terça-feira, novembro 09, 2004

Manso preto, Manso branco

A Gabardina está em condições de adiantar 50 nomes de figuras públicas pedófilas e que habitualmente participam em rituais satânicos e/ou de canibalismo.

Os nomes serão aqui postados nos próximos dias. A nossa fonte é anónima e que nenhum juiz nos venha perguntar quem é. Há já dois anos que a escrita é a nossa actividade principal e o pedido de duas carteiras de jornalista já seguiu. Basta de ataques à liberdade de imprensa!

segunda-feira, novembro 08, 2004

anita dia 170



E estou aqui. Nesta gaveta em que ouço tudo, e que abro quando não está ninguém no necrotério. À noite quando é mais seguro sair, deambulo pelos corredores às escuras. Bato numa cadeira. O som que sai do escuro chega ás vezes aos ouvidos das pessoas que recém enlutadas, aguardam na secretaria os procedimentos burocráticos da morte. Ontem à noite, ao fundo do corredor, descobri um esconderijo completamente na penumbra, de onde sem ser vista consigo observar as pessoas na recepção. Escondi-me no escuro e empurrei uma cadeira pelo chão. O som sai a toda a velocidade do breu entra nos ouvidos das duas mulheres e gela-as. Viram a cara para o escuro, arregalam os olhos e num arrepio longo e tremente encolhem os ombros. Não ligam. Os mortos estão mortos e por isso deve ter sido o vento, um gatito ou apenas uma impressão. Mas não era. Sou eu que no escuro do corredor arrasto uma cadeira como um corvo arrasta a sua asa partida pelo chão. De cócoras, agachada, num canto escuro, observo duas mulheres. Sinto as mãos petrificarem-se, o corpo a alongar-se e umas asas a romperem-me as costas. E a força, e a visão. Os braços arqueados são duas colunas de mármore, o peito ganha uma armadura de pedra rósea e pelos dedos finíssimos estiletes completam esta metamorfose. Sou gárgula que do escuro raia os olhos alvíssimos com a volúpia do assassinato. Abro as asas de lado a lado do corredor, e num voo raso avanço vertiginosa rente ao chão para as duas mulheres. Abraço-as com as longas asas e seguro-os os seus pescoços nestas garras milenares. Contra os vidros os corpos das mulheres cedem aos cortes profundos. Monstro de asas pretas, que só as sombras no chão, definem. Depois de ter deixado cair os corpos, observo o funcionário que cheio de sono aguardava que estas massas de osso partido e carne macerada, preenchessem os papéis. A ele um olhar, seguido por um desenrolar da minha língua veloz bífida e justa. Penetro-o pela boca, percorro o esófago e abrupta torço a língua na direcção do seu músculo cardíaco. Colho o coração com violência e retiro-o pela boca do funcionário acordado pelas duas mulheres. Ergo-o no tecto e cuspo-o para longe. Cai no lago que fica em frente desta morgue. Às 3 da manhã do dia 8 de Novembro de 2004 um splash irá satisfazer a pulsão de morte de todos os que acordam às 8:00 da manhã.
Experimentado o assassinato por piedade, recolho à minha gaveta para descansar.

Avesso e direito de nós

O que somos passa para o que fazemos e mais tarde o que fazemos é a montra do que somos.

Por que é que quando fazemos a cama o lençol de cima é posto com o direito virado para dentro, mas quando vestimos uma t-shirt o direito fica para fora?

quinta-feira, novembro 04, 2004

Dia seguinte

Depois de uma semanas a tentar convencer-nos de que há coisas mais importantes, somos obrigados a voltar a pensar no Santana, no Portas, no Sócrates, no Gomes da Silva... (mas quem é este Gomes da Silva, alguém me explica?)

O campeonato do mundo de futebol está a dois anos de distância e o Europeu e os Olímpicos a quatro. Não há por aí outro Timor Leste para nos motivar? Não há um tufãozito que se queira aproximar de território português?

quarta-feira, novembro 03, 2004

Gato Fedorento

Recebo e não resisto a publicar o melhor texto do Gato Fedorento na SIC Radical:

Meu amigo,
isto o que aconteceu foi muito simples meu amigo. O que aconteceu é que eu chego aqui e sou logo confrontado com certas e determinadas situações. Eu digo "então como é que é?", e os gajos "ah e tal!", e eu "tal não, ah tal não!". Então eu venho de lá de baixo e dizem que não sei quê, chego cá acima e parece que não? Em que é que ficamos? E os gajos, "ah, não sei que mais e o camandro", e eu "mau! queres ver que a gente tem que se chatear? Isto não pode ser!". Eu sou um gajo que estou aqui para trabalhar, quero trabalhar, e dizem-me, como aqui ouvi, "ah, não sei quê!". Mas que é isto? Isto não se faz, que eu sou um gajo que dou-me bem com toda a gente, sim senhor, dou-me bem, está tudo bem, e fazem-me isto! Depois há gajos que andam aí, que fazem trinta por uma linha, e depois passa tudo incólune, que é coisa que não percebo. É que assim deixo de vir aqui, passo a fazer a minha vida para outros sítios, sitios onde inclusivamente a malta me diz: "Eh pá, e tal, sim senhor!", e é para lá que vou, deixo de vir aqui pá! Porque quando vejo que há aí palhaços pá, que falam falam falam falam falam falam falam falam falam falam pá, e não os vejo a fazer nada pá, fico chateado, concerteza que fico chateado pá.

Anita dia 160



Hoje, o fornicador não veio. Ainda. Atrasado apenas, pois ele já cá está, que eu já o ouvi. Ainda me arrepio com aquele assobio fininho a sair por baixo de um bigodito que apara milimetricamente. O reverberar das notas abruptas pelos corredores nus e cinzentos desta casa mortuária denunciam-nos.
Hoje, não há putas, hoje o único que partilha o gelo comigo é um homem velho. Gostos, há para tudo, e assim como assim, quero ver até onde vai o javardo para esvaziar os tomates.
O velho tem 79 anos e era barbeiro. Começou a varrer os cabelos cortados na barbearia do pai aos 9 anos. Aos 12 aparou as primeiras patilhas e foi com 15 que cortou o primeiro cabelo. À máquina primeiro e depois à tesoura de corte. Uma "corneta" importada da Alemanha. Feita da uma liga levíssima.
Se houve coisa que nunca faltou a este homem foi formação profissional. Essa teve-a, e dada pelo melhor. O seu pai. Excelso babeiro da cidade.
Pois este homem, íntimo das pilosidades visíveis masculinas há mais de 60 anos, formado pelo melhor babeiro, próximo das suíças, amigo dos pêlos do nariz e privando mesmo com aqueles que se espetam para fora da orelhas e parecem lançar-se sobre o vazio, este homem - dizia- nunca, mas nunca, cortou um cabelo como deve ser. Cortou cabelos durante 60 anos, fez moscas, limpou cavanhaques, desfez bigodes e desenhou barbas, mas nunca, mas nunca, conseguiu fazer uma franja certa, uma nuca sem tesouradas ou uma linha direita numa barba. Nunca... e se não era por falta de bons mestres e tempo de treino, certamente que não era por desleixo, preguiça ou ignorância. Este homem era o primeiro a chegar e o ultimo a sair. Dedicava-se, estudava e trabalhava tanto como tanto fora o talento de seu pai. Uma tigela sem desníveis, é que nada. Um dia decidiu que ia deixar de ser babeiro. Morreu no dia seguir. Ontem. Hoje está aqui. A arrefecer e a ter o anûs desflorado por um empregado com um bigode que parece um traço de carvão. O empregado corre-se. docemente pega numa colher. Com os dedos em forma de pinça, iça as pálpebras do barbeiro. Revira-as para trás. Com a colher, num gesto certo, alavanca o globo ocular para fora da órbita direita. O som peganhento do olho verde no chão. E a classe de umas sandálias hospitalares a calcarem o pedaço orgânico. Vista vazada, nova entrada -pensou a ervilha que tem dentro da cabeça-. Então, com a excitação que todos estes preliminares lhe provocaram, penetra resoluto a cara desfigurada so barbeiro.
Enfim... tanta encenação para afinal? não passar de um intelectualizar simbólico-orgânico do sexo.

terça-feira, novembro 02, 2004

Notícia bombástica: A China é maior que o Luxemburgo!, por Alexandra Lucas Coelho

Chego a Portugal depois de um fim-de-semana fora e alguém me dá a Pública de Domingo. Ao olhar para a primeira página não quero acreditar. "Heterossexuais são a maioria dos novos casos de sida em Portugal". Tenho que ler uma segunda e uma terceira vez para ter a certeza do que a frase quer dizer. Abro a revista e encontro o texto. Alexandra Lucas Coelho abre com uma citação: "Nunca pensei que isto me pudesse acontecer a mim, educada, lavada..." A palavra que paira sobre todo o texto principal da notícia - homossexual - só aparece duas vezes. Em ambas, citações da jornalista de perguntas postas por dois entrevistados nas bocas dos seus médicos, de quem se dá a ideia de serem ignorantes e preconceituosos.

O lead é uma maravilha. A falácia do título é repetida: os heterossexuais já são a maioria dos novos casos de sida em Portugal; os adjectivos "preocupante", "péssima" e "catastrófica" aparecem citados, colados à falácia, apesar de originalmente terem sido pronunciados em relação à situação da sida em Portugal; o fim, apoteótico, declara não haver grupos de risco, numa frase que parece ser uma citação dos entrevistados, mas não é.

Se não pretendesse induzir em erro a notícia seria tão relevante como uma que dissesse "Há mais casos de sida na China do que no Luxemburgo". Esta notícia seria primeira página de alguma publicação?

Quem lê (e fiz o teste com duas pessoas licenciadas em letras, uma delas jornalista) infere que são agora os heterossexuais quem mais contrai sida em Portugal. Mesmo em termos relativos, disseram-me. Presumo que fosse esse o objectivo do texto. Mas umas contas rápidas (ver o fim do texto) permitem perceber que a incidência de novos casos de sida entre os homossexuais é cerca de 26 vezes superior à incidência entre a população heterossexual. E não são um grupo de risco?

É verdade que os heterossexuais apanham sida. É verdade que a sida é uma tragédia. É verdade que existe um preconceito que liga os homossexuais ao HIV. Eu acho que é preciso lutar contra ele. Mas não me parece que isso se faça pondo notícias enganadoras, meias-verdades-meias-mentiras, nas capas das revistas.

E sobretudo não percebo como é que um jornal como o Público se presta ao serviço de pôr na primeira página da sua revista de domingo uma notícia que, sendo falaciosa (ou será que a própria jornalista não conseguiu interpretar os dados? Não me parece...), apenas serve os interesses de um determinado lobby.

Vem acontecendo cada vez mais em Portugal: não-notícias que aparecem com grande destaque e passando mensagens queridas a determinados grupos de pressão. Curiosamente acontece muito ao fim-de-semana. Aproveitando as folgas dos editores?

Recentemente o provedor do JN deu um enorme puxão de orelhas a uma sua jornalista. O Público, o que fará?


Contas rápidas
Segundo os dados apresentados no texto (sem indicação de site onde possam ser consultados on line), neste momento 53% dos casos de infecção com HIV são resultado de contacto heterossexual. Segundo esses mesmos dados, 54,9% dos novos infectados são heterossexuais. Podemos concluir que 45,1% dos novos infectados são homossexuais.
Ora representando os homossexuais cerca de 3% da população total (como é habitualmente indicado nos estudos sobre a matéria), há 32 vezes mais heterossexuais do que homossexuais em Portugal.
Deste modo, 3% da população é responsável por 45,1% dos novos casos de sida em Portugal, enquanto os restantes 97% são responsáveis por 54,9%.
Isto significa que se considerarmos que 5 em cada 1000 heterossexuais contrairá HIV, no mesmo período o mesmo acontecerá com 131 em cada 1000 homossexuais (5x32x(0,451/0,549)) - 26 vezes mais.

Brisa

Nas portagens das auto-estradas da Brisa (não sei se nas outras portuguesas também)quem paga com Multibanco recebe um recibo automaticamente. Quem paga com dinheiro vivo só o recebe se o pedir.

A razão deste procedimento é para mim um mistério. Motivos contabilísticos da empresa? Motivos pessoais dos portageiros? Outros motivos?

quarta-feira, outubro 27, 2004

Anita, dia 153



Passei a noite a pensar na causa de morte da puta que ontem aqui deu entrada. Como o empregado nem sequer a despiu antes de a foder, não consegui ver se tinha algum corte profundo ou alguma marca que justificasse a morte. Não costumo preocupar-me muito com a causa da morte: um acidente, uma doença , o que for, aos mortos nada disso interessa. Mas despertaram-me a atenção as golfadas de sangue que a puta cuspia ao ritmo da fornicação do empregado. Para cuspir sangue é porque teve que ser cortada de alguma forma. De alguma forma ínvia as veias e as artérias estavam a fazer curto-cuircuito com as vias respiratórias.
Se isto da curiosidade nos vivos pode matar, nos mortos é o que distrai. Não resisti e fui espreitar o papelinho que pendia por um cordelinho de mercearia do dedo grande do pé. "numero 31". Muito bem. Ao armário. Um envelope depois, e eis que a senhora puta, afinal não era puta. Era uma mulher deficiente mental que se mascarara de prostituta para uma festa de bruxas no hospital psiquiátrico onde vivera durante 15 anos. Aí, parece que um outro doente, seu namorado, um psicopata com comportamento violentos, não percebeu o disfarce e num ataque louco de ciúmes, deixou-se tomar pela raiva de ver a mulher amada vestida para despertar o desejo porco dos outros homens. A faca do bolo da festa e uma força sobre-humana encarregaram-se de misturar os tubos do sangue e os tubos do ar.
Uma puta morta por amor. Eis alguma coisa que poucas mulheres podem dizer que lhes tenha acontecido. Eu, por exemplo, morri num acidente ocasional. Numa conjugação fortuita de acontecimentos parcelares sem qualquer intencionalidade. Se me tivesse atrasado, estaria viva. Mas ela não. Bastaria que o namorado a imaginasse naqueles modos lascivos e nada nem ninguém o impediria de a perseguir até ao fim do mundo para a matar. O orgulho desta mulher. Ser capaz de despertar noutro ser humano a vontade de matar. Raro, muito raro.

Boçalidade

Acho que a publicação do post anterior merece uma explicação. Publiquei-o por três razões:
1.ª-Porque é a prova de que a parte bonita de ser boçal é que há sempre alguém mais boçal ainda;
2.ª-Porque neste caso particular as pessoas até esperam que as claques de futebol sejam boçais, pelo que aquelas tarjas atingem o alvo em cheio sem chocarem particularmente as pessoas;
3.ª-Porque a polícia obrigou os elementos da claque a retirarem aquelas tarjas sem que eu perceba porquê...
A senhora em causa nem merece tanta publicidade, mas teve muita piada...

Diabos Vermelhos, olé!


Benfica-Nacional Posted by Hello
Recebido por e-mail

Para a história

As fotos dos comissários que já não o serão. Aqui.

Ridículo

adj. que provoca riso; prestar-se ao ~ apresentar-se ou proceder de forma a provocar riso ou troça



terça-feira, outubro 26, 2004

Anita, dia 152



Há cento e cinquenta e dois dias que aguardo que alguém me venha buscar.
Eis que chega mais uma puta. Morta. Daqui não consigo perceber se se nota a causa da morte. Acho que está inteira. Odeio quando as putas chegam inteiras. O empregado começa a despir-se. È sempre a mesma história com o tipo que faz as escalas às terças. A rapariga deve ter mais cinco ou seis anos que eu, e não é difícil perceber que tem uma deficiência mental qualquer. A cabeça é demasiada grande para aquele corpo pequeno que o empregado já começou a foder. Como eu gostava que ela passasse ao estado de "rigor mortis" neste instante. A cabeça enorme bate inerte contra o inox da mesa de dissecação. O som parece vir directamente das nádegas peludas do empregado que se contraem ao bater contra o corpo. Para a frente e para trás, um anel de brilhantes num dedo, risca o metal da mesa. O som o é finíssimo e arrepia. Apesar de assistir a isto todas as terças-feiras, confesso que ainda me causa uma certa angustia ver este gajo magro a fornicar como um animal os orificio dos corpos que aqui apanha. Acho que é da vulnerabilidade destas peças de carne prestes a serem desmanchados pelos vermes e acho que é da solidão e do silêncio. Depois de o empregado se vir para cima desta mulher, depois dele apagar as luzes, não se ouvirá mais nada. Nada. Nem o som de umas molas de colchão que estalam quando alguém se vira e nem o dos lençóis a serem puxados. Não há um barulho que humanize este o escuro. É isso que me arrepia.

Sinto-me um pouco Marcelo

Num ano e quatro meses de escrita na Gabardina, pela primeira vez tive um texto pronto que não postei por medo das consequências que isso pudesse vir a ter para mim.

O post era, de qualquer maneira, justo e importante e, para quem conhece Coimbra, ele vem escrito hoje nas páginas do Diário da mesma (piada também só para Coimbrinhas).

Posto isto, vou empurrar o sapo com um copo de águas de Coimbra.

Quem anda a tramar a OPEP?

Esta subida rídicula dos preços do petróleo é algo de muito estranho, que nenhuma guerra no Iraque ou greve na Noruega pode explicar. As consequências de curto prazo estão à vista: subida generalizada dos preços, imprevisibilidade dos mercados, diminuição do crescimento económico dos países mais desenvolvidos.

Mas a longo prazo esta subida tem consequências bem mais graves. Os países cujas economias estão muito dependentes da exportação de petróleo não percebem que cada mês que passa com os preços neste nível são vários meses de avanço na investigação para a sustituição dos derivados de petróleo como combustíveis.

E o que se esperava vir a acontecer dentro de 20 ou 30 anos, poderá estar à porta no início da próxima década: carros e máquinas a hidrogénio, ou ar comprimido, ou seja lá o que for e a consequente diminuição drástica das importações de petróleo.

Estes países perdem a oportunidade de fazerem o caminho para o desenvolvimento vendendo a sua maior riqueza natural e o resultado poderá ser trágico. Para eles e para o mundo.

As perguntas que se impõem são: quem ganha com tudo isto? E quem tinha obrigação de os avisar e não o está a fazer?

segunda-feira, outubro 25, 2004

Anita 1


Os especialistas dizem que os textos sobre morte, sangue, morticínio, cemitérios e afins são uma fase. Os especialistas acham que o caminho tende sempre para a construção de romances apoiados na experiência de cada um. Não sei se é do cheiro a formol deste necrotério, se dos cadáveres com quem partilho o sono, a verdade é que só me dá para escrever sobre a grande ceifeira. Sou bem capaz de ter ficado para sempre a meio do caminho literário convencional. O que tem sentido, pois eu própria fiquei a meio do meu.
Morri. Isso mesmo. Morte morrida. Escrevo morta. Tenho 16 anos, chamo-me Ana, e morri num acidente de automóvel. Culpa do condutor. Eu limitei-me a atravessar a estrada na passadeira, depois de olhar para os dois lados. Excesso de velocidade, álcool e um broche da pendura foi a receita mágica. O camião acertou-me em cheio. Ambulância, hospital, reanimação e o pizinho da máquina continuo.
Morrer não foi problema, na verdade o impacto foi tão brutal que nem o recordo muito bem, o problema foi o que se passou a seguir. Como não levava identificação pessoal, ninguém sabia quem contactar, e por isso jazo ainda nesta morgue fria à espera que alguém relacione uma falta para jantar com um atropelamento. O que vai ser difícil, pois o outro lugar na mesa tem 70 anos e nem se lembra do nome. È pena ter esta consciência de que provavelmente ficarei aqui para sempre.
Por isso, escrevo para passar o tempo, para não me aborrecer e para encontrar algum sentido em estar morta. As histórias que se seguem serão honestas. Apenas contarei o que vejo e o que me contam os corpos que por aqui passam. Serão as histórias que os vivos nunca saberão e os segredos que só os mortos podem recordar. São a verdade de quem morreu.
Nasci há 16 anos, morri há cinco meses e começo hoje a contar as histórias que escuto nesta morgue.

Sobre o Buttiglione

só temos uma coisa a dizer: façam o que quiserem, mas que fique claro que nós avisámos com tempo que não aceitaríamos o Durão de volta.

Dúvida

Quando o ministro das finanças fala de princípio do utilizador-pagador em relação à Saúde, para que servem o governo e o sector público?

Continuamos cada um por si? Duvido que 99% dos políticos portugueses consigam sobreviver assim... Mas, por mim, vamos a isso?

O Captain, my Captain!



Percebi este fim-de-semana - obrigado SIC Gaja - que uma das coisas que Portugal precisa de fazer é subir à sua mesa e ver-se de outra perspectiva. Claro que para simultaneamente gritar "O Captain, my Captain!" seria fundamental ter alguém merecedor desse nome. Um dia ele sairá do meio do nevoeiro...

Eu decidi que, assim que os tempos o permitirem, não mais deixarei de chupar o tutano da vida. Foi por me ter esquecido de o fazer que cheguei aqui. Mas depois de sair deste lugar triste não volto a pôr cá os pés.