quinta-feira, novembro 18, 2004

Vida de blogger

Quando se escreve diariamente (ou quase) há um ano e meio para um blog e quando os minutos do dia começam a apertar, começa a ser difícil perceber o "porquê" dessa escrita.

E quando essas dúvidas me começavam a assaltar, eis que abro o e-mail e tenho um recado simpático sobre um dos meus textos. Rapidamente descubro por que continuo e quero continuar.

Opinar, comentar, disparatar, claro, como sempre. Deitar cá para fora pensamentos e raciocínios. Se, para além de tudo isto, conseguir, de tempos a tempos, "tocar" na vida de alguém, continuará a valer a pena.

Anita - Dia 180


Até morrer a minha estação preferida era o Outono. Adorava os primeiros ventos frios na cara, o estalar das folhas secas e a forma como as pessoas que usavam roupa quente, parecem caminhar mais devagar pelas ruas.
Desde que morri, gosto menos do Outono. Prefiro o Inverno. O frio do Inverno. Hoje amo o frio do Inverno porque odeio o calor do Verão. Pois no Verão vêem-se coisas num sitio como este...
No dia em que aqui cheguei e me colocaram na gaveta frigorífica estavam 42º na rua. No dia seguinte todo o sistema de ar condicionado avariou e assim ficou durante duas semanas inteiras. A mim colocaram-me dentro de uma arca congeladora mas aos outros... Aos outros... Bem os outros ficaram ao ar...
Os mortos arrefecem, solidificam e ficam moles outra vez. Depois, porque os músculos distendem, incham com os gases que a decomposição vai provocando. Os orifícios naturais abrem, e é possível, ouvir o som de uma bexiga a esvair-se no chão a meio da noite, ou escutar os dejectos a caírem no mármore. Os globos oculares entram nas orbitas e os insectos entram no espaço vazio, para aí colocarem os ovos e nas criarem as suas larvas. O que sucede nos olhos, acontece dentro do próprio corpo, pois com a falência do sistema imunitário todos os germes se podem multiplicar. Num momento concreto, quando a pele do abdómen já não aguenta a pressão exercida pelos insectos que querem nascer para a claridade, o som do estalar da pele indica a implosão dos intestinos e dos pulmões. Acontece porém, que se este processo demora cerca de 2 semanas abaixo dos higiénicos 7 palmos de terra, em cima de uma mesa de metal com 40º, o processo demora dois dias. Se a esta velocidade acrescentarmos um acidente de viação que custou a vida a 23 pessoas, temos o ambiente geral dos meus primeiros dias nesta casa.
Os técnicos tinham de entrar de botas de borracha para evitar os líquidos que os cadáveres deitavam. As janelas fechadas para que o cheiro não se sentisse na rua e as luzes desligadas para que os gazes não se inflamassem se alguém ligasse um interruptor. Durante 12 dias estive às escuras por cima de 23 cadáveres que apodreciam rapidamente. Mas se para mim a situação perecia insolúvel, para a direcção desta morgue o caos de putrefacção era a desculpa que as chefias necessitavam para a porem a correr. Limpeza, limpeza eis a questão que tinha de ser rapidamente resolvida. Então, numa noite em que ar parecia de gelatina, as portas desta morgue que funciona nos civilizados 0º, foi invadida por uma turba de cães esfaimados. Uma massa de dentes afiados, de focinhos húmidos atiçados pelo cheiro de carne quente, de corpos ágeis e magros e olhos brancos de fome. Eram 300 cães que ao mesmo tempo entraram pela porta. Vorazes, violentos e sedentos limparam os corpos macerados dos acidentados. Apesar do barulho nessa noite houve uma brisa de esperança.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Só uma 27.ª oportunidade, por favor

Deixaste passar tudo o que a vida te ofereceu. Umas vezes acreditaste que havia um caminho melhor, outras não foste suficientemente rápido ou corajoso ou bom para agarrares as oportunidades. E hoje sabes que esses caminhos eram melhores. Mas estão longe. Na tua vida não passam de recordações coladas na parede do quarto. A vida deu-te muito, muitas oportunidades para seres feliz. Outros aproveitaram o que tu desperdiçaste. Outros ainda preferiram imitar-te. Agora resta esperares que a vida tenha mais uma cortada para ti. E estares pronto e atento para não a deixares passar.
Do you believe in second chances?


terça-feira, novembro 16, 2004

Estafermo é, assim se pôs

Tenho andado a pensar num texto sobre o estafermo, que saiu do ovo. Como não quis interromper polémicas na caixa de comentários, deixo aqui o meu desabafo.

O que eu considero mais preocupante nos estafermos é o caminho para a estafermização. Porque concordo que o estafermo não se vê estafermo, mas sim uma pessoa "fixe" segundo a sua nova tabela de valores, excepto em alguns raros momentos de lucidez. Assim o que me parece grave é o caminho: os pequenos saltos estafermizantes que têm que ser dados até chegar à estafermidade. Aquelas pequenas decisões, aqueles momentos em que uma pessoa boa pensa "eu devia fazer isto, mas toda a gente faz aquilo, por isso eu vou fazer também" ou "isto não tem mal nenhum" ou "se tem que ser para alguém que seja para mim" ou ainda o "eu tenho é que pensar em mim em primeiro lugar!".

E assim crescem os estafermos. Iguais a todos os que conhecemos e de quem sempre dissemos "Eu nunca serei um estafermo assim!"

Anita - dia 178


Agora, que chamo a este sitio casa.
Agora, que quando procuro conforto subo ás gavetas frigorificas que estão mais perto do tecto.
Agora, que passou a ser para sempre. Agora, tenho a verdade para contar os que morreram. Narrar-lhes as historias, responder-lhes às perguntas e sentir-lhes essa profunda desilusão de quem já não é.
O troglodita do bigode deve estar a chegar. AH! temo amigo hoje. Então? até onde iremos meu caro... não tenhas medo e vai onde leva o coração. Avança, assim de peito aberto até onde ardes para chegar.

Um velho e uma velha estão deitados na mesa de dissecação. Unidos. Abraçados. Quando um morreu o outro, companheiro desde a juventude, morreu também. Combinaram assim. E assim se cumpriu. Morreu ela e passados dois minutos de olhar para os olhos a secarem, o outro coração serenou-se de vez. Caiu ao lado dela, abraçou-a, sorriu e morreu. O resto é a história dos telefonemas não atendidos, dos preocupações dos familiares, do arrombamento de uma porta e da descoberta dos dois corpos deitados juntos como sempre na cama.
Pois estas pessoas, garantia de que afinal é possível, jazem cobertas com um lençol branco deitadas no metal frio. Os cabelos dela descem pelo ralo por onde se escoam por vezes líquidos e que uma corrente de água atravessa de vez em quando. As unhas do homem, transparentes e delicadamente longas, viradas para baixo são atravessadas pela luz. À transparência estão límpidas e duras com as unhas dos velhos são límpidas e duras.
O bigode ridículo, que acopla um corpo ainda mais bigode, é mexido e acariciado pelos dedos que se demoraram a entesar o seu mortiço membro viril. Já conheço o procedimento . . . Despe as calças, e sem cuecas dirige-se hipnotizado para o leito final dos velhotes. Exibindo a erecção à ventoinha no tecto, coloca-se ao lado dos égregios avós. Bate violento com o seu pau na testa da mulher. Uma e outra e outra vez. E mais. E mais. E ao lado o companheiro de uma vida nada faz? Após estas pancadas secas, como ele gosta de dizer, um som saiu de dentro da boca da mulher. Os dentes consumidos pela criação de 4 filhos e pelo amor a este homem, e substituídos por uma placa soltara-se. Engasgando-a se fosse viva... Então, colocando-se por cima da mulher penetra-a na boca até ás amígdalas. Delicadamente e aproveitando o degrau natural da sua glande plena de sangue, encaixa-a nos dentes da mulheres retirando-os. A boca da mulher incha um pouco para deixar passar os dentes. Uma tremura e logo se soltariam do encaixe da glande. Mais o homem sabe, costuma fazer isto e a sua precisão é inigualável.
Com os dentes do homem e da mulher nas mãos descansa da sua empresa. Uma gota de suor reflecte a luz quando se solta de ponta do nariz.
Quatro filas de dentes. Duas vidas.
Com as calças na mão, entrega os dentes ao amigo. Este separa-os, divide-os em dois grupos que coloca nas duas extremidades de uma mesa de madeira e põe-os de pé.
Peças de dominó, de damas ou de xadrez? Esta semana é dominó...

segunda-feira, novembro 15, 2004

Os novos fascistas

A palavra "fascista" sempre teve para mim (talvez seja um problema geracional, ou então será só meu) um significado que não corresponderá exactamente ao seu significado original. Fascista para mim é alguém que acha que a sua posição é a melhor e que todos os outros devem fazer como ele. Alguém que se considera superior a ponto de que o mundo deva ser moldado à sua imagem.

Em princípio, hoje a essa palavra, no meu mundo, deveriam estar colados os meninos da direita portuguesa. As suas camisinhas de marca, os seus cabelinhos penteados. Mas curiosamente não é assim (talvez porque esses sejam demasiado medíocres para poderem presumir que têm razão. São, em geral, simplesmente boçais).

Quem me aparece hoje colado à palavra fascista, na minha geração, são os jovens que se dizem de esquerda. Retrato tipo: curso superior a caminho para mestrado ou doutoramento; vestuário ligeiramente radical mas cuidado; gostos musicais que abarcam Manu Chao e música clássica; têm uma opinião sobre o cinema francês; jantam e tomam café em sítios chiques e de vez em quando vão às discotecas da moda; pertencem a organizações de cidadãos que defendem um interesse sectorial, que em geral nada está relacionado com eles; lambem tudo o que é rabo de intelectual ou professor universitáio importante; estão dispostos a tudo para subirem na vida; acham que se os outros têm dificuldades na vida é porque não querem trabalhar; quando estão descontraídos deixam escapar frases absolutamente arrepiantes sobre os pobres e assim essa gente que não se lava e não se esforça.

Afinal quem está errado, o meu significado do conjunto de letras f-a-s-c-i-s-t-a, ou a vida fascista deles?

RDA


RDA Posted by Hello


Recebido por e-mail

Anita - dia 177


Quando me aborreço, me canso de estar à espera que alguém associe o meu desaparecimento a um atropelamento numa outra cidade, ou quando me começam a doer as costas de estar deitada no inox gelado, escuto as conversas dos recém enlutados que na sala de espera, aguardam para levantar o seu morto.
Não há muito tempo, um rapaz falava com um amigo como estava envergonhado de não sentir aquela profunda tristeza e quase morte que pensava que iria sentir, quando lhe morresse a mãe.
O rapaz contava que antes da sua mãe ter morrido pensava que quando esse dia chegasse, também para ele a vida terminaria. Mas para sua surpresa o dia da sua mãe chegou e ele não morreu. E isso surpreendeu-o. Mas, se isso o surpreendeu, a sensação de não estar a sofrer tanto como as outras pessoas, aterrorizou-o. Andava triste, mas apesar disso conseguia manter uma distância da morte da sua mãe, que lá no fundo o separava das das pessoas em seu redor. "Serei assim, absolutamente insensível, serei um cretino tão grande que nem consigo sofrer pela morta que me deu vida". O amigo que o escutava e que ia dizendo banalidades do tipo: "cada um reage como sabe" e "a pior dor é a que não se exterioriza", tentava encontrar uma justificação qualquer para aquela apatia, no entanto perdia-se nas suas próprias palavras.
Foi no exacto momento em que o ouvinte do recém órfão, se preparava para dizer mais uma tirada de lugares comuns, que decidi fazer alguma coisa.

Enevoada com poder súbito de me transformar numa gárgula de garras férreas, rompi pelo frigorifico adentro e agarrei entre os dentes o corpo da mãe do rapaz. Puxei-o violentamente para fora, e num voo raso transportei-o até onde os rapazes conversam. Sobrevoei-os e deixei cair o corpo no chão de mármore. Depois, voltei para o escuro e de gárgula figurei-me num corpolento e massivo cão de fila preto. Veloz e sanguinário, voltei para a frente do rapaz apático na morte da mãe, para estraçalhar à sua frente a recém falecida. Com as mandíbulas cravadas sobre o peito da mulher morta, arranquei o externo, que aberto em par deixava as entranhas soltas e prontas a espanharem-se para fora do corpo com os puxões e esticões que o meu pescoço musculado dava. Enquanto desmembrava, rasgava a carne e esmagava os ossos, um rosnar profundo e grosso mantinha os rapazes à distância. Ou melhor, o rapaz, porque quando pela última vez mergulhei o focinho ensanguentado nas entranhas da mãe, consegui ver que o filho apático ainda me olhava e já o seu amigo explicativo se tinha evadido daquele cenário apocalíptico.

O rapaz não pestanejava e mantinha-se imóvel a ver os actos hediondos deste cão de 2 metros de altura e 300 quilos que arremessava um corpo frio e inerte para todos os lados da sala. E assim ficou, como o corpo: frio e inerte. Nesse dia, no instante em viu o pescoço da sua mãe a dobrar-se como só um corpo morto se dobra, percebeu que embora vivo também ele morrera bem antes da sua mãe morrer. Só lhe bastava saber quando e como.

quinta-feira, novembro 11, 2004

quarta-feira, novembro 10, 2004

Comentário que dá em post

Nas florestas mais ricas as árvores morrem de pé. Os menos atentos nem chegam a perceber que elas já morreram...


Ó Pai Celestial

Ontem quando cheguei a casa percebi que um colega tinha deixado entrar dois jovens missionários Mormons para a nossa sala, para uma conversa rápida. Eu, que sempre fui fascinado pelos "elderes" aos pares, juntei-me à conversa. A primeira surpresa é que eles são tipos bem dispostos, que nos entregaram um cartão em que se referiam a si mesmos como "os elderes". A segunda é que as crenças e os ritos deles são muito simples. As orações muito mais interessantes e exigentes que as católicas. Não há cá Avés Marias repetidas até ao vómito - cada um tem que dizer o que lhe vai na alma. A terceira é que não nos quiseram vender nada e não nos pediram nada - só quiseram falar do que acreditam e saber o que nós pensamos. A quarta é que respondem a todas as perguntas sem problemas - desde o que estão cá a fazer, passando pelo que farão quando regressarem aos EUA e acabando em quem votaram nas últimas eleições americanas.
A conclusão é que ou o marketing deles é muito melhor que o da igreja católica portuguesa, ou é um facto que a verdade está com eles e não com as outras igrejas que temos por cá, incluindo a católica.

Quando eles me visitaram ontem nada tinha para pedir ou agradecer a Deus, ou ao Pai Celestial com sotaque americano. Hoje, depois da leitura dos jornais da manhã, tenho um agradecimento e um pedido. Agradeço nunca ter tido que me vender e não ter por isso que andar a fazer coisas em que não acredito. Peço que tal nunca me aconteça.

Há coisas mais importantes no mundo, mas eu prezo muito estas.

terça-feira, novembro 09, 2004

Manso preto, Manso branco

A Gabardina está em condições de adiantar 50 nomes de figuras públicas pedófilas e que habitualmente participam em rituais satânicos e/ou de canibalismo.

Os nomes serão aqui postados nos próximos dias. A nossa fonte é anónima e que nenhum juiz nos venha perguntar quem é. Há já dois anos que a escrita é a nossa actividade principal e o pedido de duas carteiras de jornalista já seguiu. Basta de ataques à liberdade de imprensa!

segunda-feira, novembro 08, 2004

anita dia 170



E estou aqui. Nesta gaveta em que ouço tudo, e que abro quando não está ninguém no necrotério. À noite quando é mais seguro sair, deambulo pelos corredores às escuras. Bato numa cadeira. O som que sai do escuro chega ás vezes aos ouvidos das pessoas que recém enlutadas, aguardam na secretaria os procedimentos burocráticos da morte. Ontem à noite, ao fundo do corredor, descobri um esconderijo completamente na penumbra, de onde sem ser vista consigo observar as pessoas na recepção. Escondi-me no escuro e empurrei uma cadeira pelo chão. O som sai a toda a velocidade do breu entra nos ouvidos das duas mulheres e gela-as. Viram a cara para o escuro, arregalam os olhos e num arrepio longo e tremente encolhem os ombros. Não ligam. Os mortos estão mortos e por isso deve ter sido o vento, um gatito ou apenas uma impressão. Mas não era. Sou eu que no escuro do corredor arrasto uma cadeira como um corvo arrasta a sua asa partida pelo chão. De cócoras, agachada, num canto escuro, observo duas mulheres. Sinto as mãos petrificarem-se, o corpo a alongar-se e umas asas a romperem-me as costas. E a força, e a visão. Os braços arqueados são duas colunas de mármore, o peito ganha uma armadura de pedra rósea e pelos dedos finíssimos estiletes completam esta metamorfose. Sou gárgula que do escuro raia os olhos alvíssimos com a volúpia do assassinato. Abro as asas de lado a lado do corredor, e num voo raso avanço vertiginosa rente ao chão para as duas mulheres. Abraço-as com as longas asas e seguro-os os seus pescoços nestas garras milenares. Contra os vidros os corpos das mulheres cedem aos cortes profundos. Monstro de asas pretas, que só as sombras no chão, definem. Depois de ter deixado cair os corpos, observo o funcionário que cheio de sono aguardava que estas massas de osso partido e carne macerada, preenchessem os papéis. A ele um olhar, seguido por um desenrolar da minha língua veloz bífida e justa. Penetro-o pela boca, percorro o esófago e abrupta torço a língua na direcção do seu músculo cardíaco. Colho o coração com violência e retiro-o pela boca do funcionário acordado pelas duas mulheres. Ergo-o no tecto e cuspo-o para longe. Cai no lago que fica em frente desta morgue. Às 3 da manhã do dia 8 de Novembro de 2004 um splash irá satisfazer a pulsão de morte de todos os que acordam às 8:00 da manhã.
Experimentado o assassinato por piedade, recolho à minha gaveta para descansar.

Avesso e direito de nós

O que somos passa para o que fazemos e mais tarde o que fazemos é a montra do que somos.

Por que é que quando fazemos a cama o lençol de cima é posto com o direito virado para dentro, mas quando vestimos uma t-shirt o direito fica para fora?

quinta-feira, novembro 04, 2004

Dia seguinte

Depois de uma semanas a tentar convencer-nos de que há coisas mais importantes, somos obrigados a voltar a pensar no Santana, no Portas, no Sócrates, no Gomes da Silva... (mas quem é este Gomes da Silva, alguém me explica?)

O campeonato do mundo de futebol está a dois anos de distância e o Europeu e os Olímpicos a quatro. Não há por aí outro Timor Leste para nos motivar? Não há um tufãozito que se queira aproximar de território português?

quarta-feira, novembro 03, 2004

Gato Fedorento

Recebo e não resisto a publicar o melhor texto do Gato Fedorento na SIC Radical:

Meu amigo,
isto o que aconteceu foi muito simples meu amigo. O que aconteceu é que eu chego aqui e sou logo confrontado com certas e determinadas situações. Eu digo "então como é que é?", e os gajos "ah e tal!", e eu "tal não, ah tal não!". Então eu venho de lá de baixo e dizem que não sei quê, chego cá acima e parece que não? Em que é que ficamos? E os gajos, "ah, não sei que mais e o camandro", e eu "mau! queres ver que a gente tem que se chatear? Isto não pode ser!". Eu sou um gajo que estou aqui para trabalhar, quero trabalhar, e dizem-me, como aqui ouvi, "ah, não sei quê!". Mas que é isto? Isto não se faz, que eu sou um gajo que dou-me bem com toda a gente, sim senhor, dou-me bem, está tudo bem, e fazem-me isto! Depois há gajos que andam aí, que fazem trinta por uma linha, e depois passa tudo incólune, que é coisa que não percebo. É que assim deixo de vir aqui, passo a fazer a minha vida para outros sítios, sitios onde inclusivamente a malta me diz: "Eh pá, e tal, sim senhor!", e é para lá que vou, deixo de vir aqui pá! Porque quando vejo que há aí palhaços pá, que falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam pá, e não os vejo a fazer nada pá, fico chateado, concerteza que fico chateado pá.

Anita dia 160



Hoje, o fornicador não veio. Ainda. Atrasado apenas, pois ele já cá está, que eu já o ouvi. Ainda me arrepio com aquele assobio fininho a sair por baixo de um bigodito que apara milimetricamente. O reverberar das notas abruptas pelos corredores nus e cinzentos desta casa mortuária denunciam-nos.
Hoje, não há putas, hoje o único que partilha o gelo comigo é um homem velho. Gostos, há para tudo, e assim como assim, quero ver até onde vai o javardo para esvaziar os tomates.
O velho tem 79 anos e era barbeiro. Começou a varrer os cabelos cortados na barbearia do pai aos 9 anos. Aos 12 aparou as primeiras patilhas e foi com 15 que cortou o primeiro cabelo. À máquina primeiro e depois à tesoura de corte. Uma "corneta" importada da Alemanha. Feita da uma liga levíssima.
Se houve coisa que nunca faltou a este homem foi formação profissional. Essa teve-a, e dada pelo melhor. O seu pai. Excelso babeiro da cidade.
Pois este homem, íntimo das pilosidades visíveis masculinas há mais de 60 anos, formado pelo melhor babeiro, próximo das suíças, amigo dos pêlos do nariz e privando mesmo com aqueles que se espetam para fora da orelhas e parecem lançar-se sobre o vazio, este homem - dizia- nunca, mas nunca, cortou um cabelo como deve ser. Cortou cabelos durante 60 anos, fez moscas, limpou cavanhaques, desfez bigodes e desenhou barbas, mas nunca, mas nunca, conseguiu fazer uma franja certa, uma nuca sem tesouradas ou uma linha direita numa barba. Nunca... e se não era por falta de bons mestres e tempo de treino, certamente que não era por desleixo, preguiça ou ignorância. Este homem era o primeiro a chegar e o ultimo a sair. Dedicava-se, estudava e trabalhava tanto como tanto fora o talento de seu pai. Uma tigela sem desníveis, é que nada. Um dia decidiu que ia deixar de ser babeiro. Morreu no dia seguir. Ontem. Hoje está aqui. A arrefecer e a ter o anûs desflorado por um empregado com um bigode que parece um traço de carvão. O empregado corre-se. docemente pega numa colher. Com os dedos em forma de pinça, iça as pálpebras do barbeiro. Revira-as para trás. Com a colher, num gesto certo, alavanca o globo ocular para fora da órbita direita. O som peganhento do olho verde no chão. E a classe de umas sandálias hospitalares a calcarem o pedaço orgânico. Vista vazada, nova entrada -pensou a ervilha que tem dentro da cabeça-. Então, com a excitação que todos estes preliminares lhe provocaram, penetra resoluto a cara desfigurada so barbeiro.
Enfim... tanta encenação para afinal? não passar de um intelectualizar simbólico-orgânico do sexo.

terça-feira, novembro 02, 2004

Notícia bombástica: A China é maior que o Luxemburgo!, por Alexandra Lucas Coelho

Chego a Portugal depois de um fim-de-semana fora e alguém me dá a Pública de Domingo. Ao olhar para a primeira página não quero acreditar. "Heterossexuais são a maioria dos novos casos de sida em Portugal". Tenho que ler uma segunda e uma terceira vez para ter a certeza do que a frase quer dizer. Abro a revista e encontro o texto. Alexandra Lucas Coelho abre com uma citação: "Nunca pensei que isto me pudesse acontecer a mim, educada, lavada..." A palavra que paira sobre todo o texto principal da notícia - homossexual - só aparece duas vezes. Em ambas, citações da jornalista de perguntas postas por dois entrevistados nas bocas dos seus médicos, de quem se dá a ideia de serem ignorantes e preconceituosos.

O lead é uma maravilha. A falácia do título é repetida: os heterossexuais já são a maioria dos novos casos de sida em Portugal; os adjectivos "preocupante", "péssima" e "catastrófica" aparecem citados, colados à falácia, apesar de originalmente terem sido pronunciados em relação à situação da sida em Portugal; o fim, apoteótico, declara não haver grupos de risco, numa frase que parece ser uma citação dos entrevistados, mas não é.

Se não pretendesse induzir em erro a notícia seria tão relevante como uma que dissesse "Há mais casos de sida na China do que no Luxemburgo". Esta notícia seria primeira página de alguma publicação?

Quem lê (e fiz o teste com duas pessoas licenciadas em letras, uma delas jornalista) infere que são agora os heterossexuais quem mais contrai sida em Portugal. Mesmo em termos relativos, disseram-me. Presumo que fosse esse o objectivo do texto. Mas umas contas rápidas (ver o fim do texto) permitem perceber que a incidência de novos casos de sida entre os homossexuais é cerca de 26 vezes superior à incidência entre a população heterossexual. E não são um grupo de risco?

É verdade que os heterossexuais apanham sida. É verdade que a sida é uma tragédia. É verdade que existe um preconceito que liga os homossexuais ao HIV. Eu acho que é preciso lutar contra ele. Mas não me parece que isso se faça pondo notícias enganadoras, meias-verdades-meias-mentiras, nas capas das revistas.

E sobretudo não percebo como é que um jornal como o Público se presta ao serviço de pôr na primeira página da sua revista de domingo uma notícia que, sendo falaciosa (ou será que a própria jornalista não conseguiu interpretar os dados? Não me parece...), apenas serve os interesses de um determinado lobby.

Vem acontecendo cada vez mais em Portugal: não-notícias que aparecem com grande destaque e passando mensagens queridas a determinados grupos de pressão. Curiosamente acontece muito ao fim-de-semana. Aproveitando as folgas dos editores?

Recentemente o provedor do JN deu um enorme puxão de orelhas a uma sua jornalista. O Público, o que fará?


Contas rápidas
Segundo os dados apresentados no texto (sem indicação de site onde possam ser consultados on line), neste momento 53% dos casos de infecção com HIV são resultado de contacto heterossexual. Segundo esses mesmos dados, 54,9% dos novos infectados são heterossexuais. Podemos concluir que 45,1% dos novos infectados são homossexuais.
Ora representando os homossexuais cerca de 3% da população total (como é habitualmente indicado nos estudos sobre a matéria), há 32 vezes mais heterossexuais do que homossexuais em Portugal.
Deste modo, 3% da população é responsável por 45,1% dos novos casos de sida em Portugal, enquanto os restantes 97% são responsáveis por 54,9%.
Isto significa que se considerarmos que 5 em cada 1000 heterossexuais contrairá HIV, no mesmo período o mesmo acontecerá com 131 em cada 1000 homossexuais (5x32x(0,451/0,549)) - 26 vezes mais.

Brisa

Nas portagens das auto-estradas da Brisa (não sei se nas outras portuguesas também)quem paga com Multibanco recebe um recibo automaticamente. Quem paga com dinheiro vivo só o recebe se o pedir.

A razão deste procedimento é para mim um mistério. Motivos contabilísticos da empresa? Motivos pessoais dos portageiros? Outros motivos?