Só sei que nada sei
Sócrates afirma que não voltará a dar os benefícios fiscais aos PPRs e PPHs. Eu acho bem. Fico mesmo muito contente. Mas não foi o Sócrates que votou contra o orçamento de estado por causa deste "ataque à classe média"?
Sócrates afirma que não voltará a dar os benefícios fiscais aos PPRs e PPHs. Eu acho bem. Fico mesmo muito contente. Mas não foi o Sócrates que votou contra o orçamento de estado por causa deste "ataque à classe média"?
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Cor-de-azul
A rosa azul é a pedra filosofal da botânica. Nem os milénios do oriente, nem as genéticas do ocidente. Nem a sabedoria popular e muito menos a esterilidade hospital. Nada, nem ninguém, conseguiu azular o rosa da rosa. Apenas um livro o fez. A flor foi colhida há 150 anos no Porto e colocada no meio de um livro impresso a tinta azul. Como a flor marcava o livro na página essencial para o seu leitor, também o tempo, o acaso e o livro marcaram para sempre esta flor.
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Em Coimbra, nos grandes espectáculos, é comum as primeiras filas das salas estarem reservadas para os convites aos Srs. Professores Doutores e restante gente culta da cidade. Nos menos mediáticos, mesmo que a lotação esteja esgotada, é habitual que as três filas da frente fiquem vazias. Nos restantes lá aparecem as personagens, nunca vistas nas salas de teatro e cinema, com os seus melhores fatos, acompanhados pelas suas esposas de golas de peles e cabelo armado.
A Câmara, claro, subsidia. Ora descobrimos hoje que a Câmara subsidiou com mais de 200 mil euros (!!!!) uma ópera realizada em pleno Pátio da Universidade, em Julho de 2003. A política de convites foi difícil, como é de imaginar. Nos dias do espectáculo havia mesmo corredores diferenciados para convidados mais e menos importantes. Trocaram-se olhares de inveja e vergonha entre catedráticos do corredor A e doutores e engenheiros dos corredores B e C. O povo, esse, paga e bem para assistir aos espectáculos no Pátio da Universidade.
Neste caso alguém saiu a ganhar. O produtor do espectáculo fugiu com a receita de bilheteira. Mas a Câmara de Coimbra foi rápida a descobrir a tramóia! Isto foi em Julho de 2003 e logo em Agosto de 2004 o assunto já tinha sido entregue no Gabinete Jurídico da autarquia. Eficazes estes autarcas. São rápidos. Espertalhões. Vivaços! Competentes... Bonzinhos... Estúpidos, são muito estúpidos... Ou não...
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E se...
...o leitor ao ler um livro corresse o risco de ser sugado como a luz num buraco negro. Impossível! Pois já aconteceu. A mim. Várias vezes aliás. A primeira vez foi na praia, a ler as aventuras do Cavaleiro da Triste Figura, viro a página e zás: de repente, estava a ser manteado com Sancho Pança. Caí no chão, apresentei-me ao senhor do meu companheiro de infortúnio e não fosse um valente sopapo que me aplicou nos queixos, e me fez recuar com violência para fora do livro, ainda hoje viveria pendurado em alguma linha.
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A TVI passar as imagens do então Ministro do Ambiente José Sócrates a oferecer pancada a um jornalista nas Salinas do Samouco.
A descrição, versão soft, do que aconteceu está aqui. Eu vi as imagens na altura e garanto-vos que foi bem mais interessante!
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"Estes tipos do Gato Fedorento agora já não têm piada nenhuma!"
"O Durão até estava a fazer algumas coisas boas. Depois o Santana é que estragou tudo!"
"O porto não ganhava só por causa dos árbitros!"
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O primeiro
Leitor e eu, moscas de pernas para o ar no tecto desta oficina aguardamos que Johannes Gutenberg, neste dia 31 de Julho de 1440, volte ao seu trabalho. Gutenberg abre a porta, deixa que a aragem fresca de Estrasburgo medieval nos agite as asinhas e rasga o primeiro pergaminho impresso da história da humanidade. Depois, leva a mão à cabeça e inicia uma nova impressão. Gutenberg, lá em baixo e ao contrário, não sabe, mas acaba de iniciar a impressão de parte de um livro que o marcará para sempre. "A bíblia de 42 linhas".
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Enquanto, nas televisões e nas rádios lusas, uma laranja podre e um cunami co-incinerado fingem guerrear para arranjar tachos para os seus amigos, uma verdadeira guerra, que pode ser importante para nós, acontece nas lojas da Sonae Distribuição.
Depois de quase duas décadas em escandaloso acordo (tácito ou não) com os seus fornecedores a surpresa pode agora ser vista nas prateleiras (ou nos lineares, como eles gostam de lhes chamar) dos Modelos e Continentes do país.
Até há pouco tempo o acordo era simples e lucrativo. Os fornecedores faziam volume na Sonae e faziam margem nas restantes lojas. Ganhava a Sonae, ganhavam os fornecedores, as restantes lojas iam sobrevivendo e lixava-se o consumidor, que tinha por cá preços de supermercado altíssimos, apesar dos salários ridículos dos funcionários dos supers e hipers.
Mas a crise chegou e, com ela, as lojas de desconto que se poderiam ter transformado em sítios parolos a que ninguém iria, transformaram-se em locais de culto.
A Sonae parece ter percebido isso e depois dos joguinhos do talão de desconto para os combustíveis, avançou decidida para a venda de produtos sem intermediário.
Nas lojas Modelo e Continente podemos encontrar, de há uns meses para cá e cada vez mais, produtos de marcas como "Sol", "Tal" ou "é". Produtos sem campanhas de publicidade, mas colocados em posições privilegiadas nas lojas. Produtos de boa qualidade por cerca de 60% do preço dos produtos das outras marcas.
Custos de marketing perto de zero e compras directamente ao produtor permitem certamente à Sonae manter as suas margens, vendendo ainda mais barato que as lojas de desconto.
Assim sendo, quem perde o comboio são os fornecedores. Vamos ver como reagem estes... Esperarão serenos por dias melhores ou vão partir para a guerra vendendo mais caro à Sonae e mais barato aos restantes?
A nós, resta-nos seguir na onda e aproveitar os preços mais baixos. Desta guerra poderá sair algo de bom para nós. Algo que a Autoridade da Concorrência parece incapaz de fazer...
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"A"
O "A" é um rapaz marcado. Marcado por um livro e por uma traça. No saboroso livro onde foi registado o seu nascimento, passeou-se um dia uma traça esgalgada de fome que lhe comeu o resto do nome. Quando aos nove anos, ao pedir um bilhete de identidade, foi confrontado com o insólito, pediu à mãe e ao pai para que ementassem o erro. Estes, gente pobre e com medo das burocracias, perderam-se em requerimentos, exposições, esclarecimentos e pedidos e nunca conseguiram nada. Hoje, graças ao nome é um homem rico. É agente demonstrativo e exemplificativo.
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Respirar
Todos os livros são como a respiração. Por isso, dividem-se em duas categorias. Os que inspiram e os que expiram. O primeiros, marcam?nos com a inspiração serena de nobilíssimos ideais, com a inspiração sôfrega de golfadas caóticas de vida ou com a inspiração sábia do conhecimento. Os segundos, os que expiram, marcam-nos com vazio profundo sem fim e sugando-nos a vida, sangram-nos para dentro do abismo que contêm. Os livros que expiram cansam, os que inspiram revigoram. Sempre preferi os livros que expiram aos livros que inspiram, porque para expirar é necessário ter ar nos pulmões.
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Alergia
João nasceu marcado pelos livros. Não que os escreva, edite, venda ou recite. Nada disso. Ao João quaisquer duas folhas agrafadas, causam uma brutal reacção alérgica. Bolhas nas mãos, dor nas articulações e músculos, eis o que um simples olhar para uma vitrina de uma livraria provoca. Médicos, mais de cem. Bruxas a perder de conta. "Tome estes comprimidos com estas vitaminas", "experimente este chá e este emplastro". Nada. João, personagem de um livro, está lá fora sentado à espera de cura no escritor que o inventou assim. "Quem é" "Ah! és tu João! entra".
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Consulta
A consulta de dermatologia foi marcada por um livro. Então, de que é que se queixa? - pergunta o médico com a voz romba de 30 anos de tabaco. São estas manchas no prólogo, está a ver? e agora no índice de fim também me estão a aparecer. Mas o aspecto nem é o pior, a comichão é que me custa - diz o livro roçando a vigorosamente a lombada contra a cadeira. Não se preocupe que não é nada de especial, ponha esta pomada de seis e seis meses e pense em fazer umas termas no Inverno.
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A esperança é a última a morrer. Não há ditado mais verdadeiro para mim. Morrerei seguramente antes de todas as minhas esperanças. E sei que mesmo nesse dia continuarei a acreditar nelas, pelo que por cá ficarão depois da minha partida. Acredito sempre na reviravolta de última hora; acredito sempre que ainda vou conseguir. Entristece-me quando já não tenho expectativas em relação a determinada coisa. Por isso não tenho escrito sobre as próximas eleições, sobre Portugal.
Mas não faltam provas de que vale a pena ter esperança. Almocei hoje com a esperança suprema, ainda escondida numa barriga de oito meses e meio. Dela tudo se pode esperar, não pode haver esperança maior (por isso se diz "estar de esperanças"?). Enquanto existirem nascimentos a esperança continuará cá para ser a última a desaparecer.
Ainda não nasceste e já me faz bem almoçar contigo.
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Plano
Um homicídio não é coisa sem importância. Mais que o resultado, importa o processo. Equilíbrio, estética e ironia pautaram sempre a carreira de Matilde como assassina profissional. Ao cabo de 30 anos no ramo da morte a soldo, estava decidida a fazer deste o seu último trabalho: dar um sumiço a um juiz corrupto. Ia marcá-lo com Código Penal anotadíssimo. Um calhamaço denso, incompreensível e injusto. Foi enquanto despachava sozinho no gabinete, que 4 quilos de papel lhe partiram a espinha que nunca teve. Matilde tomou o resto do chá morno e partiu para a Florida.
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Constrói-se o sentido
no limite das coisas que ficam por dizer
(...)Escrevo sem poder dizer nada...
Como se os limites por mim impostos
começassem a ceder(...)
começassem a escassear, fugir, transgredir(...)
I.M., 3 de Janeiro de 1994
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À minha volta, nos primeiros dias de 2005, as pessoas parecem dividir-se em dois grupos: os que aceitam e os que questionam. Os primeiros estão mais opulentos, os segundos mais felizes.
A longo prazo o dinheiro comprará felicidade?
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O espalho
Quando volto à infância e relembro as tardes de profundo tédio infantil em que escalava as prateleiras da biblioteca parental, recordo um livro pequenino e um trambolhão enorme.
Deitado na última prateleira junto ao tecto, com a cabeça e os braços pendentes sobre o vazio, reparei que à distância do meu braço esquerdo estava um livro: "A queda" do Camus. Para o alcançar desloquei-me para a frente. Demasiado. Pois logo que agarrei o livro, fiz o caminho até ao chão de cabeça. "A queda" marcou-me para a vida: uma aguda dor lombar sempre que arrefece o tempo.
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No Verão passado quem lesse com atenção as páginas do Diário de Noticias ficava a saber de um concurso literário denominado de Cem palavras. A ideia era em 100 palavras escrever um texto subordinado ao tema: marcado por um livro. Havia dois prémios: um para o melhor texto da semana e outro para o melhor texto de todos. Um livro, e uma viagem aos Açores, respectivamente. Ganhei um livro e a publicação de um dos textos. Qual? não sei, pois não comprava o D.N todos os dias e só quando recebi um livro trilhado na caixa de correio é que liguei a bota com a perdigota, neste caso, o texto enviado com o prémio recebido. Os textos que seguem sob o titulo "Cem palavras" são alguns dos que enviei. A escolha do menos mau ficará ao leitor Gabardinesco.
Livros que marcam
Os livros não marcam, infectam. Os que interessam claro. Os que guardamos à distancia de uma prateleira e que verificamos todos os dias com o olhar.
Os maus livros marcam e os bons livros levam-nos aos imprescindíveis. E são estes que infectam. Que nos infectam. Primeiro, põem os seus ovos. Depois, se o colo que os receber estiver com a temperatura exacta, eclodem e invadem todas as células do corpo. São capazes de engenharia celular. Extraem toda a informação do núcleo das células e preenchem esse espaço vazio com uma frase, ou com uma ideia.
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