimentos ao governo brasileiro!
PTista: Vocês sabem como funciona aqui no Brasil... O sistema democrático tem que funcionar. E para que o país se desenvolva é importante que todos estejam do nosso lado. Ora isso custa dinheiro. Seria uma honra ter connosco um grupo com o vosso prestígio...
Tuga: Não sei do que está a falar, Exa.. Mas quero deixar claro que o nosso grupo não faria nunca nada de ilegal, nem pretende obter vantagens da parte dos políticos brasileiros. Nunca, aconteça o que acontecer, faremos nada à margem da lei para obter vantagens! É esse o comportamento que temos no nosso país e assim nos comportaremos aqui. Muito bom dia!


Nota: No Brasil TODAS as empresas (desde as multinacionais ao vendedor de sanduíche)facturam uma parte substancial do seu volume de negócios por fora. E todas as que eu conheci têm uma contabilidade paralela dessa actividade. Talvez por causa da boa disposação reinante no país, essa facturação costuma ter um nome dentro da empresa. O melhor dos nomes que encontrei para o sistema foi o de uma loja de móveis em São Bento do Sul - Santa Catarina. Os livrinhos de facturas, em tudo idênticos aos da Contabilidade oficial, ostentavam orgulhosamente o nome "Sistema Brasil".





Não me sortearam
A garota do Fantástico
Não me subornaram
Será que é o meu fim?
Ver TV a cores
Na taba de um índio
Programada pra só dizer "sim, sim"

Brasil
Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim

Grande pátria desimportante
Em nenhum instante
Eu vou te trair


Brasil, Cazuza

João Deão I


São sete da tarde. João mete a chave na porta da casa arrendada onde vive, entra e poisa a mochila no chão. Despe-se enquanto acende o esquentador e liga a água quente. "é melhor fria". Nu, desliga o esquentador e mete-se na banheira. Com espasmos inspira, à medida que vai molhando o peito. Com o chuveiro de água gelada frontal à testa, sente um frio polar entrar-lhe cabeça dentro. Gela-lhe o cérebro. Da base da nuca, um azul frio espalha-se através da medula pelo corpo inteiro num último espasmo respiratório. João expira profundamente. Está relaxado e frio.

Eu não queria dizer nada...

...mas é mesmo verdade que o primeiro-ministro de Portugal foi fazer um safari?

sexta-feira, agosto 05, 2005

Não saber

Quando não sabíamos éramos felizes. Não sabíamos e éramos felizes. Éramos felizes e não sabíamos. E não soubemos até tão tarde. Hoje sabemos. Não vale a pena fingir que não.
Por que sofrem tanto as melhores pessoas que eu conheço? Tudo era tão melhor não sabendo. Por que é que não podemos ser inocentes como a Alice?



Alice guarda i gatti
e i gatti guardano nel sole
mentre il mondo sta girando senza fretta.
Irene al quarto piano è lì tranquilla
che si guarda nello specchio
e accende un'altra sigaretta.
E Lillì Marlen, bella più che mai,
sorride e non ti dice la sua età,
ma tutto questo Alice non lo sa.
Ma io non ci sto più gridò lo sposo e poi,
tutti pensarono dietro ai capelli,
lo sposo è impazzito oppure ha bevuto
ma la sposa aspetta un figlio e lui lo sa.
Non è così e se ne andrà.
Alice guarda i gatti
e i gatti muoiono nel sole
mentre il sole a poco a poco si avvicina,
e Cesare perduto nella pioggia
sta aspettando da sei ore il suo amore ballerina.
E rimane lì, a bagnarsi ancora un pò,
e il tram di mezzanotte se ne va
e tutto questo Alice non lo sa.
Ma io non ci sto più e i pazzi siete voi,
tutti pensarono dietro ai capelli,
lo sposo è impazzito oppure ha bevuto
ma la sposa aspetta un figlio e lui lo sa.
Non è così e se ne andrà.
Alice guarda i gatti
e i gatti girano nel sol
mentre il sole fa l'amore con la luna.
Il mendicante arabo ha un cancro nel cappello
ma è convinto che sia un portafortuna.
Non ti chiede mai pane o carità
e un posto per dormire non ce l'ha,
ma tutto questo Alice non lo sa.
Ma io non ci sto più gridò lo sposo e poi,
tutti pensarono dietro ai capelli,
lo sposo è impazzito oppure ha bevuto
ma la sposa aspetta un figlio e lui lo sa.
Non è così e se ne andrà


Francesco de Gregori, 1973

Vida de treinador

Depois de "encostar" Jorge Costa, Nuno Valente, Quaresma, Sandro e Ibson, Co Adriaanse será hoje obrigado a escolher o pior dos seus dois guarda-redes para ser titular do Porto esta época. Se assim não fizesse o "encostado" seria ele...

quinta-feira, agosto 04, 2005

quarta-feira, agosto 03, 2005

O post do dia

Aqui ao lado, no Mar Salgado:

PEQUENO ANÚNCIO GRÁTIS NO JORNAL DO PARTIDO: "PROCURA-SE Sabujo encartado com cartão do partido desde tenra idade para cargo de administração de empresa pública. Não é necessária qualquer licenciatura ou experiência de coisa alguma, sendo irrelevantes quaisquer antecedentes de uso indevido de dinheiros públicos. Situações de amizade ou de anteriores sociedades com o PM serão consideradas. Salário superior ao do Presidente da República."

Ainda não tenho

Assim que eu tiver forças para arrumar a mesa de casa e a mesa do trabalho a minha vida pode continuar.

terça-feira, agosto 02, 2005

E nos dois primeiros meses as coisas até pareciam estar a correr bem...

Durante horas este jovem só conseguia dizer: "O Vara? O Vara?"


Armando Vara administrador da Caixa Geral de Depósitos.

Os senhorios
podem solicitar às finanças informações sobre os rendimentos dos inquilinos.

A Associação Nacional de Farmácias afirma que os preços absurdos a que as farmácias são vendidas em nada seriam alterados com a sua liberalização.

E agora a boa notícia:
Ministra acredita que limites à acumulação dos professores vão criar três mil empregos
Para quando os limites às acumulações dos médicos?

segunda-feira, agosto 01, 2005

Tell me why

I don't like Mondays.

terça-feira, julho 26, 2005

Muito sofre o sócio da Briosa...

O volante Zada, do Santa Cruz, é pretendido pelo Acadêmica de Coimbra, de Portugal, e a diretoria do clube tricolor do Arruda garantiu que não colocará empecilho caso o atleta queira deixar o clube.
A diretoria informou também que a multa rescisória é muito baixa e que não fará questão de segurar o jogador no time. Segundo os dirigentes do Santa Cruz, não seria problema contratar um substituto.
(...)
Além disso, o volante sente dores na panturrilha e estaria vetado pelo departamento médico, caso não estivesse cumprindo suspensão.


E, já agora, o que é uma panturrilha?

Brasil?


Meu caro amigo me perdoe, por favor
Se eu não lhe faço uma visita
Mas como agora apareceu um portador
Mando notícias nessa fita
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita mutreta pra levar a situação
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça
E a gente vai tomando, que também, sem a cachaça
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu não pretendo provocar
Nem atiçar suas saudades
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
É pirueta pra cavar o ganha-pão
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro
E a gente vai fumando que, também, sem um cigarro
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu quis até telefonar
Mas a tarifa não tem graça
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho
E a gente vai se amando que, também, sem um carinho
Ninguém segura esse rojão

Meu caro amigo eu bem queria lhe escrever
Mas o correio andou arisco
Se permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco
Aqui na terra 'tão jogando futebol
Tem muito samba, muito choro e rock'n' roll
Uns dias chove, noutros dias bate sol
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta
A Marieta manda um beijo para os seus
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças
O Francis aproveita pra também mandar lembranças
A todo pessoal
Adeus



Chico Buarque

segunda-feira, julho 25, 2005


Júlio entra a correr para casa de banho da loja, dá meia volta à lingueta de metal e do lado de fora o verde passa a vermelho.
-fico aqui fechado até falar com o gerente!
-saia mas é daí para fora, que já chamei a policia.
-Vou deitar o fogo a isto tudo.
-O senhor está numa retrete quer incendiar o quê?
-então mato-me, pronto, vou cortar os pulsos aqui se não me chama o gerente.
-E com que é que vai cortar os pulsos? Com algum bocado de papel higiénico. --Vá, saia mas é dai que a policia está a chegar e depois é pior.
Bolas, nem um estudante de jornalismo desempregado a fazer um part-time numa loja de conveniência consigo que me dê credibilidade. Será que ele está a fazer bluff com a policia? Deve estar. Para que é que sai de ao pé das couves e dos bois.
(aqui a meditação aprofundou-se e o narrador não consegue saber em que pensa a personagem). Porque a personagem continua a meditar de forma íntima e inacessível ao que o criou, o narrador decidiu tomar medidas, por isso coloca dois negociadores da P.S.P do lado de lá da porta e uma equipa dos G.O.E a pairar sobre Júlio pronta para lhe torcerem o pescoço. Júlio sabe que não pode ter pensamentos tão profundos, inacessíveis ao contador. Júlio sabe qual costuma ser nestes casos o destino das personagens. Ele sabe. Ele soube, porque entretanto um dos operacionais do G.O.E que estivera a almoçar cozido em canal caveira e que enfardara uma garrafa de vinho, teve uma tremura num dedo. Ora, o tremelique nos mindinhos é coisa vulgar em quadros dirigentes depois do almoço bem regalo, agora num agente especial da P.S.P que paira com uma metralhadora sobre um Júlio que reflecte, dá ao narrador a justificação narrativa para acabar com a raça das personagens que têm segredos.
Fora da loja um arrumador pede umas moedas aos enfermeiros que acabam de estacionar em segunda fila impedindo o descarregamento de milhares de holandeses no pavilhão chinês e nas "very tipical casas de fado, fandango, bailinho da madeira, pauliteiros, etc..."

sexta-feira, julho 22, 2005

-Quase 600 paus por pão e leite? Queira desculpar mas não pago. E chame o responsável.
- Eu chamo é a policia, se o senhor não me pagar o que deve.
- Mas eu ainda não devo nada. Ainda não levei nada. Chame-me o gerente.
- Deixe passar as pessoas que estão a trás de si.
- Chame o gerente, já disse. E quero o livro de reclamações.
- Tome lá o livrinho, aqui tem uma caneta e vá escrever lá para o fundo que preciso de atender as pessoas querem pagar.
Júlio senta-se à frente da banca das revistas e escreve a sua reclamação.
Exmos senhores:
Sois um cabrões de primeiríssima água. Venho de uma terra onde os animais comem palha, fornicam à bruta no campo e cagam por todo o lado, mas aqui tabelam o pão e o leite a 600 paus. Foda-se. Acredito tanto na justeza destes preços como na virgindade de Vossas estimadas mães antes dos 9 anos.
Sem mais, subscrevo-me pacientemente, aguardando que morram de diarreia fulminante ou de combustão espontânea.
Júlio.

-Aqui a reclamaçãozinha e agora chame o gerente.
-Pronto, agora vai ter uma resposta à sua reclamação.
~-Eu sei. Mas quero o gerente.
-Estamos quase a fechar, é sexta-feira, o gerente já foi de fim de semana. Ele não o vai atender hoje de certeza.
-Quero o gerente! Quero o responsável pelos preços destes produtos!

quinta-feira, julho 21, 2005

Proposta para redução da despesa do Estado

Confronto de todos os currículos académicos das pessoas pagas (directa ou indirectamente) pelo Estado - e que recebam mais de 1000 euros mensais - com as funções que ocupam.
Despedimento ou redução do salário para nível condizente no caso de as qualificações académicas serem insuficientes e/ou inadequadas para a posição ocupada.

O Ministro do lusco-fusco


Foram cinco/sete minutos, mas foram intensos.

continua amanhã

Ele há coisas indesculpáveis. Mesmo para um bom feitio como o de Júlio, sacristão a fazer serviço extra em duas igrejas perto de Cinfães, é difícil aguentar. E nem foi pelo dinheiro, porque felizmente a vida sacra ainda vai dando para os gastos, foi pela moral.
Vindo de Cinfães a Lisboa tratar de uns papéis ao patriarcado, Júlio pressentiu quando recusou um lanche ajantarado, na cantina do convento de São Vicente de Fora algo iria acontecer: "Obrigado, deixe estar, que antes de apanhar o comboio como alguma coisa por aí." Eis a ordenação das palavras que o condenaram, muito antes de ter entrado numa loja de conveniência, pedido um pacote de leite e um saco de pão e lhe terem sugerido que a despesa será de dois euros e sessenta cêntimos. Escrevo por extenso porque o que seguiu precisa desta respiração prévia.

quarta-feira, julho 20, 2005

Tenho à minha frente o ministro dos negócios estrangeiros, uma comissão de três peritos em higiene pública formados em Harvard e uma concha de arrozinho de pimentos ladeados por uma dúzia de tesos peixinhos da horta. O ministro pergunta de onde vêm os pimentos, pela erudição que lhe é conhecida. Os higienistas perguntam se foi usada colher de pau na confecção da alpista por defeito de formação, e eu, eu pingo o lábio inferior e sorvo sonoramente a molhanga. O ministro fica a saber que os pimentos vieram de Ormuz, de uma casa conhecia por fornecer os ditos a Padron na Galiza. Os peritos ficam a saber que de facto foi usado o material da cruz, para mexer o refugado que acamou os bagos e eu, eu, como de tudo isto, penso que está de ananases, peço abacaxi, meia ginga, um café e vou à vidinha.

Mil cores

Aparecidos e desaparecidos. Alegres e tristes. Felizes e infelizes. Grávidos, casados e solteiros. A acabar coisas e a começar coisas. Em presença, por mail e por telefone. Tantos amigos reapareceram em força nos últimos dias. E com tantas cores novas nas suas vidas.

terça-feira, julho 19, 2005

segunda-feira, julho 18, 2005

Borra

Dos livros de História:

«Napoleão Bonaparte, durante suas batalhas usava sempre uma camisa de cor vermelha. Para ele era importante porque, se fosse ferido, na sua camisa vermelha não se notaria o sangue e os seus soldados não se preocupariam e também não deixariam de lutar. Toda uma prova de honra e valor.»


... Duzentos anos mais tarde, Sócrates usa sempre calças castanhas...



(recebido por e-mail)

quinta-feira, julho 14, 2005

O Rats

Escrevia Ratzinger em 2003:

"Tratam-se de subtis seduções, que agem sobre o inconsciente distorcendo profundamente a cristandade na alma, antes que ela se possa desenvolver devidamente"

Vejam quem é, para Ratzinger, este diabo em figura de gente. Aqui.

quarta-feira, julho 13, 2005

Juro que vi o rissol mexer-se. Juro. Era de carne, dourado e estava ligeiramente tostado num dos lados. Confrontava pelo lado direito com uma folha de alface, pelo esquerdo com uma bola de arroz e tinha a cavalo, um ovo. Um ovo destemido, de gema alvíssima e de clara escura. E foi a gema que o denunciou. Estremeceu, e rompeu-se com o esgar que só o pão ralado frito consegue ter. Ergui-me enérgico. Percorri o espaço até à cozinha e exibindo o prato como uma bandeja perguntei: "Não aprenderam na cadeira de Fritos II da Escola Superior de Turismo e Hotelaria a gasear devidamente os rissóis antes de os fritarem?". " Não, os rissois, como aliás as enguias perdem o seu valor proteico se fritos mortos. "

Eu já fui um pessimista

Há dois anos eu era um pessimista. Hoje os outros são tão pessimistas como eu era. Mas isso foi a única coisa que mudou. Vale a pena recordar este texto de Outubro de 2003, no dia a seguir ao Sr. Governador do Banco de Portugal, que ganha mais de 19.000 euros por mês, ter ido ao parlamento dizer, pela enésima vez, que este ano ainda será mau mas para o ano teremos retoma:

Por um
Portugal T

A economia é uma daquelas áreas que, no último século, os especialistas se esforçaram por complicar a ponto de que ninguém a perceba.
No entanto a maior parte dos seus mecanismos é de bastante fácil compreensão.

Estávamos no início do século XX e já Henry Ford percebia que para o seu famoso Modelo T ter sucesso era fundamental que os trabalhadores que o construíam ganhassem suficiente dinheiro para o comprar. Para além de parecer ridiculamente óbvia, esta condição é absolutamente justa.
Hoje, um século depois do sonho de Ford tornado realidade, há um pequeno país no ocidente da Europa que ainda não percebeu isso. Portugal ainda não percebeu que não é um país economicamente viável enquanto os portugueses não o puderem comprar. É hoje claro que é mais caro viver em Portugal que viver em Espanha. As casas, os carros, os supermercados, os restaurantes... tudo é mais caro em Portugal. A diferença é que nenhum espanhol tenta viver mensalmente com 360 euros...
Os portugueses têm que perceber que enquanto o salário mínimo nacional não for, a preços de hoje, de cerca de 600 euros, o país não vai sair de uma crise mais ou menos profunda, mas que se arrasta há dez anos.
Precisamos de um Portugal T. Transparente. Tranquilo. Transformado num país desenvolvido.



(onde se lia dez, leia-se agora doze)

terça-feira, julho 12, 2005

Aviso

Se o Benfica não faz rapidamente mais uma contratação, vamos ter que começar a falar da crise outra vez.

sexta-feira, julho 08, 2005

isto anda bonito, anda...

Sabes dos atentados em Londres dois dias depois; perguntas se já é dia outra vez; achas normal andar com uma escova de dentes no bolso de trás das calças; deixas passar em branco o aniversário do blog; já comes mac pitta duas vezes por dia. Qualquer dia até vais passar um fim de senama numa comunidade geriátrica no Algarve.

quarta-feira, julho 06, 2005

Ó miséria! Ó desastre!

À nossa volta há fome, miséria, depressão, corrupção. Todos os dias as imagens e as palavras nos entram pela sala. O desemprego, as falências, a colecção de arte do Champalimaud a ser leiloada, a pobreza, a violência, o Belmiro de Azevedo a vangloriar-se que os seus funcionários precários e mal pagos não têm horário de trabalho, as mortes no Iraque, o preço do petróleo, o Sócrates a falar dos impostos que prometeu não subir, a reunião do G8, os incêndios, os salários que não sobem, as intervenções do Marques Mendes no parlamento... enfim, a depressão.
E quando pensávamos que não podia acontecer nada pior, eis que vejo o telejornal e me vêm as lágrimas aos olhos. Acabaram com o Ballet Gulbenkian? O que será de mim sem o Ballet Gulbenkian? O que será do mundo sem o Ballet Gulbenkian? O que será das crianças com fome sem o Ballet Gulbenkian? O que vamos nós fazer agora nos nossos tempos livres? Vamos todos fazer um abaixo-assinado pelo Ballet Gulbenkian!

terça-feira, julho 05, 2005

O blog que Kurt Vonnegut gostaria de ter escrito em parceria com Gabriel Alves

O blog que mais me faz rir em toda a blogosfera e que eu aconselho a todos os meus amigos fanáticos por futebol fez dois anos.
Continuem a trabalhar todos os dias, para fazer coisas bonitas, ao fim-de-semana ou não!

quinta-feira, junho 30, 2005

Who cares? ou A história da minha tarde

A maturidade da dívida pública na zona euro parece convergir para os 6 anos e a dívida indexada à taxa de inflação tem ganho importância, dado que estes títulos são particularmente atractivos para os fundos de pensões, cujas obrigações futuras são, sobretudo, nominais.

quarta-feira, junho 29, 2005

psychic




(enquanto não consigo a música toda, ficam os 30 seg que o Lycos descobre)

She knows the future like the palm of your hand
She knows you past like the lay of the land
The first time she met me she say right through me
Some cards and a cane in here hand - and she said:

All the years that have come to pass
And all the years that shall be
I see here right before me

She said her visions were a bane in her life
She could not control them, they kept her up nights
I know what you're thinking, I haven't been drinking
She knew things that cut like a knife - and she said:

All the years that have come to pass
And all the years that shall be
I see here right before me

Will there be earthquakes and great tidal waves?
Can she see back to the dinosaur days?
How can she foresee just by squinting at me and
Can she see me naked in her mind's eye?

What does she think when she fortells a disease?
Would she keep it secret if death stood before me?
What could some cards hold, where is here foothold
Can I escape what she see? - and she said:

All the years that have come to pass
And all the years that shall be
I see here right before me



Crash Test Dummies

Name is Batista, Vitor Batista

Recebi hoje no correio o folheto do candidato do PS à Câmara de Coimbra, Vitor Batista.

Sem perder tempo com a comovente carta, de que aconselho, no entanto, a leitura, passo directamente para o currículo do candidato. O percurso pofissional foi todo feito em ambiente autárquico, começando como escriturário e acabando em cargos de confiança política. No fim do currículo podemos ler a seguinte nota (negrito da minha responsabilidade):

Nota: Em 1993 passei à situação de licença sem vencimento optando pela actividade privada, tendo exercido os seguintes cargos: Gestor de empresas, Administrador Delegado, Consultor/Economista e sócio gerente.

De seguinda vem o currículo político:

Governador Civil entre 1995 e 1999.
Gestor Público de 1999 a 2001.
Deputado à Assembleia da República desde 2001, cargo em que continuo actualmente investido.


Promiscuidade entre público e privado? Acumulações? Não! Tudo garantido na última frase da bonita carta aos cidadãos:

Pode confiar em mim. Eu sei que posso contar consigo. Em nome da nossa querida Terra e das nossas bravas Gentes.

terça-feira, junho 28, 2005

Desespero

Jovem economista, fluente em inglês e italiano, com bons conhecimentos de espanhol e nível intermédio de francês, com uma pós-graduação em Regulação Pública e a frequentar mestrado em Economia Europeia e com cinco anos de experiência profissional (um deles no estrangeiro), procura desesperadamente mudar de emprego. Aceitam-se propostas também para esta caixa de comentários.

Dois anos

É muito tempo.

segunda-feira, junho 27, 2005

A melhor vista é ao contrário


Enquanto eu não ganho coragem para lá voltar e tirar a fotografia certa, ficam as instruções para quem for:
1. Esperar pelas 4 da manhã, para que os turistas se tenham ido todos embora para Florença e nas ruas só se ouça um bando de erasmus alcoolizados e os loucos da cidade;
2. Ir para o meio da praça;
3. Deitar no chão, sem recear o efeito das pedras geladas contra as costas;
4. Abrir os olhos.

Jogo? Qual jogo?


 

O melhor dos jantares

quinta-feira, junho 23, 2005

Antes só

Passo a tarde com a casa cheia de médicos arrogantes e mal-educados, engenheiros cinzentões e assistentes administrativas de centros de saúde que fazem cara feia pelo facto de o ar condicionado estar ligado, apesar de estarem 35º lá fora.

Nestes dias percebo a benção que é trabalhar sozinho.

Corta, Cola, Sincroniza, procura claquette, escolhe essa, procura o som só, deita para o lixo, bandas A e B, etc é a montagem do Arquivo geral que suga tudo...

quarta-feira, junho 22, 2005

E-vigarice

Na última semana recebi e vi vários anúncios, nos jornais ou através do meu e-mail, de cursos financiados de e-learning. Quando vi os primeiros mails achei que era piada. Depois vi os anúncios nos jornais...

Não E-já.tempo.de.acabar.com.a.vigarice.da.formação?

terça-feira, junho 21, 2005

Coimbra, sempre na vanguarda da cópia

Descubra as diferenças entre este site e este outro.

Escolha difícil


Paris-Brest

ou


Paris's breasts?

segunda-feira, junho 20, 2005

sexta-feira, junho 17, 2005

Boa notícia do dia

Já não tenho pavor (nem medo, ne receio, nem me dá a nervoseira) de falar em público. Algum dia tinha que acontecer...

terça-feira, junho 14, 2005

Notas de um fim-de-semana no estrangeiro e com estrangeiros

1. Os bancários em Espanha entram às 8 da manhã e saem, religiosamente, às 15h.

2. Na Noruega, uma amiga, gestora de produto de uma empresa de telecomunicações, trabalha 8 horas por dia, sem horário fixo, e cada hora trabalhada a mais (controlo feito pela própria) é acrescentada ao período de férias.

3. Em Saragoça uma imigrante ilegal que trabalhe a tomar conta de crianças, das 7h às 17h, cinco dias por semana, com direito a pequeno-almoço e almoço, ganha 600 euros por mês.

4. Quilómetros feitos em auto-estradas espanholas: cerca de 500.
Custo das portagens: 0 euros.

5. Quilómetros feitos em auto-estradas portuguesas: cerca de 500.
Custo das portagens: 35 euros.

Intimidade é

partilhar um mesmo número de telemóvel durante cinco dias.

quarta-feira, junho 08, 2005

"Que foi!? É pasta de dentes."

Proponho

Que na próxima época os treinadores possam entrar em campo para marcar penalties e livres directos.


terça-feira, junho 07, 2005

Tenho dentro de um dente um pequeno anão. Chama-se Sr. Silva e desempenha a nobre tarefa de desviar a língua da trinca: de dia, de noite ou à tardinha, eis, que com os braços empurra no último segundo a língua para lá da zona que trilha. Hoje, distraído com o aspecto estrelado de uma garganta inflamada, atrasou-se no movimento. Ferrei os dentes não no naco de carne, mas no cartilagíneo pescoço do Sr. Silva. A cabeça rolou de imediato para o lado direito da cavidade bocal. Como quem coça o dentro das gengivas, manietei-a com a delicadeza de uma língua que procura. Centrei-a, e libertando do garfo o resto dos grelos com que gosto de intervalar a picanha, levei-o assim limpo e paralelo aos lábios. Onde continua agora. Á espera. Tenho à minha frente senhoras e crianças e intuo que cuspir uma cabeça de anão não me favorece para o lugar e educador de infância.


Together they would travel on a boat with billowed sail
Jackie kept a lookout perched on puff's gigantic tail,
Noble kings and princes would bow whene'er they came,
Pirate ships would lower their flag when puff roared out his name.

segunda-feira, junho 06, 2005

Acordar e encontrar o invasor


1. Una mattina mi sono svegliato,
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
Una mattina mi sono svegliato,
E ho trovato l'invasor.

2. O partigiano portami via,
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
O partigiano portami via,
Che mi sento di morir.

3. E se io muoio da partigiano,
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
E so io muoio da partigiano,
Tu mi devi seppellir.

4. Mi seppellisci lassù in montagna
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
Mi seppelisci lassù in montagna
Sotto l'ombra di un bel fior.

5. Tutte le genti che passeranno
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
Tutte le genti che passeranno
Mi diranno «che bel fior!».

6. E questo è il fiore del partigiano
O bella ciao, bella ciao,
Bella ciao, ciao, ciao,
E questo è il fiore del partigiano
Morto per la Libertà.

Prefiro as guerras de pedras no cais do sodré, às gajas boas de Alcântara. Prefiro uma bola de Berlim e uma imperial, a red bull com saladinha. Prefiro discutir com uma prostituta a ordem numa fila para o pão, que discutir a subida do I V A ou o melhor caminho para a praia da comporta, com um amigo do amigo. Prefiro fugir à polícia, a fugir aos perdigotos da pergunta: "então o que fazes?" ou da afirmação: " temos que combinar alguma coisa". Prefiro uma cidade vazia a uma praia cheia.

sexta-feira, junho 03, 2005

A tendência suicidária que transpira das afirmações apodícticas de fim de um blog, encantam-me: tanta estridência, tanto desejo de exibir a morte, tanto cristianismo...

quinta-feira, junho 02, 2005

Se pudesse era bruxo. Vestia um fato preto, tinha um escritório com vista para o mar e recebia pessoas das 14:00 às 17:00 com gelado de morango no Verão, e chá de hortelã e menta no Inverno. Falava pausadamente, tirava notas com uma caneta de tinta sépia e oferecia café quente com bolos de manteiga finos. Ás perguntas dos consultados saberia responder com segurança, certeza e sem hesitar. Falaria com tal verdade que os visitantes a reconheceriam sem mais. Ás vezes, diria o óbvio, outras o estranho e o grotesco se necessário. A gente entrava com dúvidas e saía com certezas, eu entrava às duas e saía às cinco.

quarta-feira, junho 01, 2005

Ás duas da tarde o sol vaporiza tudo. Pelo menos naquela rua. Cheia de pó e árida. Um espelho da luz incandescente do sol a pique. Bem no meio das ondas de calor: um homem. Baixote, atarracado, sem pescoço e a acartar baldes de tintas cheios areia. É pedreiro. O único no pais que trabalha às duas da tarde debaixo do calor extremo. Barriga em "b" descaído, camisa aberta até ao umbigo, cara redonda e cigarro acesso equilibrado na ponta dos lábios. A brutalidade do trabalho é contraposta pela delicadeza de fumar e pela finura do comentário. Agarra num balde cheio de areia fervente, instala-o ao ombro, dá-lhe apoio com o pescoço e roda em direcção à casa que está a construir. Um revirar de olhos, uma baforada delicada e o litro de vinho do almoço pare a primeira nota oral vespertina: "queres mais investimento, tu queres é a coroa peniana dentro da cavidade oral."

terça-feira, maio 31, 2005

Sei de um anão que pensa que sim. Porque é anão. Porque é anão pensa que sim, podia pensar que não, mas assim não seria anão, seria assim. Sei de um assim que pensa que não. Porque é assim. Porque é assim pensa que não. Sei de um tipo que escrevia cartas circulares, veio um lençol e perguntou-lhe pelos ofícios. As artes, os saberes e os sabores. Um dia chegou... esse mesmo. Esse "um dia".

Não nos processem, é só na palhaçada!


 

(recebido por e-mail)

Três frases sobre perdão (ou o tema bloguítico do momento)

"Consigo perdoar a um homem, mas não por palavras; Perdoarei um homem que prove, pelos seus actos, que já não é aquilo que foi."
Primo Levi

«Pedimos perdão e somos capazes de o dizer sem embaraço perante os outros. Mas temos uma séria dificuldade em dizer o quê e quem perdoamos. Dar perdão profundo, apagando todo o vestígio de ressentimento, é talvez o mais exigente dos gestos diante da experiência da dor e da ofensa. A sua dificuldade é a expressão do nosso fechamento.»
palombellarossa.blogspot.com

"(...) porque quem não pede perdão/ não é nunca perdoado."
Vinicius de Moraes e Tom Jobim

Com agradecimentos ao Mar Salgado, Mercuriocromo e Bomba Inteligente, respectivamente.

segunda-feira, maio 30, 2005

NON, ou a útil glória de votar

Crise na Europa; Descontentamento com o governo; Rejeição da Turquia; Medo da China; Cepticismo em relação à Europa.

Procuram-se mil razões rebuscadas para o NÃO francês à Constituição Europeia, mas a explicação, afinal, está tão perto. Está aqui:

Andei por França, nos debates pelo OUI de 23 a 26 deste mês.

quinta-feira, maio 26, 2005

as aventuras de João Deão

Quando ela lhe perguntou se tinha preservativos ele corou. De raiva não de vergonha. Durante toda a tarde adiara a compra dos ditos para logo que saísse de casa depois do jantar. Mas esse jantar de quarta-feira terminou com o pai a chamar-lhe inútil. E isso teve duas consequências que lhe marcariam a vida: nunca mais voltar a casa e esquecer-se de cumprir o que toda a tarde planeara. "Não, esqueci-me". "E agora?" perguntou ela. Por mim, que se lixe-pensou. Porém disse: "vou comprar, demoro dois minutos". Vestiu as calças, ajeitou a camisa e escada abaixo. Porta da rua. Cruz verde ao fundo. Passo rápido. Olhar focalizado nos neons.

quarta-feira, maio 25, 2005

Feito a lápis de cor

Já não te lia há tanto tempo. (Não, os meios modernos de escrita não contam.) Já não te lia mesmo há muito tempo. Já tinha saudades (e nem sabia...) dessa escrita fechada, densa e, ao mesmo tempo, harmoniosa. Dessa escrita em que os parágrafos em que te mostras têm pouco de ti e em que nos outros, quando te escondes, posso apostar que estás inteira. Reconheci o teu texto, a tua forma de escrever, como se reconhece um cheiro importante que não se cheira há vinte anos.

Acredito que as pessoas deveriam estar distribuídas pelas casas do mundo segundo um critério de afinidade. Sonho com uma vida num bairro em que os meus vizinhos são os meus amigos e pessoas com quem gosto de estar e falar. Há milhares de pessoas no mundo que, neste preciso momento, discutem se nos supermercados os jornais devem estar ao lado dos livros ou ao lado dos croissants. Querem saber se leio notícias como quem lê um romance ou se passo os olhos pelas páginas enquanto tomo o pequeno-almoço? Por mim, ponham os jornais ao pé do papel higiénico! Por que é que não se preocupam antes com quem mora no 2.º esquerdo, ali bem ao lado do meu 2.º direito?

Se alguém o fizesse, se alguém o tivesse feito bem, o meu apartamento, estritamente à medida das minhas necessidades, seria geminado com a tua vivenda espaçosa, com jardim e cão aos saltos. Falaríamos todos os dias, tu mostravas-me as coisas que escreves e eu nunca teria estado tanto tempo sem te ler.

Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós

segunda-feira, maio 23, 2005

O que faz um ministro das finanças?

"O défice público em Portugal é de 6,83 por cento do Produto Interno Bruto (PIB), disse hoje o ministro de Estado e das Finanças, Luís Campos e Cunha, no final da reunião com o governador do Banco de Portugal, que entregou ao Governo um relatório sobre a situação financeira do país.

O ministro reconheceu que o valor apresentado hoje pela comissão liderada por Vítor Constâncio está acima do que esperava,..."


O ministro das finanças, em exercício há vários meses, é surpreendido pelo valor do défice... Se o ministro não tem obrigação de saber o valor do défice,tem obrigação de saber o quê?

Frase do dia

Em França, os Campos Elísios encheram-se de camisolas vermelhas.

Noticiário da RTP-N

A puta da loucura