segunda-feira, janeiro 31, 2005

cem palavras 15

Livraria
A estrutura de estantes e prateleiras está marcada por um livro. Aconteceu na inauguração da loja. Tudo a postos, e eis que centímetros a menos num pé de uma estante podiam fazer ruir o sonho de uma vida. Improvisou-se. Um livro foi transformado em calço. Os anos correram e nunca ninguém duvidou da competência com que o livro desempenhava as suas funções. Hoje, um miúdo de 5 anos entrou na livraria e decidiu comprar o seu primeiro livro. O calço. Os donos divididos entre o brio do serviço e a continuidade da loja ainda não sabem o que fazer.

Sabedoria metafórica

Da boca de um grande amigo, este fim-de-semana, para a vida dele e para a minha:

Neste momento a minha vida é um sistema de três equações a quatro incógnitas.

A Gabardina propõe o seu choque

não tecnológico, nem de gestão, nem de valores. Um choque eléctrico para Sócrates, Santana e Portas.
Os texanos têm o know-how. É só fazer o benchmarking!

quinta-feira, janeiro 27, 2005

Demasiado real

Demasiadas pessoas à minha volta estão a precisar de ler o Calvin. Aqui fica o meu contributo, para quem não teve tempo de ler o Público de hoje.

 

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In spite of that warning voice

that repeats and shouts in my ear

Nestes dias em que todos os versos de todas as músicas que ouço fazem sentido, nestes dias em que o teu nome está em todos eles, odeio o Damien Rice e a Katie Melua e o Sinatra e todos os outros!

Eu devia ter ouvido era o Freddy Mercury, logo de manhã a sair da VH1 com o seu fato de cabedal branco...
I don't want to die, but I sometimes wish I'd never been born at all...

O melhor a fazer era ficar na cama. Para a próxima já sei.

cem palavras 14

Alergia
João nasceu marcado pelos livros. Não que os escreva, edite, venda ou recite. Nada disso. Ao João quaisquer duas folhas agrafadas, causam uma brutal reacção alérgica. Bolhas nas mãos, dor nas articulações e músculos eis o que um simples olhar para uma vitrina de uma livraria provoca. Médicos, mais de cem. Bruxas a perder de conta. "Tome estes comprimidos com estas vitaminas", "experimente este chá e este emplastro". Nada. João, personagem de um livro, está lá fora sentado à espera de cura no escritor que o inventou assim. "Quem é? Ah! és tu João, entra?.

Many's the time I've been mistaken / And many times confused

Um coveiro demasiado dedicado enterrará o amor da sua vida, um dia depois de este ter morrido.

quarta-feira, janeiro 26, 2005

And so it is

É possível que o meu mundo esteja em loop?
Ou será só o Windows Media Player?

terça-feira, janeiro 25, 2005

A história da minha vida

Às vezes os que me são próximos dizem tudo o que tenho para dizer. Ainda não tinha digerido este Acaso que Falou e já o lgm, um desconhecido-a-uma-pessoa-de-distância, arrasava comigo: Os meus amigos querem mulheres; as minhas mulheres querem amigos.
Hoje não escrevo mais.

Investimento estrangeiro

O investimento estrangeiro em Portugal não pára de surpreender. Uma nova e poderosa multinacional virá instalar-se em Portugal daqui a cerca de um mês. Depois da chegada do IKEA, esta será a inauguração mais importante de 2005.
O director da GAYS'R'US internacional explicou à Gabardina que Portugal é neste momento, devido à sua situação política, o local ideal para lançar esta marca.
Aproveitando a simultaneidade de Carnaval e eleições legislativas, a primeira loja da cadeia, em São Bento, será inaugurada com um baile de máscaras, para o qual foram convidados os líderes dos principais partidos portugueses.





Segundo o director da GAYS'R'US, só Santana Lopes não foi convidado, por tal convite ter sido considerado absurdo. Louçã e Jerónimo de Sousa recusaram. Espera-se a todo o momento as respostas de Portas e Sócrates.


Nota: Este é, para já, um texto de ficção. A Gabardina pede desculpa à GAYS'R'US pela utilização do seu símbolo, mas depois de o ter encontrado on line, não conseguiu resistir a utilizá-lo.

segunda-feira, janeiro 24, 2005

cem palavras 13

Livro 11 e 175

George, empregado numa seguradora, vai ser marcado por um livro que nem sequer conhece. Depois de uma directa a trabalhar, boceja e tenta manter-se acordado. Olha pela janela do seu escritório do 100º andar da torre norte do World Trade Center e surpreende-se com um ponto negro que se aproxima a grande velocidade. Os responsáveis por esse pontinho que aumenta na direcção da janela de George, avançam em nome de um livro. Em nome de um livrinho onde - dizem eles ? está a Verdade. A verdade não está nos livros e George morre.

Sexo - Oferta e Procura

Devia existir um mercado de sexo à imagem do mercado de trabalho. Não o que existe, o da prostituição. Não é sobre isso que escrevo. Este seria o resultado de um direito constitucional:



"1.Todos têm direito a sexo;

2.Para assegurar o direito ao sexo, incumbe ao Estado promover:

a) A execução de políticas de pleno sexo;
b) A igualdade de oportunidades na escolha de parceiro ou género de parceiro e condições para que não seja vedado ou limitado, em função do trabalho, o acesso a quaisquer corpos, carinhos ou actos sexuais."


As relações entre os parceiros estaria definida num contrato, não obrigatoriamente o de matrimónio, que estabeleceria os períodos mínimos obrigatórios para a actividade sexual. A isenção de horário de sexo seria condição obrigatória. Uma vez desfeito o contrato - bastando para tal a manifestação de vontade de uma das partes - o Estado asseguraria, num sistema semelhante ao da Segurança Social, mas que funcionasse, os serviços sexuais mínimos, por parceiro equivalente ao perdido, por um período que variaria de um a três anos após a data do fim do contrato. Durante este período o Estado financiaria, directamente ou com recurso a fundos comunitários, programas de reconversão sexual para os desemparelhados. O mesmo se aplicaria nos casos de baixa médica, para o consorte saudável.

As situações de sexo esporádico, ocasional ou temporário estariam abrangidas pelo regime da camisinha verde, sem direito às regalias sociais acima descritas.

Quanto às horas extraordinárias... bem, não se antevê que elas venham a ser fonte de polémica.


Nota: Este texto não está totalmente desligado do visionamento do filme referido no post anterior.

No love, no glory

O melhor do filme Closer é mesmo esta música. Sim, mesmo contando com a Natalie Portman...

And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial

I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off of you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes off you
I can't take my eyes...

Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?

I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off of you
I can't take my mind off you
I can't take my mind off you
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new

Cem palavras 12

Marcados pelo passaporte

Os passaportes são livros. Pequenos, elegantes e com páginas coloridas de carimbos imperceptíveis a lembrar que nem toda a gente pode ir para onde quer. Os vistos marcam os passaportes, e estes os seus titulares. Por vezes para sempre. Aristides Sousa Mendes nunca teve dúvidas. Os passaportes, livrinhos com fotografias de pessoas, se possuírem o visto correcto, marcam para sempre as pessoas por detrás das letras e dos nomes, e as vidas por detrás das nacionalidades e das religiões. Foi o tempo em que a vida estava marcada por um livro. Pelo passaporte. Como hoje aliás.

sexta-feira, janeiro 21, 2005

"Jose Socrates homosexual"; "José Sócrates homossexual"

São as pesquisas nos motores de busca que fazem movimentar a blogosfera neste dia. A Gabardina já publicou textos com todas aquelas palavras (nunca juntas), e por isso já teve vários acessos através destas buscas.

Depois dos textos do Giba Um no Brasil (texto de 5/1/2005, agora só disponível na versão politicamente correcta) e da notícia do jornal Crime de ontem, outra coisa não seria de esperar...

Questões relevantes surgem:

Onde estás tu Carlos Candal, agora que o lobby gay do PS precisa da tua doutrina?

Valerá a pena fazer uma sauna na presidência do Conselho de Ministros?

Por que está calado José Sócrates? (e não digam que ninguém tem nada a ver com isso, que todos os dias estes tipos falam por muito menos)


Venha de lá essa declaração ao país!!!

quinta-feira, janeiro 20, 2005

Encaixes

Sou uma peça de um puzzle que tem mais 2999 iguais a mim. Faz agora semana um rapaz abriu a caixa que dizia "Guernica, 3000 peças" e nos espalhou a todas em cima de uma mesa grande. E ainda cá estamos. Sou uma peça preta, toda preta, de ali de ao pé da pata do touro. Na fábrica, depois de nos terem cortado e separado, perdi de vista as quatro peças em que eu encaixo - tenho duas linguetas e dois buraquinhos. Tenho medo de nunca mais as reencontrar...
Estamos aqui há dias, e nada. Duvido que este tipo nos consiga juntar. Acho que já nem mesmo o Senhor que nos desenhou, mandou cortar e separar, saberia a que sítio pertenço eu.



Há mais 600 todas pretinhas, iguaizinhas a mim! A maior parte delas também com dois buraquinhos e duas linguetas... Brancas são outras tantas, e cinzentas nem se fala... Umas dezenas têm linhas e círculos e por isso estão já a ser postas junto ao seu sítio provável. Mas nós estamos separadas por caixas, com outras iguais a nós...
Preciso de quatro peças: duas que encaixam em mim, duas em que eu encaixo. E não as encontro. A noite passada enchi-me de coragem e gritei: "Alguém de ao pé da pata do touro?" Mas ninguém me respondeu... Se ao menos eu encaixasse com uma daquelas que tem um lado todo direito, seria mais fácil pôr-me no meu lugar. Mas nem nisso tive sorte... Tenho medo que um dia o rapaz perca a paciência e nos ponha assim - amontoadas em caixas - para dentro de uma gaveta.
Por isso já fiz amizade com outras quatro peças pretas. Duas estão encaixadas nas minhas linguetas e as outras encaixaram-se em mim. Nenhum encaixe é perfeito. Entre mim e cada uma delas fica um espaço. Não sei se se nota muito... Acham que haverá problema por estarmos assim? Acham que podemos ficar juntas? Acham que se nota muito? Acham?

cem palavras 11

Os livros gato

Os livros que me marcam foram, são e serão aqueles que não consigo amestrar. A estes chamo: os meus livros gato. Quando os leio, sei que como os gatos, qualquer página pode morder. Apesar da macieza de alguns parágrafos, da luminosidade doce das frases ou da agilidade de certos verbos, sei que ao mais leve despertar do livro gato sofrerei a aspereza das garras num ofuscante clarão truculento. E é por este risco permanente, que continuo a ler estes felinos feitos letras. A quem queira evitar as arranhadelas um conselho: desconfiai sempre dos livros que ronronam.

quarta-feira, janeiro 19, 2005

Arte contemporânea é isto!



O bicho na foto não é um elefante mas sim uma elefanta, ou uma elefante, como dizem agora os politicamente-correctos.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Lixo contemporâneo

No Centro de Artes e Espectáculos (CAE) da Figueira da Foz descobriu-se agora que foi uma empregada da limpeza quem deitou para o lixo uma instalação que era na verdade um lavatório partido.

Os directores do CAE apressaram-se a garantir que será dada formação em arte contemporânea ao pessoal de limpeza.

A mim parece-me que seria mais útil dar formação em limpeza aos artistas contemporâneos...

um amigo para a vida

Tinha 40 anos, era professor de latim e fumava SG Filtro. Tresandava a tabaco. O odor emergia do bigode cerrado, volumoso e amarelecido. Colocava os dedos que entalam o cigarro muito junto dos lábios pressionando-os contra os dentes. Arregalava os olhos, chupava força, e as bochechas metiam-se-lhe cara dentro. Em seguida, retirava o cigarro da boca (ficando este muitas vezes preso na secura do lábio superior) esticava a língua tesa, pontiaguda e muito lisa, para fora, e mantinha uma massa de fumo cinzento na garganta, que logo, de um trago, inspirava com um pequeno silvo. Porém desse fumo imenso, apenas expirava uma ligeira nevoazita que lhe descia pelo nariz, amarelecia o bigode por debaixo das fossas nasais, e se espraiava levemente contra o vidro da mesa onde estavam os cadernos e o dicionário. As aulas eram dadas numa pequena mesa, com uma camilha de renda coberta por um vidro redondo. No meio, um cinzeiro atulhado e anguloso, por cima, um candeeiro redondo que continha a luz nos limites da mesa. E era assim, que este homem garantia duas vezes por semana a experiência do asco e da repulsa. Falava pouco, exigia muito e era absolutamente justo, mas tinha esta forma de fumar, que se sobreponha a tudo. Ou a quase tudo. Pois mais intenso só os toques ocasionais que ao descruzar as pernas, ou a mudar de posição na cadeira, dava sem querer nas pernas do professor. Que arrepio! Era como meter bem fundo as mãos naquela língua hirta e seca. O medo, esse, nascia quando os botões da manga do casaco tocavam no vidro da mesa para ementar a vermelho no meu próprio caderno, algum erro no caso, ou na declinação.

segunda-feira, janeiro 17, 2005

O meu fim-de-semana

If you took all the girls I knew
When I was single
And brought them all together for one night
I know they'd never match my sweet imagination
Everything looks worse in black and white

Laughing on the bus
Playing games with the faces
She said the man in the gabardine suit was a spy
I said "Be careful his bowtie is really a camera"

Now I sit by my window and I watch the cars roll by
I fear I'll do some damage one fine day
But I would not be convicted by a jury of my peers
Still crazy after all these years

I'm dappled and drowsy and ready to sleep

Time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence
A time of confidences

I dreamed that my soul rose unexpectedly
And looking back down at me
Smiled reassuringly

You know the nearer your destination, the more you slip sliding away

And then she kissed me
And I realized she probably was right
There must be fifty ways
To leave your lover





"Kathy, I'm lost", I said, though I knew she was sleeping...

Se não aconteceu, pode ainda vir a acontecer

O Ministério das Finanças está a lançar um programa de troca de preservativos por fraldas. Inspirado no proveitoso programa de troca de seringas, esta medida visa superar a injustiça resultante das taxas de IVA serem actualmente mais altas para as fraldas do que para os contraceptivos.

A Gabardina está em condições de adiantar que a ideia inicial do ministro Bagão Félix seria proceder à troca de preservativos usados por fraldas novas. No entanto, e após um encontro com o Padre Pintor Finto nas instalações do Colégio S. João de Brito, foi decido avançar só para a troca de preservativos novos e selados. Na opinião do Sr. Padre, não deve o governo promover o pecado, premiando-o, tendo mesmo afirmado que a igreja é da opinião de que "não vale a pena oferecer fraldas depois de o mal estar feito, e muito menos chorar sobre o leite derramado".

MANTORRA


A alegria está de volta!

A bomba que põe lá o cheiro a Chanel

The Pentagon was considering developing a 'homosexual sex bomb' designed to make enemy troops gay, it has been revealed.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Só sei que nada sei

Sócrates afirma que não voltará a dar os benefícios fiscais aos PPRs e PPHs. Eu acho bem. Fico mesmo muito contente. Mas não foi o Sócrates que votou contra o orçamento de estado por causa deste "ataque à classe média"?

cem palavras 10

Cor-de-azul

A rosa azul é a pedra filosofal da botânica. Nem os milénios do oriente, nem as genéticas do ocidente. Nem a sabedoria popular e muito menos a esterilidade hospital. Nada, nem ninguém, conseguiu azular o rosa da rosa. Apenas um livro o fez. A flor foi colhida há 150 anos no Porto e colocada no meio de um livro impresso a tinta azul. Como a flor marcava o livro na página essencial para o seu leitor, também o tempo, o acaso e o livro marcaram para sempre esta flor.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Cultura a quanto obrigas, em Coimbra

Em Coimbra, nos grandes espectáculos, é comum as primeiras filas das salas estarem reservadas para os convites aos Srs. Professores Doutores e restante gente culta da cidade. Nos menos mediáticos, mesmo que a lotação esteja esgotada, é habitual que as três filas da frente fiquem vazias. Nos restantes lá aparecem as personagens, nunca vistas nas salas de teatro e cinema, com os seus melhores fatos, acompanhados pelas suas esposas de golas de peles e cabelo armado.

A Câmara, claro, subsidia. Ora descobrimos hoje que a Câmara subsidiou com mais de 200 mil euros (!!!!) uma ópera realizada em pleno Pátio da Universidade, em Julho de 2003. A política de convites foi difícil, como é de imaginar. Nos dias do espectáculo havia mesmo corredores diferenciados para convidados mais e menos importantes. Trocaram-se olhares de inveja e vergonha entre catedráticos do corredor A e doutores e engenheiros dos corredores B e C. O povo, esse, paga e bem para assistir aos espectáculos no Pátio da Universidade.

Neste caso alguém saiu a ganhar. O produtor do espectáculo fugiu com a receita de bilheteira. Mas a Câmara de Coimbra foi rápida a descobrir a tramóia! Isto foi em Julho de 2003 e logo em Agosto de 2004 o assunto já tinha sido entregue no Gabinete Jurídico da autarquia. Eficazes estes autarcas. São rápidos. Espertalhões. Vivaços! Competentes... Bonzinhos... Estúpidos, são muito estúpidos... Ou não...

cem palavras 9

E se...
...o leitor ao ler um livro corresse o risco de ser sugado como a luz num buraco negro. Impossível! Pois já aconteceu. A mim. Várias vezes aliás. A primeira vez foi na praia, a ler as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura, viro a página e zás: de repente, estava a ser manteado com Sancho Pança. Caí no chão, apresentei-me ao senhor do meu companheiro de infortúnio e não fosse um valente sopapo que me aplicou nos queixos, e me fez recuar com violência para fora do livro, ainda hoje viveria pendurado em alguma linha.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Versos de 2005, até agora

If I hadn't seen such riches
I could live with being poor

Serviço Público de Televisão seria

A TVI passar as imagens do então Ministro do Ambiente José Sócrates a oferecer pancada a um jornalista nas Salinas do Samouco.

A descrição, versão soft, do que aconteceu está aqui. Eu vi as imagens na altura e garanto-vos que foi bem mais interessante!

Três mentiras que os portugueses dirão em 2005

"Estes tipos do Gato Fedorento agora já não têm piada nenhuma!"

"O Durão até estava a fazer algumas coisas boas. Depois o Santana é que estragou tudo!"

"O porto não ganhava só por causa dos árbitros!"

segunda-feira, janeiro 10, 2005

cem palavras 8

O primeiro
Leitor e eu, moscas de pernas para o ar no tecto desta oficina aguardamos que Johannes Gutenberg, neste dia 31 de Julho de 1440, volte ao seu trabalho. Gutenberg abre a porta, deixa que a aragem fresca de Estrasburgo medieval nos agite as asinhas e rasga o primeiro pergaminho impresso da história da humanidade. Depois, leva a mão à cabeça e inicia uma nova impressão. Gutenberg, lá em baixo e ao contrário, não sabe, mas acaba de iniciar a impressão de parte de um livro que o marcará para sempre. "A bíblia de 42 linhas".

Guerra em Portugal

Enquanto, nas televisões e nas rádios lusas, uma laranja podre e um cunami co-incinerado fingem guerrear para arranjar tachos para os seus amigos, uma verdadeira guerra, que pode ser importante para nós, acontece nas lojas da Sonae Distribuição.

Depois de quase duas décadas em escandaloso acordo (tácito ou não) com os seus fornecedores a surpresa pode agora ser vista nas prateleiras (ou nos lineares, como eles gostam de lhes chamar) dos Modelos e Continentes do país.

Até há pouco tempo o acordo era simples e lucrativo. Os fornecedores faziam volume na Sonae e faziam margem nas restantes lojas. Ganhava a Sonae, ganhavam os fornecedores, as restantes lojas iam sobrevivendo e lixava-se o consumidor, que tinha por cá preços de supermercado altíssimos, apesar dos salários ridículos dos funcionários dos supers e hipers.

Mas a crise chegou e, com ela, as lojas de desconto que se poderiam ter transformado em sítios parolos a que ninguém iria, transformaram-se em locais de culto.

A Sonae parece ter percebido isso e depois dos joguinhos do talão de desconto para os combustíveis, avançou decidida para a venda de produtos sem intermediário.

Nas lojas Modelo e Continente podemos encontrar, de há uns meses para cá e cada vez mais, produtos de marcas como "Sol", "Tal" ou "é". Produtos sem campanhas de publicidade, mas colocados em posições privilegiadas nas lojas. Produtos de boa qualidade por cerca de 60% do preço dos produtos das outras marcas.

Custos de marketing perto de zero e compras directamente ao produtor permitem certamente à Sonae manter as suas margens, vendendo ainda mais barato que as lojas de desconto.

Assim sendo, quem perde o comboio são os fornecedores. Vamos ver como reagem estes... Esperarão serenos por dias melhores ou vão partir para a guerra vendendo mais caro à Sonae e mais barato aos restantes?

A nós, resta-nos seguir na onda e aproveitar os preços mais baixos. Desta guerra poderá sair algo de bom para nós. Algo que a Autoridade da Concorrência parece incapaz de fazer...

cem palavras 7


"A"
O "A" é um rapaz marcado. Marcado por um livro e por uma traça. No saboroso livro onde foi registado o seu nascimento, passeou-se um dia uma traça esgalgada de fome que lhe comeu o resto do nome. Quando aos nove anos, ao pedir um bilhete de identidade, foi confrontado com o insólito, pediu à mãe e ao pai para que ementassem o erro. Estes, gente pobre e com medo das burocracias, perderam-se em requerimentos, exposições, esclarecimentos e pedidos e nunca conseguiram nada. Hoje, graças ao nome é um homem rico. É agente demonstrativo e exemplificativo.

sábado, janeiro 08, 2005

cem palavras 6


Respirar
Todos os livros são como a respiração. Por isso, dividem-se em duas categorias. Os que inspiram e os que expiram. O primeiros, marcam?nos com a inspiração serena de nobilíssimos ideais, com a inspiração sôfrega de golfadas caóticas de vida ou com a inspiração sábia do conhecimento. Os segundos, os que expiram, marcam-nos com vazio profundo sem fim e sugando-nos a vida, sangram-nos para dentro do abismo que contêm. Os livros que expiram cansam, os que inspiram revigoram. Sempre preferi os livros que expiram aos livros que inspiram, porque para expirar é necessário ter ar nos pulmões.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

cem palavras 5

Alergia
João nasceu marcado pelos livros. Não que os escreva, edite, venda ou recite. Nada disso. Ao João quaisquer duas folhas agrafadas, causam uma brutal reacção alérgica. Bolhas nas mãos, dor nas articulações e músculos, eis o que um simples olhar para uma vitrina de uma livraria provoca. Médicos, mais de cem. Bruxas a perder de conta. "Tome estes comprimidos com estas vitaminas", "experimente este chá e este emplastro". Nada. João, personagem de um livro, está lá fora sentado à espera de cura no escritor que o inventou assim. "Quem é" "Ah! és tu João! entra".

quinta-feira, janeiro 06, 2005

Brasil

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(recebido por e-mail)

quarta-feira, janeiro 05, 2005

cem palavras 4

Consulta

A consulta de dermatologia foi marcada por um livro. Então, de que é que se queixa? - pergunta o médico com a voz romba de 30 anos de tabaco. São estas manchas no prólogo, está a ver? e agora no índice de fim também me estão a aparecer. Mas o aspecto nem é o pior, a comichão é que me custa - diz o livro roçando a vigorosamente a lombada contra a cadeira. Não se preocupe que não é nada de especial, ponha esta pomada de seis e seis meses e pense em fazer umas termas no Inverno.

É preciso ter

A esperança é a última a morrer. Não há ditado mais verdadeiro para mim. Morrerei seguramente antes de todas as minhas esperanças. E sei que mesmo nesse dia continuarei a acreditar nelas, pelo que por cá ficarão depois da minha partida. Acredito sempre na reviravolta de última hora; acredito sempre que ainda vou conseguir. Entristece-me quando já não tenho expectativas em relação a determinada coisa. Por isso não tenho escrito sobre as próximas eleições, sobre Portugal.

Mas não faltam provas de que vale a pena ter esperança. Almocei hoje com a esperança suprema, ainda escondida numa barriga de oito meses e meio. Dela tudo se pode esperar, não pode haver esperança maior (por isso se diz "estar de esperanças"?). Enquanto existirem nascimentos a esperança continuará cá para ser a última a desaparecer.
Ainda não nasceste e já me faz bem almoçar contigo.

cem palvaras 3

Plano

Um homicídio não é coisa sem importância. Mais que o resultado, importa o processo. Equilíbrio, estética e ironia pautaram sempre a carreira de Matilde como assassina profissional. Ao cabo de 30 anos no ramo da morte a soldo, estava decidida a fazer deste o seu último trabalho: dar um sumiço a um juiz corrupto. Ia marcá-lo com Código Penal anotadíssimo. Um calhamaço denso, incompreensível e injusto. Foi enquanto despachava sozinho no gabinete, que 4 quilos de papel lhe partiram a espinha que nunca teve. Matilde tomou o resto do chá morno e partiu para a Florida.

terça-feira, janeiro 04, 2005

Escrever sem dizer

Constrói-se o sentido
no limite das coisas que ficam por dizer
(...)Escrevo sem poder dizer nada...
Como se os limites por mim impostos
começassem a ceder(...)
começassem a escassear, fugir, transgredir(...)


I.M., 3 de Janeiro de 1994

Dúvida

À minha volta, nos primeiros dias de 2005, as pessoas parecem dividir-se em dois grupos: os que aceitam e os que questionam. Os primeiros estão mais opulentos, os segundos mais felizes.
A longo prazo o dinheiro comprará felicidade?

Cem palavras 2


O espalho
Quando volto à infância e relembro as tardes de profundo tédio infantil em que escalava as prateleiras da biblioteca parental, recordo um livro pequenino e um trambolhão enorme.
Deitado na última prateleira junto ao tecto, com a cabeça e os braços pendentes sobre o vazio, reparei que à distância do meu braço esquerdo estava um livro: "A queda" do Camus. Para o alcançar desloquei-me para a frente. Demasiado. Pois logo que agarrei o livro, fiz o caminho até ao chão de cabeça. "A queda" marcou-me para a vida: uma aguda dor lombar sempre que arrefece o tempo.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Cem palavras 1

No Verão passado quem lesse com atenção as páginas do Diário de Noticias ficava a saber de um concurso literário denominado de Cem palavras. A ideia era em 100 palavras escrever um texto subordinado ao tema: marcado por um livro. Havia dois prémios: um para o melhor texto da semana e outro para o melhor texto de todos. Um livro, e uma viagem aos Açores, respectivamente. Ganhei um livro e a publicação de um dos textos. Qual? não sei, pois não comprava o D.N todos os dias e só quando recebi um livro trilhado na caixa de correio é que liguei a bota com a perdigota, neste caso, o texto enviado com o prémio recebido. Os textos que seguem sob o titulo "Cem palavras" são alguns dos que enviei. A escolha do menos mau ficará ao leitor Gabardinesco.

Livros que marcam

Os livros não marcam, infectam. Os que interessam claro. Os que guardamos à distancia de uma prateleira e que verificamos todos os dias com o olhar.
Os maus livros marcam e os bons livros levam-nos aos imprescindíveis. E são estes que infectam. Que nos infectam. Primeiro, põem os seus ovos. Depois, se o colo que os receber estiver com a temperatura exacta, eclodem e invadem todas as células do corpo. São capazes de engenharia celular. Extraem toda a informação do núcleo das células e preenchem esse espaço vazio com uma frase, ou com uma ideia.

quinta-feira, dezembro 30, 2004

Adeus 2004: Porque

Chega o fim do ano e acho que é suposto dele fazer o balanço e o resumo. Penso que texto repostaria como "o" do meu ano. Só me vem à cabeça este, que ainda há poucos dias revi aqui ao lado, no Amor e Ócio. Talvez também por isso, mas, de certeza, pelos dois significados que nele consigo ler e pela média que ele me parece indicar, logo a mim que não gosto nada de médias...

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia Andresen

Até para o ano!

quarta-feira, dezembro 29, 2004

Movimento de Utentes da Saúde

À medida que a situação do país piora - e ela não não pára de piorar há mais de dez anos - as pessoas começam a agarrar-se só ao essencial.
Já poucos querem ouvir falar de défice, de convergência, de economia, de investimento. As grandes preocupações voltam a ser mais básicas: saúde e educação.
Em Coimbra nasceu um movimento de cidadãos preocupados com o estado da saúde em Portugal. Um Movimento que faz muito sentido numa época em que a Saúde passa a holding e a prometida Entidade Reguladora não parece ter vontade de arrancar. Podem visitá-lo aqui.
É a nação que ainda mexe. Ou, pelo menos, estrebucha...

Masoquismo

Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain,
I'll be on my knees to feed her,
spend a day to make her smile again
Even though I'll never need her,
even though she's only giving me pain
As the world is soft around her,
leaving me with nothing to disdain.

Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe and sound.
Even though I'm not her minder,
even though she doesn't want me around,
I am on my feet to find her,
to make sure that she is safe from harm.

The sun sets on the war,
the day breaks and everything is new...

Contra a co-incineração... Matilde

Matilde Sousa Franco será a cabeça-de-lista do PS por Coimbra.

"A ela ninguém fará perguntas sobre a co-incineração!", poderá ter sussurrado Tó-Zé Seguro ao ouvido de Sócrates.

Para Setúbal fala-se já daquela simpática velhota portuguesa de 112 anos, a segunda mais velha do mundo.

Grande homenagem à sua candidata fez o líder do PS local, Victor Baptista, ao afirmar que "a escolha é um sinal de que o PS não esquece Sousa Franco".

terça-feira, dezembro 28, 2004

Partir e ficar é possível

As grandes viagens de carro têm em mim um duplo efeito. Gosto muito de viajar assim, de ver a paisagem, de parar onde e quando me apetece, de ir sem rumo. Mas deprime-me sempre um pouco pensar nos milhares de histórias que passam por mim na auto-estrada sem que eu dê por isso. Dentro dos carros e das auto-caravanas passam milhares de histórias de vida: discussões, paixões, gritos, beijos, solidões... de vidas que nunca conhecerei.

Às vezes acontece o contrário também. Às vezes, em estradas diferentes, em direcções divergentes, duas pessoas vão mais juntas que nunca. Apesar de irem em carros diferentes, de se estarem a afastar, levam-se uma à outra.

Anita dia 209 (cont)


A massa orgânica putrefacta que explodiu da barriga do homem e que me olhou bem nos olhos, está sossegadinha dentro de um frasco redondo de formol. À interpelação de ontem reagi com medo. Afastei-me e meti-me debaixo dos meus lençóis: duas placas de aço inoxidável. Espreitei para a sala e durante duas horas observei como se suspendia no meio da sala. Tinha a forma de um ramo de flores, a textura dos caules encostados uns aos outros e a cor da caraça de um canídeo surpreendido pelo rodado massivo de um autopullman em serviço para Santiago de Campo das estrelas: vermelho escuro, com linhas pretas da coagulação ao sol a envolver o branco dos tendões sujos do macadame que milhares de automóveis já pisaram. Rodava si mesmo lentamente como se me procurasse. Demorou-se e acabou por cair no chão, como no chão cai o esparguete.
Pelas nove da manhã uma pá de plástico segura por uma mão feminina raspou a massa seca do chão, verteu-a ainda liquida para dento de uma tina e dai para dentro de um frasco com o seguinte rótulo. "eflúvio magnético-orgânico nº 43 009".
Na sala dos frascos há milhares destes contentores transparentes. Filas que cruzo perpendicularmente sem nuca ver o fim. Aproximo-me de uma das tinas e a minha cara modela-se à forma do vidro. A cabeça decepada que inchada está assente pelo queixo no fundo do frasco redondo, abre olhos que aumentados como que por lupas, pestanejam descompassados as longas pestanas: bigodes de camarão pretos e esverdeados. Abre o direito, fecha o esquerdo. Fecha o esquerdo, abre o direito.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Aforismo

Não sou homem de uma mulher só.
Sou homem de uma mulher acompanhada.

PSD: Couve-flor deverá ser cabeça-de-lista por Coimbra

Garantido, para já, é que o número dois da lista laranja por Coimbra será ocupado por uma beringela, mas tudo parece indicar que será uma couve-flor a dar a cara pelo partido na cidade dos estudantes.

Depois de o artista anteriormente conhecido como Pequeno Saul ter recusado encabeçar a lista, alegando que tem "uma imagem a defender" e que considera "indigno que um partido apresente uma beringela na sua lista", o PSD ficou numa posição difícil no distrito.

Agora, com a couve-flor prestes a aceitar o desafio, o problema parece ultrapassado. "A Dra. Beringela é um legume honesto, trabalhador, e terei muito orgulho em contar com ela na minha lista!", afirmou a couve, em declarações exclusivas à Gabardina.

Este blog está também em condições de anunciar que, caso falhem as negociações com a florida couve, os laranjas convidarão Marcelo Nuno ou um dos administradores da Metro Mondego para o lugar. Estas personalidades demonstraram já disponibilidade para verem reduzidos os seus salários de gestores municipais, de forma a poderem ocupar o lugar de deputados da nação.

Em reacção a esta notícia, o PS local, pela voz daquele que era o preferido para encabeçar a súcia lista, afirmou: "Uma vez que o PSD apresentará uma couve-flor, nós apresentaremos um candidato à altura de lutar com os nossos rivais!" Parece ser assim claro que o candidato socialista por Coimbra será Ricardo Castanheira.

Crítica literária

No Cem Anos de Solidão as personagens têm todas o mesmo nome.
É assim uma espécie de Série Fonseca do Gato Fedorento, mas com menos piada.

quinta-feira, dezembro 23, 2004

BOM NATAL!


 

Venha de lá esse amaço!

Recebo um mail de uma amiga que, a propósito da minha receita para um texto de Natal, defende o abraço em vez do texto, afirmando que "mil amaços (sic) valem por mil palavras..."

Depois do primeiro riso, vejo o lado poético da frase. De facto, uma amasso não é uma coisa muito bonita. Faz até lembrar a operação de Natal da GNR. Por isso acho que a nova palavra faz toda a falta na língua portuguesa. O amaço é o amasso entre duas pessoas que se amam.

Assim sendo, bons amaços neste Natal é o que desejo a todos os leitores da Gabardina!

quarta-feira, dezembro 22, 2004

Receita rápida para uma mensagem de Natal/Fim de ano:

INGREDIENTES:

1 evocação do ano que agora finda
1 demonstração de espírito natalício
4 adjectivos simpáticos
2 elogios ao interlocutor
2 palavras de conforto
1 grande esperança no futuro
2 promessas para o ano que começa
1 abraço particularmente carinhoso


PREPARAÇÃO:

Corte a evocação do ano que agora finda em quatro pedaços, retire a parte cinzenta do miolo e os caroços.
Na batedeira, bata a evocação, a demonstração de espírito natalício, os adjectivos simpáticos e os elogios ao interlocutor.
Misture as palavras de conforto.
Junte tudo e misture bem.
Leve ao papel por aproximadamente 2 páginas ou ao écran por 1 e meia em folhas de papel pesado e com motivos natalícios ou em écran com uma imagem bonita em fundo.

Para finalizar, misture as promessas para o ano que começa e o abraço.
Junte o carinho que foi deixando ao longo do texto e junte-o no grande abraço final.
Meta num envelope ou faça send.

Hino para 2005

Muda de vida
Se tu não vives satisfeito
Muda de vida
Estás sempre a tempo de mudar
Muda de vida
Não deves viver contrafeito
Muda de vida
Se há vida em ti a latejar


Canção de António Variações na voz de Manuela Azevedo

terça-feira, dezembro 21, 2004

Brrrrrrrr

Cada vez me custa mais ler os jornais do dia. Só nos regionais de hoje vejo:

1.a vice-reitora da Universidade de Coimbra a exibir, sorridente, um cheque oferecido pelos maçons deste país, enquanto o grão-mestre destes sorria como se estivesse a ser fotografado ao lado do seu cavalo premiado;

2.que o eng.º Sócrates se sente de tal forma confiante de que ganhará, que se permite fazer campanha com base na sua medida mais polémica enquanto ministro do Ambiente - a co-incineração;

3.que só no último minuto o primeiro-ministro gestionário cancelou uma condecoração ao FC Porto, clube cujo presidente, no cargo há mais de 20 anos, é arguido em vários casos que envolvem a corrupção de árbitros de futebol.

Brrrrrrrrrrr.... Está tudo doido no rectângulo!!!

Os que trabalham estão de férias

Coimbra, 20 de Dezembro. Nas ruas mais movimentadas da cidade, onde normalmente é preciso dar dez voltas ao quateirão para arranjar estacionamento, sobejam os espaços para parar o carro. Estão de férias, desde sexta, pelo menos, aqueles milhares que passam o ano a bater com a mão no peito e a dizer "Ai que eu trabalho tanto!". As suas ocupações, sempre importantes, sempre inadiáveis, sempre difíceis, sempre impossíveis de realizar por qualquer outro, ficarão abandonadas até 3 ou 4 de Janeiro. "Faço sempre uns telefonemas para ver se não há stresses!"

São os mesmos que a 15 de Julho partem e só voltam a aparecer lá para meados de Setembro. Os mesmos que não dispensam uns diazitos na Páscoa, porque andam cansados. E mais uns dias aqui e uns dias ali...

De facto, eles fazem bem em apregoar o resto do ano que trabalham muito e que andam muito cansados. Se assim não fosse, até poderíamos pensar que trabalham pouco...

segunda-feira, dezembro 20, 2004

Baba

Agora acordo todas as manhãs com aquela sensação de que me estive a babar grande parte da noite. Todos me dizem que é porque tenho o nariz entupido. Mas eu sei que isto só me acontece quando sonho contigo.

quinta-feira, dezembro 16, 2004

E nós temos vergonha de ti

e de nós próprios, por termos permitido que alguém tão incompetente como tu passasse de porteiro da secretaria de estado.

O secretário de Estado adjunto do Ministério da Administração Interna, Paulo Pereira Coelho, que esteve na origem do pedido de demissão do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC), afirmou-se "envergonhado" com o organismo, que acusa de desconhecer "que riscos existem em Portugal e com que meios os pode combater".

Portugal, século XXI

"Andavas de jerico a vender cifões de retretes e agora, depois de dez anos no poder, tornaste-te milionário, ninguém sabe como..."

Deputado do PS Madeira dirigindo-se ontem, no parlamento madeirense, ao Vice-presidente do Governo Regional, Jaime Ramos

terça-feira, dezembro 14, 2004

TOTAL BICHANICE II

Depois das bichas da Quinta das Celebridades, eu pensava que já tínhamos atingido o cúmulo da bichanice em Portugal. Descubro agora que provavelmente ainda não. Começa amanhã em Itália um novo reality show em que 5 gays têm 24 horas para transformar um macho num metrossexual (n.d.r. palavra politicamente correcta para dizer gay, homossexual, bicha, rabeta...).

Já imagino o Castelo Branco a tratar das sobrancelhas do ZéZé Camarinha...

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Nunca voltes ao lugar onde já foste feliz

ou
há portas que se fecham e nunca mais se abrem...

Come bolacha, mendigo, come bolacha!

Nesse clássico injustiçado do cinema português que é o "Rei das Berlengas", de Artur Semedo, há uma fantástica personagem que, passeando na sua cadeira de rodas pelos corredores do seu palacete, arrasta por uma trela o seu "mendigo particular", que alimenta a bolachinhas esticadas para trás, por cima do ombro.

Em 2004, em Portugal, não faltam donos de palacetes a alimentar os seus mendigos particulares. O facto de haver mendigos só permite à gente boa deste país esticar bolachinhas para trás e dormir, por isso, de consciência tranquila.

O que seria de Portugal sem mendigos? Para onde iria tanta bondade de gente endinheirada se ninguém precisasse das suas esmolas, das suas bolachinhas? Mesmo a classe média sente-se reconfortada por poder dar o seu quilito de arroz de vez em quando no supermercado.

Claro que alguns dos que me lêem estão neste momento a pensar: pelo menos quem dá faz alguma coisa.

Talvez no curto prazo a bolachinha seja importante. Mas no longo prazo, está essa gente disposta a prescindir dos seus salários muitas centenas de contos por mês para que os seus mendigos particulares possam ter salários justos? E estão dispostos a prescindir de três dos seus quatro empregos, que conseguiram movendo influências, para que os seus mendigos também possam ter emprego?

Eu acho que não. Acho que os portugueses que ganham mil contos por mês preferem dar 50 todos os meses aos seus mendigos a aceitar ganhar 500 para que o mundo seja mais justo. Assim dormem de consciência tranquila, aparecem nos jornais como bons cidadãos e, um dia, outros como eles ainda darão o seu nome a uma rua, porque foram caridosos e preocupados com o próximo. Na verdade deviam fazer-lhes uma estátua, a esticar uma bolachinha para trás.

anita dia 209

Hoje assisti a uma erupção. Ao Etna dos necrotérios. Uma projecção ascendente de material incandescente a tresandar a decomposição e a verdete. Uma explosão avassaladora e verticalíssima. O corpo estava há 3 semanas esquecido na lixeira municipal. O cheiro é uma nuvem densa e baça. Lenta e penetrante. Uma serrilha de pontadas acres no nariz, de que só o leve odor distante causa uma pulsão incontrolável no estômago, e obriga à tosse seca que antecede o seu vazamento violentíssimo. É um homem magro, a quem são visíveis as costelas e os ossudos nós dos dedos. Tem uma enorme barriga. Inchada, esticada, redonda e curva. A luz da lâmpada que cai sobre a mesa de dissecação, rebrilha sobre a pele em tensão e é reflectida pelo umbigo, que em vez de estar para dentro, se espeta para fora roxo e hirto. E mexe. Lateja e parece respirar. Este abdómen, feito um globo cheio do tamanho da envergadura dos braços do homem, move-se. Os vermes que devoram o corpo decadente acertam os movimentos. Em vez das muitas e minúsculas ondas de energia que em relevo passariam para fora da pele, é visível um enorme cobrão cor-de-rosa feito de milhares de vermes brancos a moverem-se cadenciados. Do início dos pêlos púbicos até aos tendões do pescoço a onda da decadência do corpo serpenteia de baixo para cima, e de cima para baixo. As pálpebras, coladas pelo muco pegajoso feito de água da chuva que vai atravessando os níveis de uma lixeira urbana, abrem-se. Está vivo! Os vermes voltaram-no a ligar para que vivendo produza mais material orgânico e assista. Assista e sem se poder mexer olhe o cobrão que nele mora, a deliciar-se com as suas entranhas. Está quente. Muito. A pele...a pele...tensa. Afasto-me. Oiço o umbigo a estalar, um jacto de matéria orgânica putrefacta é projectada contra o tecto e cobre a lâmpada do candeeiro, escurecendo a sala. Então, um rasgão na cútis abre-se como se abrem as falhas na terra nos terramotos, e um cilindro de larvas levanta-se no ar com uma vontade incontrolável. Eleva-se e esvazia o corpo de tudo. Toda a matéria orgânica deste corpo numa efervescência que veloz se projecta perpendicular ao tecto. Olho do chão para a massa que se eleva. Cilindro de vasos sanguíneos, ossos liquefeitos, vermes, órgãos em decomposição e tecidos infectos. Pára. E não se desfaz no tecto. Suspende-se. Paira. Ganha uma forma e uma ordem. Alguns dos vermes soltam-se e caiem-me ao lado como se não fizessem parte da forma que eclodiu do corpo.
- Quem és tu? - pergunta uma voz que vem do interior desta massa que se suspende por cima do cadáver esvaziado pelo abdómen.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

anita dia 205


O padre alisa a sotaina preta com ambas as mãos. Sentado, ao lado do representante do povo, leva a mão em punho à boca. Tosse, para limpar o trato respiratório do tabaco, e pisca os olhos para focar a janela à sua frente. Sentados a seu lado: os representantes da justiça, das famílias, da comunidade e do povo em nome qual tudo isto vai ser feito.
Estou sentado e tenho dois guardas vestidos de azul ao meu lado. Um molha uma esponja, e coloca-a por debaixo da armação em ferro que transmitirá uma descarga de 70.000 wats directamente ao meu cérebro. O outro, prende as correias de cabedal com fivelas. As pernas cabem à justa. Os pulsos ficam bastante apertados. Tenho 30 anos, 250 quilos e a curiosidade de saber como é morrer numa cadeira eléctrica. Curiosidade é o que me resta ter. Aqui ou há medo ou curiosidade. E ter medo de morrer é o mais conveniente que podemos fazer aos outros. Os guardas afastam-se, depois de me terem colocado na boca uma placa de cobre presa a uma máscara preta. Sufoco com uma massa metálica que me enche a boca e que em breve me derreterá a língua. Estou numa sala com uma cadeira e uma janela de vidro. Estou amarrado por cabedal e ligado a fios que em breve me vão fritar. Olho sempre nos olhos dos meus executores: um padre, um representante de alguma coisa e os familiares. Como somos idênticos no desejo de matar. Como é idêntica a vontade de chacina da lei da ordem e a minha.
Matei. Muitas. E arrependo-me. Muito. Arrependo-me de nunca ter tido a inteligência de matar alguém com o ritual com que me assassinam a mim. Arrependo-me de nunca ter conseguido matar em público, com assistência a aplaudir em vez de me ameaçar. Como eu gostava de ter podido esventrar, fritar, queimar pessoas vivas à vista de todos. A preparação...a execução...o fim... Mas não foi assim, não sou padre, representante do povo ou familiar. Sou apenas um assassino pobre e sem poder...e por isso, a minha única consolação talvez seja morrer como gostava de ter matado.
Uma tremura, músculos tensos, sinto a urina a ferver dentro de mim. Derretem-se-me os intestinos, o cérebro incha, se não fosse a máscara que tenho à frente da cara os olhos saltavam das órbitas. Outra descarga. Fervo por dentro? sinto a implosão do musculo cardíaco, o rasgar dos pulmões. Tusso sangue, pleura, e algumas costelas. A electricidade fez do meu interior uma papa vermelha e quente. Arrefeço, apanham-me com um balde. Vertem-me para um saco do lixo preto. Sou Papa. Sou levado para o necrotério. Sinto uma superfície plana por debaixo de mim.

Depois do saco preto ter chegado e porque queria saber se já consigo voar para fora desta sala, agarrei-o com os pés feitas garras e levantei-o no ar, e sai pela janela. Voo agora por cima da cidade que em sossego recupera energias para amanhã ser outro dia um pouco mais hedionda. Seguro o saco. Apetecia-me deixar cair esta massa uniforme de ossos e músculos em cima de uma praça qualquer. Num Domingo em que aqueles em que nome do qual isto foi feito pudessem sentir o sangue acre coalhado e podre a manchar-lhes as camisas e os sapatos. Pairo, consciente do poder que este saco de pessoa me transmite. E continuo a pairar. E pairarei, até as minhas asas de gárgula se cansarem e me obrigarem a voltar.

SOS!!! OS MEDÍOCRES CONTINUAM NO PODER!!!

terça-feira, dezembro 07, 2004

Lição de alternância democrática

Até à vitória de Durão Barroso e do PSD nas últimas legislativas havia uma prática em Portugal que, apesar de reveladora da pouca-vergonha do país, acabava por ser saudável: o governo que entrava dava um pontapé no rabo a todos os militantes do partido do governo anterior que encontrava pelo caminho e que não estavam protegidos com um vínculo definitivo à função pública.

Durão Barroso foi mais inteligente e percebeu que de nada valia andar a despedir gente que voltaria a ser contratada na próxima mudança de poder. Assim, socialistas, sociais-democratas e populares poderiam conviver alegremente na administração pública, sem sobressaltos, sem despedimentos, sem conflitos. E tudo apenas com prejuízo da despesa corrente do Estado.

O caminho foi fácil: convenceu-se a Ferreira Leite a congelar as contratações para a função pública, o que permitiu que durante dois anos e meio apenas tenham sido contratadas pessoas por pedido expresso dos responsáveis das entidades. Ou seja, pessoas dos partidos e seus amigos. Em contrapartida os socialistas foram-se arrastando nas instituições, sem serem despedidos e à espera da mudança de governo para voltarem a progredir na carreira.

Mas o que Durão não previu foram dois anos e meio de guerrilha interna dentro das instituições do Estado. Os socialistas apreciaram o facto de não terem sido despedidos, é verdade. Mas não deixaram de ser socialistas por causa disso. Fizeram campanha, passaram todas as informações escandalosas possíveis para fora, sabotaram tanto quanto puderam o trabalho do governo.

Os do PSD talvez tenham aprendido a lição. Mas, se perderem as próximas legislativas, tê-la-ão aprendido demasiado tarde. Se os socialistas forem governo teremos 13 anos consecutivos (6 de Guterres, 3 de PSD e 4 de Sócrates) sem despedimentos de socialistas na função pública. O Estado será deles. Os socialistas, por outro lado, sabem bem o que têm que fazer se não quiserem ser sabotados a toda a hora e todo o instante: assim que ganharem as eleições devem correr com todos os tipos do anterior governo que sejam de nomeação política ou que ainda estejam a contrato. Assim, a lição estará terminada.

Resposta ao Santana ou a premonição do Pessoa

Sampaio, o anti-Mostrengo

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Falm, falam, falam, falam, falam, falam... (versão II)

Isto o que aconteceu foi muito simples!

O que aconteceu foi que eu estava em Belém na inauguração da maior árvore de Natal da Europa, sim, repito, da Europa, porque nós quando fazemos as coisas é em grande, e virei-me para um turista que lá estava e disse-lhe:

- Lá na tua terra não tens disto pois não? A maior da Europa, a MAIOR!

E o gajo vem com uma conversa do género: Ah, não sei quê, no meu país preferimos gastar dinheiro em outras coisas, por exemplo a evitar que rebentem condutas de água, que levam ao abatimento do solo, e dessa forma prejudiquem milhares de pessoas...mais não sei que mais e o camandro!

E eu, que até sou um gajo que é pá, tenho uma facilidade na exposição de argumentos, não me fiquei e disse-lhe logo:

- A maior da Europa! Toma! Embrulha!

E o gajo começa a falar que não sei quê, lá no país dele quando começa a chover as zonas ribeirinhas não ficam inundadas, e que talvez fosse melhor que, em vez da árvore, o dinheiro fosse canalizado para evitar essas situações.

Eu comecei a enervar-me e disse-lhe logo:

- Mau, tu queres ver que nós temos que nos chatear! Eu estou aqui a expor argumentos que é pá sim senhor, e tu vens com essa conversa de não sei quê. Eu nem quero começar a falar na feijoada em cima da ponte, nem no desfile de "pais natais", porque senão nem sabias onde te meter pá.

O gajo começa a falar de uma coisa qualquer, tipo túneis que são construídos e ficam a meio, e não sei que mais, e eu virei logo costas.

Porque quando eu vejo estes gajos que não conseguem aceitar a superioridade de um país sobre o outro, e ainda falam, falam, falam, falam, falam, falam, e não dizem nada de jeito, eu fico chateado, claro que fico chateado!!

(recebido por e-mail)

Momento Natalício

Portugal outside is frightful
But the fire is so delightful
And since we've no place to go
Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!

It doesn't show signs of stopping
And I've bought some corn for popping
The lights are turned way down low
Let It Snow! Let It Snow! Let It Snow!

sexta-feira, dezembro 03, 2004

Anita - dia 200



Por volta das três da manhã, enquanto escutava o som das gotas de chuva caírem na mesa de dissecação metálica e, reparava que a minha audição já se desenvolvera ao ponto de conseguir escutar as gotas cortarem o próprio ar, um som, que nunca tinha escutado, fez-me franzir os olhos de surpresa, esperar pela saída dos funcionários e espreitar pela gaveta. Esperava e imaginava. O que ouvi não era o som a que me habituei de um corpo a ser depositado na bancada de dissecação. Era um som que se dividia em dois. Mas também não era o som normal de duas pessoas a serem depositadas na banca, era qualquer coisa de intermédio. Era o som de uma pessoa e meia a cair no inox frio. Um corpo e meio. Uma jovem mulher, com a sua jovem filha. Saí da gaveta, pairei de asas abertas (sim, o meu corpo tem vindo a mudar a sua forma humana, mas falarei disso noutra altura) sobre os corpos, e porque queria perceber aquela estranha vista, entrei na desfigurada mãe para lhe perceber os seus últimos minutos.

Vamos pôr a cadeirinha, assim, isso. Tanto soninho que ela tem. Vá, já vamos ter com o papá. Agora a mãe vai fechar a porta, cuidado.
"Na ligação 2º circular - campo grande o trânsito continua intenso, mas não há noticias de acidente. Conduza com precaução que o piso está molhado e tenha um bom fim-de-semana na companhia da TSF".
É só sair de Lisboa que depois já não apanhamos mais trânsito, vais ver, não é bebé? Diz mamã, mã-mã. Tens de dizer mã-mã antes de papá. Combinado?
Isso dorme...
Rádio baixinho. Desligar o rádio. Que seca de viagem. Espero que ele já tenha chegado. Vou ligar. Aqui não há rede. As luzes. Sinais de luzes. Que estrada apertada. Oh, meu amor disseste mamã?Esquerda, direita, luzes de frente...

A jovem mãe, excelente condutora e mulher amadíssima pelo seu marido conduzia atenta. A chuva intensificara-se e a estrada era um monótono caminho de curvas e contra curvas que esta mulher negociava facilmente. O silêncio da viajem e o cansaço de uma sexta-feira à tarde obrigavam-na a semi-cerrar os olhos e piscá-los com mais força. Antes de uma curva para a direita, e depois de ter escutado a sua filha a remexer-se na cadeira, o primeiríssimo: mãã, despertaram-na. Com o sorriso, como é o sorriso dos pais que ouvem os filhos a dizerem pela primeira vez o nome pelo qual os tratam para o resto da vida, virou-se para trás para, sem se aperceber que saia da sua faixa, seguir em frente na curva. Um forte virar no volante manteve o carro dentro dos limites do alcatrão, mas estava contra-mão e um camião aplacou-a frontalmente.

Sinto-me a mudar. Fisicamente. Tenho indiscutivelmente mais força do que alguma vez tive, a audição e em geral todos os sentidos estão a cada dia mais apurados. Os voos esporádicos dentro do edifício são hoje quase diários e as asas recolhem e abrem cada dia mais depressa. Dentro em breve devo conseguir sair daqui. Preciso de um espelho, preciso saber em que é que me transformo. Qual irá ser a minha forma final.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

O verso do sistema

Depois de a Gabardina ter apresentado o reverso do sistema, eis que a Judiciária ataca a sua cara! Nos últimos três dias até apetece ter esperança no país...

A Polícia Judiciária deteve hoje quatro árbitros e um empresário de futebol e procedeu a buscas na Torre das Antas, de acordo com uma informação divulgada na tarde desta quinta-feira pela estação televisiva SIC.

O problema lista de casamento

Os novos excêntricos de Portugal fizeram sonhar o país. Dois tipos de Moreira de Cónegos que ganham, de um dia para o outro, ganham 43 milhões de euros, mexeriam sempre com a imaginação dos portugueses. Mais mexeram ainda quando a maior parte destes vive com dificuldades que 43 mil resolveriam no curto prazo...
Nos dias que se seguiram ao sorteio ouvi duas ou três pessoas próximas dizer: "Eu oferecia logo uma casa a cada um dos meus amigos!" Não era falta de vontade de presentear os meus amigos, mas aquilo não me soava bem... De argumento em argumento, cheguei finalmente a um que me satisfez e que mereceu a concordância dos meus interlocutores: o "problema lista de casamento".
Qual é o problema lista de casamento? Tenho reparado que as pessoas que se casam se debatem sempre com um mesmo problema: tendo um número máximo de pessoas que podem convidar, há sempre algumas que ficam na fronteira e acabam por não poder ser convidadas. Seriam as primeiras a sê-lo se existisse a possibilidade de fazer mais meia dúzia de convites, mas não há... E isso significa sempre um certo mal-estar entre quem não convida e o não-convidado. Para mim, só a perspectiva desse problema me faria pensar dez vezes antes de organizar a boda...
E é exactamente este o problema que eu acho que há no plano de dar casas aos amigos quando se ganha o euromilhões: o problema lista de casamento. Quando é que paramos de dar casas? Quantos verdadeiros amigos temos? Por que é que o vosso décimo melhor amigo merece uma casa e o décimo primeiro não?

Só uma pessoa

Agora que vai para eleições, acho que o importante a dizer é que Portugal, nesta fase, já não pode ser demasiado exigente. Não vale a pena pedir um governo competente. Eu limito-me a pedir uma pessoa. Só uma, com uma única característica: tem que ser uma pessoa séria.
Não pode ser o Santana, nem o Sócrates, nem o Portas, nem o Marques Mendes, nem o Dias Loureiro, nem o Jorge Coelho, nem o Ferro.
Portugal deve a si mesmo encontrar um primeiro-ministro que seja sério. Só isso. Condição necessária e suficiente para que haja confiança no futuro.
Eu só vejo três nomes que preenchem esse exigente requisito: Cavaco, Marcelo e Vitorino. Se um dos três se candidatar conta com o meu voto. Se não, abstenho-me.

terça-feira, novembro 30, 2004

Adeus
Voltem para as esplanadas da linha!

iiiiiuuuuuuuuuuuuuppppiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!

O reverso do sistema

O sistema de que se fala no futebol português, apesar de todos o dizerem por meias palavras, é o controlo que o Porto tem da arbitragem. Mais do que claro, aliás, nas escutas telefónicas de árbitros e dirigentes do porto publicadas pelo Independente há uns anos e pelo caso das férias de árbitros no Brasil pagas pelo FCP através da agência de viagens Cosmos, dos irmãos Oliveirinha.
Diz-se que há também o reverso do sistema: uma forma hábil que foi encontrada para financiar o sistema a partir das oportunidades que ele próprio cria. Ou seja, o sistema transforma jogadores medíocres em campeões, permitindo que eles sejam vendidos por valores muito acima do seu real valor.
Assim, nos últimos 15 anos, entre Futre e Paulo Ferreira, o Porto vendeu dezenas de jogadores para clubes endinheirados da Europa, mas com excepção do mediano sucesso de Fernando Couto, Jardel e Ovtchinikov, todos fracassaram com maior ou menor estrondo nas suas novas aventuras.
Decidi fazer o onze dos maiores fracassados de entre as vendas de estrelas do Porto nos últimos quinze anos. E era só isso que queria fazer. Mas dez minutos de pesquisas no Google para saber informações sobre os anos em que foram transferidos e para onde proporcionaram-me informações interessantes. Se não, vejam:
Guarda redes: Vítor Baía. Transferido para o Barcelona em 96/97 como grande craque, voltou para o Porto dois anos e meio e muitas dezenas de frangos depois. Treinador do Barça em 96? Bobby Robson, ex-treinador do Porto. Adjunto do Barça em 96? José Mourinho, hoje ex-treinador do Porto.
Lateral direito: Secretário. Vendido ao Real em 96 como o melhor lateral direito da Europa, voltou ao Porto depois de uns anitos a aquecer as bancadas do Bernabéu, como forte candidato a jogador mais ridículo da história do Real.
Centrais: Geraldão. O pontapé-canhão das Antas foi vendido em 91 ao Paris Saint-Germain, e nunca mais se ouviu falar dele. Treinador do PSG em 91? Artur Jorge, ex-treinador do Porto.
Emerson. O possante médio defensivo que podia jogar a central foi vendido ao Middlesbrough em 96 como um dos melhores médios da Europa. Passou também pelo Corunha, mas sempre sem grande sucesso.
Lateral Esquerdo: Esquerdinha. O barrigudo lateral portista foi vendido ao Zaragoza em 2001, e nunca mais se ouviu falar dele. Treinador-adjunto do Zaragoza em 2001? Narcis Júlia, hoje treinador adjunto do FC Porto.
Médios-centro: Doriva. O novo Dunga foi vendido em 99 à Sampdoria, transitando logo em 2000 para o Celta de Vigo. Passou por vários clubes sem sucesso nem notoriedade. Treinador do Celta em 2000? Victor Fernandez, hoje treinador do FC Porto.
Chainho. Trinco vendido ao Zaragoza em 2001, passando em 2002 para o Panathinaikos. Hoje joga sem brilho no Marítimo. Teinador-adjunto do Zaragoza em 2001? Narcis Júlia. Treinador do Panathinaikos em 2002? Fernando Santos, ex-treinador do FC Porto.
Extremos: Sérgio Conceição, vendido à Lazio em 1998 passou por diversos clubes italianos, sem sucesso, antes de regressar ao FCP. Hoje joga no Standard de Liège.
Capucho. Vendido ao Glasgow Rangers onde nunca foi titular absoluto, joga agora sem brilhantismo pelo Celta de Vigo, na segunda divisão espanhola.
Avançados: Jorge Plácido. Vendido como craque ao Matra Racing em 88, nunca fez nada de relevante. Voltou ao Porto e acabou a carreira nos Lusitanos de Sant-Maur. Treinador do Matra em 88? Artur Jorge.
Domingos. Vendido ao Tenerife em 97, como grande avançado, voltou para o Porto um ano e meio depois, sem ter feito nada de relevante. Treinador do Tenerife em 97? Surpresa... Victor Fernandez, actual treinador do Porto.

Convém referir que neste período, e entre alguns falhanços, Benfica e Sporting venderam, entre outros, Figo, Rui Costa, Stanic, Balakov, Aldair, Ricardo Gomes, Valdo, Juskowiak, Fernando Meira, Boa Morte, van Hooijdonk, Marchena, Gamarra, Cadete... enfim, alguns jogadores que tiveram brilho e sucesso por onde passaram, como é normal.

Ele há grandes coincidências... se estas foram encontradas com 10 minutos de Google, imagine-se as coincidências que não encontraria uma investigação jornalística séria...

segunda-feira, novembro 29, 2004

Os puto que governam

O que o Santana assumiu ontem: que era um puto numa incubadora já a Gabardina tinha escrito em Agosto. E não foi sorte ou premonição acertada.
Aqui, observa-se o que vai lá atrás...
Os leitores da Gabardina que leram estes textos em Agosto sabem agora que não perderam o seu tempo.


Fragmento
O primeiro-ministro ao canto do quarto, está acocorado atrás dos cortinados. Tem um dedo na boca e a cara triste. O pijama castanho com nuvens brancas que veste só lhe fica bem, com uns chinelos de quarto azulinhos. Todo o pessoal da residência do primeiro-ministro procura por todo o lado os chinelos. Sem eles, o menino não quer dormir. E quando o menino não dorme? ninguém dorme. Choradeira a noite inteira. Impaciente bate com os dois pés no chão, e agita as mãos no ar. A berraria vai começar. Dos chinelos é que nem pó. Procura-se em todo o lado: cozinhas, salas, garagens e quartos. Nada. O choro já não é choro, são os berros de menino mimado.
De repente entra pelo quarto um homem. Trabalhou durante 30 anos, 12 horas por dia, só descansou ao Domingo. De seu tem um apartamento de 2 assoalhadas em Fernão Ferro. Dirige-se ao primeiro-ministro chorão, pega-o ao colo e segurando-o com os fortes braços, embala-o com as histórias de coragem dos trabalhadores rurais. O primeiro, já de lágrima seca escuta com atenção. Maravilhado com a historinha para dormir adormece nos braços do homem.

o filhinho da mãe
Sentado à mesa do pequeno-almoço, o ministro termina as papas que a sua mãe cozinhou.
-Vá lá, tens de comer tudo, para seres grande e forte para brincar com os outros meninos.
O ministro atestado de papas lácteas, bolsa ligeiramente. Não fora o babete bordado com uma menina a andar de trotinete e tinha sujado a gravata e o fato escuro. Ao ver que o filho não conseguia comer mais, a mãe senta-o ao colo, prende-lhe os braços e começa dar-lhe o resto do pequeno-almoço na boca: mete a colher de sopa nas papas, leva-a à sua boca para as arrefecer com dois soprinhos maternais, pede ao ministro que abra a boca e enfia o resto das papas goela abaixo deste funcionário do governo. O ministro esperneia, diz que não quer mais e tenta sair do colo da mãe. A mãe diz que é só mais uma colherada. Convence-o dizendo que se ele comer aquela última colher, pede aos senhores da netcabo para ainda hoje, irem ao seu gabinete instalar o Disney Channel. O ministro acede à ultima colher e a mãe limpa os restos de papas da boca com pequenos movimentos em volta dos lábios e com uma passagem vigorosa com o babete.
-Vá! agora vais lavar os dentes que o motorista já está lá em baixo à espera.
Enquanto o ministro lava os dentinhos, a mãe abre a sua pasta preta e coloca lá dentro um lanche: pão com marmelada e manteiga embrulhado num guardanapo de papel e um pacote de leite com chocolate. Tudo dentro de um saco de plástico transparente que o ministro odeia.
São 9:00 da manhã e vai começar mais um dia de trabalho do XVI governo constitucional.

jáááááá fiiiiz...
É a voz finíssima da recém empossada secretária de estado. Está sentada e o som sai-lhe das goelas, choca com os diversos utensílios sanitários, espalha-se pelos mármores da casa de banho, reflecte-se no enorme espelho e disparada avança para o corredor. Este som, qual bola de fogo, percorre agora os passos perdidos, desce veloz a escadaria nobre, enche as salas dos grupos parlamentares, abre de par em par as portas do refeitório dos frades e entra directamente nos ouvidos do único deputado que no andar de baixo, pela mão da senhora sua avó, depois de ter interrompido as férias em Ibiza para vir ao parlamento buscar uma agenda, espera que esta lhe ponha as fraldas para dentro das calças. As mãos finas da avó afundam-se num círculo à volta da cintura barrica do deputado.
Porque é urgente, necessário e sincero o "jáááááá fiz" vindo do segundo andar, não se distraí com esta cena de amor inter ? geracional e segue caminho até ao bar da Assembleia: estaca-se à porta por momentos e agudíssimo preenche todo bar.
O pai da recém empossada secretária de estado, reconhecendo o chamamento filial, apaga a cigarrilha, bebe o último gole de água e despede-se do empregado. Faz o caminho inverso da voz, guiado pelas pequenas ressonâncias que o som foi migalhando pelos capiteís, arabescos e vigas de estilo neo-clássico do Palácio de S. Bento da Saúde ou dos Negros, mosteiro Beneditino, com inicio de construção em 1598.
-Vá, já está limpo. Vista-se e despache-se que os senhores do protocolo de estado já ligaram duas vezes para saber se sempre vai ao jantar de embaixadores.
Assaduras e leis, sont les mots qui vont tres bien ensemble.



Saiba o leitor que tal como as bolachas Carr´s são recomendadas pela família real inglesa, também as fraldas Dodot Etapas são recomendadas pelo presidente da assembleia da republica. Expliquemos.
O Presidente da assembleia da Republica farto do burburinho de fundo do hemiciclo e sabedor pela experiência de pai de que este se deve a alguns rabos assadinhos, decidiu emitir a seguinte nota aos pais e às mães dos senhores deputados da Republica Portuguesa:

Nota da Presidência
Excelentíssimos encarregados de educação,
Em face da crescente inquietação e às cada vez mais frequentes ausências dos senhores deputados, V/ educandos, no parlamento, venho por este meio sugerir que V/ Exas ao vestirem de manhã os senhores V/ filhos, lhes coloquem as novas fraldas super-absorventes Dodot Etapas. Este produto, novo no mercado nacional, é capaz de não só evitar as irritações na pele responsável pelo bruá de fundo que na passada semana impediu que fosse aprovada a tão desejada reforma da administração pública, como permitir que até à hora que V/ Exa vêm buscar os petizes, estes se mantenham no hemiciclo sequinhos, sossegadinhos e a brincar felizes. A presidência reconhecendo a qualidade das fraldas referidas, não hesita em recomenda-las para que se evite o desconforto televisivo da aridez parlamentar, e a comichão cutânea das assaduras em tão desejada área parlamentar.
A presidência, consciente de que esta troca de fraldas pode não agradar a todos os pais, está a diligenciar no sentido de no mais curto tempo possível recuperar as antigas instalações do berçário da antiga assembleia nacional. A presidência, após reconstruir este equipamento de apoio comunicará a V/Exas as respectivas condições de uso.
Sem mais, e na esperança da melhor compreensão subscrevo-me,
E assim se explica a coroa britânica feita esfera armilar nos pacotes de fraldas Dodot.

Festa de garagem

Sábado à tarde. Festa de aniversário do Pedro. A garagem estava melhor que nunca. Bola de cristal no tecto e tudo. Depois dos rissóis, dos croquetes, da coca-cola e da batata frita que a mãe do Pedro tinha posto em pratinhos de plástico, a malta pôs uns slows a tocar na aparelhagem. Depois de o Pedro, o engatatão do grupo, ter dançado encostadinho a todas as suas amigas, e de um jogo do lenço, passaram os jovens ao jogo da dança das cadeiras. Depois de duas eliminatórias rápidas e sem problemas, à terceira o Nuno, o Chaves e o Pedro organizaram-se para que ficasse de fora o Zé, que andava a comportar-se como um idiota nos últimos tempos...
Ora o Zé não gostou nada disso e ameaçou que se ficasse fora do jogo se ia embora e levava os cigarros que tinha comprado às escondidas no café do fundo da rua, para irem fumar para trás da garagem quando caísse a noite.
O Pedro propôs, então, que se repetisse esta última jogada. O Chaves não gostou da proposta, bateu com o pé no chão e foi embora. Um miúdo birrento, concordaram o Zé, o Pedro e o Nuno, e também os restantes foliões, enquanto se serviam de mais coca-cola, à qual o Nuno acrescentava whisky da garrafinha que trazia escondida no bolso do blusão.

quinta-feira, novembro 25, 2004

The luckiest kind of doctor

Foi há dez minutos atrás. Estava eu em mais uma tarde de trabalho, com o pensamento entre actas de reuniões e o teste de Econometria Aplicada de amanhã, quando toca a campaínha da empresa.
Vou à porta e aparece-me uma daquelas miúdas que todas as mulheres insistem que têm ar de convencidas e antipáticas. Digo "Boa tarde!" (provavelmente com extra-sorriso) e a resposta não podia ser mais surpreendente:
"Venho para uma consulta de Ginecologia agora às cinco."
Por um segundo - mesmo só por um - passou-me pela cabeça aquela notícia típica dos telejornais portugueses de há uns anos: "Fez-se passar por médico durante mais de 20 anos sem nunca ter estudado medicina e os doentes adoravam-no!"
Um segundo depois, já com braço esquerdo a ameaçar fazer o gesto de "Faça favor!", o cérebro falou mais alto: "Deve ser na casa ao lado, aquela amarela..."
Para que a tarde não seja completamente perdida, venha de lá uma fartura da Tânia...

Por delicadeza

E, claro, por educação, não chamarei filho da puta ao ministro Henrique Chaves.

"Entregaram-me um DVD, mas obviamente que não faço tenções de o ver. Por delicadeza não atirei o DVD pela janela fora."
Henrique Chaves, ministro (????) da Juventude e do Desporto, citado pelos meios de comunicação nacionais a propósito do DVD que lhe foi entregue pelo SL Benfica na audiência concedida esta semana ao clube da águia

quarta-feira, novembro 24, 2004

Espremedor


He visto lo que haces con las naranjas!
Si te trago el gobierno, me sacas el Santana?

quinta-feira, novembro 18, 2004

Vida de blogger

Quando se escreve diariamente (ou quase) há um ano e meio para um blog e quando os minutos do dia começam a apertar, começa a ser difícil perceber o "porquê" dessa escrita.

E quando essas dúvidas me começavam a assaltar, eis que abro o e-mail e tenho um recado simpático sobre um dos meus textos. Rapidamente descubro por que continuo e quero continuar.

Opinar, comentar, disparatar, claro, como sempre. Deitar cá para fora pensamentos e raciocínios. Se, para além de tudo isto, conseguir, de tempos a tempos, "tocar" na vida de alguém, continuará a valer a pena.

Anita - Dia 180


Até morrer a minha estação preferida era o Outono. Adorava os primeiros ventos frios na cara, o estalar das folhas secas e a forma como as pessoas que usavam roupa quente, parecem caminhar mais devagar pelas ruas.
Desde que morri, gosto menos do Outono. Prefiro o Inverno. O frio do Inverno. Hoje amo o frio do Inverno porque odeio o calor do Verão. Pois no Verão vêem-se coisas num sitio como este...
No dia em que aqui cheguei e me colocaram na gaveta frigorífica estavam 42º na rua. No dia seguinte todo o sistema de ar condicionado avariou e assim ficou durante duas semanas inteiras. A mim colocaram-me dentro de uma arca congeladora mas aos outros... Aos outros... Bem os outros ficaram ao ar...
Os mortos arrefecem, solidificam e ficam moles outra vez. Depois, porque os músculos distendem, incham com os gases que a decomposição vai provocando. Os orifícios naturais abrem, e é possível, ouvir o som de uma bexiga a esvair-se no chão a meio da noite, ou escutar os dejectos a caírem no mármore. Os globos oculares entram nas orbitas e os insectos entram no espaço vazio, para aí colocarem os ovos e nas criarem as suas larvas. O que sucede nos olhos, acontece dentro do próprio corpo, pois com a falência do sistema imunitário todos os germes se podem multiplicar. Num momento concreto, quando a pele do abdómen já não aguenta a pressão exercida pelos insectos que querem nascer para a claridade, o som do estalar da pele indica a implosão dos intestinos e dos pulmões. Acontece porém, que se este processo demora cerca de 2 semanas abaixo dos higiénicos 7 palmos de terra, em cima de uma mesa de metal com 40º, o processo demora dois dias. Se a esta velocidade acrescentarmos um acidente de viação que custou a vida a 23 pessoas, temos o ambiente geral dos meus primeiros dias nesta casa.
Os técnicos tinham de entrar de botas de borracha para evitar os líquidos que os cadáveres deitavam. As janelas fechadas para que o cheiro não se sentisse na rua e as luzes desligadas para que os gazes não se inflamassem se alguém ligasse um interruptor. Durante 12 dias estive às escuras por cima de 23 cadáveres que apodreciam rapidamente. Mas se para mim a situação perecia insolúvel, para a direcção desta morgue o caos de putrefacção era a desculpa que as chefias necessitavam para a porem a correr. Limpeza, limpeza eis a questão que tinha de ser rapidamente resolvida. Então, numa noite em que ar parecia de gelatina, as portas desta morgue que funciona nos civilizados 0º, foi invadida por uma turba de cães esfaimados. Uma massa de dentes afiados, de focinhos húmidos atiçados pelo cheiro de carne quente, de corpos ágeis e magros e olhos brancos de fome. Eram 300 cães que ao mesmo tempo entraram pela porta. Vorazes, violentos e sedentos limparam os corpos macerados dos acidentados. Apesar do barulho nessa noite houve uma brisa de esperança.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Só uma 27.ª oportunidade, por favor

Deixaste passar tudo o que a vida te ofereceu. Umas vezes acreditaste que havia um caminho melhor, outras não foste suficientemente rápido ou corajoso ou bom para agarrares as oportunidades. E hoje sabes que esses caminhos eram melhores. Mas estão longe. Na tua vida não passam de recordações coladas na parede do quarto. A vida deu-te muito, muitas oportunidades para seres feliz. Outros aproveitaram o que tu desperdiçaste. Outros ainda preferiram imitar-te. Agora resta esperares que a vida tenha mais uma cortada para ti. E estares pronto e atento para não a deixares passar.
Do you believe in second chances?


terça-feira, novembro 16, 2004

Estafermo é, assim se pôs

Tenho andado a pensar num texto sobre o estafermo, que saiu do ovo. Como não quis interromper polémicas na caixa de comentários, deixo aqui o meu desabafo.

O que eu considero mais preocupante nos estafermos é o caminho para a estafermização. Porque concordo que o estafermo não se vê estafermo, mas sim uma pessoa "fixe" segundo a sua nova tabela de valores, excepto em alguns raros momentos de lucidez. Assim o que me parece grave é o caminho: os pequenos saltos estafermizantes que têm que ser dados até chegar à estafermidade. Aquelas pequenas decisões, aqueles momentos em que uma pessoa boa pensa "eu devia fazer isto, mas toda a gente faz aquilo, por isso eu vou fazer também" ou "isto não tem mal nenhum" ou "se tem que ser para alguém que seja para mim" ou ainda o "eu tenho é que pensar em mim em primeiro lugar!".

E assim crescem os estafermos. Iguais a todos os que conhecemos e de quem sempre dissemos "Eu nunca serei um estafermo assim!"

Anita - dia 178


Agora, que chamo a este sitio casa.
Agora, que quando procuro conforto subo ás gavetas frigorificas que estão mais perto do tecto.
Agora, que passou a ser para sempre. Agora, tenho a verdade para contar os que morreram. Narrar-lhes as historias, responder-lhes às perguntas e sentir-lhes essa profunda desilusão de quem já não é.
O troglodita do bigode deve estar a chegar. AH! temo amigo hoje. Então? até onde iremos meu caro... não tenhas medo e vai onde leva o coração. Avança, assim de peito aberto até onde ardes para chegar.

Um velho e uma velha estão deitados na mesa de dissecação. Unidos. Abraçados. Quando um morreu o outro, companheiro desde a juventude, morreu também. Combinaram assim. E assim se cumpriu. Morreu ela e passados dois minutos de olhar para os olhos a secarem, o outro coração serenou-se de vez. Caiu ao lado dela, abraçou-a, sorriu e morreu. O resto é a história dos telefonemas não atendidos, dos preocupações dos familiares, do arrombamento de uma porta e da descoberta dos dois corpos deitados juntos como sempre na cama.
Pois estas pessoas, garantia de que afinal é possível, jazem cobertas com um lençol branco deitadas no metal frio. Os cabelos dela descem pelo ralo por onde se escoam por vezes líquidos e que uma corrente de água atravessa de vez em quando. As unhas do homem, transparentes e delicadamente longas, viradas para baixo são atravessadas pela luz. À transparência estão límpidas e duras com as unhas dos velhos são límpidas e duras.
O bigode ridículo, que acopla um corpo ainda mais bigode, é mexido e acariciado pelos dedos que se demoraram a entesar o seu mortiço membro viril. Já conheço o procedimento . . . Despe as calças, e sem cuecas dirige-se hipnotizado para o leito final dos velhotes. Exibindo a erecção à ventoinha no tecto, coloca-se ao lado dos égregios avós. Bate violento com o seu pau na testa da mulher. Uma e outra e outra vez. E mais. E mais. E ao lado o companheiro de uma vida nada faz? Após estas pancadas secas, como ele gosta de dizer, um som saiu de dentro da boca da mulher. Os dentes consumidos pela criação de 4 filhos e pelo amor a este homem, e substituídos por uma placa soltara-se. Engasgando-a se fosse viva... Então, colocando-se por cima da mulher penetra-a na boca até ás amígdalas. Delicadamente e aproveitando o degrau natural da sua glande plena de sangue, encaixa-a nos dentes da mulheres retirando-os. A boca da mulher incha um pouco para deixar passar os dentes. Uma tremura e logo se soltariam do encaixe da glande. Mais o homem sabe, costuma fazer isto e a sua precisão é inigualável.
Com os dentes do homem e da mulher nas mãos descansa da sua empresa. Uma gota de suor reflecte a luz quando se solta de ponta do nariz.
Quatro filas de dentes. Duas vidas.
Com as calças na mão, entrega os dentes ao amigo. Este separa-os, divide-os em dois grupos que coloca nas duas extremidades de uma mesa de madeira e põe-os de pé.
Peças de dominó, de damas ou de xadrez? Esta semana é dominó...

segunda-feira, novembro 15, 2004

Os novos fascistas

A palavra "fascista" sempre teve para mim (talvez seja um problema geracional, ou então será só meu) um significado que não corresponderá exactamente ao seu significado original. Fascista para mim é alguém que acha que a sua posição é a melhor e que todos os outros devem fazer como ele. Alguém que se considera superior a ponto de que o mundo deva ser moldado à sua imagem.

Em princípio, hoje a essa palavra, no meu mundo, deveriam estar colados os meninos da direita portuguesa. As suas camisinhas de marca, os seus cabelinhos penteados. Mas curiosamente não é assim (talvez porque esses sejam demasiado medíocres para poderem presumir que têm razão. São, em geral, simplesmente boçais).

Quem me aparece hoje colado à palavra fascista, na minha geração, são os jovens que se dizem de esquerda. Retrato tipo: curso superior a caminho para mestrado ou doutoramento; vestuário ligeiramente radical mas cuidado; gostos musicais que abarcam Manu Chao e música clássica; têm uma opinião sobre o cinema francês; jantam e tomam café em sítios chiques e de vez em quando vão às discotecas da moda; pertencem a organizações de cidadãos que defendem um interesse sectorial, que em geral nada está relacionado com eles; lambem tudo o que é rabo de intelectual ou professor universitáio importante; estão dispostos a tudo para subirem na vida; acham que se os outros têm dificuldades na vida é porque não querem trabalhar; quando estão descontraídos deixam escapar frases absolutamente arrepiantes sobre os pobres e assim essa gente que não se lava e não se esforça.

Afinal quem está errado, o meu significado do conjunto de letras f-a-s-c-i-s-t-a, ou a vida fascista deles?

RDA


RDA Posted by Hello


Recebido por e-mail

Anita - dia 177


Quando me aborreço, me canso de estar à espera que alguém associe o meu desaparecimento a um atropelamento numa outra cidade, ou quando me começam a doer as costas de estar deitada no inox gelado, escuto as conversas dos recém enlutados que na sala de espera, aguardam para levantar o seu morto.
Não há muito tempo, um rapaz falava com um amigo como estava envergonhado de não sentir aquela profunda tristeza e quase morte que pensava que iria sentir, quando lhe morresse a mãe.
O rapaz contava que antes da sua mãe ter morrido pensava que quando esse dia chegasse, também para ele a vida terminaria. Mas para sua surpresa o dia da sua mãe chegou e ele não morreu. E isso surpreendeu-o. Mas, se isso o surpreendeu, a sensação de não estar a sofrer tanto como as outras pessoas, aterrorizou-o. Andava triste, mas apesar disso conseguia manter uma distância da morte da sua mãe, que lá no fundo o separava das das pessoas em seu redor. "Serei assim, absolutamente insensível, serei um cretino tão grande que nem consigo sofrer pela morta que me deu vida". O amigo que o escutava e que ia dizendo banalidades do tipo: "cada um reage como sabe" e "a pior dor é a que não se exterioriza", tentava encontrar uma justificação qualquer para aquela apatia, no entanto perdia-se nas suas próprias palavras.
Foi no exacto momento em que o ouvinte do recém órfão, se preparava para dizer mais uma tirada de lugares comuns, que decidi fazer alguma coisa.

Enevoada com poder súbito de me transformar numa gárgula de garras férreas, rompi pelo frigorifico adentro e agarrei entre os dentes o corpo da mãe do rapaz. Puxei-o violentamente para fora, e num voo raso transportei-o até onde os rapazes conversam. Sobrevoei-os e deixei cair o corpo no chão de mármore. Depois, voltei para o escuro e de gárgula figurei-me num corpolento e massivo cão de fila preto. Veloz e sanguinário, voltei para a frente do rapaz apático na morte da mãe, para estraçalhar à sua frente a recém falecida. Com as mandíbulas cravadas sobre o peito da mulher morta, arranquei o externo, que aberto em par deixava as entranhas soltas e prontas a espanharem-se para fora do corpo com os puxões e esticões que o meu pescoço musculado dava. Enquanto desmembrava, rasgava a carne e esmagava os ossos, um rosnar profundo e grosso mantinha os rapazes à distância. Ou melhor, o rapaz, porque quando pela última vez mergulhei o focinho ensanguentado nas entranhas da mãe, consegui ver que o filho apático ainda me olhava e já o seu amigo explicativo se tinha evadido daquele cenário apocalíptico.

O rapaz não pestanejava e mantinha-se imóvel a ver os actos hediondos deste cão de 2 metros de altura e 300 quilos que arremessava um corpo frio e inerte para todos os lados da sala. E assim ficou, como o corpo: frio e inerte. Nesse dia, no instante em viu o pescoço da sua mãe a dobrar-se como só um corpo morto se dobra, percebeu que embora vivo também ele morrera bem antes da sua mãe morrer. Só lhe bastava saber quando e como.

quinta-feira, novembro 11, 2004

quarta-feira, novembro 10, 2004

Comentário que dá em post

Nas florestas mais ricas as árvores morrem de pé. Os menos atentos nem chegam a perceber que elas já morreram...


Ó Pai Celestial

Ontem quando cheguei a casa percebi que um colega tinha deixado entrar dois jovens missionários Mormons para a nossa sala, para uma conversa rápida. Eu, que sempre fui fascinado pelos "elderes" aos pares, juntei-me à conversa. A primeira surpresa é que eles são tipos bem dispostos, que nos entregaram um cartão em que se referiam a si mesmos como "os elderes". A segunda é que as crenças e os ritos deles são muito simples. As orações muito mais interessantes e exigentes que as católicas. Não há cá Avés Marias repetidas até ao vómito - cada um tem que dizer o que lhe vai na alma. A terceira é que não nos quiseram vender nada e não nos pediram nada - só quiseram falar do que acreditam e saber o que nós pensamos. A quarta é que respondem a todas as perguntas sem problemas - desde o que estão cá a fazer, passando pelo que farão quando regressarem aos EUA e acabando em quem votaram nas últimas eleições americanas.
A conclusão é que ou o marketing deles é muito melhor que o da igreja católica portuguesa, ou é um facto que a verdade está com eles e não com as outras igrejas que temos por cá, incluindo a católica.

Quando eles me visitaram ontem nada tinha para pedir ou agradecer a Deus, ou ao Pai Celestial com sotaque americano. Hoje, depois da leitura dos jornais da manhã, tenho um agradecimento e um pedido. Agradeço nunca ter tido que me vender e não ter por isso que andar a fazer coisas em que não acredito. Peço que tal nunca me aconteça.

Há coisas mais importantes no mundo, mas eu prezo muito estas.

terça-feira, novembro 09, 2004

Manso preto, Manso branco

A Gabardina está em condições de adiantar 50 nomes de figuras públicas pedófilas e que habitualmente participam em rituais satânicos e/ou de canibalismo.

Os nomes serão aqui postados nos próximos dias. A nossa fonte é anónima e que nenhum juiz nos venha perguntar quem é. Há já dois anos que a escrita é a nossa actividade principal e o pedido de duas carteiras de jornalista já seguiu. Basta de ataques à liberdade de imprensa!

segunda-feira, novembro 08, 2004

anita dia 170



E estou aqui. Nesta gaveta em que ouço tudo, e que abro quando não está ninguém no necrotério. À noite quando é mais seguro sair, deambulo pelos corredores às escuras. Bato numa cadeira. O som que sai do escuro chega ás vezes aos ouvidos das pessoas que recém enlutadas, aguardam na secretaria os procedimentos burocráticos da morte. Ontem à noite, ao fundo do corredor, descobri um esconderijo completamente na penumbra, de onde sem ser vista consigo observar as pessoas na recepção. Escondi-me no escuro e empurrei uma cadeira pelo chão. O som sai a toda a velocidade do breu entra nos ouvidos das duas mulheres e gela-as. Viram a cara para o escuro, arregalam os olhos e num arrepio longo e tremente encolhem os ombros. Não ligam. Os mortos estão mortos e por isso deve ter sido o vento, um gatito ou apenas uma impressão. Mas não era. Sou eu que no escuro do corredor arrasto uma cadeira como um corvo arrasta a sua asa partida pelo chão. De cócoras, agachada, num canto escuro, observo duas mulheres. Sinto as mãos petrificarem-se, o corpo a alongar-se e umas asas a romperem-me as costas. E a força, e a visão. Os braços arqueados são duas colunas de mármore, o peito ganha uma armadura de pedra rósea e pelos dedos finíssimos estiletes completam esta metamorfose. Sou gárgula que do escuro raia os olhos alvíssimos com a volúpia do assassinato. Abro as asas de lado a lado do corredor, e num voo raso avanço vertiginosa rente ao chão para as duas mulheres. Abraço-as com as longas asas e seguro-os os seus pescoços nestas garras milenares. Contra os vidros os corpos das mulheres cedem aos cortes profundos. Monstro de asas pretas, que só as sombras no chão, definem. Depois de ter deixado cair os corpos, observo o funcionário que cheio de sono aguardava que estas massas de osso partido e carne macerada, preenchessem os papéis. A ele um olhar, seguido por um desenrolar da minha língua veloz bífida e justa. Penetro-o pela boca, percorro o esófago e abrupta torço a língua na direcção do seu músculo cardíaco. Colho o coração com violência e retiro-o pela boca do funcionário acordado pelas duas mulheres. Ergo-o no tecto e cuspo-o para longe. Cai no lago que fica em frente desta morgue. Às 3 da manhã do dia 8 de Novembro de 2004 um splash irá satisfazer a pulsão de morte de todos os que acordam às 8:00 da manhã.
Experimentado o assassinato por piedade, recolho à minha gaveta para descansar.

Avesso e direito de nós

O que somos passa para o que fazemos e mais tarde o que fazemos é a montra do que somos.

Por que é que quando fazemos a cama o lençol de cima é posto com o direito virado para dentro, mas quando vestimos uma t-shirt o direito fica para fora?